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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Coringa (2019) Joker - 2 h 2 min


Um comediante falido enlouquece e se torna um assassino psicopata.

Coringa (2019) - IMDb
Dir: Todd Phillips
Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Crime, Tragédia


CLC Score: 7,4





Coringa (Joker) é um estudo perturbador sobre exclusão social, violência simbólica e colapso psicológico, dirigido por Todd Phillips. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2019, o filme marcou uma ruptura histórica ao consagrar, pela primeira vez, uma obra derivada do universo dos quadrinhos com o prêmio máximo do festival mais antigo do mundo.


Um personagem sem mito, um mundo sem amparo

Ambientado em uma Gotham decadente, suja e hostil, o filme acompanha Arthur Fleck, um homem à margem da cidade e das instituições. Aqui, o Coringa não surge como vilão mítico, mas como produto de um sistema em colapso: cortes em políticas públicas, indiferença social, humilhação cotidiana e ausência de cuidado coletivo.

O roteiro elimina o embate clássico entre herói e vilão. O conflito central é estrutural: Arthur enfrenta uma cidade que o empurra constantemente para fora do trabalho, do afeto e da dignidade.


Corpo, riso e violência

A interpretação de Joaquin Phoenix é o eixo absoluto do filme. Seu corpo em permanente tensão, magro, curvado e convulsivo, torna-se o verdadeiro campo narrativo. O riso incontrolável, longe de funcionar como marca caricatural, aparece como sintoma clínico e social, um ruído que desajusta qualquer possibilidade de convivência.

Phillips filma essa transformação com rigor crescente, evitando glamourizar a violência, mas sem suavizar suas consequências. O desconforto é deliberado. O espectador é colocado diante de uma pergunta incômoda: quem é responsável por esse colapso?


Herança do cinema dos anos 1970


Coringa
dialoga abertamente com o cinema urbano americano dos anos 1970, especialmente com Taxi Driver e The King of Comedy. A cidade é filmada como organismo doente, e a televisão surge como símbolo de poder, exclusão e desejo de reconhecimento. O filme substitui a fantasia escapista por uma tragédia social de tons realistas, ainda que ambientada em um universo ficcional.




Polêmica e ambiguidade

Desde sua estreia, Coringa gerou debates intensos. Foi acusado de legitimar ressentimentos violentos, ao mesmo tempo em que foi defendido como denúncia das condições que produzem tais explosões. O filme não oferece respostas nem julgamentos claros. Sua força está justamente na ambiguidade moral, que recusa soluções fáceis e confronta o espectador com suas próprias leituras.




O Riso que Retorna

Em Joker, o sintoma não se organiza como gesto isolado, mas como algo que insiste no corpo e retorna à revelia do sujeito. O riso de Arthur não é expressão de alegria, mas ruptura involuntária - um circuito que se repete, atravessando situações e escapando a qualquer controle. À medida que o mundo ao redor se torna mais hostil, essa repetição deixa de ser apenas sofrimento íntimo e passa a encontrar ressonância no social, amplificando-se. O filme encena o momento em que o sujeito não apenas repete, mas passa a se constituir na própria repetição, um movimento que, longe de se interromper, ganha forma e visibilidade.


Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Coringa, Veneza reconheceu: a ousadia formal de um filme de estúdio que adota linguagem autoral; a atuação radical de Joaquin Phoenix e a capacidade do cinema popular de absorver tensões sociais reais.

O Leão de Ouro de 2019 sinalizou que o festival não premia gêneros, mas gestos cinematográficos fortes, mesmo quando surgem de territórios inesperados.

Coringa não é apenas uma história de origem. É um retrato sombrio de uma sociedade que falha e depois se assusta com aquilo que ela mesma produziu.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

Taxi Driver: Motorista de Táxi (1976) Taxi Driver - 1 h 54 min



Taxi Driver segue a história de Travis Bickle, um veterano da Guerra do Vietnã que se torna motorista de táxi em Nova York. A cidade, cheia de corrupção e decadência, leva Travis a um estado de crescente isolamento e desespero. Ele decide tomar medidas drásticas para tentar "limpar" a cidade.


Dir: Martin Scorsese

Drama Psicológico, Crime


CLC Score: 8,9





Contexto Histórico e Produção

Após o sucesso artístico de Caminhos Perigosos (1973), Scorsese e o roteirista Paul Schrader se encontraram num momento em que ambos exploravam temas profundos de culpa, alienação e autodestruição.

Schrader, inspirado em suas próprias experiências de solidão extrema, escreveu o roteiro em poucas semanas, influenciado por:

  • O Diário do Ano da Peste, de Camus,
  • a literatura existencialista,
  • e pelo caso real do atentado planejado contra George Wallace.

Quando o projeto chegou às mãos de Scorsese, ele reconheceu imediatamente o potencial de criar um filme que refletisse a Nova York decadente e violenta dos anos 70.

