Um batedor de carteira acaba roubando sem querer um microfilme contendo informação ultrassecreta e passa a ser alvo de agentes do governo e de espiões estrangeiros.
Anjo do Mal (1953): O Submundo, a Guerra Fria e a
Redenção Improvável
Dirigido por Samuel Fuller, Anjo do Mal (Pickup
on South Street) é um film noir duro, vibrante e politicamente carregado,
que combina a energia crua do cinema de Fuller com uma história de espionagem,
crime e sobrevivência nas margens da sociedade americana. Trata-se de um noir
que troca o glamour dos detetives tradicionais por uma visão íntima e brutal do
submundo urbano — onde pequenos batedores de carteira, informantes marginais e
mulheres sem futuro travam batalhas silenciosas contra forças maiores do que
elas.
O protagonista é Skip McCoy (Richard Widmark), um
batedor de carteiras habilidoso que, ao roubar a bolsa de uma jovem no metrô,
sem saber se envolve em uma trama de espionagem envolvendo microfilmes secretos
e agentes comunistas. A vítima do roubo, Candy (Jean Peters), é uma
mulher simples, vulnerável e emocionalmente presa a um criminoso que a explora.
Quando descobre que o objeto furtado contém material valioso e perigoso, Skip
não pensa em ideologia — pensa em lucro. Mas à medida que as forças policiais e
agentes estrangeiros se aproximam, Skip e Candy são obrigados a escolher entre
sobrevivência e solidariedade.
Um noir moldado pela Guerra Fria — mas sem propaganda
O filme foi produzido em pleno auge do macartismo, e embora
envolva espionagem e comunismo, Fuller evita transformá-lo em peça de
propaganda. Para Skip e Candy, os conflitos geopolíticos são irrelevantes: eles
não se veem como patriotas ou traidores, apenas como pessoas tentando viver em
um mundo que já os descartou.
Essa abordagem faz do filme uma crítica social sutil:
a verdadeira luta não é entre nações, mas entre os que têm poder e os que
lutam para sobreviver.
Richard Widmark: charme áspero e moralidade ambígua
Widmark entrega uma de suas performances mais icônicas,
combinando cinismo, arrogância e uma surpreendente capacidade de ternura. Skip
McCoy é um criminoso que não acredita em nada — polícia, Estado, patriotismo ou
amor — até ser confrontado pela fragilidade genuína de Candy e pela coragem
silenciosa de Moe.
Candy: vulnerabilidade e força
- ferida,
- manipulada,
- carente
Sua trajetória no filme é uma das mais dramáticas do
período, movida não por sedução ou ambição, mas por uma dignidade que Fuller
trata com enorme respeito.
Moe Williams: o coração do filme
A personagem Moe, interpretada com maestria por Thelma
Ritter — que recebeu indicação ao Oscar — é a alma moral da história.
Vendedora de informações, vivendo na miséria, ela representa a ternura e a
decência escondidas no submundo. Sua cena final é uma das mais emocionantes e
dolorosas do noir, um momento em que a dignidade humana surge com força num
mundo marcado por brutalidade.
A estética crua e muscular de Samuel Fuller
Fuller, ex-repórter policial e veterano de guerra, filma com
autenticidade e impacto:
- câmera
próxima demais dos rostos, capturando suor e nervosismo;
- planos
curtos e agressivos, que lembram fotografias de tabloides;
- arruamentos
estreitos e ambientes decadentes, que refletem precariedade;
- violência
seca e direta, filmada sem glamour.
A Nova York do filme é suja, claustrofóbica e pulsante — um
terreno perfeito para o noir que Fuller queria construir.
Redenção como escolha — e não como milagre
O arco dramático de Skip McCoy é um dos mais potentes do
cinema noir tardio. Ele não se torna herói por ideologia ou epifania moral, mas
porque:
- encontra
uma mulher que o faz querer ser melhor,
- percebe
que ainda há algo pelo qual vale lutar,
- e
entende, finalmente, que ninguém sobrevive sozinho.
É uma redenção melancólica, sem grandiloquência, típica de
Fuller: a humanidade se revela nos cantos mais escuros.
Conclusão
Anjo do Mal é um noir cru, firme e profundamente
humano, que combina espionagem da Guerra Fria com a realidade dos excluídos
urbanos. Com direção precisa, personagens complexos e uma das figuras mais
comoventes do gênero (Moe), o filme revela o talento singular de Samuel Fuller
e a capacidade do noir de refletir tensões sociais reais.
Um clássico indispensável — tenso, emotivo e eternamente
atual.