Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Mongryong é filho de um governador. Chunhyang é filha de uma cortesã. Se casam em segredo. O que vem depois o cantor já estava contando antes de o filme começar.
Im Kwon-taek e o projeto
Im Kwon-taek é frequentemente descrito como o pai do cinema coreano moderno. Começou a carreira nos anos 1960 fazendo filmes de gênero para sobreviver e foi gradualmente desenvolvendo uma voz própria que culminou em obras como Sopyonje, de 1993, sobre a tradição do pansori, e Chihwaseon, de 2002, sobre o pintor Jang Seung-ub, pelo qual venceu o prêmio de Melhor Direção em Cannes. Im foi também agraciado com a Medalha Fellini pela UNESCO e recebeu o Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim de 2005 pelo conjunto da obra.Chunhyang foi o seu 97º filme e o resultado de décadas de interesse pelo pansori como forma narrativa. O filme usa como base a gravação do pansori Chunhyangga feita em 1995 pelo renomado cantor Cho Sang-hyun, numa versão que Im havia acompanhado desde os anos 1970.
O pansori e o que ele é
O pansori é uma forma de performance musical narrativa coreana que existe há pelo menos três séculos. Um único cantor, chamado sorikgun, narra e canta uma história épica acompanhado apenas por um baterista, num espetáculo que pode durar horas. A voz do sorikgun assume todos os personagens, descreve todos os cenários, carrega toda a emoção da narrativa. O público participa ativamente com exclamações de aprovação ou desaprovação ao longo da performance.
Im estruturou o filme de modo que cada capítulo da narrativa é paralelo aos versos cantados por Cho Sang-hyun, com diálogos falados entrelaçados à estrutura musical. O que isso significa na prática é que o espectador vê os eventos da história enquanto ouve o sorikgun descrevê-los e cantá-los ao mesmo tempo, com o público da performance reagindo ao que está sendo contado. É uma experiência que não tem equivalente no cinema ocidental e que não pode ser reduzida a nenhuma categoria convencional.
A história de Chunhyang
Chunhyang é um conto popular coreano que existe em versões orais e escritas há séculos. Até hoje há mais de dezesseis adaptações cinematográficas, incluindo três filmes norte-coreanos. É a história de amor entre Chunhyang, filha de uma cortesã, e Mongryong, filho de um aristocrata, que se casam em segredo antes de Mongryong partir para a capital para os exames do serviço público. Na ausência de Mongryong, um novo governador corrupto chega à cidade e tenta forçar Chunhyang a ser sua concubina. Ela recusa. O que acontece depois é o coração do conto: a fidelidade de Chunhyang e o retorno de Mongryong num papel que ninguém esperava.A história é conhecida de todo coreano da mesma forma que brasileiros conhecem histórias folclóricas nacionais. Im não está contando uma história nova: está encontrando uma forma cinematográfica para uma história que já existe na memória coletiva de uma cultura.
A escolha dos atores
Para honrar o conto original, no qual os protagonistas têm 16 anos, Im escalou estudantes do ensino médio sem experiência, Yi Hyo-jeong e Cho Seung-woo, nos papéis principais, uma escolha ousada que trouxe frescor ao filme.Os dois atores não sabiam que havia uma cena de amor até começarem as filmagens e ficaram assustados. Im Kwon-taek trabalhou com eles ao longo de semanas antes de filmar as cenas mais difíceis. O resultado tem uma qualidade de presença genuína que atores mais experientes raramente produzem: a timidez real de dois jovens que estão descobrindo um ao outro em frente à câmera é exatamente o que a história de Chunhyang e Mongryong precisa.
A estrutura formal e o que ela produz
A cena em que Chunhyang é espancada por recusar-se a ir para o leito do governador corrupto é filmada em grande parte fora de cena: em vez das imagens da violência, Im mostra o sorikgun e seu público, sentados na beira dos assentos e chorando enquanto ele conta a recusa heroína. É uma das decisões formais mais precisas do cinema coreano dos anos 2000: a emoção não vem do que é mostrado mas da reação de quem está ouvindo ser contado.Essa estrutura de dupla narrativa, o que acontece nos flashbacks do século XVIII e o que o sorikgun está cantando para o público presente, cria uma distância temporal que amplifica em vez de diminuir a força emocional. O espectador assiste ao sofrimento de Chunhyang e ao mesmo tempo vê esse sofrimento sendo recebido por um público que o conhece há séculos e que chora assim mesmo.
O Cannes de 2000 e o que representou
Chunhyang foi o primeiro filme coreano convidado para a seção de competição do Festival de Cannes. O convite chegou dois anos antes de Oldboy e da explosão internacional do cinema coreano que se seguiu. Im Kwon-taek chegou a Cannes com um filme radicalmente diferente de tudo o que o festival havia visto: uma obra que mergulhava numa tradição cultural específica da Coreia com a confiança de quem não está pedindo permissão para existir.O filme não venceu a Palma de Ouro, mas a presença em Cannes abriu o caminho para que o cinema coreano chegasse à atenção internacional de uma forma que os filmes seguintes de Park Chan-wook e Bong Joon-ho completariam.
Onde assistir: Chunhyang, Amor Proibido está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver uma forma de contar histórias que o cinema ocidental nunca inventou.
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