quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Fausto (2011) Faust - 2 h 20 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um estudioso desesperado vende sua alma a Satanás em troca de uma noite com uma jovem bonita.


Fausto (2011) - IMDb
Dir: Aleksandr Sokurov
Drama, Fantasia, Mistério


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,5   METASCORE: 6,5
66%Tomatometer38 Reviews   55%Popcornmeter


Fausto (Faust) é uma obra densa, filosófica e visualmente vertiginosa dirigida por Aleksandr Sokurov, vencedora do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2011. O filme encerra a chamada Tetralogia do Poder de Sokurov, ao lado de Moloch, Taurus e O Sol, deslocando o olhar do poder político concreto para sua origem metafísica e moral.

Fausto antes do mito

Inspirado livremente na obra de Johann Wolfgang von Goethe, Sokurov não adapta o Fausto clássico de forma narrativa. Em vez disso, reinventa o personagem como um homem obcecado pelo conhecimento, pelo corpo e pela matéria, aprisionado em um mundo grotesco, carnal e em decomposição. Seu Fausto não é grandioso nem heroico: é sujo, inquieto, faminto — intelectual e fisicamente.

Aqui, o pacto com o diabo não surge como clímax dramático, mas como consequência inevitável de um desejo ilimitado.


Um mundo deformado

Visualmente, Fausto é uma experiência sensorial extrema. Sokurov utiliza lentes distorcidas, enquadramentos instáveis e uma paleta de cores turva para criar um universo claustrofóbico e disforme, onde corpos e espaços parecem em constante colapso. A materialidade do mundo é excessiva: suor, carne, lama, vísceras, ruínas.

O espaço físico reflete o estado moral dos personagens. Tudo pesa, tudo oprime. Não há horizonte nem transcendência.



O demônio como espelho


O Mefistófeles de Sokurov não é majestoso nem sedutor. É vulgar, rasteiro, quase patético — um ser que se mistura ao mundo humano sem distinção clara. Essa escolha desmonta a ideia tradicional do mal como entidade externa: o diabo aqui é apenas a extensão lógica do desejo humano, não sua causa.

Fausto não é corrompido; ele já nasce em ruína.



Corpo, desejo e poder

O filme associa o impulso de conhecimento ao desejo de posse — do corpo feminino, da natureza, da verdade absoluta. Sokurov sugere que toda busca totalizante carrega em si uma vocação autoritária. O Fausto que quer compreender tudo é o mesmo que está disposto a dominar tudo.

Nesse sentido, Fausto dialoga diretamente com os filmes anteriores da tetralogia, apontando que os grandes tiranos da história nascem antes como impulsos metafísicos, não como líderes políticos.


Por que o Leão de Ouro


Ao premiar Fausto, Veneza reconheceu:

  • a ambição filosófica extrema do projeto;
  • a originalidade radical da linguagem visual;
  • a coerência de um cineasta que transforma literatura, história e metafísica em cinema sensorial.

👉 Fausto não é um filme de fácil acesso nem de prazer imediato. É uma obra que sufoca, provoca e exige. Um cinema que pensa o mal, o desejo e o poder não como exceções, mas como fundamentos da condição humana — plenamente digno de um Leão de Ouro que celebra o risco e a radicalidade artística.

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Pietá (2012) Pieta - 1 h 43 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um agiota é forçado a reconsiderar seu estilo de vida violento após a chegada de uma mulher misteriosa que afirma ser sua mãe há muito perdida.


Pietá (2012) - IMDb
Dir: Kim Ki-duk
Crime, Drama, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 7,2
73%Tomatometer55 Reviews   72%Popcornmeter

Pietà (Pieta) é um dos filmes mais duros, radicais e controversos do cinema contemporâneo, dirigido por Kim Ki-duk. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2012, o filme representa tanto o ápice quanto o limite extremo da visão moral e estética do cineasta sul-coreano.

