Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Como o filme chegou a existir
O Príncipe Encantado nasceu de uma peça de Terence Rattigan, The Sleeping Prince, escrita originalmente para Laurence Olivier e Vivien Leigh interpretarem juntos em 1953, como celebração da coroação da Rainha Elizabeth II. Quando a peça foi adaptada para o cinema, Olivier imaginou-se como o personagem central: o Grão-Duque Karl Franz, regente fictício de um principado europeu que visita Londres para a coroação de 1911 e se envolve com Elsie Marina, uma corista americana.A Marilyn Monroe Productions entrou na produção como coprodutora, e Monroe assumiu o papel de Elsie. Era a realização de um objetivo que havia motivado parte da criação da própria produtora: ter controle suficiente sobre um projeto para escolher o tipo de trabalho dramático que a Fox continuava resistindo a oferecer. Olivier seria diretor e coprotagonista. A soma de dois prestígios tão diferentes numa mesma produção gerou expectativa considerável antes mesmo das filmagens começarem.
Dois métodos, uma sala de ensaio
Laurence Olivier representava a tradição teatral britânica em sua forma mais distilada: formação clássica, disciplina técnica, a crença de que a performance é resultado de escolhas deliberadas e ensaiadas com precisão. Paula Strasberg, professora e representante do Actors Studio que acompanhou Monroe durante toda a produção como coach pessoal, representava o oposto: a escola de interpretação que priorizava a verdade emocional interna sobre a técnica externa.O choque entre os dois métodos foi inevitável. Monroe chegava atrasada, pedia repetição após repetição, consultava Paula Strasberg entre tomadas e buscava uma verdade emocional que Olivier considerava desnecessária para o que o papel exigia. Olivier, segundo relatos da época, ficou progressivamente frustrado e sua frustração se expressou de formas que Monroe descreveu como condescendência. A pergunta que ele teria feito numa tomada, "por que você não simplesmente tenta ser sexy, querida?", circula em biografias como o símbolo do abismo entre os dois.
O método de Monroe no trabalho
O que a narrativa da produção caótica frequentemente obscurece é o resultado na tela. Elsie Marina é um personagem que exige de Monroe exatamente o que o Actors Studio havia treinado: uma ingenuidade genuína que não é burrice, uma capacidade de ser completamente presente numa cena sem sinalizar para o espectador que está atuando.As cenas em que Elsie gradualmente desequilibra o Grão-Duque, um homem acostumado a controlar todos ao redor, funcionam porque Monroe constrói Elsie como alguém que genuinamente não percebe que está fazendo isso. Não há cálculo visível na personagem, o que é tecnicamente o mais difícil de executar e o que Olivier, segundo seus próprios relatos posteriores, demorou a reconhecer que ela estava conseguindo.
O que Olivier disse depois
Décadas depois, em sua autobiografia, Olivier revisou o julgamento que havia feito durante as filmagens. Reconheceu que Monroe havia entregado algo real na tela que ele não havia conseguido prever durante o processo de produção e que o método dela, por mais frustrante que fosse de lidar nos bastidores, havia produzido resultados que o método dele não teria alcançado para aquele personagem específico.Esse reconhecimento tardio é parte do argumento que os bastidores de O Príncipe Encantado colocam em perspectiva: a condescendência que Monroe enfrentou não era só de Olivier. Era o padrão de como Hollywood e o establishment teatral britânico tratavam uma atriz que havia sido vendida como símbolo sexual e que insistia em ser levada a sério como profissional. Quando a produção era descrita como caótica, a fonte do caos identificada era sempre ela, nunca o método que ela estava tentando aplicar.
A Marilyn Monroe Productions e seus limites
O Príncipe Encantado foi o único filme produzido pela Marilyn Monroe Productions que chegou às telas. A produtora existiu como instrumento de negociação mais do que como estrutura de produção independente real, e o filme expôs os limites desse instrumento: mesmo sendo coprodutora, Monroe não tinha poder suficiente para controlar o ambiente de trabalho, a relação com o diretor ou a forma como a produção seria descrita publicamente.A bilheteria foi modesta. A crítica foi dividida. E o filme ficou conhecido, por décadas, menos pelo que Monroe fez na tela e mais pelo que Olivier disse sobre as filmagens.
O que o filme deixou
O Príncipe Encantado é hoje revisitado com mais generosidade do que recebeu na época e a performance de Monroe é frequentemente apontada como o elemento mais vivo de uma produção que envelhece de forma desigual. O Grão-Duque de Olivier é competente e elegante e está sempre claramente sendo atuado. Elsie de Monroe é imprevisível e parece estar simplesmente existindo numa tarde de domingo em Londres.A distância entre as duas performances na tela é a mesma distância que havia nos bastidores entre os dois atores e a ironia é que o método que Olivier tratou com condescendência foi o que produziu o personagem mais memorável do filme que ele dirigiu.