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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ser ou Não Ser (1942) To Be or Not to Be - 1 h 39 min

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 5 (#201 a #250)

Durante a ocupação nazista da Polônia, uma trupe de atuação se envolve nos esforços de um soldado polonês para rastrear um espião alemão.


Ser ou Não Ser (1942) - IMDb
Dir: Ernst Lubitsch
Screwball Comedy, Guerra, Romance


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 8,1   METASCORE: 8,6
96%Tomatometer54 Reviews   93%Popcornmeter


Rir À Beira do Abismo

Em Ser ou Não Ser, a guerra não elimina o humor — ela o afia. Ernst Lubitsch ousa transformar o nazismo em alvo de sátira quando o mundo ainda sangrava. O riso surge como gesto de coragem, quase insolente, diante da barbárie.


O Teatro Como Último Refúgio

A companhia de atores vive entre figurinos, ensaios e ciúmes banais. O palco é território de ilusão controlada, onde qualquer identidade pode ser vestida ou retirada. Quando a invasão chega, essa habilidade teatral torna-se arma inesperada.


Interpretar Para Sobreviver

Disfarces, sotaques falsos, improvisos nervosos. Os personagens escapam não pela força, mas pela performance. Lubitsch transforma atuação em estratégia política: fingir é resistir.


Vaidade Como Fraqueza Humana

O casal central é feito de egos delicados, crises de ciúme e disputas ridículas por aplausos. Mesmo em tempos de guerra, continuam humanos demais. O filme encontra comédia justamente nessa persistência do trivial.


O Inimigo Como Caricatura Mortal


Os oficiais nazistas surgem ao mesmo tempo ameaçadores e patéticos. Lubitsch os ridiculariza sem suavizar o perigo. A sátira não nega a violência — apenas retira sua aura de grandeza.


Palavras Que Viram Código

A famosa deixa de Hamlet — “ser ou não ser” — vira senha clandestina, ponte entre palco e realidade. Shakespeare se transforma em ferramenta de espionagem, lembrando que arte pode carregar sentidos ocultos.


Elegância Contra Brutalidade

A mise-en-scène é leve, sofisticada, cheia de portas que se abrem e fecham no timing perfeito. Essa graça formal contrasta com o horror histórico ao redor. Lubitsch responde à tirania com charme — como se a delicadeza fosse provocação.


Amor, Ciúme e Guerra no Mesmo Quarto

Enquanto o mundo desaba, casamentos continuam frágeis, paixões surgem, mal-entendidos se acumulam. O filme insiste que a vida íntima não suspende diante da História. O humano persiste, teimosamente, mesmo sob bombas.


A Comédia Como Ato de Desobediência

No desfecho, Ser ou Não Ser reafirma que rir do opressor é negar-lhe poder absoluto. Lubitsch transforma a gargalhada em gesto político, lembrando que a arte pode enfrentar regimes não com armas, mas com inteligência, ironia e coragem.

 



domingo, 28 de dezembro de 2025

Irene, a Teimosa (1936) My Man Godfrey - 1 h 34 min

SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945)

Durante o período da Grande Depressão, uma jovem rica e mimada contrata o morador de um lixão de Nova York para ser mordomo da família, mas seu desempenho supera em muito as expectativas.


Irene, a Teimosa (1936) - IMDb
Dir: Gregory La Cava
Screwball Comedy, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 8,2
Flick  Metrix: 83   Criticker Average Percentile: 69%
97%Tomatometer38 Reviews   90%Popcornmeter


Classe social em curto-circuito: quando a screwball vira crítica frontal

Lançado em 1936, Irene, a Teimosa (My Man Godfrey) é um dos pilares fundadores da screwball comedy e uma de suas expressões mais claramente políticas. Dirigido por Gregory La Cava, o filme transforma a comédia de costumes em sátira social direta, expondo com ironia cruel a futilidade da elite e a precariedade invisibilizada da vida urbana durante a Grande Depressão.

