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sábado, 20 de junho de 2026

Assim Estava Escrito (1952) The Bad and the Beautiful - 1 h 58 min

 

Assim Estava Escrito (1952) - IMDb
Dir: Vincente Minnelli
Drama do Mundo do Espetáculo, Drama Psicológico, Romance

CLC Balanced Rating: 8,2





Jonathan Shields construiu carreiras e destruiu vidas com a mesma frieza. Anos depois, três pessoas que ele traiu são convocadas para decidir se trabalham com ele de novo.


Hollywood julgando a si mesma

The Bad and the Beautiful é um dos maiores filmes já feitos sobre Hollywood, e a ironia central é que foi a própria MGM quem produziu esse retrato implacável da indústria que a sustentava. O filme ajudou a consolidar a imagem popular nada lisonjeira do magnata de Hollywood sem escrúpulos, e fez isso de dentro do sistema de estúdios, não como crítica externa. 

A estrutura é precisa: contado em flashback, o filme traça a ascensão e queda do produtor Jonathan Shields através dos olhos de quem trabalhou com ele, um roteirista, uma atriz e um diretor, cada um carregando uma traição específica que Shields cometeu contra eles no caminho até o topo. A semelhança com a estrutura de Rashomon, de Kurosawa, vencedor do Leão de Ouro no ano anterior, não passou despercebida pela crítica da época.

Kirk Douglas e o magnetismo da crueldade

Clark Gable recusou o papel antes de Kirk Douglas ler o roteiro, achá-lo maravilhoso e aceitar de imediato. O resultado é uma das performances mais magnéticas da carreira de Douglas: poucos atores conseguiram ir do zero ao auge da escala emocional com a velocidade que Douglas demonstra, especialmente na cena em que Lana Turner descobre a traição dele, com uma intensidade assustadoramente real. 

Shields é um produtor magnético cuja ambição e visão arrastam todos para dentro do próprio campo gravitacional, e o filme permite que o espectador sinta a emoção dessa força ao mesmo tempo em que revela o estrago que ela deixa para trás. É um retrato que não pede desculpas pela sedução do personagem, e é exatamente essa recusa que torna Shields mais perturbador do que um vilão convencional. 


Lana Turner e o papel que ela teve que reivindicar

Turner relataria depois, em autobiografia, que como estrela glamourosa da MGM dificilmente teria a chance de interpretar o papel dramático de Georgia Lorrison se John Houseman e Vincente Minnelli não tivessem pedido especificamente por ela. Ela reconheceu de imediato que entendia aquela personagem, uma estrela de cinema vista no início como um desastre encharcado de álcool e depois ressuscitada pela vontade de um produtor sem escrúpulos. 

A interpretação rendeu o que muitos consideram a melhor performance da carreira de Turner, embora a recepção tenha sido dividida: alguns críticos a consideram o ponto fraco do elenco, especialmente numa cena de carro deliberadamente artificial que o público da época já apontava como implausível, levando Minnelli e o produtor Houseman a cortarem doze minutos do filme após reações negativas em exibições-teste. 


Cinco Oscars e uma vitória inesperada

Apesar das complicações na edição, o filme arrecadou lucro modesto e foi amplamente premiado: cinco Oscars conquistados, de seis indicações. Gloria Grahame, com participação relativamente pequena, venceu Melhor Atriz Coadjuvante, e a direção de arte de Cedric Gibbons também levou estatueta, com cenários ricos em detalhes que comunicam volumes sobre cada personagem e cada lugar. Curiosamente, Kirk Douglas foi indicado a Melhor Ator mas perdeu para o discreto Gary Cooper, premiado por Matar ou Morrer. 


Críticas contemporâneas, ainda divididas

A recepção atual reflete a mesma divisão da época. Parte da crítica o trata como um dos grandes clássicos sobre a indústria, ao lado de Crepúsculo dos Deuses e A Malvada, com elogios à confiança melodramática e ao retrato sem piscar dos egos feios que moldaram a história de Hollywood. Outra parte considera o filme excessivamente seco e formal, com um enredo que poderia caber em noventa minutos mas se estende por quase duas horas com ritmo arrastado. 

A crítica original do New York Times, embora elogiosa em partes, lamentava que, apesar de toda a escavação no interior do produtor, o filme nunca explicasse de fato o que move esse homem vicioso. 


