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terça-feira, 19 de maio de 2026

A Embriaguez do Sucesso (1957) Sweet Smell of Success - 1 h 36 min

 Filme incuso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



A Embriaguez do Sucesso (1957) - IMDb
Dir: Alexander Mackendrick
Film Noir, Drama

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 10,0
Letterboxd: 8,4   Flick Metrix: 8,7
98%Tomatometer62 Reviews

J.J. Hunsecker decide o que Nova York lê amanhã. Sidney Falco decide o que J.J. Hunsecker precisa saber hoje.

Nova York como território de poder

Sweet Smell of Success foi filmado nas ruas de Nova York em 1957 com uma iluminação de James Wong Howe que transformou a cidade noturna num território simultaneamente glamouroso e ameaçador: as luzes dos letreiros luminosos, as sombras dos becos, os rostos iluminados pela luz das janelas dos restaurantes. Mackendrick e o fotógrafo entenderam que Nova York não era apenas o cenário do filme mas o argumento: uma cidade em que a visibilidade e poder, em que aparecer nos lugares certos com as pessoas certas é uma forma de capital, e em que o colunista que controla o que é publicado é o rei invisível de um reino que se reinventa toda madrugada quando os jornais saem.

J.J. Hunsecker, interpretado por Burt Lancaster, é esse rei: um colunista cujo alcance é tão vasto e cuja influencia é tão consolidada que pessoas constroem carreiras em torno do acesso a ele e destroem inimigos pagando pelo privilégio de vê-los mencionados de forma negativa na coluna. Lancaster interpreta Hunsecker com uma frieza que é simultaneamente sedução e ameaça: é impossível não sentir a gravidade do personagem e impossível não sentir o perigo de estar próximo a ele.

Tony Curtis e a ambição sem limite moral

Sidney Falco, interpretado por Tony Curtis, é o personagem que o filme usa para examinar o que a busca de resultados a qualquer custo faz com alguém que ainda não chegou onde quer chegar. Falco é assessor de imprensa de terceira categoria que sobrevive vendendo acesso a Hunsecker para clientes que pagam pelo privilégio, e o filme começa com Falco numa situação desesperada: Hunsecker quer que ele destrua o namorado da irmã do colunista, e se Falco não conseguir, perde o acesso que é o único produto que tem para vender.

Curtis interpreta Falco com uma energia nervosa que é ao mesmo tempo simpática e perturbadora: é impossível não entender por que Falco faz o que faz, porque o filme mostra com precisão o sistema que o produziu e as opções limitadas que esse sistema oferece. Mas é igualmente impossível não ver que Falco está disposto a fazer qualquer coisa para qualquer pessoa se o resultado for suficientemente valioso, e que essa disposição é exatamente o que o sistema de Hunsecker precisava encontrar para funcionar.

Clifford Odets e o diálogo como revelação

O roteiro de Clifford Odets, adaptado do conto de Ernest Lehman, tem uma qualidade poética que combina com o ambiente que está descrevendo: cada linha de diálogo é simultaneamente o que o personagem diz e o que o personagem está tentando não dizer, cada conversa é uma negociação de poder disfarçada de conversa social. Odets havia sido dramaturgo dos anos 1930, e trazia para o roteiro de Hollywood a consciência de que a linguagem é um instrumento de classe, que as pessoas falam de formas diferentes dependendo de onde estão na hierarquia e do que querem dos que estão acima ou abaixo delas.

A conversa entre Hunsecker e Falco no restaurante, que é a cena central do filme, é uma demonstracao dessa consciência: Hunsecker fala com a autoridade de quem nunca precisou pedir nada diretamente, Falco responde com a servilidade ansiosa de quem nunca pode dizer o que pensa diretamente, e cada frase trocada entre eles é simultaneamente o que parece ser e o que realmente é. O espectador que prestar atenção vai perceber que Hunsecker nunca pede favores: declara expectativas, e Falco nunca concorda: apenas responde de formas que o sistema interpreta como concordância.

