Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza
Um agiota é forçado a reconsiderar seu estilo de vida violento após a chegada de uma mulher misteriosa que afirma ser sua mãe há muito perdida.
Crime, Drama, Suspense
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 7,1 METASCORE: 7,2
Pietà (Pieta) é um dos filmes mais duros,
radicais e controversos do cinema contemporâneo, dirigido por Kim Ki-duk.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2012,
o filme representa tanto o ápice quanto o limite extremo da visão moral e
estética do cineasta sul-coreano.
Violência como sistema
Ambientado em um bairro industrial degradado de Seul,
Pietà
acompanha Kang-do, um cobrador de dívidas brutal que mutila devedores para
forçar indenizações de seguro. Sua violência não é impulsiva nem caótica: ela é
metódica, funcional e integrada ao sistema econômico. Kim Ki-duk
apresenta a brutalidade como engrenagem normalizada de um capitalismo
predatório, onde corpos são meros instrumentos de lucro.
O filme não suaviza nem estetiza esse mundo. A agressão é
frontal, desconfortável, muitas vezes insuportável — uma escolha ética que
impede qualquer consumo fácil da violência.
A irrupção do afeto
A estrutura do filme se transforma com a chegada de uma
mulher que afirma ser a mãe abandonada de Kang-do. Interpretada com ambiguidade
perturbadora por
Jo Min-soo, essa figura introduz o afeto em um universo
até então regido apenas pela crueldade. No entanto, o cuidado materno não surge
como redenção simples, mas como
força desestabilizadora, capaz de
revelar feridas profundas e abrir espaço para culpa e sofrimento ainda maiores.
A relação entre os dois não é construída pela ternura, mas
pela dor compartilhada.
Religião, culpa e sacrifício
O título remete à iconografia cristã da Pietà — a mãe que
sustenta o filho morto. Kim Ki-duk subverte essa imagem: aqui, o filho é
moralmente morto desde o início, e a maternidade não salva, mas
conduz ao
sacrifício. O filme dialoga com temas religiosos sem espiritualidade
reconfortante. Não há transcendência; há punição, repetição e culpa.
A redenção, se existe, é tardia e inútil.
Estilo cru, sem mediações
Formalmente,
Pietà mantém a estética austera
característica do diretor: câmera direta, poucos movimentos, ambientes sujos e
desumanizados. O corpo humano é filmado como matéria vulnerável, constantemente
ameaçada. Não há trilha sonora emocional nem distanciamento irônico — o
espectador é colocado diante da violência sem proteção.
Essa frontalidade radical tornou o filme profundamente
divisivo, mas também impossível de ignorar.
Por que o Leão de Ouro
Ao premiar
Pietà, Veneza reconheceu:
- a
radicalidade de um cinema que confronta diretamente as estruturas de
exploração;
- a
coerência extrema de um autor disposto a levar sua visão até as últimas
consequências;
- um
filme que transforma violência econômica em tragédia moral.
👉 Pietà não busca
empatia fácil nem conforto ético. É um cinema que fere, acusa e insiste — um
retrato brutal de um mundo onde o afeto chega tarde demais. Um Leão de Ouro que
reafirma a vocação de Veneza para premiar obras que desafiam não apenas a
linguagem, mas também a resistência moral do espectador.