Violência como sistema

Ambientado em um bairro industrial degradado de Seul, Pietà acompanha Kang-do, um cobrador de dívidas brutal que mutila devedores para forçar indenizações de seguro. Sua violência não é impulsiva nem caótica: ela é metódica, funcional e integrada ao sistema econômico. Kim Ki-duk apresenta a brutalidade como engrenagem normalizada de um capitalismo predatório, onde corpos são meros instrumentos de lucro.

O filme não suaviza nem estetiza esse mundo. A agressão é frontal, desconfortável, muitas vezes insuportável — uma escolha ética que impede qualquer consumo fácil da violência.

A irrupção do afeto

A estrutura do filme se transforma com a chegada de uma mulher que afirma ser a mãe abandonada de Kang-do. Interpretada com ambiguidade perturbadora por Jo Min-soo, essa figura introduz o afeto em um universo até então regido apenas pela crueldade. No entanto, o cuidado materno não surge como redenção simples, mas como força desestabilizadora, capaz de revelar feridas profundas e abrir espaço para culpa e sofrimento ainda maiores.

A relação entre os dois não é construída pela ternura, mas pela dor compartilhada.

Religião, culpa e sacrifício

O título remete à iconografia cristã da Pietà — a mãe que sustenta o filho morto. Kim Ki-duk subverte essa imagem: aqui, o filho é moralmente morto desde o início, e a maternidade não salva, mas conduz ao sacrifício. O filme dialoga com temas religiosos sem espiritualidade reconfortante. Não há transcendência; há punição, repetição e culpa.

A redenção, se existe, é tardia e inútil.



Estilo cru, sem mediações

Formalmente, Pietà mantém a estética austera característica do diretor: câmera direta, poucos movimentos, ambientes sujos e desumanizados. O corpo humano é filmado como matéria vulnerável, constantemente ameaçada. Não há trilha sonora emocional nem distanciamento irônico — o espectador é colocado diante da violência sem proteção.

Essa frontalidade radical tornou o filme profundamente divisivo, mas também impossível de ignorar.



Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Pietà, Veneza reconheceu:

  • a radicalidade de um cinema que confronta diretamente as estruturas de exploração;
  • a coerência extrema de um autor disposto a levar sua visão até as últimas consequências;
  • um filme que transforma violência econômica em tragédia moral.

👉 Pietà não busca empatia fácil nem conforto ético. É um cinema que fere, acusa e insiste — um retrato brutal de um mundo onde o afeto chega tarde demais. Um Leão de Ouro que reafirma a vocação de Veneza para premiar obras que desafiam não apenas a linguagem, mas também a resistência moral do espectador.

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (2014) En duva satt på en gren och funderade på tillvaron - 1 h 41 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um olhar peculiar sobre a fragilidade da vida e a espera inevitável da morte.


Comédia de Humor Negro, Drama no trabalho, Sátira, Fantasia


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 6,9   METASCORE: 8,1
90%Tomatometer100 Reviews   66%Popcornmeter


Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron) é uma comédia metafísica melancólica dirigida por Roy Andersson, que observa a condição humana com humor seco, distanciamento radical e rigor formal absoluto. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2014, o filme encerra a chamada Trilogia do Ser Humano do diretor.

Um cinema visto de longe

O título já anuncia o ponto de vista do filme: como um pombo pousado num galho, o olhar é elevado, distante e irônico. Andersson constrói uma sucessão de vinhetas independentes, cenas quase autônomas que retratam situações banais, absurdas ou cruelmente engraçadas da vida cotidiana. Não há protagonista nem arco narrativo clássico — há um panorama da existência.

Dois vendedores fracassados de artigos de festa atravessam o filme como fio condutor, figuras patéticas que repetem gestos, frases e derrotas. Eles não evoluem: apenas persistem.


