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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Celebridades (1998) Celebrity - 1 h 53 min - 1 h 53 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

 O destino de marido e mulher difere drasticamente após o divórcio.


Sátira, Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,3   METASCORE: 4,2
43%Tomatometer42 Reviews   42%Popcornmeter


Celebridades é um dos filmes mais ácidos, cínicos e autoconscientes de Woody Allen. Filmado em preto e branco e ambientado no universo da mídia, da fama e do jornalismo cultural, o longa funciona como uma sátira cruel do desejo contemporâneo de reconhecimento, revelando um mundo em que visibilidade substitui valor e notoriedade ocupa o lugar da identidade.

A fama como fim em si mesma

O filme acompanha Lee Simon, um escritor fracassado que abandona o casamento e mergulha no circuito das celebridades na esperança de se reinventar. Diferente dos protagonistas românticos ou intelectuais do Allen clássico, Lee não busca amor, sentido ou verdade — ele quer ser alguém, mesmo que isso signifique esvaziar qualquer conteúdo.

Allen retrata a fama não como consequência de talento, mas como sistema autônomo, regido por acaso, exposição e autopromoção. O sucesso não precisa ser sustentado; basta circular.



Preto e branco como distanciamento moral

A escolha estética do preto e branco não é nostálgica, mas crítica. Ela confere ao filme um ar quase documental, frio, que retira glamour das situações e expõe o vazio por trás do brilho midiático. Tudo parece elegante — e simultaneamente oco.

A fotografia reforça a ideia de que o mundo das celebridades é visualmente sedutor, mas eticamente dessaturado.




Dois destinos opostos

O contraste entre Lee e sua ex-esposa Robin é fundamental. Enquanto ele afunda em oportunismo e ressentimento, Robin encontra reconhecimento profissional e equilíbrio emocional. Allen subverte expectativas: o personagem que “quer vencer” fracassa; aquele que age com integridade prospera sem alarde.

Não se trata de moralismo simples, mas de ironia estrutural: quem persegue obsessivamente a fama perde a si mesmo; quem não a persegue pode encontrá-la — ou algo melhor.



Aparições como caricaturas do mundo real


O desfile de figuras públicas e tipos exagerados não busca realismo psicológico. São caricaturas conscientes, que expõem o absurdo do ecossistema midiático. O filme não critica indivíduos específicos, mas um modo de vida em que tudo vira performance.

Allen sugere que, nesse ambiente, não há espaço para interioridade — apenas para personagens em eterna autopropaganda.

Masculinidade ressentida


Lee Simon é um dos protagonistas mais antipáticos de Woody Allen. Inseguro, invejoso e narcisista, ele representa uma masculinidade ferida que culpa o mundo pelo próprio fracasso. Seu colapso não é causado por injustiça externa, mas por incapacidade de aceitar limites.

Ao contrário de outros filmes, aqui Allen não oferece empatia nem humor compensatório: Lee é observado com frieza quase clínica.

Um filme sem redenção

O desfecho de Celebridades é deliberadamente amargo. Não há aprendizado transformador nem reconciliação moral. O mundo da fama segue intacto, e Lee permanece prisioneiro de sua mediocridade — agora mais evidente.

Allen reafirma uma de suas ideias mais duras:

o fracasso não é trágico; trágico é confundi-lo com injustiça.




Síntese final

Celebridades é um retrato impiedoso da cultura da visibilidade. Um filme que antecipa, com lucidez desconfortável, o mundo das redes sociais, do branding pessoal e da fama sem obra.

Na filmografia de Woody Allen, ocupa um lugar singular:
menos querido, menos engraçado, mas profundamente premonitório. Um cinema que abandona a nostalgia e a neurose romântica para afirmar, com frieza, que no mundo moderno ser visto importa mais do que ser alguém — e que esse talvez seja o verdadeiro escândalo.

 

 

Trapaceiros (2000) Small Time Crooks - 1 h 34 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Um ladrão planeja roubar um banco com a ajuda de sua esposa. Eles montam um negócio de fachada e criam um túnel que os leve até o cofre. Entretanto, o que era para ser somente um disfarce se torna um negócio de sucesso na cidade.


