A obra original e seu lugar na trajetória de Austen
Emma foi escrito entre 1814 e 1815 e é o experimento
narrativo mais ousado de Austen: uma protagonista que está errada durante a
maior parte do romance, que interfere na vida dos outros com a certeza de quem
está certo e a cegueira de quem não consegue ver o que está diante de si, e que
o leitor precisa amar o suficiente para continuar acompanhando mesmo quando
está errada.
Emma foi escrito num período de maior isolamento na vida de
Austen, após a morte do pai em 1805 e os anos de instabilidade que se seguiram,
e esse isolamento pode ter influenciado a escolha de uma protagonista que vive
dentro de uma bolha social tão completa que não consegue ver além dela. Austen
conhecia de perto o que acontece quando o mundo de uma pessoa se torna pequeno
o suficiente para que seus próprios julgamentos sejam os únicos disponíveis.
McGrath e a leveza como argumento
A produção usa o campo inglês de verão com uma paleta que é
quase pastel, quase excessivamente luminosa, e essa escolha é parte do
argumento: estamos vendo o mundo como Emma o vê, através de uma lente que torna
tudo mais agradável e mais controlável do que é. Quando a realidade começa a
corrigir a perspectiva de Emma, a paleta não muda de forma dramática, mas a
composição das cenas começa a incluir elementos que a visão anterior havia
excluído.
Gwyneth Paltrow e o charme que esconde a cegueira
A progressão do personagem, da certeza confortável à
descoberta desconfortável de que havia estado errada sobre praticamente tudo
que achava que entendia, é filmada com uma sutileza que respeita a inteligência
de Emma: ela não é tola, é cega de uma forma específica que a inteligência não
corrige automaticamente, e Paltrow comunica essa distinção com uma consistência
que torna a chegada da autoconsciência emocionalmente verdadeira em vez de
dramaticamente conveniente.
Jeremy Northam como Mr. Knightley é o único personagem que
vê Emma com clareza desde o início, que a critica com o afeto de quem a conhece
completamente e quer que ela seja mais do que está sendo, e Northam interpreta
essa posição com uma ternura que evita o risco de tornar Knightley
paternalista: ele não quer que Emma seja diferente, quer que Emma seja mais
completamente ela mesma.
Harriet Smith e o que a amizade revela
McGrath filma essa dinâmica com uma consciência de que Emma
está errada mas com afeto suficiente por Emma para que a wrongness não seja
simplesmente condenada. Toni Collette como Harriet existe no filme com uma
presença que vai além do papel de vítima das boas intenções de Emma: há uma
vida interior em Harriet que o filme respeita e que Emma consistentemente não
vê, e essa invisibilidade é parte do argumento sobre os limites da benevolência
que não começa pela escuta.
Onde assistir e o que esperar
Emma (1996) Official Trailer - Gwyneth Paltrow, Ewan McGregor Movie HD
A Austen que aprendeu a rir de si mesma