Tableau, imobilidade e tempo morto

Formalmente, o filme é composto por planos fixos, enquadramentos frontais e cenários cuidadosamente construídos em estúdio. Os personagens parecem presos em quadros pictóricos, com movimentos mínimos e atuações deliberadamente inexpressivas. O tempo é estendido até o desconforto, revelando o vazio por trás das rotinas sociais.

Essa imobilidade não é estilização gratuita: ela transforma o cotidiano em objeto de contemplação crítica. O riso surge atrasado, seco, muitas vezes culpado.


Humor, morte e absurdo


O filme lida constantemente com a morte — súbita, banal, ridícula. Pessoas morrem durante refeições, em bares, em corredores; a vida continua ao redor com indiferença burocrática. Andersson desmonta a ideia de grandeza existencial e revela o ser humano como criatura frágil, repetitiva e muitas vezes cruel, mas também involuntariamente cômica.

O humor não consola. Ele expõe.



História, poder e culpa europeia

Em uma das sequências mais marcantes, o filme irrompe no passado colonial europeu, mostrando uma fantasia grotesca de exploração e violência imperial. Essa cena rompe o tom cotidiano e insere a história como fantasma moral, lembrando que a banalidade da vida moderna convive com heranças de brutalidade não resolvidas.

O absurdo, aqui, não é escapismo — é memória reprimida.

Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, Veneza reconheceu:

  • a coerência radical de um projeto estético único;
  • a capacidade de renovar a comédia como forma filosófica;
  • um cinema que pensa a existência sem sentimentalismo nem grandiloquência.

👉 O filme de Roy Andersson não busca respostas, redenção ou beleza reconfortante. Ele observa — com distância, humor seco e precisão cruel — a estranheza fundamental de estar vivo. Um cinema que ri da existência enquanto a encara de frente, plenamente digno do Leão de Ouro.

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De Longe Te Observo (2015) Desde Allá - 1 h 33 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Armando, um homem de 50 anos, procura jovens em Caracas e os paga apenas por companhia. Um dia, ele conhece Elder, um garoto de 17 anos que é líder de uma gangue criminosa, e esse encontro muda suas vidas para sempre.


De Longe Te Observo (2015) - IMDb
Dir: Lorenzo Vigas
Drama, Romance


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 7,3
79%Tomatometer52 Reviews   55%Popcornmeter


De Longe Te Observo (Desde Allá) é um drama austero e perturbador dirigido por Lorenzo Vigas que explora solidão, desejo e violência latente em uma Caracas marcada pela desigualdade e pelo colapso social. O filme conquistou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2015, tornando-se o primeiro filme venezuelano a receber o prêmio máximo do festival.

Desejo como distância

A narrativa acompanha Armando, um homem de meia-idade que sente prazer apenas em observar jovens à distância, pagando para estar próximo sem contato físico. Interpretado com extrema contenção por Alfredo Castro, Armando é um personagem definido menos por suas ações do que por seus silêncios, pela rigidez do corpo e pelo olhar sempre defensivo.

O filme constrói o desejo não como erotismo explícito, mas como tensão não resolvida, atravessada por culpa, medo e trauma. Observar é uma forma de controle — e também de autoproteção.


Encontro, poder e violência

A relação entre Armando e Elder, um jovem marginalizado das ruas de Caracas, desloca o filme para um território de instabilidade. O vínculo que se forma entre os dois mistura afeto, dominação, troca econômica e ameaça constante. Vigas evita psicologizar excessivamente os personagens: o que importa é a assimetria de poder que estrutura o encontro.

A violência nunca é espetacularizada. Ela se anuncia nos gestos bruscos, nos espaços urbanos hostis, no clima permanente de perigo. Caracas surge como um corpo social fraturado, onde intimidade e agressão convivem sem mediações.


Um cinema de contenção radical


A mise-en-scène é seca, minimalista, marcada por planos fixos e pela recusa ao melodrama. A câmera observa à distância, replicando o próprio gesto do protagonista. Essa escolha formal cria um espelhamento inquietante entre personagem e espectador: também somos levados a olhar sem intervir.