Comédia, Crime


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,7   METASCORE: 6,9
66%Tomatometer99 Reviews   57%Popcornmeter


Trapaceiros marca o retorno deliberado de Woody Allen à comédia farsesca, após uma sequência de filmes mais sombrios e introspectivos nos anos 1990. Inspirado no humor físico, na caricatura social e na tradição do slapstick, o filme aposta numa ideia simples e irresistível: o crime pode falhar — mas o sucesso pode ser ainda mais desastroso.

Criminosos incompetentes, sucesso acidental

Ray Winkler é um ladrão de pequeno porte, cheio de planos mirabolantes e absolutamente ineficazes. Ao tentar assaltar um banco cavando um túnel, ele monta como fachada uma loja de biscoitos comandada por sua esposa. O golpe fracassa, mas a loja vira um sucesso estrondoso.

A inversão é central: o crime não dá certo; o acaso, sim. Allen reforça sua tese recorrente de que o mundo não obedece à lógica do mérito, da inteligência ou do esforço — ele recompensa o erro.



Ascensão social como farsa

Com o dinheiro inesperado, o casal ascende socialmente. Mas o filme não celebra essa vitória: ao contrário, transforma a ascensão em fonte de ridículo e humilhação. A riqueza expõe a ignorância cultural, o vazio simbólico e a ansiedade por pertencimento.

Allen satiriza a elite intelectual e artística com o mesmo prazer com que ridiculariza os novos ricos. Ninguém escapa: o dinheiro não compra gosto, inteligência nem identidade.



Casamento como campo de batalha cômico

A relação entre Ray e Frenchy é construída como duelo permanente. Eles se amam, mas falam línguas sociais diferentes. O sucesso não os aproxima — acentua suas diferenças.

O filme transforma o casamento em arena de conflito cômico, onde poder econômico, ambição cultural e ressentimento pessoal se misturam de forma explosiva.


Nova York caricatural


A cidade aparece como espaço de contrastes: do subúrbio modesto aos salões sofisticados da alta cultura. Allen abandona qualquer idealização poética de Manhattan e opta por uma Nova York grotesca, funcional para o riso e a crítica social.

Aqui, a cidade não é melancolia nem mito — é tabuleiro de ambições ridículas.



Humor físico e tradição clássica

Trapaceiros se ancora no humor visual, nos exageros de interpretação e nas situações absurdas. É um filme que deve mais aos irmãos Marx e à comédia muda do que ao Allen intelectual de Annie Hall.

Esse retorno não é regressivo: é consciente e estratégico. Allen prova que domina o riso primário com a mesma habilidade que o ensaio filosófico.




Uma moral às avessas

Ao final, Trapaceiros não propõe redenção nem aprendizado profundo. A lição é irônica e cruel:

o mundo não premia virtude nem pune ignorância — apenas se diverte com o resultado.

Allen desmonta o sonho americano sem amargura trágica, optando pela gargalhada como forma de crítica.




Síntese final

Trapaceiros é uma comédia anárquica sobre dinheiro, classe e ilusão. Um filme que afirma, rindo alto, que o sucesso pode ser tão destrutivo quanto o fracasso — e muito mais constrangedor.

Na obra de Woody Allen, ocupa o lugar da farsa social plena:
menos sofisticada, mais popular, mas profundamente coerente com sua visão de mundo. Afinal, se tudo é absurdo, rir talvez seja a única resposta inteligente.

 


domingo, 4 de janeiro de 2026

Melinda e Melinda (2004) Melinda and Melinda - 1 h 39 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Duas histórias alternadas, uma comédia e uma tragédia, sobre as tentativas de Melinda de endireitar sua vida.


Comédia, Drama, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,4   METASCORE: 5,4
52%Tomatometer153 Reviews   47%Popcornmeter


Melinda e Melinda é um dos filmes mais conceituais e auto-reflexivos de Woody Allen. Estruturado como um experimento narrativo, o longa parte de uma pergunta simples e fundamental para toda a obra do diretor:
👉 a vida é essencialmente trágica ou cômica?