O custo do acesso

Sweet Smell of Success examina um argumento que o cinema raramente formula diretamente: que o acesso ao poder é sempre transacional, e que o preço do acesso é sempre pago em moeda moral. Falco não paga dinheiro por acesso a Hunsecker: paga com a disposição de fazer o que Hunsecker precisa que seja feito, sem questionar se o que precisa ser feito é legítimo ou justo ou legal. Essa disposição é o produto que Falco tem para oferecer, e o sistema de Hunsecker precisa exatamente desse produto.

O que o filme revela com uma honestidade que poucos filmes sobre midia e poder conseguem é que o sistema não é excepcional: é o funcionamento normal de um ambiente em que a informação tem valor e o acesso a quem a controla é comercializável. Hunsecker e Falco não são aberrações do jornalismo americano dos anos 1950: são o produto lógico de um sistema que recompensa influência sem questionar como a influência foi construída.

O que fica

Sweet Smell of Success termina com o sistema de Hunsecker sobrevivendo ao custo humano que produziu, como sistemas desse tipo sempre sobrevivem. O que não sobrevive é a ilusão de Falco de que estava participando do sistema em condições de igualdade, de que o acesso que comprava era uma parceria e não uma serventia. A diferença entre os dois é o que o filme examina com mais precisão: o poder de Hunsecker é real e permanente, o acesso de Falco é contingente e revogável, e a confusão entre os dois é o que o sistema produz para garantir que pessoas como Falco continuem fazendo o que Hunsecker precisa que seja feito.

Onde assistir: Sweet Smell of Success está disponível na Filmoteca Seu Manolo e ocasionalmente em plataformas de cinema clássico e em algumas plataformas de streaming no Brasil: A Embriaguez do Sucesso - Veja onde assistir. O filme tem 96 minutos em preto e branco que passam com a fluidez do noir bem executado. A fotografia de James Wong Howe e a trilha de Elmer Bernstein são dois dos melhores trabalhos de cada um em suas respectivas carreiras, e o filme funciona simultaneamente como thriller de poder e como documento visual de uma Nova York que não existe mais.

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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O Último Magnata (1976) The Last Tycoon - 2 h 3 min

Mostra Elia Kazan: O Teatro da Vida Americana

Nos anos 30, Monroe Starr, considerado por todos como frio e calculista, é o produtor de um estúdio de Hollywood.


Drama do Mundo do Espetáculo, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,2   METASCORE: 5,7
33%Tomatometer27 Reviews   40%Popcornmeter


Um adeus melancólico à era dourada de Hollywood e aos homens que a moldaram.


O Estúdio Como Reino

Em The Last Tycoon, Elia Kazan adapta o romance inacabado de F. Scott Fitzgerald para retratar os bastidores da Hollywood dos anos 1930. O protagonista Monroe Stahr (Robert De Niro) é um poderoso produtor de estúdio, inspirado na figura real de Irving Thalberg, cuja autoridade criativa e administrativa sustenta uma indústria em plena transformação. O cinema surge como império — e também como território de disputas políticas e afetivas.




Poder, Controle e Solidão


é retratado como homem brilhante e obsessivo, capaz de enxergar o potencial de um filme em meio ao caos de produção. No entanto, sua força profissional contrasta com sua fragilidade emocional. Viúvo e isolado, ele projeta na jovem Kathleen (Ingrid Boulting) uma tentativa de reconstrução afetiva. Kazan constrói um retrato de liderança marcada por vulnerabilidade — o magnata é também homem solitário.





Hollywood Entre Arte e Indústria

O filme investiga a tensão permanente entre criação artística e interesses corporativos. Greves sindicais, pressões financeiras e disputas internas evidenciam a fragilidade do sistema de estúdios. Kazan, que atravessou diferentes fases da indústria cinematográfica, parece refletir sobre o próprio passado ao retratar a transição de uma era dominada por figuras autoritárias para um modelo mais impessoal e empresarial.




