Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza
Edoardo Nottola, um implacável incorporador de terras napolitano e vereador eleito, consegue usar seu poder político para obter lucro pessoal em um negócio imobiliário suburbano. No entanto, após o colapso de um prédio residencial, o vereador comunista De Vita inicia uma investigação sobre a possível conexão de Nottola com o acidente.
Drama
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 7,6
87%Popcornmeter
As Mãos Sobre a Cidade (Le mani sulla città) é
um dos mais contundentes filmes políticos do cinema italiano, dirigido por Francesco
Rosi. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza
de 1963, o filme expõe, com precisão quase documental, os mecanismos de
corrupção que articulam poder público, capital privado e especulação
imobiliária.
A cidade como campo de batalha
Ambientado em Nápoles, o filme acompanha a ascensão de
Edoardo Nottola, empresário da construção civil que utiliza a política
municipal para viabilizar seus próprios interesses. Rosi desloca o drama do
indivíduo para a
estrutura urbana, tratando a cidade como espaço de
disputa econômica e simbólica. Prédios, terrenos e planos diretores tornam-se
armas; decisões administrativas, atos de violência silenciosa.
Realismo investigativo
Rosi constrói o filme como uma
investigação. A
narrativa avança por debates em câmaras municipais, comissões parlamentares,
reuniões técnicas e manchetes de jornal. O estilo — câmera sóbria, montagem
clara, atores misturados a não profissionais — aproxima a ficção do
documentário, conferindo ao filme uma autoridade crítica rara. O cinema não
comenta a política:
ele a disseca.
Poder sem caricatura
O protagonista não é vilão operístico, mas figura racional,
pragmática, perfeitamente integrada ao sistema. A corrupção não surge como
desvio individual, e sim como
método de governo. Essa escolha impede a
catarse moral: derrubar um homem não muda o mecanismo. O filme mostra como
interesses privados se legitimam por meio da legalidade e da retórica do
progresso.
Democracia sob pressão
As sessões do conselho municipal são filmadas como teatro
tenso, onde discursos, interrupções e manobras procedimentais revelam a
fragilidade da democracia quando submetida ao capital. Rosi enfatiza que o
conflito não é ideológico abstrato, mas
material: quem controla o solo
controla o futuro da cidade.
Forma e ética
A mise-en-scène é funcional e rigorosa. Rosi evita
melodrama, música enfática ou psicologização excessiva. A frieza formal é um
posicionamento ético: o filme confia na
força dos fatos. O plano final,
que recusa punição exemplar, reforça a tese central — a luta contra a corrupção
é estrutural e contínua.
Por que o Leão de Ouro
Ao premiar
As Mãos Sobre a Cidade, Veneza reconheceu:
- a
invenção de um cinema político analítico, sem concessões;
- a
coragem de confrontar interesses reais e contemporâneos;
- a
capacidade do cinema de atuar como ferramenta crítica da democracia.
👉 As Mãos Sobre a
Cidade é um filme sobre quem decide o espaço onde vivemos. Um
clássico que permanece atual por mostrar que a corrupção urbana não é exceção,
mas sistema — e que a vigilância democrática começa no chão que se constrói, se
vende e se ocupa.