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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Chunhyang, Amor Proibido (2000) Chunhyangdyun - 2 h 17 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Drama, Musical, Romance

MP4 / HD / LEG: Português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 7,9
Letterboxd: 7,0   Flick Metrix: 7,4
86%Tomatometer42 Reviews

Mongryong é filho de um governador. Chunhyang é filha de uma cortesã. Se casam em segredo. O que vem depois o cantor já estava contando antes de o filme começar.

Im Kwon-taek e o projeto

Im Kwon-taek é frequentemente descrito como o pai do cinema coreano moderno. Começou a carreira nos anos 1960 fazendo filmes de gênero para sobreviver e foi gradualmente desenvolvendo uma voz própria que culminou em obras como Sopyonje, de 1993, sobre a tradição do pansori, e Chihwaseon, de 2002, sobre o pintor Jang Seung-ub, pelo qual venceu o prêmio de Melhor Direção em Cannes. Im foi também agraciado com a Medalha Fellini pela UNESCO e recebeu o Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim de 2005 pelo conjunto da obra. 

Chunhyang foi o seu 97º filme e o resultado de décadas de interesse pelo pansori como forma narrativa. O filme usa como base a gravação do pansori Chunhyangga feita em 1995 pelo renomado cantor Cho Sang-hyun, numa versão que Im havia acompanhado desde os anos 1970. 

O pansori e o que ele é

O pansori é uma forma de performance musical narrativa coreana que existe há pelo menos três séculos. Um único cantor, chamado sorikgun, narra e canta uma história épica acompanhado apenas por um baterista, num espetáculo que pode durar horas. A voz do sorikgun assume todos os personagens, descreve todos os cenários, carrega toda a emoção da narrativa. O público participa ativamente com exclamações de aprovação ou desaprovação ao longo da performance.

Im estruturou o filme de modo que cada capítulo da narrativa é paralelo aos versos cantados por Cho Sang-hyun, com diálogos falados entrelaçados à estrutura musical. O que isso significa na prática é que o espectador vê os eventos da história enquanto ouve o sorikgun descrevê-los e cantá-los ao mesmo tempo, com o público da performance reagindo ao que está sendo contado. É uma experiência que não tem equivalente no cinema ocidental e que não pode ser reduzida a nenhuma categoria convencional.

A história de Chunhyang

Chunhyang é um conto popular coreano que existe em versões orais e escritas há séculos. Até hoje há mais de dezesseis adaptações cinematográficas, incluindo três filmes norte-coreanos. É a história de amor entre Chunhyang, filha de uma cortesã, e Mongryong, filho de um aristocrata, que se casam em segredo antes de Mongryong partir para a capital para os exames do serviço público. Na ausência de Mongryong, um novo governador corrupto chega à cidade e tenta forçar Chunhyang a ser sua concubina. Ela recusa. O que acontece depois é o coração do conto: a fidelidade de Chunhyang e o retorno de Mongryong num papel que ninguém esperava.

A história é conhecida de todo coreano da mesma forma que brasileiros conhecem histórias folclóricas nacionais. Im não está contando uma história nova: está encontrando uma forma cinematográfica para uma história que já existe na memória coletiva de uma cultura.

A escolha dos atores

Para honrar o conto original, no qual os protagonistas têm 16 anos, Im escalou estudantes do ensino médio sem experiência, Yi Hyo-jeong e Cho Seung-woo, nos papéis principais, uma escolha ousada que trouxe frescor ao filme. 

Os dois atores não sabiam que havia uma cena de amor até começarem as filmagens e ficaram assustados. Im Kwon-taek trabalhou com eles ao longo de semanas antes de filmar as cenas mais difíceis. O resultado tem uma qualidade de presença genuína que atores mais experientes raramente produzem: a timidez real de dois jovens que estão descobrindo um ao outro em frente à câmera é exatamente o que a história de Chunhyang e Mongryong precisa.


A estrutura formal e o que ela produz

A cena em que Chunhyang é espancada por recusar-se a ir para o leito do governador corrupto é filmada em grande parte fora de cena: em vez das imagens da violência, Im mostra o sorikgun e seu público, sentados na beira dos assentos e chorando enquanto ele conta a recusa heroína. É uma das decisões formais mais precisas do cinema coreano dos anos 2000: a emoção não vem do que é mostrado mas da reação de quem está ouvindo ser contado. 

