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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Alta Fidelidade (2000) High Fidelity - 1 h 53 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

Rob, dono de uma loja de discos e criador de listas compulsivo, relata seus cinco principais términos de relacionamento, incluindo o que está em andamento.


Alta Fidelidade (2000) - IMDb
Dir: Stephen Frears
Comédia Romântica, Romance Alegre, Drama, Música



MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 7,9
Letterboxd: 7,2   Flick Metrix: 7,8
91%Tomatometer165 Reviews

Um homem que sabe tudo sobre música e quase nada sobre por que as pessoas que amou foram embora.

O inventário como fuga

Rob Gordon tem uma loja de discos em Chicago, um conhecimento enciclopédico de música pop e uma capacidade notável de organizar qualquer coisa em listas exceto a própria vida emocional. Alta Fidelidade começa com o fim do relacionamento de Rob com Laura e com Rob construindo mentalmente o ranking dos cinco maiores términos de sua vida, não para entender o que aconteceu mas para administrar o que está sentindo através do instrumento que sempre usou para administrar o que sente: a classificação, a catalogação, a transformação da experiência em lista que pode ser ordenada e controlada.

Stephen Frears adapta o romance de Nick Hornby com uma fidelidade ao espírito do livro que sobrevive à transposição de Londres para Chicago sem perder nada essencial, porque o que Hornby estava descrevendo não é geograficamente específico. É um tipo de homem que existe em qualquer cidade grande com lojas de discos e tempo livre para pensar demais sobre a própria vida sentimental enquanto evita fazer qualquer coisa concreta a respeito dela.


Frears e o monólogo como método

A decisão mais importante de Frears é manter os monólogos diretos para a câmera que o livro usa em forma de narração em primeira pessoa. Rob fala com o espectador ao longo de todo o filme, explica seu raciocínio, justifica suas escolhas, constrói casos para sua própria defesa com a articulação de alguém que passou muito tempo pensando sobre si mesmo e pouco tempo ouvindo o que as outras pessoas dizem sobre ele.

Essa estrutura de monólogo é argumento sobre o personagem. Rob tem acesso privilegiado à própria perspectiva e acesso muito limitado às perspectivas das pessoas ao redor, e o filme usa isso de forma que o espectador vai percebendo antes que Rob perceba. Cada vez que Rob explica por que alguém foi embora, a explicação revela mais sobre Rob do que sobre a pessoa que foi embora, e essa distância entre o que Rob acredita sobre si mesmo e o que o filme mostra sobre ele é onde Alta Fidelidade mora.


John Cusack e o charme como armadura

John Cusack constrói Rob com um charme que funciona exatamente como o personagem usa o charme: para manter distância segura enquanto parece estar se aproximando. Rob é engraçado, é inteligente, tem opiniões sobre tudo e as articula bem, e usa essas qualidades para criar uma versão de intimidade que não exige a vulnerabilidade real que a intimidade exige. Cusack entendeu que o personagem precisa ser suficientemente atraente para que o espectador entenda por que as mulheres se interessaram por ele, e suficientemente opaco para que o espectador entenda por que foram embora.

A performance funciona porque Cusack nunca pede simpatia para Rob de forma explícita: deixa que o personagem construa seu próprio caso e confia que o espectador vai perceber as lacunas. Rob desenvolveu mecanismos de proteção tão eficientes que não sabe que precisaria desmontar esses mecanismos para ter o tipo de relação que diz querer.


As cinco ex e o padrão que Rob não vê

O dispositivo central do filme, Rob visitando as cinco maiores ex para entender o que deu errado, é simultaneamente engraçado e revelador da forma mais precisa. Cada ex tem sua versão do que aconteceu com Rob, e as versões convergem num padrão que Rob é o último a reconhecer: ele estava presente fisicamente e ausente emocionalmente, comprometido com a ideia do relacionamento mas resistente ao trabalho real que o relacionamento exige, capaz de sentir mas incapaz de demonstrar o que sentia de formas que a outra pessoa pudesse receber.

Frears filma essas recordações com um humor que torna o desconforto suportável, e cada ex funciona como um espelho ligeiramente diferente que mostra um ângulo diferente do mesmo problema. Rob sai de cada recordação com uma compreensão parcial e incompleta, acrescentando a nova informação ao inventário sem ainda saber o que fazer com o inventário completo.


Laura e a questão real

Iben Hjejle interpreta Laura com uma presença que o filme reserva estrategicamente: ela aparece em flashback e em imaginação de Rob antes de aparecer em carne e osso, e quando aparece traz consigo uma qualidade de pessoa real que contrasta com as versões que Rob havia construído dela na própria cabeça. Laura não é a mulher idealizada que Rob perdeu nem a inimiga que o abandonou. É alguém que tentou estar num relacionamento com alguém que não estava completamente disponível e que decidiu que o custo era alto demais.