O filme trabalha com o não dito. Passados traumáticos são sugeridos, nunca explicados. O sentido emerge da acumulação de silêncios.

Corpo, cidade e trauma


O corpo de Armando é filmado como espaço de bloqueio: rígido, fechado, sempre em retração. Em contraste, a cidade aparece como espaço de exposição violenta. A intimidade possível entre os personagens é constantemente atravessada pelo medo — medo do outro, do toque, da perda de controle.

Essa dinâmica transforma De Longe Te Observo em um filme sobre o custo emocional da sobrevivência em um ambiente brutalizado.

Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Desde Allá, Veneza reconheceu:

  • a emergência de um novo cinema latino-americano de rigor formal extremo;
  • a coragem de abordar desejo e violência sem concessões;
  • a potência de um filme que transforma intimidade em campo político.

👉 De Longe Te Observo é um cinema de desconforto e silêncio, que observa personagens feridos em um mundo sem abrigo. Um filme que não busca empatia fácil, mas confronto — e por isso ocupa um lugar decisivo entre os vencedores do Leão de Ouro.

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A Mulher Que se Foi (2016) Ang babaeng humayo - 3 h 46 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Após 30 anos de prisão injusta, uma mulher planeja se vingar de seu ex-amante.


Drama

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 8,3
80%Tomatometer20 Reviews   77%Popcornmeter




A Mulher Que se Foi (Ang babaeng humayo) é uma obra monumental do cinema contemporâneo dirigida por Lav Diaz. Com duração extensa e estética rigorosa, o filme venceu o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2016, consagrando definitivamente Diaz como um dos grandes autores do chamado cinema do tempo.

Inspirado livremente em um conto de Lev Tolstói, o filme acompanha Horacia Somorostro, interpretada por Charo Santos-Concio, uma mulher libertada após cumprir 30 anos de prisão por um crime que não cometeu. Ao sair, descobre que sua libertação tardia não repara o passado — e que o mundo ao qual retorna é irreconhecível.

O tempo como punição

Em A Mulher Que se Foi, o maior castigo não é a prisão física, mas o tempo roubado. Lav Diaz filma a duração como experiência moral: planos longos, silêncio prolongado e ações mínimas fazem o espectador sentir o peso dos anos perdidos, não apenas compreendê-los narrativamente.

A câmera raramente se move. O mundo parece suspenso, como se a própria realidade precisasse reaprender a existir após tamanha injustiça.



Vingança ou redenção


A narrativa se organiza em torno de uma tensão ética: Horacia busca vingança contra aqueles que destruíram sua vida, mas seu percurso a coloca diante de outras vítimas — pobres, doentes, excluídos — cujas dores ecoam a sua. O filme transforma a vingança em questão moral aberta, nunca em espetáculo.

Diaz recusa clímax ou catarse. O gesto decisivo de Horacia não é heroico nem redentor; é humano, ambíguo, marcado pela consciência do irreparável.

Preto e branco como memória histórica


Filmado em preto e branco, o filme se aproxima de um registro fantasmático. As imagens parecem assombradas pelo passado político e social das Filipinas: desigualdade extrema, corrupção estrutural, abandono institucional. O sofrimento individual de Horacia se funde a uma tragédia coletiva.

Nada é alegórico demais: o mundo mostrado é concreto, mas filmado como se já estivesse em ruínas morais.

Uma atuação de contenção absoluta

A performance de Charo Santos-Concio é construída quase inteiramente por presença e silêncio. Seu rosto carrega o peso de décadas sem necessidade de verbalização. O filme confia no olhar da atriz e no tempo do plano para construir emoção — um gesto radical em um cinema acostumado à explicação constante.