Allen não responde teoricamente — ele encena a questão.

Um mesmo ponto de partida, dois filmes

A narrativa se organiza a partir de um prólogo em que dois dramaturgos discutem se uma mesma história pode ser contada como comédia ou tragédia. A partir daí, o filme se divide em duas versões paralelas da história de Melinda, interpretada por Radha Mitchell.

O ponto inicial é idêntico: Melinda surge inesperadamente num jantar, carregando um passado amoroso turbulento. A partir desse evento, o filme se bifurca:

  • numa linha cômica, marcada por leveza, coincidências e reconciliações;
  • e numa linha trágica, dominada por solidão, fracasso e sofrimento emocional.

Comédia: o acaso como salvação


Na versão cômica, os acontecimentos — ainda que problemáticos — são suavizados pelo tom, pelo timing e pelo humor. O acaso aqui é benevolente: encontros improváveis se transformam em oportunidades, erros são corrigidos, e a vida encontra um modo de continuar.

Allen sugere que, sob a lente da comédia, o mundo parece mais suportável, mesmo quando nada muda essencialmente.



Tragédia: o acaso como indiferença


Na versão trágica, os mesmos elementos produzem efeitos opostos. O acaso não ajuda — ele abandona. Os personagens não conseguem se ajustar, os relacionamentos fracassam e o sofrimento se acumula sem recompensa.

Aqui, Allen se aproxima do seu cinema mais sombrio: não há aprendizado edificante, apenas desgaste emocional.



Melinda como personagem-condição

Mais do que indivíduo psicológico detalhado, Melinda funciona como figura conceitual: ela é o ponto onde a narrativa incide. Sua personalidade se molda ao gênero que a envolve, reforçando a tese do filme:

não é apenas o que acontece que define a vida, mas como ela é narrada e percebida.





Teatro, literatura e autorreflexão


O filme dialoga intensamente com o teatro e com a própria carreira de Allen. A divisão estrutural, os diálogos verbais e a autoconsciência formal revelam um cineasta interessado menos em contar uma história “realista” e mais em pensar o cinema como forma.

Melinda e Melinda é, nesse sentido, um filme sobre o ato de contar histórias.




Humor e melancolia equilibrados


Diferente de Match Point, feito no ano seguinte, aqui Allen ainda mantém um equilíbrio delicado entre humor e tristeza. Não há a crueldade radical do thriller moral, nem a leveza pura da comédia romântica. O filme habita um território intermediário, reflexivo e elegante.

Síntese final

Melinda e Melinda é um ensaio cinematográfico sobre gênero, acaso e percepção. Um filme que propõe que a vida pode ser lida como comédia ou tragédia — e que talvez a diferença esteja menos nos fatos do que no olhar.

Na obra de Woody Allen, ocupa um lugar singular:
menos emocionalmente envolvente do que seus grandes dramas, menos engraçado do que suas comédias clássicas, mas intelectualmente revelador. Um filme que expõe, com clareza rara, a engrenagem moral e estética por trás de todo o seu cinema.

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domingo, 5 de outubro de 2025

Os Últimos Passos de um Homem (1995) Dead Man Walking - 2 h 2 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 2


Dir: Tim Robbins
Crime Verdadeiro, Drama Jurídico, Drama Psicológico

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 8,0
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 79
97%Tomatometer60 Reviews

Matthew Poncelet vai ser executado. A irmã Helen decidiu que ele não vai morrer sozinho.

O livro e como chegou ao cinema

Susan Sarandon encontrou o livro de memórias da irmã Helen Prejean enquanto filmava O Cliente em Nova Orleans em 1994. Fez do projeto sua missão pessoal: levou algum tempo para convencer o então marido Tim Robbins a ler e adaptar o livro, mas finalmente conseguiu.