Essa estrutura de dupla narrativa, o que acontece nos flashbacks do século XVIII e o que o sorikgun está cantando para o público presente, cria uma distância temporal que amplifica em vez de diminuir a força emocional. O espectador assiste ao sofrimento de Chunhyang e ao mesmo tempo vê esse sofrimento sendo recebido por um público que o conhece há séculos e que chora assim mesmo.

O Cannes de 2000 e o que representou

Chunhyang foi o primeiro filme coreano convidado para a seção de competição do Festival de Cannes. O convite chegou dois anos antes de Oldboy e da explosão internacional do cinema coreano que se seguiu. Im Kwon-taek chegou a Cannes com um filme radicalmente diferente de tudo o que o festival havia visto: uma obra que mergulhava numa tradição cultural específica da Coreia com a confiança de quem não está pedindo permissão para existir.

O filme não venceu a Palma de Ouro, mas a presença em Cannes abriu o caminho para que o cinema coreano chegasse à atenção internacional de uma forma que os filmes seguintes de Park Chan-wook e Bong Joon-ho completariam.

Onde assistir: Chunhyang, Amor Proibido está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver uma forma de contar histórias que o cinema ocidental nunca inventou.

Se você chegou até aqui, você é cinéfilo de verdade. Tenha acesso a este e muitos outros filmes participando do nosso grupo de Whatsapp: 

https://chat.whatsapp.com/KrL9wtZNzyq2JIU2DfdXmj



sexta-feira, 20 de março de 2026

Poesia (2010) Shi - 2 h 19 min

ROTTEN TOMATOES: The 100% Club

Uma mulher nos seus sessenta anos, confrontada com a descoberta de um crime familiar terrível e nas fases iniciais da doença de Alzheimer, encontra força e propósito quando se inscreve numa aula de poesia.


Poesia (2010) - IMDb
Dir: Lee Chang-dong
Drama Psicológico


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 8,7
FLICK METRIX: 85   Average Percentile: 73.02%
100%Tomatometer71 Reviews   86%Popcornmeter

“Um filme onde a poesia nasce não da beleza do mundo, mas da necessidade de suportá-lo.”


A delicadeza diante do irreparável

Dirigido por Lee Chang-dong, Poetry (Poesia, 2010) acompanha Mija, uma mulher idosa que, ao se inscrever em um curso de poesia, tenta aprender a olhar o mundo com mais atenção. No entanto, esse gesto aparentemente simples se entrelaça com uma realidade dura: ela precisa lidar com uma situação moral devastadora envolvendo seu neto. O filme se constrói nesse contraste entre a busca por beleza e a confrontação com aquilo que é profundamente perturbador.




Aprender a ver, aprender a nomear

A poesia, aqui, não é um refúgio escapista, mas um exercício de percepção. Mija aprende que escrever exige olhar com precisão — ver as coisas como elas são, sem desviar o olhar. Esse processo se torna doloroso, pois implica reconhecer a violência, a culpa e a responsabilidade. Lee Chang-dong constrói uma narrativa onde o gesto poético é inseparável de uma ética: escrever é também assumir o peso do mundo.





O cotidiano como abismo silencioso

Com uma mise-en-scène contida, o filme transforma o cotidiano em espaço de tensão moral. Não há explosões dramáticas, mas uma acumulação de gestos, olhares e silêncios que revelam a complexidade da situação. A câmera observa com paciência, permitindo que o espectador sinta o desconforto crescente. A repetição de certos espaços — especialmente o rio — cria uma atmosfera onde beleza e tragédia coexistem de forma inquietante.



Recepção, legado e para quem é este filme

Poesia foi amplamente aclamado, recebendo o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e consolidando-se como uma das obras mais importantes de Lee Chang-dong. A atuação de Yun Jeong-hee foi especialmente celebrada por sua profundidade e delicadeza. O filme permanece como uma referência no cinema contemporâneo por sua abordagem ética e estética singular. É uma obra que tende a tocar mais intensamente espectadores interessados em cinema contemplativo, questões morais complexas e na relação entre arte e realidade.




