SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945)
BILLY WILDER: O Cinismo como Método
Depois de saber que seu noivo multimilionário já foi casado sete vezes, a filha de um marquês sem um tostão decide domá-lo.
Dir: Ernst Lubitsch
O casamento como contrato em guerra
Lançado em 1938, A Oitava Esposa de Barba-Azul
(Bluebeard’s Eighth Wife) ocupa um lugar singular dentro da screwball
comedy. Dirigido por Ernst Lubitsch e roteirizado por Billy Wilder, o filme injeta no caos do
subgênero uma sofisticação irônica particular: menos histeria, mais cálculo;
menos colisão, mais estratégia.
Se Levada da Breca destrói a lógica masculina pelo
excesso, Lubitsch a corrói pelo refinamento.
Enredo: quando o amor nasce do contrato
O encontro já estabelece o tom do filme: intimidade,
dinheiro e poder estão indissociáveis.
O casamento acontece cedo e o conflito se instala
imediatamente. Nicole decide não consumar a união até que Michael abandone sua
postura cínica em relação às mulheres e ao matrimônio.
A mulher como estrategista
Sua imprevisibilidade não está no gesto, mas no método:
- ela
usa a recusa,
- explora
o desejo frustrado,
- transforma
o casamento em campo de barganha.
Na lógica da screwball, Nicole representa uma evolução: a
mulher que domina as regras e as vira contra o próprio sistema.
O homem rico em crise moral
Gary Cooper encarna um milionário infantilizado, incapaz de lidar com limites afetivos. Acostumado a resolver tudo com dinheiro, Michael se vê desarmado diante de alguém que se recusa a ser comprada, inclusive no casamento.
A guerra dos sexos aqui não é física nem verbalmente
explosiva: ela é psicológica e econômica.
O “toque Lubitsch”
- elipses
elegantes,
- erotismo
sugerido,
- humor
que nasce da omissão,
- crítica
social feita com leveza aparente.
Sob o Código Hays, Lubitsch transforma a ausência de sexo em
motor dramático, fazendo do quarto fechado um espaço de tensão
permanente.
Casamento como problema estrutural
A Oitava Esposa de Barba-Azul é talvez o filme que mais claramente articula um dos temas centrais da screwball comedy: o casamento como problema e não solução.
Aqui, casar expõe
desigualdades, revela relações de poder e obriga renegociações constantes.
Lugar histórico na mostra
Inserido no NÚCLEO 2 - Mulheres Imprevisíveis, Homens em Colapso da mostra SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945), o filme representa a face sofisticada e estratégica da radicalização do conflito de gênero.
Hawks aposta na destruição do homem racional. Lubitsch
aposta na sua desmontagem lenta e irônica.
Conclusão
A Oitava Esposa de Barba-Azul prova que a screwball comedy não precisa ser ruidosa para ser subversiva.
Às vezes, basta recusar o jogo e observar o sistema desmoronar sozinho. Aqui, o amor é negociação.