Sinopse
Em 1941,
durante a invasão nazista de Belgrado, o oportunista Marko Dren e o idealista
comunista Petar Popara, apelidado Zaba, fabricam armas para a resistência
iugoslava num porão secreto sob a casa da família de Marko, escondendo ali
dezenas de vizinhos, familiares e o próprio irmão de Zaba, Ivan, à medida que
os bombardeios destroem a cidade lá em cima.
Após ver Zaba
capturado pelos alemães e resgatá-lo com a ajuda da atriz Natalija, por quem
ambos os amigos se apaixonam, Marko decide manter Zaba e os demais moradores
enganados no porão por décadas depois do fim real da guerra, forjando
transmissões de rádio e simulando bombardeios noturnos para convencê-los de que
o conflito ainda persiste, enquanto ele próprio ascende à condição de alto
funcionário comunista na Iugoslávia de Tito.
Análise
Crítica
Escrito por
Dušan Kovačević e Emir Kusturica a partir de peça teatral do próprio Kovačević,
o filme narra numa estrutura tripartite, subdividida em Guerra, Guerra Fria e
Guerra, mais de cinco décadas de história iugoslava, desde a ocupação nazista
até a desintegração violenta do país nos conflitos balcânicos dos anos noventa.
Rodado ao longo
de quase dois anos entre 1993 e 1995 com orçamento de doze milhões e meio de
euros, contando com financiamento da emissora estatal sérvia e o uso de
equipamento militar iugoslavo genuíno como adereços de cena, o filme reúne Miki
Manojlović e Lazar Ristovski nos papéis centrais de Marko e Zaba, com trilha
sonora composta por Goran Bregović que se tornaria icônica por si só.
Estreado no
Festival de Cannes em 1995, o filme rendeu a Kusturica sua segunda Palma de
Ouro na carreira, dez anos após vencer pela primeira vez com Papai Está em
Viagem de Negócios, além de receber indicação ao Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro e vencer o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Lumière Awards
francês.
O filme recebeu
86% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e nota 79 no Metacritic, tendo
provocado ao mesmo tempo um intenso debate político sobre sua representação do
conflito iugoslavo, com intelectuais franceses como Bernard-Henri Lévy
inicialmente acusando Kusturica de propaganda sérvia, acusação que o próprio
Lévy viria a moderar anos depois.
⚠️ ATENÇÃO:
A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS
Se você
ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar
depois.
A
Interpretação da Obra
O engano
prolongado que Marko impõe a Zaba e aos demais moradores do porão, mantendo-os
convencidos de que a Segunda Guerra Mundial jamais terminou enquanto ele
próprio prospera na superfície como membro da elite comunista iugoslava,
funciona como alegoria direta do próprio regime titoísta, que Kusturica sugere
ter mantido a população iugoslava também enganada sobre tensões étnicas reais
que a ideologia oficial de irmandade e unidade insistia em negar.
A trajetória de
Zaba, que emerge do porão nos anos sessenta ainda acreditando estar em guerra e
acaba incorporado, décadas depois, aos conflitos reais e sangrentos da
desintegração iugoslava dos anos noventa, sugere que o mito fundador construído
sobre mentiras coletivas eventualmente cobra seu preço quando a realidade
suprimida retorna com violência ainda maior do que a originalmente escondida.
A escolha de
Kusturica de tratar tragédias históricas reais, incluindo a violência entre
sérvios, croatas e bósnios, através de um registro predominantemente farsesco e
circense, pontuado por música ininterrupta e humor absurdo mesmo nos momentos
mais sombrios, gerou controvérsia precisamente por recusar-se a atribuir culpa
definida a qualquer lado específico do conflito, preferindo retratar a
violência balcânica como loucura coletiva compartilhada por todos os
envolvidos.
Ao encerrar com
uma sequência onírica que reúne todos os personagens, vivos e mortos, numa
celebração final à beira de um pedaço de terra que literalmente se desprende do
continente e flutua à deriva, o filme oferece uma imagem de reconciliação
impossível dentro da realidade histórica mas talvez alcançável apenas no reino
da fantasia, sugerindo que a única unidade genuína entre os povos iugoslavos
talvez exista apenas fora do tempo histórico real.
Conclusão
Underground
consolidou Emir Kusturica como um dos cineastas mais ambiciosos e visualmente
exuberantes do cinema europeu de sua geração, demonstrando capacidade rara de
sustentar mais de duas horas e meia de narrativa histórica através de um
registro simultaneamente farsesco e devastador.