A palavra como gesto final

Ao final, Poesia sugere que escrever — ou talvez simplesmente olhar com atenção — é uma forma de resistência. Não contra o mundo, mas contra a indiferença. A poesia que Mija busca não resolve a dor, mas a transforma em algo que pode ser partilhado. E, nesse gesto silencioso, o filme encontra sua força mais profunda: a possibilidade de encontrar sentido, mesmo diante do irreparável.







domingo, 8 de fevereiro de 2026

Se Esse Amor Desaparecesse Hoje (2025) Oneul Bam, Segyeeseo Yi Sarangyi Sarajinda Haedo - 1 h 45 min

Uma estudante do secundário que acorda todos os dias sem memória do dia anterior começa a namorar com um colega tímido. Conseguirá este amor crescer a cada novo começo?


Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6






terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Peixe Verde (1997) Chorok mulkogi - 1 h 51 min

Ao voltar para casa e encontrar sua cidade drasticamente mudada, um ex-soldado se junta a gângsteres.


Peixe Verde (1997) - IMDb
Dir: Lee Chang-dong
Crime, Drama

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,0
42%Popcornmeter







sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Memórias de um Assassino (2003) Salinui chueok - 2 h 11 min

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 4 (#151 a #200)

Em uma pequena província coreana em 1986, três detetives estão procurando o culpado de uma série de estupros e assassinatos de mulheres jovens.


Assassino em Série, Comédia de Humor Negro, Crime Verdadeiro, Drama Psicológico, Investigação Policial, Suspense Psicológico, Crime, Mistério


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 8,1   METASCORE: 8,2
95%Tomatometer80 Reviews   92%Popcornmeter


Um Crime Nascido no Campo e no Silêncio

Memórias de um Assassino se passa em uma Coreia do Sul rural, marcada por atraso estrutural e autoritarismo difuso. O assassinato não surge como exceção extraordinária, mas como ruptura que expõe a precariedade de instituições incapazes de compreender aquilo que foge à rotina.


Investigadores Sem Método, Poder Sem Rumo


Os policiais locais operam mais por instinto e violência do que por investigação racional. Tortura, coerção e achismos substituem provas, revelando um sistema policial que confunde autoridade com brutalidade e eficiência com medo.


A Cidade Grande Não Traz Respostas


A chegada do detetive de Seul promete racionalidade e ciência, mas logo se revela insuficiente. O choque entre métodos modernos e práticas arcaicas não produz síntese; apenas evidencia que o problema não é técnico, mas estrutural e moral.


A Violência Como Linguagem Oficial

A brutalidade policial não é acidente narrativo, mas parte orgânica do ambiente. Bong Joon-ho expõe como a violência institucional cria mais confusão do que verdade, corroendo qualquer possibilidade de justiça real.


O Humor Que Nasce do Desespero

O filme utiliza humor seco e absurdo como mecanismo de sobrevivência narrativa. O riso surge em situações grotescas e deslocadas, reforçando o sentimento de impotência diante de uma investigação que avança em círculos.


O Assassino Que Nunca Ganha Forma

A ausência de um culpado definido transforma o filme em reflexão sobre o medo difuso. O mal não é personificado; ele se dilui no cotidiano, na incompetência, no acaso e na incapacidade coletiva de compreender o horror.


A Derrota Como Estado Permanente

À medida que o tempo passa, os investigadores se degradam emocionalmente. A busca pela verdade não produz clareza, apenas exaustão. O fracasso não é episódio isolado, mas condição prolongada.


O Olhar Que Retorna ao Presente

No célebre plano final, o filme rompe a temporalidade e confronta o espectador diretamente. O passado não está resolvido nem enterrado; ele continua olhando de volta, exigindo responsabilidade e memória.


A Justiça Que Nunca Chegou

Memórias de um Assassino encerra-se como denúncia histórica e existencial. O filme não oferece solução nem catarse, apenas a consciência incômoda de que algumas feridas permanecem abertas — não por mistério insolúvel, mas por falhas humanas e institucionais profundas.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

1947 Boston (1923) (ROAD TO BOSTON) - 1 h 53 min

Uma história de maratonistas nacionais que querem correr novamente após a libertação da Coreia e sua busca para competir em sua primeira maratona internacional.


1947 Boston (2023) - IMDb
Dir: Kang Je-kyu
Drama de Época, Biografia, Esporte


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,1
85%Popcornmeter





12.12: O Dia (2023) Seoul-ui bom - 2 h 21 min

Após o assassinato do presidente Park em 1979, várias facções militares lutam pelo controle durante um violento golpe nesse tenso drama de ação sul-coreano.


