SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945)
Um extravagante empresário de Broadway, que passa por tempos difíceis, tenta fazer com que sua antiga amante, agora uma diva de Hollywood, retorne e ressuscite sua carreira em declínio.
Suprema Conquista (1934) - IMDbDir: Howard Hawks
Comédia Romântica, Screwball Comedy
MP4 / SD+ / LEG: Português
IMDB: 7,2
Flick Metrix: 73 Criticker Average Percentile: 60
O delírio fundador da screwball comedy
Lançado no mesmo ano de Aconteceu Naquela Noite, Suprema
Conquista (Twentieth Century) ocupa um lugar igualmente decisivo — e talvez
ainda mais radical — na consolidação da screwball comedy. Dirigido por Howard
Hawks, o filme transforma o romance em espetáculo histérico, o diálogo em
avalanche verbal e o ego em força destrutiva.
Se Capra funda a screwball pela estrada e pela crise social,
Hawks a inaugura pelo excesso, pela teatralidade e pela guerra absoluta
entre personalidades.
Enredo: amor como espetáculo e chantagem
A trama gira em torno de Oscar Jaffe, um produtor teatral
egomaníaco e tirânico, e Lily Garland, atriz que ele “descobre”, molda e depois
perde quando ela se torna estrela de cinema. Anos depois, os dois se
reencontram a bordo do luxuoso trem
Twentieth Century Limited, viajando
de Chicago a Nova York.
O espaço fechado do trem funciona como arena: ali se
concentram chantagens emocionais, explosões verbais, reconciliações falsas e
declarações de amor que soam sempre como estratégias de poder.
Não há sentimentalismo — há combate.
A batalha entre os sexos levada ao paroxismo
Diferente do equilíbrio progressivo que marca outras
screwballs, aqui o casal vive em
estado permanente de guerra. Lily não é
uma musa apaixonada; é uma mulher que aprendeu a usar o mesmo narcisismo e
teatralidade do homem que tentou dominá-la.
A dinâmica estabelece elementos centrais do subgênero:
- o
romance como duelo psicológico,
- o
amor como jogo de controle,
- a
palavra como arma de destruição.
A interpretação de Carole Lombard é fundamental: ela
injeta energia, ironia e inteligência num papel que redefine a figura feminina
da comédia clássica — não reativa, mas estrategista.
Teatro, ego e caricatura social
Oscar Jaffe, vivido por
John Barrymore, é uma figura
quase grotesca: um artista tirânico, megalomaníaco, incapaz de distinguir amor,
arte e poder. Hawks transforma o mundo do teatro — e por extensão o próprio
sistema de produção cultural — em alvo de sátira feroz.
Tudo é exagerado: gestos, falas, emoções, colapsos
nervosos.
Esse excesso não é gratuito: ele revela o narcisismo
estrutural por trás das relações amorosas e profissionais.
Diálogo como ritmo e violência
Em
Suprema Conquista, o diálogo deixa de ser apenas
rápido — ele se torna
agressivo, sobreposto e quase incontrolável. Hawks
empurra a velocidade verbal ao limite, criando uma sensação de vertigem
contínua.
Essa abordagem inaugura um dos traços mais reconhecíveis da
screwball: falar rápido não é elegância — é sobrevivência.
O silêncio, aqui, equivale à derrota.
Classe, glamour e ilusão
Embora ambientado entre artistas e milionários, o filme não
celebra o luxo. Pelo contrário: o glamour é mostrado como
farsa teatral,
sustentada por vaidade, manipulação e instabilidade emocional. O trem de luxo
vira um palco móvel onde ninguém é genuinamente sofisticado — apenas
performático.
A elite cultural aparece como tão caótica quanto ridícula.
Estilo Hawksiano e legado
Suprema Conquista marca o início da screwball
hawksiana:
- relações
baseadas em embate,
- mulheres
fortes e inteligentes,
- homens
em constante crise de autoridade,
- velocidade
como princípio formal.
Sem esse filme, não haveria Levada da Breca nem Jejum
de Amor. Ele estabelece a screwball não como romance elegante, mas como comédia
de nervos expostos.
Conclusão
Suprema Conquista é a screwball comedy em estado
bruto: barulhenta, exagerada, cruel e absolutamente moderna. Aqui, amar é
dominar, perder é inevitável e o caos não se resolve — apenas se intensifica.
👉 Se Aconteceu Naquela
Noite funda a screwball pela estrada, Suprema Conquista a funda pelo choque
frontal.