Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Patrick Bateman tem o cartão de visitas mais branco, a rotina matinal mais precisa e o emprego mais vazio de Wall Street. Ninguém percebe quando ele começa a matar.
A adaptação que ninguém esperava
Bret Easton Ellis publicou American Psycho em 1991 e o livro foi recebido com uma controvérsia que ofuscou qualquer discussão sobre o que o romance realmente fazia. As descrições gráficas de violência dominaram a recepção e a sátira ao consumismo e ao vazio moral de Wall Street ficou em segundo plano. Mary Harron, diretora que havia feito I Shot Andy Warhol, assumiu o projeto depois de anos de tentativas frustradas de outros diretores e escreveu o roteiro com Guinevere Turner com uma decisão central: o filme seria uma comédia. Uma comédia sobre horror, mas comédia.Essa escolha é o que separa o filme do livro de forma mais decisiva. Harron entendeu que a violência de Bateman só fazia sentido como sátira se o filme não a tratasse com o peso que um thriller convencional exigiria. O resultado incomodou parte do público que esperava terror direto e surpreendeu quem esperava apenas violência gratuita.
Christian Bale e a superfície perfeita
Christian Bale interpreta Bateman com uma precisão que o tornou, anos depois, o elemento mais celebrado do filme, mas que na época não recebeu o reconhecimento que merecia. Bateman é um homem sem interior reconhecível. Tem rotina de skincare mais elaborada que qualquer outro personagem do filme, tem opiniões fortes sobre cartões de visita e referências musicais que recita como quem lê um roteiro preparado, e não tem nada por trás disso.Bale construiu a performance estudando apresentadores de televisão e personalidades públicas que projetam uma confiança vazia, sem substância emocional real. O sorriso de Bateman é o elemento mais assustador do filme porque é genuíno e ao mesmo tempo completamente performático. Não há contradição nisso. É exatamente o ponto.
Wall Street como ecossistema de indistinção
O filme se passa em 1987, no ápice do boom financeiro americano, e a sátira mais afiada de Harron não está em Bateman individualmente, mas no ambiente que o produziu e que o protege. Os colegas de Bateman são intercambiáveis. Eles confundem uns aos outros constantemente, trocam de identidade sem perceber, competem por reservas em restaurantes e por cartões de visita com a mesma intensidade emocional que dedicariam a qualquer coisa que importasse.A cena dos cartões de visita é o momento que melhor resume o filme. Quatro homens comparam pedaços de papel com tipografia e textura levemente diferentes e a tensão na cena é genuína, ridícula e reveladora ao mesmo tempo. Num mundo onde a diferença entre as pessoas é medida por detalhes assim, um assassino serial pode operar sem ser notado porque ninguém está prestando atenção suficiente em ninguém para notar qualquer coisa.
O final e a ambiguidade que divide
O terceiro ato de American Psycho introduz uma ambiguidade que o filme nunca resolve: os crimes de Bateman aconteceram de fato, ou são fantasias de um homem que perdeu completamente a noção entre o que faz e o que imagina fazer? O advogado que deveria ter recebido a confissão de Bateman não reconhece o nome da vítima, o apartamento onde os corpos deveriam estar está limpo e à venda, e o próprio Bateman termina o filme sem punição e sem resolução.Harron filma essa ambiguidade sem indicar qual leitura é a correta, e essa recusa é o argumento final do filme. Não importa se os crimes aconteceram literalmente. O que importa é que, num sistema como aquele, a diferença entre cometer os crimes e poder cometê-los sem consequência é irrelevante. Bateman termina o filme dizendo que sua confissão não significou nada e o filme concorda com ele.
O que o tempo revelou
American Psycho foi recebido em 2000 como uma sátira competente mas secundária, ofuscada pela controvérsia em torno da fonte literária. Duas décadas e meia depois, o filme se tornou um dos textos mais citados sobre masculinidade tóxica, vazio corporativo e a estética específica do final dos anos 1980, recuperado por gerações que nunca leram Ellis e que reconhecem em Bateman algo que continua circulando.A ironia é que o filme satiriza um tipo de homem que a internet, décadas depois, em parte passou a admirar sem ironia. Harron filmou Bateman como aviso. Parte do público que descobriu o filme depois o leu como modelo. Essa distância entre intenção e recepção é, talvez, a prova mais contundente de que a sátira continua precisa.