12.12: O Dia (2023) - IMDb
Dir: Sung Soo Kim
Drama de Época, Docudrama, Drama Político, Thriller Político, History, Ação


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,5
98%Popcornmeter





quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Pietá (2012) Pieta - 1 h 43 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um agiota é forçado a reconsiderar seu estilo de vida violento após a chegada de uma mulher misteriosa que afirma ser sua mãe há muito perdida.


Pietá (2012) - IMDb
Dir: Kim Ki-duk
Crime, Drama, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 7,2
73%Tomatometer55 Reviews   72%Popcornmeter

Pietà (Pieta) é um dos filmes mais duros, radicais e controversos do cinema contemporâneo, dirigido por Kim Ki-duk. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2012, o filme representa tanto o ápice quanto o limite extremo da visão moral e estética do cineasta sul-coreano.

Violência como sistema

Ambientado em um bairro industrial degradado de Seul, Pietà acompanha Kang-do, um cobrador de dívidas brutal que mutila devedores para forçar indenizações de seguro. Sua violência não é impulsiva nem caótica: ela é metódica, funcional e integrada ao sistema econômico. Kim Ki-duk apresenta a brutalidade como engrenagem normalizada de um capitalismo predatório, onde corpos são meros instrumentos de lucro.

O filme não suaviza nem estetiza esse mundo. A agressão é frontal, desconfortável, muitas vezes insuportável — uma escolha ética que impede qualquer consumo fácil da violência.

A irrupção do afeto

A estrutura do filme se transforma com a chegada de uma mulher que afirma ser a mãe abandonada de Kang-do. Interpretada com ambiguidade perturbadora por Jo Min-soo, essa figura introduz o afeto em um universo até então regido apenas pela crueldade. No entanto, o cuidado materno não surge como redenção simples, mas como força desestabilizadora, capaz de revelar feridas profundas e abrir espaço para culpa e sofrimento ainda maiores.

A relação entre os dois não é construída pela ternura, mas pela dor compartilhada.

Religião, culpa e sacrifício

O título remete à iconografia cristã da Pietà — a mãe que sustenta o filho morto. Kim Ki-duk subverte essa imagem: aqui, o filho é moralmente morto desde o início, e a maternidade não salva, mas conduz ao sacrifício. O filme dialoga com temas religiosos sem espiritualidade reconfortante. Não há transcendência; há punição, repetição e culpa.

A redenção, se existe, é tardia e inútil.



Estilo cru, sem mediações

Formalmente, Pietà mantém a estética austera característica do diretor: câmera direta, poucos movimentos, ambientes sujos e desumanizados. O corpo humano é filmado como matéria vulnerável, constantemente ameaçada. Não há trilha sonora emocional nem distanciamento irônico — o espectador é colocado diante da violência sem proteção.

Essa frontalidade radical tornou o filme profundamente divisivo, mas também impossível de ignorar.



Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Pietà, Veneza reconheceu:

  • a radicalidade de um cinema que confronta diretamente as estruturas de exploração;
  • a coerência extrema de um autor disposto a levar sua visão até as últimas consequências;
  • um filme que transforma violência econômica em tragédia moral.

👉 Pietà não busca empatia fácil nem conforto ético. É um cinema que fere, acusa e insiste — um retrato brutal de um mundo onde o afeto chega tarde demais. Um Leão de Ouro que reafirma a vocação de Veneza para premiar obras que desafiam não apenas a linguagem, mas também a resistência moral do espectador.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Decisão de Partir (2022) Heojil kyolshim - 2 h 18 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Um detetive eficiente e meticuloso investiga um possível assassinato em um remoto vilarejo de montanha. Lá ele começa a desenvolver um caso de amor com a viúva da vítima, que ele considera a principal suspeita.


Decisão de Partir (2022) - IMDb
Dir: Park Chan-wook
Neo-noir, Crime, Drama, Mistério, Drama, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 8,5
94%Tomatometer246 Reviews   84%Popcornmeter


Decisão de Partir (2022): Amor, Culpa e Obsessão no Noir Melancólico de Park Chan-wook

Dirigido por Park Chan-wook, Decisão de Partir é um dos filmes mais sofisticados e emocionalmente complexos do noir contemporâneo.
Um romance policial que se desenha como enigma moral, onde a investigação se confunde com o desejo, e o detetive se torna prisioneiro da própria imaginação.

Em contraste com a brutalidade estilizada de Oldboy ou A Criada, Park constrói aqui um noir suave, elegante, triste e profundamente humano, onde cada olhar, cada gesto, cada vazio entre duas frases carrega um universo de ambivalência.