Por que ainda importa

Assim Estava Escrito é Hollywood produzindo seu próprio espelho deformado, um estúdio celebrando a si mesmo ao mesmo tempo em que expõe a crueldade que sustenta a fábrica de sonhos. Setenta anos depois, continua sendo referência obrigatória para qualquer filme que queira olhar para dentro da indústria com honestidade, e prova que o melodrama, quando bem executado, pode ser tão afiado quanto qualquer crítica direta.

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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Até a Vista, Querida (1944) Murder, My Sweet - 1 h 35 min

Após ser contratado para encontrar a ex-namorada, Philip Marlowe se envolve em uma teia profundamente complexa de mistério e engano.


Até a Vista, Querida (1944) - IMDb
Dir: Edward Dmytryk
Detetive Obstinado, Film Noir, Crime, Drama, Mistério, Suspense


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,5
94%Tomatometer17 Reviews   86%Popcornmeter


Até a Vista, Querida (1944): O Noir como Labirinto Moral e Sensorial

Dirigido por Edward Dmytryk, Murder, My Sweet marcou uma virada decisiva tanto para o gênero noir quanto para a carreira de seu protagonista, Dick Powell. Conhecido até então por papéis leves em musicais, Powell surpreendeu o público ao encarnar com dureza e ironia o detetive Philip Marlowe, criado por Raymond Chandler. Com esse papel, o ator redefiniu sua imagem e ajudou a consolidar Marlowe como o arquétipo definitivo do detetive particular no imaginário noir.

A trama começa com um encontro aparentemente trivial: Marlowe é contratado pelo brutamontes Moose Malloy para encontrar sua ex-namorada Velma, desaparecida há anos. Esse pedido simples funciona como a “porta de entrada” para um labirinto de chantagem, assassinatos, ganância familiar e sedução fatal, que envolve milionários decadentes, mulheres misteriosas e segredos enterrados sob camadas de mentira.


Atmosfera de sonho — e pesadelo

Dmytryk cria um filme que não apenas conta uma história noir, mas faz o espectador experimentar o noir. A narrativa, estruturada em flashback através da confissão de Marlowe à polícia, flui como um delírio: a câmera subjetiva, as luzes estroboscópicas e as cenas embaçadas evocam estados alterados de percepção, aproximando o público do próprio ponto de vista do detetive ferido, dopado, perdido entre sombras e ilusões.

Esse tratamento visual inovador dá ao filme uma atmosfera quase onírica, intensificando a sensação de que a realidade é fluida, frágil e sempre enganosa.



O jogo duplo das femmes

O filme apresenta duas figuras femininas que representam facetas opostas — e complementares — da iconografia noir:

  • Ann Grayle, aparentemente íntegra, mas cercada por segredos familiares;
  • Helen Grayle/Velma, a femme fatale por excelência, magnética e perigosa.


Essas mulheres não são apenas personagens: elas funcionam como forças dramáticas que empurram Marlowe cada vez mais fundo no caos moral do caso.


Philip Marlowe: o detetive como consciência ferida

Em Murder, My Sweet, Marlowe é moldado como um narrador duro, cínico e profundamente humano. Sua narração em off — carregada de humor ácido e observações mordazes — conduz o filme com ritmo e personalidade. Ele não é infalível; é um homem que erra, sofre, apanha e continua, movido não pela pureza moral, mas por uma ética interna particular, quase teimosa.

Este retrato influenciaria toda a representação futura do detetive noir no cinema e na literatura.


Estética noir em estado puro

O filme cristaliza vários elementos essenciais do film noir clássico:

  • Sombras densas e iluminação em alto contraste, criando uma atmosfera sufocante;
  • Interiores claustrofóbicos, que refletem a opressão psicológica;
  • Roteiro afiado, cheio de reviravoltas e diálogos cortantes;
  • Narrativa fragmentada, que espelha a confusão do protagonista;
  • Ambiguidade moral, onde ninguém é exatamente confiável.

Murder, My Sweet é, nesse sentido, um dos filmes mais “noir” já feitos: estilístico, psicológico, fatalista.


Conclusão

Até a Vista, Querida é uma obra-prima do film noir e uma das adaptações mais fiéis ao espírito literário de Chandler. Com atmosfera densa, personagens inesquecíveis e um detetive que se tornou símbolo de um gênero inteiro, o filme permanece atual pela sua habilidade de capturar um mundo onde a verdade é instável, o desejo é perigoso e as sombras dizem mais do que as palavras.

Um noir essencial — sombrio, elegante e absolutamente hipnótico.