Se Aconteceu Naquela Noite funda o gênero pela estrada e Suprema Conquista pelo excesso verbal, Irene, a Teimosa o consolida pelo conflito de classes.


Enredo: o “objeto” humano da elite

A história começa com uma excêntrica caça ao tesouro organizada por jovens milionários entediados. Um dos itens exigidos é um “homem esquecido” — alguém retirado de um lixão urbano. É assim que Godfrey Parke é encontrado, tratado como curiosidade e levado para uma mansão da alta sociedade.

Contratado como mordomo, Godfrey passa a observar — e silenciosamente julgar — o caos moral, emocional e intelectual da família que o emprega.

A estrutura é típica da screwball: situações absurdas, personagens excêntricos e conflitos constantes. Mas o alvo do riso é radicalmente deslocado: não é o pobre deslocado — são os ricos.


Irene: a teimosia como gesto político

Carole Lombard interpreta Irene Bullock, uma das grandes figuras femininas do subgênero. Irene é:

  • infantil,
  • impulsiva,
  • emocionalmente caótica,
  • mas também a única personagem genuinamente capaz de empatia.

Sua “teimosia” não é apenas traço cômico — é recusa à lógica cínica da própria classe. Irene insiste em ver Godfrey como pessoa, não como objeto. No universo da screwball, isso equivale a um gesto revolucionário.


Godfrey: dignidade silenciosa

Vivido por William Powell, Godfrey é um protagonista incomum para a comédia da época. Ele:

  • fala pouco,
  • reage com ironia contida,
  • mantém controle absoluto diante do absurdo ao redor.

Sua elegância não é social — é moral.
Godfrey encarna a inversão central do filme: a verdadeira civilidade está fora da elite.


A Grande Depressão como subtexto explícito

Diferente de muitas comédias do período, Irene, a Teimosa não disfarça a crise econômica. A pobreza aparece:

  • em abrigos reais,
  • em trabalhadores descartados,
  • na memória traumática do próprio Godfrey.

A screwball, aqui, deixa de ser apenas jogo amoroso e se torna comentário social direto, sem perder leveza nem ritmo.


Casamento, dinheiro e moral

O romance entre Irene e Godfrey não se constrói por sedução convencional, mas por reconhecimento ético. O casamento, tema recorrente da screwball, surge não como ascensão social, mas como reorganização moral: a elite precisa aprender a existir no mundo real.

O filme propõe algo raro para o gênero:

não basta amar — é preciso mudar de classe simbólica.


Estilo e lugar histórico

La Cava dirige com fluidez, privilegiando:

  • ritmo constante,
  • atuação coral,
  • humor que nasce do comportamento, não da gag.

No NÚCLEO 1 — O NASCIMENTO DO CAOS, Irene, a Teimosa cumpre papel decisivo:

  • fecha o ciclo fundador da screwball (1934–1936),
  • solidifica o conflito de classes como eixo,
  • prova que a comédia podia ser socialmente afiada sem perder apelo popular.

Conclusão

Irene, a Teimosa é uma das screwball comedies mais inteligentes já produzidas porque ri na direção certa.
O amor existe, o caos diverte — mas o alvo principal é a desigualdade naturalizada.

👉 Aqui, a guerra amorosa é também guerra social.
👉 E o riso, mais do que charme, vira crítica.

 



Suprema Conquista (1934) Twentieth Century - 1 h 31 min

SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945)

Um extravagante empresário de Broadway, que passa por tempos difíceis, tenta fazer com que sua antiga amante, agora uma diva de Hollywood, retorne e ressuscite sua carreira em declínio.