A cena em que Laura e Rob finalmente têm a conversa real, a conversa que o filme inteiro estava adiando, é o momento em que Alta Fidelidade para de ser comédia e decide ser outra coisa por tempo suficiente para que o que está em jogo fique claro. Laura quer que Rob mude porque percebe que ele quer mudar e não sabe como, e essa distinção é o que o filme estava construindo desde o primeiro monólogo.


Onde assistir e o que esperar

Alta Fidelidade está disponível na Disney+ e na Filmoteca Seu Manolo. A trilha sonora é parte inseparável da experiência: as escolhas musicais de Rob funcionam como comentário sobre seu estado emocional com uma precisão que o diálogo não precisaria explicar para quem conhece as músicas, e para quem não conhece o filme oferece contexto suficiente. Jack Black como Barry e Todd Louiso como Dick, os dois funcionários da loja, existem numa frequência cômica que alivia o peso das cenas de Rob sem diminuir o que essas cenas estão fazendo. O filme tem 113 minutos que passam com a velocidade de uma boa lista de reprodução, e a segunda visita revela o quanto a estrutura é mais precisa do que a leveza do tom sugere.




A masculinidade que não aprendeu a habitar outra forma

Alta Fidelidade é o retrato mais honesto e mais gentil disponível no cinema sobre um tipo específico de homem que o modelo tradicional de masculinidade produziu e que o mundo contemporâneo dos relacionamentos não sabe mais acomodar. Rob foi ensinado a ser competente, a ter opiniões, a construir identidade através do gosto e do conhecimento, e ninguém o ensinou que nada disso substitui a capacidade de estar emocionalmente presente para outra pessoa.

Frears filma um homem que usa o humor e o conhecimento cultural para gerar distância como proteção contra a vulnerabilidade que o amor exige, num mundo que mudou as regras dos relacionamentos sem oferecer manual para quem foi formado pelas regras antigas.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Bernie: Quase um Anjo (2011) - Bernie - 1 h 39 min

CONVERSAS, SONHOS E PASSAGENS: O Cinema de Richard Linklater

Em uma pequena cidade do Texas, um agente funerário afável faz amizade com uma viúva rica, mas quando ela começa a se tornar controladora, ele faz de tudo para se libertar do seu domínio.


Comédia de Humor Negro, Crime Verdadeiro, Docudrama, Biografia,


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,8   METASCORE: 7,5
Flick Metrix: 73   Criticker Average Percentile: 52%
88%Tomatometer168 Reviews   73%Popcornmeter


Uma fábula real sobre carisma, solidão e a estranha lógica moral de uma comunidade.


O Crime que Ninguém Queria Punir

Em Bernie: Quase um Anjo, Richard Linklater transforma um caso verídico ocorrido no Texas em uma comédia dramática de tons ambíguos. Bernie Tiede, assistente de funerária querido por todos na pequena cidade de Carthage, desenvolve uma amizade improvável com uma viúva rica e temperamental. Quando a relação toma um rumo trágico, a comunidade se vê dividida entre o horror do ato e a afeição quase unânime pelo acusado.


Entre o Documentário e a Sátira


Misturando encenação ficcional com depoimentos de moradores reais, Linklater constrói uma narrativa híbrida que desafia o espectador a julgar. O tom oscila entre humor delicado e desconforto moral, revelando como a percepção coletiva pode distorcer a gravidade de um crime. A cidade torna-se personagem — cúmplice, testemunha e juiz.


Carisma e Solidão

Bernie é retratado como figura gentil, generosa e profundamente solitária. Seu desejo de pertencimento o leva a um vínculo sufocante, onde admiração e dependência se confundem. O diretor não busca absolvição nem condenação fácil; investiga as camadas emocionais que precedem o gesto extremo.


O Olhar Texano de Linklater


Inserido na fase “Maturidade e Reflexão sobre o Tempo”, o filme reafirma o interesse do cineasta por histórias locais e personagens deslocados. Assim como em Dazed and Confused, o Texas é mais que cenário — é atmosfera cultural. Mas aqui a nostalgia juvenil cede lugar à observação crítica da moral comunitária.


Humor como Ferramenta Moral


Se em Before Midnight o conflito nasce do desgaste íntimo, em Bernie ele emerge do contraste entre afeto público e culpa privada. O riso não suaviza o crime; revela a complexidade humana. Linklater demonstra, mais uma vez, que sua verdadeira especialidade não é o gênero — é o comportamento.

domingo, 5 de outubro de 2025

Os Últimos Passos de um Homem (1995) Dead Man Walking - 2 h 2 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 2


Dir: Tim Robbins
Crime Verdadeiro, Drama Jurídico, Drama Psicológico

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 8,0
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 79
97%Tomatometer60 Reviews

Matthew Poncelet vai ser executado. A irmã Helen decidiu que ele não vai morrer sozinho.