Por que o Leão de Ouro

Ao premiar A Mulher Que se Foi, Veneza reconheceu:

  • um cinema que desafia frontalmente a lógica do consumo rápido;
  • a radicalidade ética e formal de Lav Diaz;
  • a capacidade de transformar duração em pensamento.
👉 A Mulher Que se Foi não é apenas um filme sobre injustiça, mas sobre o que o tempo faz com quem sobrevive a ela. Um cinema exigente, austero e profundamente humano — à altura do Leão de Ouro e de sua tradição de consagrar obras que expandem os limites da linguagem cinematográfica.

Roma (2018) - 2 h 15 min

Filmes Ganhadores do Leão de Ouro: Festival de Veneza

Os Vencedores do BAFTA: Uma Linhagem de Grandes Filmes

OSCAR INTERNACIONAL: Winners

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Uma história que narra um ano na vida de uma família de classe média na Cidade do México no início dos anos 70, onde duas empregadas domésticas ajudam uma mãe de quatro filhos enquanto o marido fica ausente por um longo período de tempo.


Dir: Alfonso Cuarón
Drama de Época, Drama Psicológico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6   METASCORE: 9,6
FLICK METRIX: 84   Average Percentile: 66.84%
96%Tomatometer408 Reviews   72%Popcornmeter

Roma é uma obra de memória, afeto e rigor formal dirigida por Alfonso Cuarón. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2018, o filme consolidou-se como um dos retratos mais sensíveis e complexos da vida doméstica e das hierarquias sociais no cinema contemporâneo.

Memória pessoal como história coletiva

Ambientado na Cidade do México do início dos anos 1970, Roma reconstrói o cotidiano de uma família de classe média a partir do olhar de Cleo, a empregada doméstica que sustenta silenciosamente o funcionamento da casa. Interpretada por Yalitza Aparicio, Cleo é o eixo emocional do filme — não como figura idealizada, mas como presença constante, observadora e essencial.

Cuarón parte de lembranças de infância para construir um retrato que transcende o autobiográfico. O que emerge é uma memória social: a convivência entre afeto genuíno e desigualdade estrutural, entre intimidade e distância de classe.

Forma, espaço e tempo

Filmado em preto e branco com precisão milimétrica, Roma aposta em planos longos, movimentos de câmera suaves e uma encenação que privilegia o tempo da observação. Não há pressa narrativa nem picos dramáticos convencionais. A vida se revela nos gestos repetidos, nos ruídos da casa, na coreografia cotidiana do trabalho doméstico.

O espaço é fundamental: corredores, pátios, ruas e cinemas não são apenas cenários, mas arquivos vivos de uma cidade em transformação. A câmera raramente se impõe; ela acompanha, registra e respeita.

Intimidade atravessada pela política

Embora centrado no universo doméstico, Roma não ignora o contexto histórico. Tensões políticas e episódios de violência social irrompem no cotidiano de forma abrupta, lembrando que a vida privada nunca está isolada da história. Essas rupturas não são explicadas nem sublinhadas — são vividas, muitas vezes, à margem da compreensão imediata dos personagens.

O filme sugere que grandes eventos históricos coexistem com dramas íntimos, afetando desigualmente aqueles que já vivem em posições vulneráveis.

Um olhar ético

O gesto mais poderoso de Roma é sua recusa ao sentimentalismo fácil. Cleo não é transformada em símbolo abstrato nem em heroína exemplar. Sua dignidade nasce do respeito do olhar cinematográfico, que lhe concede tempo, espaço e silêncio.

Ao fazer isso, Cuarón propõe uma revisão profunda da memória: quem costuma ficar fora das narrativas centrais passa a ocupar o centro do quadro.

Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Roma, Veneza reconheceu:

  • um cinema de autoria plena, em que forma e conteúdo são indissociáveis;
  • a capacidade de transformar lembranças privadas em experiência universal;
  • e um gesto ético de atenção aos invisibilizados da história.

