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quinta-feira, 5 de março de 2026

Que Alegria de Viver! (1961) Che gioia vivere - 2 h 12 min

Ulisse é um jovem ingênuo que procura emprego após ser dispensado do exército. Ele desiste da oferta que recebe de um grupo de fascistas para se juntar aos Fossatis, uma família de anarquistas (desconhecida para ele).


Comédia

MP4 / HD / LEG: Francês e português traduzido

IMDB: 6,5


Entre bombas que nunca explodem e sonhos revolucionários, a juventude descobre o absurdo da história.

Um Anarquista Inesperado

Dirigido por René Clément, Che gioia vivere acompanha a história de um jovem ingênuo que, vivendo em Roma no início do século XX, acaba se envolvendo com um grupo de anarquistas. Interpretado por Alain Delon, o protagonista é recrutado para participar de ações revolucionárias, embora sua personalidade distraída e seu temperamento pouco combativo tornem cada missão um episódio imprevisível.


Revolução em Tom de Comédia

O filme transforma o universo da militância política em matéria de humor. Os planos conspiratórios, as reuniões clandestinas e as tentativas de atentado assumem frequentemente um tom burlesco, revelando o contraste entre o fervor ideológico dos conspiradores e a inabilidade prática de muitos deles. Essa abordagem satírica permite que o filme observe o radicalismo político com leveza e ironia.


Roma no Início do Século XX


Ambientado em uma Roma ainda marcada por tensões sociais e movimentos revolucionários, o filme recria com vivacidade o clima político da época. Ruas movimentadas, cafés e reuniões conspiratórias compõem o cenário de uma narrativa que mistura história, comédia e romance.


Elenco e Energia Juvenil

Ao lado de Alain Delon, a atriz Barbara Lass interpreta a jovem que desperta o interesse amoroso do protagonista. Sua presença acrescenta leveza e romantismo à narrativa, equilibrando o humor político com um olhar mais íntimo sobre os sentimentos e expectativas da juventude.


Leitura Crítica — O Idealismo e o Absurdo

Che gioia vivere observa o fervor revolucionário através do filtro da ironia. Ao apresentar um protagonista que se envolve com a política mais por acaso do que por convicção, o filme revela o lado humano — e frequentemente contraditório — dos movimentos ideológicos. René Clément transforma a história em uma comédia sobre juventude e idealismo, sugerindo que os grandes discursos revolucionários muitas vezes coexistem com fragilidades, ingenuidades e equívocos profundamente humanos. 🎬

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O Samurai (1967) Le Samouraï - 1 h 45 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

O assassino a soldo, Jeff Costello é um perfeccionista, ele planeia sempre com extremo cuidado todos os trabalhos para não ser apanhado. Mas porém uma noite, ele é surpreendido por uma testemunha, e aos poucos, a partir daí, ele vai sendo cada vez mais pressionado.


Dir: Jean-Pierre Melville
Neo-Noir, Drama Policial, Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Tragédia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 9,0
92%Tomatometer51 Reviews   93%Popcornmeter


O Samurai (1967): O Noir Reduzido ao Silêncio, ao Ritual e ao Movimento Puro

Dirigido por Jean-Pierre Melville, O Samurai é um dos filmes mais influentes do cinema moderno e a síntese do estilo melvilliano: um noir minimalista, ascético, construído com precisão quase zen. É um filme sobre solidão, códigos éticos pessoais e a vida mecânica de um matador profissional que parece existir fora do tempo.
A história acompanha Jef Costello (Alain Delon), um assassino contratado que vive em completa disciplina: apartamento vazio, rotina meticulosa, silêncio absoluto, gestos calculados. Depois de executar um trabalho em um clube noturno, ele se torna o principal suspeito — e inicia uma dança de sombras com a polícia, com seus contratantes e consigo mesmo.


Jef Costello: o anti-herói transformado em fantasma

Alain Delon não interpreta Jef; ele o encarna, com economia radical de palavras e movimento. Sua atuação é construída de:
  • olhares opacos,
  • gestos lentos,
  • ausência de expressões,
  • corpos alinhados ao quadro,
  • silêncio como força narrativa.

Jef não é simplesmente um criminoso profissional — ele é um espírito, um samurai moderno que vive segundo um código não verbalizado.
É uma figura trágica porque, no universo de Melville, seguir um código é viver condenado.


Um noir minimalista — e ainda assim absoluto

Melville reduz o noir a seus elementos essenciais:

  • a cidade como labirinto (Paris fria, chuvosa, impessoal),
  • a perseguição (detetive e criminoso em eterno duelo),
  • os interiores vazios,
  • a solidão existencial,
  • os códigos profissionais,
  • a inevitabilidade da morte.

Se o noir clássico era exagero, sombras fortes, diálogos afiados e tensão emocional, Melville inverte tudo: faz um noir de silêncio, geometria e contenção.
E ainda assim — ou por isso mesmo — Le Samouraï é um dos filmes mais noir já realizados.


