Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York
Um descendente de Shakespeare tenta restaurar suas peças em um mundo que está se reconstruindo após a catástrofe de Chernobyl destruir a maior parte da civilização humana.
Rei Lear (1987) - IMDbDir: Jean-Luc Godard
Comédia, Drama, Ficção Científica
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 5,5 METASCORE: 5,0
Rei Lear (1987) é uma das obras mais radicais,
herméticas e provocadoras do cinema moderno. Dirigido por Jean-Luc
Godard e com participação de Woody Allen no elenco, o filme não é
uma adaptação convencional de Shakespeare, mas uma desconstrução violenta da
própria ideia de adaptação, narrativa e cultura ocidental.
Aqui, Shakespeare é apenas o ponto de partida — e talvez nem
isso.
Não um Shakespeare filmado, mas um Shakespeare em ruínas
Godard não
encena
King Lear. Ele o
fragmenta, o dispersa, o reduz a
vestígios. O texto shakespeariano aparece como citação quebrada, eco distante,
ruína linguística num mundo pós-catástrofe cultural.
O filme se passa num tempo indefinido, após uma crise
simbólica que teria destruído a herança artística do Ocidente. O que resta de
Shakespeare são restos, pedaços mal compreendidos, nomes, gestos, sons.
Godard não pergunta “como filmar Shakespeare?”, mas:
👉
o que sobra da cultura depois que ela perde o sentido?
Woody Allen como figura da impotência intelectual
Woody Allen interpreta Mr. Alien (trocadilho explícito com
“Allen”), um intelectual confuso, impotente, incapaz de compreender plenamente
o legado cultural que tenta preservar. Diferente de seus personagens
verborrágicos e neuróticos, aqui Allen é
hesitante, opaco, quase mudo.
Sua presença não serve como alívio cômico. Ao contrário: ele
encarna o intelectual liberal deslocado, perdido num mundo onde
referências já não organizam a experiência. É o homem da palavra diante da
falência da linguagem.
Nesse sentido, o papel de Allen funciona como comentário
crítico sobre o próprio intelectualismo moderno.
Linguagem em colapso
Em
Rei Lear, a linguagem não comunica —
colide.
Vozes se sobrepõem, frases são interrompidas, palavras surgem fora de contexto.
A trilha sonora invade o diálogo, a imagem contradiz o som.
Godard encena a impossibilidade de sentido contínuo.
O espectador não deve “entender” o filme, mas experimentar a fratura entre
imagem, palavra e significado.
É um cinema contra a fluidez narrativa, contra o conforto da
interpretação.
Shakespeare como pretexto político
A tragédia de Lear — pai, poder, herança, divisão — aparece
deslocada para um mundo em que o poder já não tem forma clara. Não há reis no
sentido clássico; há
resíduos de autoridade, ecos de dominação.
Godard transforma Lear numa meditação sobre:
- o
colapso da autoridade paterna,
- a
falência da tradição,
- a
mercantilização da cultura,
- a
herança impossível do passado.
Cinema como campo de batalha
O filme é também um ensaio sobre o
fim do cinema clássico.
Godard desmonta continuidade, representação e identificação. A imagem já não
serve para contar histórias — serve para
pensar contra si mesma.
Nesse sentido, Rei Lear dialoga menos com Shakespeare
do que com a própria história do cinema, interrogando se ainda é possível criar
significado num mundo saturado de imagens.
Um filme hostil por escolha
Rei Lear é deliberadamente difícil. Ele rejeita o
espectador passivo, o prazer narrativo, a emoção organizada. Trata-se de um
cinema de
confronto, não de acolhimento.
Essa hostilidade é ética: Godard recusa transformar
Shakespeare em produto cultural “consumível”. Prefere destruí-lo para
perguntar por que ainda precisamos dele.
O contraste com o cinema de Woody Allen
A presença de Woody Allen torna o projeto ainda mais
revelador. Enquanto Allen, como diretor, busca clareza temática e comunicação
com o público, Godard faz exatamente o oposto:
sabota a comunicação.
O encontro entre os dois não é conciliação — é fricção.
Allen aparece como corpo estranho num cinema que rejeita tudo aquilo que ele,
tradicionalmente, representa: narrativa, diálogo, identificação.
Síntese final
Rei Lear (1987) é menos um filme e mais um
campo
de escombros culturais. Um ensaio brutal sobre a falência da linguagem, da
tradição e da própria ideia de adaptação.
Na obra de Jean-Luc Godard, ele ocupa um lugar extremo:
um gesto de negação radical, onde Shakespeare é reduzido a ruído — e o cinema,
a pergunta sem resposta.
A presença de Woody Allen não suaviza o impacto; ao
contrário, acentua o abismo entre dois modos de pensar o cinema.
Se Allen pergunta como viver num mundo sem sentido, Godard responde:
talvez já não exista linguagem suficiente para fazer a pergunta.