Crepúsculo de um Sistema — Leitura Crítica para Catálogo

Para fins de catálogo, O Último Magnata pode ser lido como elegia ao classicismo hollywoodiano e, simultaneamente, como autorretrato indireto de Kazan. Assim como Stahr, o diretor foi figura central de sua geração, responsável por moldar performances e narrativas marcantes. O filme adota tom contemplativo e nostálgico, menos explosivo que trabalhos anteriores, mas carregado de reflexão sobre poder criativo, responsabilidade e finitude. A incompletude do romance de Fitzgerald ecoa na sensação de despedida que permeia a obra.




Recepção e Legado

Lançado na década de 1970, período dominado pela chamada “Nova Hollywood”, o filme teve recepção crítica mista e desempenho comercial modesto. Muitos o consideraram excessivamente clássico para um momento de ruptura estética. Com o tempo, porém, passou a ser reavaliado como obra sofisticada e melancólica, destacando-se pela interpretação contida de Robert De Niro e pela atmosfera evocativa. Hoje, é visto como o último grande gesto cinematográfico de Kazan.





O Fim do Espetáculo


Em O Último Magnata, Kazan encerra sua filmografia com olhar voltado para o próprio cinema. O estúdio é palco de sonhos e conflitos, mas também espaço de desgaste e substituição. Ao acompanhar o declínio de Stahr, o diretor parece reconhecer que toda era tem seu fim — e que o verdadeiro legado permanece nas imagens que resistem ao tempo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quanto Mais Quente Melhor (1959) Some Like It Hot - 2 h 1 min

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

METACRITIC MUST-SEE TOP 25: O Consenso em Estado Puro

ENTRE O RISO E O ABISMO: 7 Filmes para Entender Billy Wilder

ENTRE O RISO E O ABISMO: Billy Wilder por Inteiro



Screwball Comedy, Farsa, Sátira, Música, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES
IMDB: 8,2   METASCORE: 9,8
Letterboxd: 8,6   CLC Balanced Rating: 9,1
95%Tomatometer


A Comédia como Disfarce da Anarquia

Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1959), dirigido por Billy Wilder, é uma das comédias mais ousadas e modernas do cinema clássico, um filme que usa o riso para desmontar normas de gênero, identidade e moral com uma leveza que continua radical décadas depois.


Fuga, Sobrevivência e Travestimento

A trama acompanha dois músicos que, após testemunharem um massacre da máfia, precisam fugir para salvar a própria pele. O disfarce como mulheres em uma banda feminina é estratégia de sobrevivência que coloca os protagonistas em contato direto com regras sociais que nunca precisaram enfrentar antes.


Gênero como Performance

Muito antes do debate contemporâneo, o filme já tratava gênero como papel social. Ao vestir-se como mulheres, os protagonistas não “se tornam” outra coisa; passam a atuar segundo expectativas externas. Wilder transforma a confusão de identidades em comentário afiado sobre o quanto comportamento, desejo e poder são condicionados por convenções arbitrárias.


Marilyn Monroe: Fragilidade e Desejo

Sugar Kane é baterista e cantora, loura, ingênua em relação aos homens, e vítima de um padrão que ela mesma reconhece e nomeia: sempre se apaixona pelos homens errados, os que usam óculos, e sempre acaba com o coração partido. A personagem foi construída como variação da Lorelei Lee, mas com uma diferença crucial: Lorelei tinha controle total sobre o efeito que produzia nos outros. Sugar não tem.

Monroe injetou em Sugar uma vulnerabilidade que o roteiro sugeria mas que a performance tornou real. A cena em que Sugar explica sua teoria sobre os homens errados, no ônibus, para as duas "mulheres" que ela acabou de conhecer é filmada com uma naturalidade que faz o espectador esquecer que está numa comédia sobre travestismo e assassinos. Por alguns minutos, o filme para completamente para deixar que uma mulher diga, sem ironia, que já foi enganada tantas vezes que perdeu a conta, e que ainda assim vai continuar tentando.


