Seção "CINEMA 2026: O Que Vale Ver"
O pintor que sobreviveu à própria relevância
The Christophers começa com Julian Sklar gravando mensagens personalizadas numa plataforma de vídeo paga, o tipo de serviço que celebridades usam quando a celebridade virou nostalgia. Julian foi uma sensação do cenário artístico londrino desde seu explosivo surgimento na explosão criativa dos anos 1960 e derivou para uma reclusão desordenada e autoimposta. Soderbergh instala esse estado de queda com uma economia que é marca de sua melhor fase: não há cena de exposição que explique quem Julian foi. Há o presente de quem Julian é, e o presente diz tudo sobre o passado sem precisar mostrá-lo.Os filhos estranhos de Julian, interpretados por Jessica Gunning e James Corden, contratam Lori, uma pintora e ex-falsificadora vivida por Michaela Coel, para se infiltrar na vida do pai como assistente pessoal. O objetivo é acessar uma série lendária de telas inacabadas, Os Christophers, retratos de um jovem que foi o amor de Julian nos anos 1960, e completá-las antes de sua morte para que possam ser vendidas como obras póstumas do artista. O plano tem a arquitetura de um caper de Soderbergh e a moralidade ambígua que o diretor sempre preferiu ao julgamento fácil.
Soderbergh e o filme mais humano da fase recente
Steven Soderbergh fez 37 longas-metragens e continua sendo um dos fenômenos de produtividade e consistência do cinema contemporâneo. The Christophers chega pouco mais de um ano depois do elegante Black Bag e é o segundo filme que o diretor fez em 2025. Essa prolificidade raramente compromete a qualidade, mas produz filmes que existem em registros diferentes: há o Soderbergh de ambição formal máxima e há o Soderbergh que confia nos atores e no roteiro para carregar o peso.
The Christophers pertence ao segundo registro, e enquanto tem as marcas da inteligência inquieta de Soderbergh, este drama de câmara parece menor do que o talento envolvido sugere. A câmera é deliberadamente contida, os espaços são os dois townhouses colados de Julian, e a direção serve os atores em vez de competir com eles. Essa escolha produz um filme que é simultaneamente o mais despretensioso de Soderbergh em anos e o mais emocionalmente direto, um filme inusualmente emocional para o diretor.
Ian McKellen e o monólogo como forma de vida
Ian McKellen entrega o que é facilmente sua performance mais essencial desde O Senhor dos Anéis, tão cheio de energia e vigor que ameaça revitalizar o diretor por osmose. Julian Sklar é um personagem construído para o monólogo, cheio de observações espirituosas sobre arte, envelhecimento, irrelevância e o mercado que decide o que tem valor, e McKellen os entrega com uma precisão de timing que faz cada linha parecer improvisada mesmo quando é claramente construída.O que McKellen adiciona além do texto é a fisicalidade de um homem de 86 anos que habita a decadência de Julian com uma cumplicidade que a maquiagem e o figurino não produziriam sozinhos. Julian é irritante, brilhante, cruel nos momentos errados e surpreendentemente generoso nos momentos inesperados, e McKellen sustenta todas essas contradições sem resolver nenhuma delas prematuramente. Há uma cena em que Julian descobre que Lori leu seu blog de crítica de arte e diz com total seriedade: "Nunca subestime a habilidade digital de um homem que passou décadas pesquisando seu próprio nome." É a frase mais engraçada e mais triste do filme ao mesmo tempo, e McKellen a entrega como se fosse as duas coisas simultaneamente.
Michaela Coel e o peso do olhar silencioso
McKellen tem o papel mais chamativo, cheio de monólogos e tiradas espirituosas que ele entrega com seu aplomb habitual. Mas é Coel quem impressiona possivelmente ainda mais com sua performance mais sutil, chamada principalmente a reagir de forma calma e silenciosa às travessuras de McKellen.
Lori existe no filme como consciência e como espelho, a pessoa que vê Julian com clareza suficiente para entender o que está em jogo nas telas inacabadas e com experiência suficiente para saber o que custa completar o trabalho de outro artista. Coel constrói esse personagem com uma reserva deliberada que o roteiro usa como contraste com a exuberância de McKellen, e quando o roteiro finalmente lhe dá seu grande momento de expressão, é a melhor cena do filme.
A crítica mais honesta sobre o personagem aponta que enquanto os personagens brancos, mesmo quando exagerados até a beira da caricatura, parecem ter vidas interiores, Lori é frequentemente opaca, funcionando mais como veículo para nos introduzir ao mundo da família Sklar do que como personagem com camadas próprias. Essa limitação é real e vale ser nomeada: Coel faz o máximo com o que o roteiro lhe oferece, mas o roteiro oferece menos do que deveria.
Os Christophers e a questão da autoria
As telas inacabadas que dão nome ao filme são retratos de um jovem que claramente foi o amor de Julian, pintados com uma forma de ver que revela o relacionamento apenas pelo modo como o artista enxerga o sujeito. Soderbergh e o roteirista Ed Solomon usam essas telas como centro de gravidade de todas as questões que o filme está fazendo sobre autoria, legado e o que torna uma obra de arte real.O filme estabelece debates sobre arte, autenticidade, honestidade e legado e então decide não ter realmente esses debates, optando por banter espirituoso e resoluções não inteiramente merecidas. Essa crítica tem fundamento: The Christophers levanta questões que prefere não responder completamente, e o espectador que chegar esperando que o filme resolva o que coloca em suspensão vai sair com a sensação de que algo ficou por terminar. O que é, involuntariamente, uma posição coerente para um filme sobre telas inacabadas.
Onde assistir e o que esperar
The Christophers não está em cartaz no Brasil e chegará às plataformas de streaming em breve. Está disponível no Prime Video dos Estados Unidos e do Canadá e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 100 minutos que passam com a fluidez dos melhores trabalhos de Soderbergh: a câmera serve os atores sem interpor entre eles e o espectador, e a trilha de David Holmes tem a discrição que o material exige. Espectadores que chegam esperando o Soderbergh dos Ocean's, com reviravoltas e ritmo de caper, vão precisar de ajuste: este é o Soderbergh que confia que dois atores extraordinários numa sala são suficientes para sustentar 100 minutos, e na maior parte do tempo está certo.
O que vale ver em 2026
The Christophers entra na seção Cinema 2026 pelo mesmo motivo que Anatomia de Uma Queda entrou na sua época: faz perguntas mais interessantes do que as respostas que entrega, e essa qualidade é mais rara do que parece. Soderbergh construiu algo inesperadamente caloroso sob o cinismo: um filme sobre o medo da irrelevância artística e a esperança frágil de que a criação ainda possa importar.
Ian McKellen aos 86 anos entregando a melhor performance de sua fase recente num filme sobre um artista que se recusa a aceitar que seu tempo passou é o tipo de coincidência entre papel e intérprete que o cinema produz raramente e que vale ser visto enquanto está acontecendo. The Christophers não é o filme do ano. É o filme que McKellen e Coel merecem que seja visto, e por enquanto isso é suficiente.