A mise-en-scène como ritual

O filme é coreografado com disciplina monástica. Melville constrói:

  • enquadramentos frontais e limpos,
  • paleta fria de cinzas e azuis,
  • movimentos de câmera lentos e inevitáveis,
  • um ritmo hipnótico que espelha a mente do protagonista.

Cada plano parece uma peça colocada no lugar certo. Nada sobra. Nada falta.

O apartamento de Jef — quase vazio — é um autorretrato: um homem que apagou tudo que não é função, que eliminou qualquer traço de vida para sobreviver como precisão pura.


A mulher que canta — e cala

A pianista (Caty Rosier), que aparentemente protege Jef no interrogatório inicial, é um dos elementos mais enigmáticos do filme. Ela observa, silencia, protege, talvez manipule. Seu olhar é chave para a atmosfera de mistério — e para a ambiguidade moral.

Ela encarna a figura feminina típica do noir, mas Melville retira dela o melodrama, deixando apenas o enigma.


A polícia como espelho do assassino

O comissário que caça Jef é tão metódico, obsessivo e frio quanto ele.
A perseguição não é apenas policial — é filosófica.

São dois homens que seguem códigos diferentes, mas igualmente rígidos.
Numa sociedade em que tudo é controle e vigilância, Jef é o elemento que não pode existir.
E sua morte — silenciosa, quase ritual — confirma sua condição de anacronismo.


Minimalismo que virou escola

Le Samouraï influenciou:

  • John Woo e seu “bandido de honra”,
  • Michael Mann (Thief, Heat, Collateral),
  • Jim Jarmusch (Ghost Dog),
  • Nicolas Winding Refn (Drive),
  • e toda uma tradição de noir estilizado e contemplativo.

Melville reinventou o noir ao depurá-lo até a ossatura — e transformou o silêncio em estilo.


Conclusão

O Samurai é um dos grandes filmes da história do cinema: um noir minimalista, filosófico, elegante e absolutamente hipnótico.
Jef Costello é o último samurai de uma era que já não existe, um homem que vive por um código e morre por ele, cercado por uma modernidade que não tem lugar para sua disciplina ou sua melancolia.

Obra-prima da mise-en-scène, do rigor narrativo e da estética do silêncio, Le Samouraï permanece como referência absoluta do noir moderno — eterno como a figura que retrata.




terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Círculo Vermelho (1970) Le cercle rouge - 2 h 20 min

DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão

O filme gira em torno de um assalto a um cofre e a complexa interação entre três personagens principais: Corey: Um criminoso recém-saído da prisão que planeja um grande roubo. Jansen: Um ex-policial alcoólatra que se junta a Corey. Voldemort: Um assassino que se torna um aliado inesperado. A história explora temas de amizade, traição e a inevitabilidade do destino.


Dir: Jean-Pierre Melville
Assalto, Drama, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 9,2
Letterboxd: 8,4   Flick Metrix: 85
96%Tomatometer67 Reviews   92%Popcornmeter

Melville não filma o assalto. Filma o que há de inevitável no destino de quem escolhe esse lado.


Melville e a tradição que inventou

Jean-Pierre Melville é o cineasta que criou o policial francês como gênero de autor, transformando as convenções do noir americano numa linguagem própria que influenciou Godard, Tarantino e qualquer diretor que já filmou homens de poucas palavras em situações de alto risco. Le Cercle Rouge é seu testamento nesse território: o filme que reúne com mais clareza tudo que Melville entendia sobre código de honra, fatalidade e a dignidade específica de quem vive fora da lei com consciência do que isso significa. É um filme de assalto que transcende completamente as convenções do gênero sem jamais abandoná-las.


O silêncio como linguagem primária

Alain Delon, Gian Maria Volonté e Yves Montand formam um trio que o filme apresenta separadamente e reúne pela lógica do destino, e o que os une além do plano é o silêncio. Melville filma personagens que comunicam pela postura, pelo gesto mínimo, pelo que não dizem numa situação que pede que se diga algo. Essa economia expressiva não é afetação estilística: é argumento sobre o tipo de homem que habita o círculo vermelho, alguém para quem as palavras são instrumentos práticos e não veículos de intimidade.


A sequência da joalheria como ritual

O assalto à joalheria da Place Vendôme em Le Cercle Rouge é uma das sequências mais admiradas do cinema de heist, e o que a distingue de Rififi e Topkapi é o seu registro. Não há humor, não há tensão convencional construída por cortes rápidos: há precisão ritual, como se os personagens estivessem executando um ato que foi praticado muitas vezes antes mesmo que o espectador os conheça. Henri Decaë filma o interior da joalheria com uma frieza que torna cada movimento dos personagens visível na sua totalidade, sem close-ups que dramatizem o que já é dramático por natureza.


Mattei e a outra lealdade


André Bourvil interpreta o comissário Mattei, o policial que persegue os protagonistas, com uma dignidade que espelha a dos criminosos. Melville tinha o cuidado de nunca fazer seus antagonistas menores do que seus protagonistas: Mattei é competente, honesto dentro de seus limites e movido por um código que é a imagem invertida do código de Corey e Vogel. Le Cercle Rouge funciona como tragédia grega porque ambos os lados têm razão dentro de suas próprias lógicas, e o destino que os une no círculo vermelho não favorece nenhum deles.