O livro e como chegou ao cinema

Susan Sarandon encontrou o livro de memórias da irmã Helen Prejean enquanto filmava O Cliente em Nova Orleans em 1994. Fez do projeto sua missão pessoal: levou algum tempo para convencer o então marido Tim Robbins a ler e adaptar o livro, mas finalmente conseguiu.

O filme foi produzido com orçamento de 11 milhões de dólares e arrecadou 83 milhões mundialmente. Recebeu quatro indicações ao Oscar: Sarandon venceu Melhor Atriz, Penn foi indicado a Melhor Ator, Robbins a Melhor Direção e Bruce Springsteen a Melhor Canção Original por Dead Man Walkin'. Penn venceu o Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim.

Tim Robbins e a escolha de não tomar partido

Tim Robbins escreveu e dirigiu Os Últimos Passos de um Homem com uma disciplina que é o gesto mais importante do filme: recusou fazer um argumento sobre pena de morte. O que fez foi filmar todas as partes com a mesma atenção e a mesma humanidade, e deixar que o espectador chegasse às próprias conclusões.

Matthew Poncelet é baseado em dois condenados reais, Elmo Patrick Sonnier e Robert Lee Willie, que a irmã Helen Prejean acompanhou no corredor da morte da Louisiana. O que Robbins filma é simultaneamente o crime que Poncelet cometeu, com toda a sua brutalidade, e a pessoa que existe além do crime, com toda a sua complexidade. As famílias das vítimas aparecem com o mesmo tempo e a mesma atenção que Poncelet e Helen. Não há hierarquia moral explícita: o filme mostra o que cada pessoa carrega e deixa que o espectador decida o que fazer com isso.

Essa recusa de resolver é o que torna Os Últimos Passos de um Homem extraordinário dentro do gênero. A maioria dos filmes sobre pena de morte toma partido de forma declarada ou implícita. Robbins filmou o argumento contrário ao seu próprio: um homem que cometeu um crime horrível, que o admite apenas no final, e cuja execução o filme mostra sem a catarse que o gênero normalmente oferece.

Susan Sarandon e a irmã Helen Prejean

Sarandon ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Atriz após quatro indicações anteriores. Em entrevista ao programa Oprah's Master Class, disse: "Quando terminei o livro, sabia que a pena de morte era errada por tantas razões. A irmã Helen é um grande exemplo de pessoa religiosa que ama do jeito que Cristo amava, porque uma pessoa é maior do que seu pior ato." 

O que Sarandon faz com Helen Prejean é construir uma mulher que não é uma santa. Helen comete erros de julgamento, é ingênua em alguns momentos, tem dificuldade em equilibrar a compaixão por Poncelet com a compaixão pelas famílias das vítimas. Essa imperfeição é o que torna a performance crível: Helen é uma pessoa que está fazendo o melhor que pode numa situação para a qual nenhum treinamento poderia preparar completamente.

A frase que Helen diz a Poncelet momentos antes da execução, que quer ser o rosto do amor que ele vê por último no mundo, é o momento mais preciso do filme e onde Sarandon está no melhor da carreira: a declaração é ao mesmo tempo religiosa e humana, generosa e devastadora, e Sarandon a entrega com uma simplicidade que recusa qualquer sentimentalismo.

Sean Penn e Matthew Poncelet

Sean Penn construiu Poncelet a partir dos registros reais dos dois homens que inspiraram o personagem, incluindo gravações de voz e fotografias. O resultado é um personagem que não pede a simpatia do espectador e que o espectador vai dando assim mesmo, gradualmente, à medida que o filme revela as camadas por baixo da arrogância defensiva.

Penn foi indicado ao Oscar e perdeu para Nicolas Cage em Leaving Las Vegas. A comparação não é justa nem injusta: são dois tipos completamente diferentes de performance, e o que Penn faz em Poncelet, a contenção que vai cedendo apenas no final, é tecnicamente mais difícil do que o que o Oscar frequentemente premia.

Roger Deakins e a fotografia

A fotografia é de Roger Deakins, que havia filmado Fargo com os Coen Brothers no mesmo período. Deakins usa a Louisiana, seus tons quentes e sua luz específica, para criar um ambiente que é simultaneamente belo e sufocante. O corredor da morte é filmado com uma clareza que recusa a estética sombria que o gênero normalmente usa: é um lugar bem iluminado, funcional, onde pessoas trabalham todos os dias. Essa normalidade é mais perturbadora do que qualquer dramatização.

O legado

Após o sucesso do filme, Tim Robbins reescreveu o roteiro como peça teatral para uso em escolas e faculdades. O alcance pedagógico de Os Últimos Passos de um Homem vai além do cinema: é um dos poucos filmes que mudou a forma como pessoas pensam sobre um tema específico sem precisar argumentar diretamente sobre esse tema.



Clique aqui para saber onde assistir. Um filme para assistir quando você quer pensar sobre algo difícil sem que alguém te diga o que pensar.

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