O filme foi produzido com orçamento de 11 milhões de dólares e arrecadou 83 milhões mundialmente. Recebeu quatro indicações ao Oscar: Sarandon venceu Melhor Atriz, Penn foi indicado a Melhor Ator, Robbins a Melhor Direção e Bruce Springsteen a Melhor Canção Original por Dead Man Walkin'. Penn venceu o Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim.

Tim Robbins e a escolha de não tomar partido

Tim Robbins escreveu e dirigiu Os Últimos Passos de um Homem com uma disciplina que é o gesto mais importante do filme: recusou fazer um argumento sobre pena de morte. O que fez foi filmar todas as partes com a mesma atenção e a mesma humanidade, e deixar que o espectador chegasse às próprias conclusões.

Matthew Poncelet é baseado em dois condenados reais, Elmo Patrick Sonnier e Robert Lee Willie, que a irmã Helen Prejean acompanhou no corredor da morte da Louisiana. O que Robbins filma é simultaneamente o crime que Poncelet cometeu, com toda a sua brutalidade, e a pessoa que existe além do crime, com toda a sua complexidade. As famílias das vítimas aparecem com o mesmo tempo e a mesma atenção que Poncelet e Helen. Não há hierarquia moral explícita: o filme mostra o que cada pessoa carrega e deixa que o espectador decida o que fazer com isso.

Essa recusa de resolver é o que torna Os Últimos Passos de um Homem extraordinário dentro do gênero. A maioria dos filmes sobre pena de morte toma partido de forma declarada ou implícita. Robbins filmou o argumento contrário ao seu próprio: um homem que cometeu um crime horrível, que o admite apenas no final, e cuja execução o filme mostra sem a catarse que o gênero normalmente oferece.

Susan Sarandon e a irmã Helen Prejean

Sarandon ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Atriz após quatro indicações anteriores. Em entrevista ao programa Oprah's Master Class, disse: "Quando terminei o livro, sabia que a pena de morte era errada por tantas razões. A irmã Helen é um grande exemplo de pessoa religiosa que ama do jeito que Cristo amava, porque uma pessoa é maior do que seu pior ato." 

O que Sarandon faz com Helen Prejean é construir uma mulher que não é uma santa. Helen comete erros de julgamento, é ingênua em alguns momentos, tem dificuldade em equilibrar a compaixão por Poncelet com a compaixão pelas famílias das vítimas. Essa imperfeição é o que torna a performance crível: Helen é uma pessoa que está fazendo o melhor que pode numa situação para a qual nenhum treinamento poderia preparar completamente.

A frase que Helen diz a Poncelet momentos antes da execução, que quer ser o rosto do amor que ele vê por último no mundo, é o momento mais preciso do filme e onde Sarandon está no melhor da carreira: a declaração é ao mesmo tempo religiosa e humana, generosa e devastadora, e Sarandon a entrega com uma simplicidade que recusa qualquer sentimentalismo.

Sean Penn e Matthew Poncelet

Sean Penn construiu Poncelet a partir dos registros reais dos dois homens que inspiraram o personagem, incluindo gravações de voz e fotografias. O resultado é um personagem que não pede a simpatia do espectador e que o espectador vai dando assim mesmo, gradualmente, à medida que o filme revela as camadas por baixo da arrogância defensiva.

Penn foi indicado ao Oscar e perdeu para Nicolas Cage em Leaving Las Vegas. A comparação não é justa nem injusta: são dois tipos completamente diferentes de performance, e o que Penn faz em Poncelet, a contenção que vai cedendo apenas no final, é tecnicamente mais difícil do que o que o Oscar frequentemente premia.

Roger Deakins e a fotografia

A fotografia é de Roger Deakins, que havia filmado Fargo com os Coen Brothers no mesmo período. Deakins usa a Louisiana, seus tons quentes e sua luz específica, para criar um ambiente que é simultaneamente belo e sufocante. O corredor da morte é filmado com uma clareza que recusa a estética sombria que o gênero normalmente usa: é um lugar bem iluminado, funcional, onde pessoas trabalham todos os dias. Essa normalidade é mais perturbadora do que qualquer dramatização.