Onde assistir e o que esperar

Disponível em plataformas brasileiras para locação e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 140 minutos e um ritmo que exige do espectador a disposição de habitar o tempo dos personagens, que é lento, deliberado e completamente avesso à urgência do thriller convencional. Espectadores que chegam do ritmo de Snatch ou Baby Driver precisarão de ajuste. Os que chegam de Rififi vão reconhecer o território imediatamente.


A fatalidade como tema


Le Cercle Rouge coloca no centro da mostra o argumento mais sombrio disponível no cinema de assalto: que o lado que se escolhe não é apenas uma decisão moral ou prática, mas uma destinação que o universo já preparou antes de qualquer escolha consciente. Os filmes anteriores na lista mostram personagens que planejam, executam e torcem pela própria sorte. Melville mostra personagens que sabem, em algum nível, que o círculo vermelho já foi traçado ao redor deles.

domingo, 19 de outubro de 2025

O Leopardo (1963) Il gattopardo - 3 h 06 min

Na Sicília do século XIX, em meio à unificação da Itália, Don Fabrizio Salina observa com melancolia a queda da aristocracia e a ascensão da burguesia. Em um mundo que muda rápido demais, ele tenta manter a dignidade e os valores de um tempo que se despede.


Dir: Luchino Visconti
Drama de Época, Épico, Histórico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 10,0
98%Tomatometer50 Reviews   89%Popcornmeter


O que saber

Certified fresh score. Consenso dos críticos

Luxuoso e melancólico, O Leopardo apresenta batalhas épicas, figurinos suntuosos e uma valsa de salão que compete pela sequência mais bonita comprometida com o filme.

Leia as avaliações dos críticos



quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Paris Está em Chamas? (1966) Paris brûle-t-il? - 2 h 55 min

Mostra Orson Welles: Um Homem, Muitos Palcos

A verdadeira história da retirada do exército alemão de Paris em 1944. Neste filme longo e cheio de estrelas, vemos as lutas das várias facções da resistência francesa para recuperar o controle de Paris, perto do fim da Segunda Guerra Mundial. O general nazista encarregado de Paris, Dietrich von Choltitz (Fröbe), têm ordens de Hitler para queimar a cidade se ele não puder controlá-lo ou se os Aliados chegarem muito perto. Grande parte do drama gira em torno das deliberações morais do General Dietrich, do embaixador sueco Raoul Nordling (Orson Welles), e dos ansiosos mas desesperadas líderes da resistência francesa.


Dir: René Clément
Drama, Guerra, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,8
75%Tomatometer8 Reviews   72%Popcornmeter



Um drama histórico em que a salvação de uma cidade depende menos da força militar do que da palavra, da negociação e da coragem moral.


A Cidade como Refém da História

Paris Está em Chamas? situa-se nos dias finais da ocupação nazista, quando Paris vive sob a ameaça de destruição total. A cidade não é apenas cenário: é o objeto central do conflito. Monumentos, ruas e pontes tornam-se símbolos de um patrimônio cultural prestes a desaparecer, transformando o espaço urbano em refém de decisões políticas extremas.


O Poder no Limiar da Catástrofe

O filme observa o poder em seu momento mais frágil: quando obedecer ordens significa cometer um crime irreversível. A autoridade aparece dilacerada entre hierarquia e consciência, revelando que a História não avança apenas por batalhas, mas por escolhas individuais feitas sob pressão absoluta.


A Diplomacia como Ato de Resistência


Na interpretação de Orson Welles como Raoul Nordling, o filme encontra seu eixo ético. Welles encarna o diplomata que compreende que a palavra pode ser mais eficaz do que a violência. Sua atuação é contida e firme, fazendo da negociação um gesto heroico silencioso, capaz de interromper a lógica da destruição.


A Guerra sem Centro Único

O filme adota uma narrativa coral, fragmentada, que dispersa o protagonismo e reflete a complexidade histórica do momento. Generais, soldados, civis e políticos dividem a cena, reforçando a ideia de que a libertação não pertence a um único herói, mas a uma convergência de ações, hesitações e resistências.


Salvar sem Vencer

Diferente dos épicos de guerra tradicionais, Paris Está em Chamas? não culmina em triunfo espetacular. O clímax é a preservação, não a conquista. O filme sugere que, em certos momentos históricos, o verdadeiro ato revolucionário não é avançar, mas impedir que o pior aconteça.


Recepção e Legado

Lançado como grande superprodução internacional, Paris brûle-t-il? foi recebido com respeito e alguma reserva crítica, sobretudo por seu tom clássico e estrutura episódica. Com o tempo, o filme passou a ser valorizado como registro singular de um momento decisivo do século XX e como reflexão madura sobre responsabilidade histórica. A atuação de Orson Welles é hoje lembrada como uma de suas mais nobres encarnações do poder ético: não o que domina, mas o que persuade — e, ao fazê-lo, salva uma cidade inteira.