👉 Roma é um filme sobre o que permanece: os afetos silenciosos, o trabalho invisível, as memórias que moldam quem somos. Um cinema de escuta, precisão e profunda humanidade — à altura do Leão de Ouro.

Coringa (2019) Joker - 2 h 2 min


Um comediante falido enlouquece e se torna um assassino psicopata.

Coringa (2019) - IMDb
Dir: Todd Phillips
Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Crime, Tragédia


CLC Score: 7,4





Coringa (Joker) é um estudo perturbador sobre exclusão social, violência simbólica e colapso psicológico, dirigido por Todd Phillips. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2019, o filme marcou uma ruptura histórica ao consagrar, pela primeira vez, uma obra derivada do universo dos quadrinhos com o prêmio máximo do festival mais antigo do mundo.


Um personagem sem mito, um mundo sem amparo

Ambientado em uma Gotham decadente, suja e hostil, o filme acompanha Arthur Fleck, um homem à margem da cidade e das instituições. Aqui, o Coringa não surge como vilão mítico, mas como produto de um sistema em colapso: cortes em políticas públicas, indiferença social, humilhação cotidiana e ausência de cuidado coletivo.

O roteiro elimina o embate clássico entre herói e vilão. O conflito central é estrutural: Arthur enfrenta uma cidade que o empurra constantemente para fora do trabalho, do afeto e da dignidade.


Corpo, riso e violência

A interpretação de Joaquin Phoenix é o eixo absoluto do filme. Seu corpo em permanente tensão, magro, curvado e convulsivo, torna-se o verdadeiro campo narrativo. O riso incontrolável, longe de funcionar como marca caricatural, aparece como sintoma clínico e social, um ruído que desajusta qualquer possibilidade de convivência.

Phillips filma essa transformação com rigor crescente, evitando glamourizar a violência, mas sem suavizar suas consequências. O desconforto é deliberado. O espectador é colocado diante de uma pergunta incômoda: quem é responsável por esse colapso?


Herança do cinema dos anos 1970


Coringa
dialoga abertamente com o cinema urbano americano dos anos 1970, especialmente com Taxi Driver e The King of Comedy. A cidade é filmada como organismo doente, e a televisão surge como símbolo de poder, exclusão e desejo de reconhecimento. O filme substitui a fantasia escapista por uma tragédia social de tons realistas, ainda que ambientada em um universo ficcional.




Polêmica e ambiguidade

Desde sua estreia, Coringa gerou debates intensos. Foi acusado de legitimar ressentimentos violentos, ao mesmo tempo em que foi defendido como denúncia das condições que produzem tais explosões. O filme não oferece respostas nem julgamentos claros. Sua força está justamente na ambiguidade moral, que recusa soluções fáceis e confronta o espectador com suas próprias leituras.




O Riso que Retorna

Em Joker, o sintoma não se organiza como gesto isolado, mas como algo que insiste no corpo e retorna à revelia do sujeito. O riso de Arthur não é expressão de alegria, mas ruptura involuntária - um circuito que se repete, atravessando situações e escapando a qualquer controle. À medida que o mundo ao redor se torna mais hostil, essa repetição deixa de ser apenas sofrimento íntimo e passa a encontrar ressonância no social, amplificando-se. O filme encena o momento em que o sujeito não apenas repete, mas passa a se constituir na própria repetição, um movimento que, longe de se interromper, ganha forma e visibilidade.


Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Coringa, Veneza reconheceu: a ousadia formal de um filme de estúdio que adota linguagem autoral; a atuação radical de Joaquin Phoenix e a capacidade do cinema popular de absorver tensões sociais reais.

O Leão de Ouro de 2019 sinalizou que o festival não premia gêneros, mas gestos cinematográficos fortes, mesmo quando surgem de territórios inesperados.

Coringa não é apenas uma história de origem. É um retrato sombrio de uma sociedade que falha e depois se assusta com aquilo que ela mesma produziu.