O legado

Após o sucesso do filme, Tim Robbins reescreveu o roteiro como peça teatral para uso em escolas e faculdades. O alcance pedagógico de Os Últimos Passos de um Homem vai além do cinema: é um dos poucos filmes que mudou a forma como pessoas pensam sobre um tema específico sem precisar argumentar diretamente sobre esse tema.



Clique aqui para saber onde assistir. Um filme para assistir quando você quer pensar sobre algo difícil sem que alguém te diga o que pensar.

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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Moonrise Kingdom (2012) - 1 h 34 min

WES ANDERSON: Pequenos Mundos, Grandes Sentimentos

Decorrendo numa ilha ao largo da costa de Nova Inglaterra, no verão de 1965, Moonrise Kingdom conta a história de dois jovens, com 12 anos, que se apaixonam, fazem um pacto secreto e fogem juntos para um lugar selvagem. Enquanto as diversas autoridades locais os tentam encontrar, uma violenta tempestade irrompe e a pacífica comunidade da ilha fica, a todos os níveis, virada do avesso.


Moonrise Kingdom (2012) - IMDb
Dir: Wes Anderson
Amadurecimento, Comédia Peculiar, Comédia Romântica, Romance Alegre, Aventura, Drama, Fantasia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 8,4
Flick Metrix: 83   Criticker Average Percentile: 66%
93%Tomatometer270 Reviews   86%Popcornmeter

Fugir do mundo é, às vezes, a única forma de inventar um lugar onde seja possível existir.

A Infância como Território de Intensidade Absoluta

Em Moonrise Kingdom (2012), Wes Anderson retorna à infância não como nostalgia, mas como estado emocional radical. Sam e Suzy não são apenas crianças — são sujeitos que experienciam o mundo com uma intensidade que os adultos já não conseguem sustentar. Seu amor não é ingênuo, mas urgente, quase necessário para sobreviver a um ambiente que os rejeita. Anderson constrói, assim, uma infância que não é preparação para a vida adulta, mas um momento de verdade absoluta.


A Ilha como Mundo Possível

A fuga dos protagonistas transforma a ilha em um espaço simbólico — um território onde novas regras podem ser inventadas. Ao mesmo tempo em que o ambiente é cuidadosamente controlado pela mise-en-scène (com simetria, paleta cromática e composição rigorosa), ele representa uma abertura: um lugar onde os personagens podem, ainda que temporariamente, existir fora das expectativas sociais. Anderson cria um paradoxo visual e narrativo — um mundo altamente organizado que abriga um gesto de ruptura.


Adultos Perdidos, Crianças Lúcidas


Enquanto Sam e Suzy parecem determinados e conscientes de seus desejos, os adultos ao redor surgem desorientados, emocionalmente bloqueados ou incapazes de comunicação. Anderson inverte a lógica tradicional: são as crianças que possuem clareza, enquanto os adultos habitam um estado de confusão. Essa inversão não idealiza a infância, mas revela a perda progressiva de sensibilidade ao longo da vida.


Entre o Lúdico e o Melancólico

O filme equilibra humor, aventura e melancolia com precisão delicada. Há elementos lúdicos — uniformes, mapas, objetos — que remetem ao universo infantil, mas sempre atravessados por uma sensação de solidão e inadequação. O riso surge, mas nunca apaga a consciência de que aquele momento é transitório. A tempestade que se aproxima funciona não apenas como evento narrativo, mas como metáfora da inevitável transformação.


Leitura Crítica: Amar como Ato de Resistência


Moonrise Kingdom
é um dos filmes mais emocionalmente diretos de Anderson, sem abrir mão de seu rigor formal. Para alguns espectadores, a estilização pode parecer excessiva; para outros, é justamente ela que torna possível acessar a intensidade do vínculo entre os protagonistas. Ao final, o filme sugere que amar — mesmo de forma imperfeita e precoce — é um ato de resistência contra um mundo que tende a normalizar a solidão.