Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Michael Clayton passou quinze anos resolvendo os
problemas sujos das outras pessoas. Até encontrar um problema que não conseguia
resolver.
O
fixador e sua função
Michael Clayton é apresentado pelo próprio personagem numa das cenas de abertura mais precisas do cinema americano recente: ele descreve a si mesmo como um limpador, alguém que aparece depois que algo deu errado e que tem a função de fazer o problema desaparecer antes que se torne problema de verdade. Essa auto-descrição é ao mesmo tempo completamente honesta e completamente insuficiente: Clayton sabe o que faz, sabe como é chamado pelos que precisam dele, e há quinze anos encontrou uma forma de habitar esse papel sem que isso o destrua.
Tony Gilroy, que havia escrito a trilogia
Bourne antes de dirigir seu primeiro longa, traz para Michael Clayton a mesma
consciência de sistemas e de como as pessoas funcionam dentro deles que havia
aplicado ao thriller de espionagem. O resultado é um filme que usa a estrutura
do thriller jurídico para examinar algo mais interessante do que qualquer
reviravoltas de trama: o momento em que um profissional que havia suspendido o
julgamento moral por tempo suficiente descobre que o julgamento não foi embora,
apenas estava esperando o momento certo para retornar.
George
Clooney e a fadiga moral
George Clooney como Michael Clayton entrega uma das performances mais contidas e mais precisas da sua carreira: um homem que está cansado de uma forma acumulada, que carrega o peso de quinze anos de decisões que preferia não ter tomado e que continuou tomando porque o sistema as exigia e porque ele havia aprendido a não questionar o que o sistema exigia.
A cena de abertura do filme, em que Clayton
para o carro numa estrada rural no meio da noite e sai para ver três cavalos
num campo, é o momento mais misterioso e mais revelador do filme: não há explicação para o que Clayton está sentindo naquele momento, mas há algo na
qualidade do silêncio e da paisagem que o filme usa para dizer que Clayton está
num ponto de ruptura que nem ele mesmo sabe nomear ainda. Clooney filma esse
estado com uma presença física que é ao mesmo tempo cheia e vazia, como alguém
que aprendeu a ocupar o espaço de uma pessoa que está bem mas que não está mais
bem há muito tempo.
Tom
Wilkinson e o personagem que quebra
Arthur Edens, o advogado senior interpretado por Tom Wilkinson que tem a quebra psicológica que desencadeia o filme, é o personagem que o filme usa para mostrar o que acontece quando a suspensão do julgamento moral finalmente termina. Arthur havia passado dezesseis anos defendendo uma corporação quimica que sabia que havia causado mortes, e num determinado momento esse conhecimento tornou-se impossível de continuar carregando dentro da estrutura que o exigia.
O que Arthur experimenta não é loucura no
sentido clínico: é a recuperação da capacidade moral que havia suspendido para
funcionar dentro do sistema. Wilkinson interpreta Arthur com uma energia que é simultaneamente perturbadora e reconhecível: é a energia de alguém que de
repente pode ver com clareza o que havia escolhido não ver, e que a claridade é tão intensa que parece loucura para todos ao redor que ainda estão escolhendo
não ver.
Tilda
Swinton e o sistema personificado
Karen Crowder, a executiva corporativa interpretada por Tilda Swinton, é o personagem que o filme usa para mostrar o que o sistema produz quando funciona como deveria. Karen não é uma vilã no sentido convencional: é uma profissional competente que aprendeu as regras do ambiente corporativo e as aplica com uma consistência que o sistema recompensa. O que ela faz no filme, as decisões que toma para proteger a corporação e sua própria posição dentro dela, é o que o sistema exige de quem quer permanecer dentro do sistema.
Swinton filma Karen com uma tensão física
que é o contraponto preciso à fadiga de Clooney: Karen está sempre um pouco
antes do ponto de conforto, sempre gerenciando a própria apresentação, sempre
calculando o que a próxima cena exige dela. É uma performance sobre o custo de
ser o sistema em vez de apenas trabalhar dentro dele, e esse custo é diferente
do custo de Clayton, mas igualmente real.
Gilroy
e a estrutura não linear
Michael Clayton começa com o fim: vemos as consequências antes de entender as causas, e o filme percorre os quatro dias anteriores ao que vimos na abertura com a consciência de que o espectador já sabe para onde está indo, mas não sabe completamente como chegou lá. Essa estrutura não linear é parte do argumento: o conflito ético que Clayton enfrenta não é uma decisão que ele toma num momento específico mas a acumulação de quinze anos de decisões que o trouxeram ao ponto em que a próxima decisão não pode mais ser adiada.
A fotografia de Robert Elswit usa Nova York
com uma frieza que combina com o território moral que o filme está habitando:
não há glamour no mundo de Clayton, não há a luminosidade que o cinema sobre
Wall Street frequentemente usa para tornar o ambiente sedutor. Ha escritórios,
taxis, hotéis de esquina e a sensação de uma cidade que funciona
independentemente de quem está tomando que tipo de decisão dentro dela.
O
que fica
Michael Clayton termina com uma cena em que Clayton está num taxi depois de ter feito o que tinha que fazer, e a câmera permanece no rosto de Clooney por tempo suficiente para que o espectador veja o que vem depois da decisão correta: não alívio, não satisfação, mas algo mais parecido com o espaço que abre quando você para de carregar algo que estava carregando há muito tempo. O que fica não é a resolução do caso nem a punição dos culpados. É a pergunta sobre o que Clayton vai fazer com o espaço que acabou de abrir, e o filme recusa responder porque essa pergunta não tem resposta cinematográfica disponível.
Onde assistir: Michael Clayton está disponível na Filmoteca Seu Manolo e ocasionalmente em plataformas de streaming no Brasil: Conduta de Risco - Onde assistir. O filme tem 119 minutos que passam com o ritmo do thriller bem executado. O espectador que chegar esperando um thriller jurídico convencional vai encontrar algo mais lento e mais preciso sobre o que o ambiente corporativo faz com as pessoas que funcionam dentro dele por tempo suficiente.