Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)
DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão
"Snatch" é um filme que entrelaça várias histórias em um cenário criminal de Londres. A trama gira em torno de um diamante roubado e um torneio de boxe, onde diversos personagens, como gângsteres, boxeadores e ladrões, se cruzam em uma série de eventos caóticos e engraçados.
Dir: Guy Ritchie
Comédia de Humor Negro, Filme de Assalto, Gângster
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 8,2 METASCORE: 5,5
Letterboxd: 8,0 Flick Metrix: 73
Um diamante, doze personagens, zero planos que funcionam.
Guy Ritchie e o caos como método.
Ritchie e a gramática do caos controlado
Snatch chegou em 2000, três anos depois de Lock, Stock and
Two Smoking Barrels, e Ritchie aperfeiçoou em seu segundo longa a linguagem que
havia desenvolvido no primeiro: cortes rápidos, câmera lenta estratégica,
narração que introduz personagens com humor antes de jogá-los na situação que
vai destruí-los. O que distingue Snatch de Lock, Stock é a escala: mais
personagens, mais linhas narrativas, mais oportunidades para o caos se
multiplicar antes de convergir. Ritchie gerencia essa multiplicidade com uma precisão
que só parece improvisada porque o estilo imita a sensação de improviso.
Brad Pitt e o personagem que não deveria funcionar
Mickey O'Neil, o lutador cigano interpretado por Brad Pitt
num sotaque que nenhum espectador anglófono consegue entender completamente,
deveria ser um problema de roteiro. Pitt transforma o personagem no coração do
filme. Mickey funciona porque é literalmente imprevisível: num filme onde todos
os outros personagens têm planos que falham de formas calculáveis, Mickey falha
de formas que ninguém poderia antecipar. Pitt encontrou no personagem uma
liberdade física que raramente usa, e o resultado é uma performance que começa
como comédia e termina como algo próximo do mítico.
A estrutura de relógio
Snatch é um mecanismo de relógio disfarçado de caos. Ritchie
e o roteiro estabelecem no primeiro ato todos os elementos que vão colidir no
terceiro, e o prazer do filme vem de acompanhar essas colisões com a
consciência de que eram inevitáveis desde o início. O diamante não é apenas
MacGuffin: é o elemento gravitacional que atrai todos os personagens para o
mesmo ponto sem que nenhum deles perceba que estão sendo atraídos. Quando tudo
converge, a resolução parece ao mesmo tempo surpreendente e completamente
lógica, que é exatamente o que o melhor cinema de assalto produz.
Londres como universo fechado
Ritchie filma uma Londres criminal que existe em paralelo à
cidade real, com seus próprios códigos, hierarquias e geografias. Essa Londres é uma construção cinematográfica com a mesma artificialidade
deliberada que The Sting usava para reconstituir Chicago nos anos 30. A
diferença é que Ritchie usa a artificialidade para produzir energia em vez de
elegância, e essa escolha de registro é coerente com o tipo de história que
está contando.
Onde assistir e o que esperar
Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 102 minutos e um ritmo que não concede pausas: a primeira
revisita revela a estrutura por baixo do caos aparente, e o prazer de ver as
peças se encaixando antecipadamente é tão rico quanto a surpresa original. O
sotaque de Pitt é parte da experiência e não precisa de legendas separadas: não
entender completamente o que Mickey diz é exatamente o que o filme quer.
O caos como argumento
Snatch demonstra que o heist não precisa de um plano
funcionando para ser satisfatório: pode funcionar como comédia de erros onde a
resolução emerge do caos em vez de apesar dele. Num ciclo de filmes que inclui
a precisão ritual de Le Cercle Rouge e a engenharia de Rififi, Ritchie oferece
a versão anárquica do mesmo prazer: acompanhar pessoas tentando controlar algo
que não pode ser controlado e descobrindo que o resultado é o mesmo de qualquer
jeito.