Hae-jun: o detetive que procura o crime, mas encontra a si mesmo


Interpretado por Park Hae-il, Hae-jun é um detetive meticuloso, ético, sensível e profundamente solitário.
Sofre de insônia, vive longe da esposa e encontra na rotina policial uma espécie de anestesia emocional.

Ao investigar a morte de um alpinista — possivelmente um suicídio, talvez um assassinato — Hae-jun se aproxima da viúva, Seo-rae, e a partir daí sua vida passa a oscilar entre:

  • desejo,
  • suspeita,
  • empatia,
  • projeção,
  • culpa,
  • e fantasia.

Noir clássico: o policial que se apaixona pela suspeita.
Mas Park reinventa esse trope transformando Hae-jun em um homem que precisa de Seo-rae tanto quanto a teme.


Seo-rae: enigma, delicadeza e perigo em um único olhar

Interpretada com intensidade sutil por Tang Wei, Seo-rae é uma das personagens femininas mais fascinantes do cinema recente.

Ela é:

  • imigrante chinesa,
  • cuidadora idosa,
  • marginal social,
  • suspeita de crime,
  • vulnerável,
  • mas também astuta,
  • sedutora sem intenção explícita,
  • e capaz de manipular com delicadeza.

Não é femme fatale.
É algo muito mais complexo:
uma mulher entre dois mundos, entre dor e sobrevivência, entre amor sincero e necessidade de mentir.

A cada frase, não sabemos:

  • se ama Hae-jun,
  • se usa Hae-jun,
  • ou se ambas as coisas são verdadeiras.

O romance como investigação — e a investigação como romance

Hae-jun não sabe se Seo-rae é inocente; 
Seo-rae não sabe se Hae-jun a ama ou a vigia.

Esse jogo cria uma narrativa dupla:
  • a investigação oficial, feita de interrogatórios e evidências,
  • e a investigação emocional, feita de gestos íntimos, refeições compartilhadas, pequenos silêncios.

Park Chan-wook filma o surgimento do amor como se fosse um crime — e filma o crime como se fosse um romance impossível.


A mise-en-scène: poesia visual e noir à luz do dia

O filme é estilisticamente deslumbrante.
Park utiliza:

  • névoas suaves,
  • tons azulados,
  • oceanos silenciosos,
  • cenas noturnas iluminadas por celulares,
  • janelas como molduras,
  • montanhas como metáforas de distância,
  • montagens fluidas que conectam imaginação e realidade.

É um noir sem sombras duras — um noir banhado por luz melancólica, onde o perigo está nos sentimentos, não nos becos.


Segredo, confiança e a impossibilidade do encontro

A relação entre Hae-jun e Seo-rae se torna insustentável quando o detetive, incapaz de separar dever de afeto, rompe emocionalmente.
O afastamento entre eles cria uma segunda parte do filme tão forte quanto a primeira — onde cada reencontro é marcado por:

  • saudade,
  • culpa,
  • tensão reprimida,
  • tentativas desesperadas de normalidade,
  • e a certeza de que o destino deles é impossível.

Seo-rae, percebendo que seu amor destrói Hae-jun, toma a decisão mais radical — um sacrifício que dá título ao filme.


O final: uma das cenas mais dolorosas do cinema moderno

Sem revelar nada além do essencial:

          • Seo-rae faz uma escolha que visa libertar Hae-jun,
          • mas o preço é devastador,
          • e o detetive não percebe a verdade até ser tarde demais.


  

A imagem final — o mar engolindo uma ausência, enquanto Hae-jun procura desesperadamente algo que não poderá encontrar — é:
  • noir,
  • romântica,
  • trágica,
  • poética,
  • e absolutamente inesquecível.
É a consumação do filme:
  • o amor como perda inevitável,
  • o desejo como labirinto,
  • a verdade como algo que nunca se alcança inteiro.

Conclusão



Decisão de Partir é um noir romântico de rara sensibilidade — uma obra que une mistério, poesia e devastação emocional.
Park Chan-wook cria aqui seu filme mais maduro, onde a violência não está no sangue derramado, mas no coração partido.

É um noir de olhares, texturas, gestos e marés — um cinema que investiga o amor com a mesma precisão que investiga o crime.

Um clássico instantâneo, que permanecerá como obra-prima do gênero.


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