Com Robert De Niro recém-premiado pelo Oscar por O Poderoso Chefão - Parte II, e Jodie Foster aos 12 anos, o elenco estava completo.


Taxi Driver (1976): O Neo-Noir da Solidão, da Raiva e da América Fragmentada

Taxi Driver é um dos filmes mais influentes e perturbadores da história do cinema. Embora frequentemente classificado como drama urbano, ele é também um neo-noir psicológico, herdeiro direto da tradição dos detetives solitários, mas transformado pela paranoia do pós-Vietnã, pela crise urbana dos anos 70 e pelo colapso moral de uma sociedade saturada de violência.

O protagonista, Travis Bickle (Robert De Niro), é um veterano da guerra incapaz de se reintegrar à vida civil. Trabalhando como taxista durante a madrugada em Nova York, ele percorre as ruas como um observador alucinado, registrando o que vê como sinais de decadência irremediável: prostituição infantil, crime, miséria, corrupção e abandono.
Nas páginas de seu diário e nos olhares obsessivos que dirige à cidade, Travis revela uma mente em processo de ruptura. Um homem que busca sentido, pureza e propósito em um mundo que já não oferece nenhum.


Travis Bickle: o “detetive” que investiga o próprio abismo

Se o detetive tradicional do noir buscava compreender o crime, Travis busca compreender a si mesmo. Ele é solitário até o limite do insuportável, incapaz de estabelecer relações afetivas, movido por um idealismo distorcido, emocionalmente fragmentado e cada vez mais atraído pela violência como forma de purificação moral.

Ele investiga sua própria incapacidade de viver em sociedade. O táxi se torna sua trincheira; um confessionário em movimento.

Travis é o protagonista definitivo do noir moderno: um homem que vê a cidade como crime e a si mesmo como solução - uma solução terrível.


Nova York como inferno urbano

A cidade filmada por Scorsese é um labirinto vivo: ruas molhadas, néon doentio, cinemas pornôs, bares decadentes, lixeiras transbordando, sombras humanas sem nome.

É um cenário expressionista em chave realista. Uma visão suja, febril e documental da Nova York dos anos 70. 

Scorsese transforma a cidade em projeção do estado mental de Travis: uma paisagem psicológica, mais do que geográfica.


Betsy e Iris: dois polos impossíveis

Travis projeta em Betsy (Cybill Shepherd) um ideal de pureza que não existe. Ele imagina que ela possa “salvá-lo”, mas não compreende regras básicas de interação humana, e por isso arruína tudo. Betsy funciona como fantasia, não como personagem.

Iris (Jodie Foster), por outro lado, personifica o caos da cidade: uma menina de 12 anos presa ao ciclo de exploração. Travis enxerga nela um objetivo messiânico, uma missão que dá sentido à sua existência. Mas seu desejo de “salvá-la” é tão perturbado quanto sua obsessão por Betsy.

Em ambos os casos, Travis não vê pessoas - vê símbolos para preencher o vazio interno.


A trilha de Bernard Herrmann: elegia e violência

A música final composta por Bernard Herrmann - seu último trabalho antes de falecer - é uma obra-prima. Uma melodia de sax melancólico, sensual e assustador que funciona como canto fúnebre da cidade, retrato da sedução do abismo e eco do coração solitário de Travis.

É um dos temas musicais mais poderosos do cinema americano.


Violência como catarse — e como crítica

A violência do clímax é crua, incoerente e febril.

Schrader e Scorsese transformam o ato final em uma explosão inevitável de toda a raiva contida, de toda a frustração existencial acumulada.

O epílogo ambíguo - realidade? fantasia? delírio? - reforça a crítica: Travis é visto como herói não porque fez algo heróico, mas porque a sociedade está tão quebrada quanto ele.


O Espelho que Devolve o Mesmo

Em Taxi Driver, a repetição não se apresenta como hábito visível, mas como um circuito fechado que aprisiona o sujeito em sua própria percepção do mundo. Travis percorre a cidade noite após noite, como se cada trajeto fosse apenas a variação de um mesmo movimento interno. A solidão é estrutural. Seus pensamentos, seus gestos, sua violência potencial retornam sempre ao mesmo ponto, reforçando uma identidade construída na exclusão e no ressentimento. O filme encena a lógica do sintoma como repetição sem elaboração: um sujeito que age, fala e se move, mas que permanece preso a uma engrenagem psíquica que não se transforma.


Conclusão

Taxi Driver é um dos pilares do neo-noir e do cinema moderno. Um estudo devastador sobre solidão, masculinidade, violência e adoecimento psíquico; um retrato da América dividida e perdida; um mergulho incômodo na mente de um homem em colapso.

É o noir elevado à condição de tragédia psicológica sem respostas, sem redenção e sem saídas claras.

Um clássico absoluto, sempre atual, sempre inquietante, sempre necessário.