Desejo, Engano e Conveniência Moral

O filme opera num mundo onde todos mentem um pouco para sobreviver: sobre quem são, o que querem e o que esperam do outro. Wilder normaliza essas mentiras, sugerindo que a moral social é menos rígida do que finge ser, especialmente quando confrontada com afeto real.


Ritmo Perfeito, Diálogo Cortante

Formalmente, Quanto Mais Quente Melhor é aula de ritmo cômico. Os diálogos são afiados, as entradas e saídas precisas e cada situação se constrói por acúmulo lógico do absurdo. A comédia nasce da coerência interna do caos.





As filmagens e o custo do que se vê na tela

A produção de Quanto Mais Quente Melhor tornou-se parte da mitologia de Hollywood não pelo resultado, que todo mundo reconhece como extraordinário, mas pelo processo, que Wilder descreveu em entrevistas por décadas com uma mistura de exasperação e admiração involuntária.

Monroe chegava atrasada, às vezes por horas. Pedia repetições até que sentisse a cena certa, não até que tecnicamente acertasse a marca. A famosa cena em que Sugar entra na cozinha do hotel para pegar bourbon e diz "onde está o bourbon?", repetida, segundo relatos, mais de cinquenta vezes, é citada como o exemplo mais extremo: cada tomada tecnicamente correta era descartada por Monroe em favor de outra em que a sensação estivesse diferente.

O resultado de todas essas tomadas é uma cena de trinta segundos que parece completamente espontânea. O paradoxo do método de Monroe é que o esforço imenso que exigia de todo mundo ao redor servia precisamente para eliminar qualquer sinal de esforço no produto final.


O que Wilder disse sobre ela, e o que não disse

Wilder passou anos repetindo histórias sobre os atrasos e as repetições de Monroe e essas histórias se tornaram parte integrante da lenda do filme. O que raramente aparece junto nessas narrativas é o reconhecimento que ele também expressou, com menos frequência: que ninguém mais teria feito o que Monroe fez com Sugar Kane, que o resultado justificou o processo e que ele voltaria a trabalhar com ela imediatamente apesar de tudo.

A ambivalência de Wilder sobre Monroe é a mesma ambivalência da indústria inteira: reconhecimento do resultado combinado com resistência em reconhecer o método que o produziu como legítimo. Quanto Mais Quente Melhor é o filme em que essa ambivalência fica mais visível porque o resultado é irrefutável e ainda assim a narrativa dominante sobre a produção continuou sendo a dos problemas que Monroe causou, não do que ela entregou.


"Nobody's perfect" e o que significa fechar um filme assim

A última linha do filme, dita por Osgood depois que Jerry finalmente revela que é homem, é uma das mais citadas da história do cinema americano. A escolha de Wilder de fechar uma comédia sobre identidade, desejo e disfarce com uma frase que recusa qualquer conclusão definitiva sobre o que acabou de acontecer é formalmente perfeita, e foi, segundo o próprio diretor, uma solução improvisada para um problema que ele e Diamond não conseguiam resolver de outra forma.

O que "nobody's perfect" faz dentro do filme é ampliar retroativamente tudo que veio antes: ninguém é o que parece ser, ninguém age completamente de acordo com o que diz querer, e isso vale para Joe, para Jerry, para Osgood, e também, implicitamente, para Sugar, que está prestes a descobrir que o milionário por quem se apaixonou é um músico sem dinheiro usando um disfarce dentro de outro disfarce.


O Filme na História do Cinema

Lançado sob forte vigilância moral do Código Hays, Quanto Mais Quente Melhor desafiou limites sem confronto direto, usando humor e charme como armas. Hoje, é visto não apenas como grande comédia, mas como filme libertário disfarçado de farsa.


Uma Comédia Que Nunca Envelhece

O que mantém o filme vivo não é apenas o humor, mas sua recusa em julgar. Quanto Mais Quente Melhor entende que identidade é fluida, desejo é contraditório e felicidade raramente segue regras. Ao rir dessas verdades, Billy Wilder fez algo raro: uma comédia verdadeiramente humana.