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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Anjo do Mal (1953) Pickup on South Street - 1 h 20 min

Um batedor de carteira acaba roubando sem querer um microfilme contendo informação ultrassecreta e passa a ser alvo de agentes do governo e de espiões estrangeiros.


Anjo do Mal (1953) - IMDb
Dir: Samuel Fuller
Film Noir, Crime, Drama, Mistério, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6
93%Tomatometer40 Reviews   89%Popcornmeter


Anjo do Mal (1953): O Submundo, a Guerra Fria e a Redenção Improvável

Dirigido por Samuel Fuller, Anjo do Mal (Pickup on South Street) é um film noir duro, vibrante e politicamente carregado, que combina a energia crua do cinema de Fuller com uma história de espionagem, crime e sobrevivência nas margens da sociedade americana. Trata-se de um noir que troca o glamour dos detetives tradicionais por uma visão íntima e brutal do submundo urbano — onde pequenos batedores de carteira, informantes marginais e mulheres sem futuro travam batalhas silenciosas contra forças maiores do que elas.

O protagonista é Skip McCoy (Richard Widmark), um batedor de carteiras habilidoso que, ao roubar a bolsa de uma jovem no metrô, sem saber se envolve em uma trama de espionagem envolvendo microfilmes secretos e agentes comunistas. A vítima do roubo, Candy (Jean Peters), é uma mulher simples, vulnerável e emocionalmente presa a um criminoso que a explora. Quando descobre que o objeto furtado contém material valioso e perigoso, Skip não pensa em ideologia — pensa em lucro. Mas à medida que as forças policiais e agentes estrangeiros se aproximam, Skip e Candy são obrigados a escolher entre sobrevivência e solidariedade.


Um noir moldado pela Guerra Fria — mas sem propaganda

O filme foi produzido em pleno auge do macartismo, e embora envolva espionagem e comunismo, Fuller evita transformá-lo em peça de propaganda. Para Skip e Candy, os conflitos geopolíticos são irrelevantes: eles não se veem como patriotas ou traidores, apenas como pessoas tentando viver em um mundo que já os descartou.

Essa abordagem faz do filme uma crítica social sutil:
a verdadeira luta não é entre nações, mas entre os que têm poder e os que lutam para sobreviver.


Richard Widmark: charme áspero e moralidade ambígua

Widmark entrega uma de suas performances mais icônicas, combinando cinismo, arrogância e uma surpreendente capacidade de ternura. Skip McCoy é um criminoso que não acredita em nada — polícia, Estado, patriotismo ou amor — até ser confrontado pela fragilidade genuína de Candy e pela coragem silenciosa de Moe.


Candy: vulnerabilidade e força

Interpretada por Jean Peters, Candy é uma das personagens femininas mais emocionantes do noir dos anos 50. Ela é:
  • ferida,
  • manipulada,
  • carente
Mas capaz de um amor profundo e de coragem transformadora.

Sua trajetória no filme é uma das mais dramáticas do período, movida não por sedução ou ambição, mas por uma dignidade que Fuller trata com enorme respeito.


Moe Williams: o coração do filme

A personagem Moe, interpretada com maestria por Thelma Ritter — que recebeu indicação ao Oscar — é a alma moral da história. Vendedora de informações, vivendo na miséria, ela representa a ternura e a decência escondidas no submundo. Sua cena final é uma das mais emocionantes e dolorosas do noir, um momento em que a dignidade humana surge com força num mundo marcado por brutalidade.


A estética crua e muscular de Samuel Fuller

Fuller, ex-repórter policial e veterano de guerra, filma com autenticidade e impacto:

  • câmera próxima demais dos rostos, capturando suor e nervosismo;
  • planos curtos e agressivos, que lembram fotografias de tabloides;
  • arruamentos estreitos e ambientes decadentes, que refletem precariedade;
  • violência seca e direta, filmada sem glamour.

A Nova York do filme é suja, claustrofóbica e pulsante — um terreno perfeito para o noir que Fuller queria construir.


Redenção como escolha — e não como milagre

O arco dramático de Skip McCoy é um dos mais potentes do cinema noir tardio. Ele não se torna herói por ideologia ou epifania moral, mas porque:

  • encontra uma mulher que o faz querer ser melhor,
  • percebe que ainda há algo pelo qual vale lutar,
  • e entende, finalmente, que ninguém sobrevive sozinho.

É uma redenção melancólica, sem grandiloquência, típica de Fuller: a humanidade se revela nos cantos mais escuros.


Conclusão

Anjo do Mal é um noir cru, firme e profundamente humano, que combina espionagem da Guerra Fria com a realidade dos excluídos urbanos. Com direção precisa, personagens complexos e uma das figuras mais comoventes do gênero (Moe), o filme revela o talento singular de Samuel Fuller e a capacidade do noir de refletir tensões sociais reais.

Um clássico indispensável — tenso, emotivo e eternamente atual.