Suprema Conquista (1934) - IMDb
Dir: Howard Hawks
Comédia Romântica, Screwball Comedy

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,2
Flick Metrix: 73   Criticker Average Percentile: 60
86%Tomatometer29 Reviews   75%Popcornmeter



O delírio fundador da screwball comedy

Lançado no mesmo ano de Aconteceu Naquela Noite, Suprema Conquista (Twentieth Century) ocupa um lugar igualmente decisivo — e talvez ainda mais radical — na consolidação da screwball comedy. Dirigido por Howard Hawks, o filme transforma o romance em espetáculo histérico, o diálogo em avalanche verbal e o ego em força destrutiva.

Se Capra funda a screwball pela estrada e pela crise social, Hawks a inaugura pelo excesso, pela teatralidade e pela guerra absoluta entre personalidades.


Enredo: amor como espetáculo e chantagem

A trama gira em torno de Oscar Jaffe, um produtor teatral egomaníaco e tirânico, e Lily Garland, atriz que ele “descobre”, molda e depois perde quando ela se torna estrela de cinema. Anos depois, os dois se reencontram a bordo do luxuoso trem Twentieth Century Limited, viajando de Chicago a Nova York.

O espaço fechado do trem funciona como arena: ali se concentram chantagens emocionais, explosões verbais, reconciliações falsas e declarações de amor que soam sempre como estratégias de poder.

Não há sentimentalismo — há combate.


A batalha entre os sexos levada ao paroxismo

Diferente do equilíbrio progressivo que marca outras screwballs, aqui o casal vive em estado permanente de guerra. Lily não é uma musa apaixonada; é uma mulher que aprendeu a usar o mesmo narcisismo e teatralidade do homem que tentou dominá-la.

A dinâmica estabelece elementos centrais do subgênero:

  • o romance como duelo psicológico,
  • o amor como jogo de controle,
  • a palavra como arma de destruição.

A interpretação de Carole Lombard é fundamental: ela injeta energia, ironia e inteligência num papel que redefine a figura feminina da comédia clássica — não reativa, mas estrategista.


Teatro, ego e caricatura social

Oscar Jaffe, vivido por John Barrymore, é uma figura quase grotesca: um artista tirânico, megalomaníaco, incapaz de distinguir amor, arte e poder. Hawks transforma o mundo do teatro — e por extensão o próprio sistema de produção cultural — em alvo de sátira feroz.

Tudo é exagerado: gestos, falas, emoções, colapsos nervosos.

Esse excesso não é gratuito: ele revela o narcisismo estrutural por trás das relações amorosas e profissionais.


Diálogo como ritmo e violência

Em Suprema Conquista, o diálogo deixa de ser apenas rápido — ele se torna agressivo, sobreposto e quase incontrolável. Hawks empurra a velocidade verbal ao limite, criando uma sensação de vertigem contínua.

Essa abordagem inaugura um dos traços mais reconhecíveis da screwball: falar rápido não é elegância — é sobrevivência.

O silêncio, aqui, equivale à derrota.


Classe, glamour e ilusão

Embora ambientado entre artistas e milionários, o filme não celebra o luxo. Pelo contrário: o glamour é mostrado como farsa teatral, sustentada por vaidade, manipulação e instabilidade emocional. O trem de luxo vira um palco móvel onde ninguém é genuinamente sofisticado — apenas performático.

A elite cultural aparece como tão caótica quanto ridícula.


Estilo Hawksiano e legado

Suprema Conquista marca o início da screwball hawksiana:

  • relações baseadas em embate,
  • mulheres fortes e inteligentes,
  • homens em constante crise de autoridade,
  • velocidade como princípio formal.

Sem esse filme, não haveria Levada da Breca nem Jejum de Amor. Ele estabelece a screwball não como romance elegante, mas como comédia de nervos expostos.


Conclusão

Suprema Conquista é a screwball comedy em estado bruto: barulhenta, exagerada, cruel e absolutamente moderna. Aqui, amar é dominar, perder é inevitável e o caos não se resolve — apenas se intensifica.

👉 Se Aconteceu Naquela Noite funda a screwball pela estrada, Suprema Conquista a funda pelo choque frontal.