quinta-feira, 30 de abril de 2026

Primavera (2025) - 1 h 50 min

Filme incluso na série CLC INDICA




Primavera (2025) - IMDb
Dir: Damiano Michieletto
Biografia, Drama, História, Música

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,1
Letterboxd: 7,2


Vivaldi não salva Cecilia. A música que ele ensina é que salva. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Um diretor de ópera no cinema


Damiano Michieletto é um dos diretores de ópera mais respeitados da Europa, com encenações no Teatro alla Scala e na Royal Opera House, e Primavera é seu primeiro longa-metragem. Essa origem importa porque define a lógica do filme: Michieletto não trata a música como trilha sonora nem como ornamento de época. Trata como força dramática primária, o elemento que move personagens, que rompe silêncios, que diz o que as palavras do roteiro não alcançam. A câmera de Daria D'Antonio e a montagem de Walter Fasano, habitual colaborador de Luca Guadagnino, constroem um ritmo visual que responde ao ritmo musical com uma coerência que o cinema raramente consegue quando o assunto é o universo clássico.

Veneza como organismo, não como cartão postal

Michieletto filma a Veneza do século XVIII com uma brutalidade discreta que recusa a nostalgia decorativa. A cidade que aparece em Primavera é um organismo movido por dinheiro, hierarquia e barganha: os patronos escolhem onde gastar seus domingos com a frieza de investidores, o orfanato da Pietà administra suas órfãs como ativos, e a beleza das concertinas que emergem desse ambiente é inseparável da opressão que as produz. A fotografia tem uma qualidade pictórica que remete à pintura veneziana do período, mas sem o brilho contemplativo que esse referencial costuma trazer. Tintoretto, não Ticiano: luz em movimento, diagonais ousadas, drama resolvido num gesto único.


Cecilia e o peso de ser um instrumento

Tecla Insolia interpreta Cecilia com uma presença que sustenta o filme nos momentos em que o roteiro vacila. Cecilia sabe desde o início que é uma commodity: nasceu no orfanato, toca violino porque o orfanato precisa de sua música para atrair doadores, e seu destino fora dos muros é o casamento com um soldado que ela não escolheu. O arco dela não é de descoberta do talento, que já existe e é reconhecido, mas de descoberta do valor desse talento como ferramenta de agência num mundo que não previu que ela pudesse usá-lo assim. Insolia carrega essa consciência crescente com uma economia expressiva que o filme respeita sem sublinhar.

Vivaldi como catalisador, não como herói

Michele Riondino interpreta Vivaldi como um homem que já foi genial e sabe disso, que chega à Pietà diminuído e precisando tanto da orquestra quanto ela precisa dele. A decisão de não romantizar a figura histórica é o acerto central do roteiro de Michieletto e Ludovica Rampoldi: Vivaldi não é o mestre iluminado que liberta a pupila. É alguém que encontra em Cecilia um espelho de sua própria luta com o reconhecimento e as limitações impostas pelo sistema. A relação entre os dois funciona porque nenhum dos dois é redentor do outro. São dois artistas presos em estruturas diferentes que se reconhecem.

A música como argumento, não como ilustração

A trilha original de Fabio Massimo Capogrosso, construída em diálogo com as composições reais de Vivaldi, é parte inseparável da experiência do filme. Michieletto usa a música com a mesma intenção com que a usaria numa encenação de ópera: para expressar o que os personagens não podem dizer, para contradizer o que estão dizendo, para puxar a cena para frente quando a narrativa ameaça parar. Há momentos em que o filme abandona a lógica do drama realista e entra num território mais próximo do musical sem declarar isso, e nesses momentos Primavera encontra sua voz mais própria.

Onde assistir e o que esperar

Primavera estreou no Festival de Toronto em setembro de 2025 e foi lançado na Itália em dezembro do mesmo ano pela Warner Bros. Está disponível em múltiplas plataformas internacionais segundo o Plex, com distribuição confirmada em mais de 50 países. No Brasil, verificar disponibilidade nas plataformas de streaming europeias com acesso regional. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 111 minutos e um ritmo que exige do espectador disposição para habitar o ambiente antes de julgar a narrativa. Espectadores que chegam esperando um cinebiografia convencional de Vivaldi vão precisar reajustar as expectativas: ele é personagem secundário numa história que pertence a Cecilia.


Arte como única saída possível

Primavera pertence a uma tradição de filmes que entendem a criação artística não como privilégio ou vocação romântica, mas como a única forma de existência digna disponível para quem não tem acesso a nenhuma outra. Cecilia não escolhe a música porque a ama acima de tudo. A escolhe porque é o único território onde as regras que a aprisionam têm uma brecha. Michieletto, vindo do universo da ópera onde essa tensão entre disciplina e liberdade é o próprio material de trabalho, filma essa brecha com a precisão de quem a conhece por dentro.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

5 Centímetros por segundo (2025) Byosoku 5 senchimetoru - 2 h 3 min

Filme incluso na série CLC indica

Takaki conta a história de sua vida à medida que os tempos de mudança testam seus sentimentos românticos.


Drama, Romance

MP4 / HD- / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,0
Letterboxd: 7,0



A distância entre duas pessoas não se mede em quilômetros. Se mede em quanto tempo leva para uma pétala de cerejeira chegar ao chão.


O peso de adaptar o intraduzível

Quando Makoto Shinkai lançou o anime original em 2007, criou algo que parecia resistir à transposição para o live-action: uma obra cuja beleza dependia da animação como linguagem, do irreal como caminho para o real. Yoshiyuki Okuyama, diretor vindo do universo dos videoclipes, aceita esse desafio sem fingir que é simples. O resultado é um filme que não tenta replicar o anime frame a frame, mas encontrar em atores de carne e osso e em locações físicas a mesma qualidade de presença e ausência que Shinkai construiu com pixels. Às vezes consegue. Às vezes a distância entre os dois filmes é exatamente o tema de ambos.

Takaki e o peso do que não foi dito

Hokuto Matsumura carrega Takaki com uma contenção que é a escolha certa para um personagem cuja tragédia é interna e silenciosa. Takaki não é alguém que sofre de forma demonstrativa: é alguém que continua funcionando enquanto algo essencial vai se apagando, e Matsumura comunica esse apagamento com uma presença física que o anime, por natureza, não podia oferecer. O corpo real do ator adiciona uma dimensão de peso e de tempo que transforma a jornada de Takaki em algo mais próximo do que reconhecemos como experiência vivida.

A estrutura em três atos como cartografia da perda

Okuyama mantém a estrutura triptíca do original, três momentos na vida de Takaki separados por anos e por uma distância que vai deixando de ser geográfica para se tornar existencial. Cada ato tem um registro visual distinto, e o diretor usa essa diferença para marcar o que o tempo faz com a memória: a infância filmada com uma luz quente que parece sempre prestes a desaparecer, a adolescência com uma instabilidade que a câmera deixa transparecer, a idade adulta com uma frieza que é ela mesma um comentário sobre o que foi perdido.

Cerejeiras, trens e a tirania da distância

Os elementos visuais que definem o anime, as pétalas de cerejeira, os cruzamentos ferroviários, a neve sobre os trilhos, retornam no live-action não como citação nostálgica mas como linguagem com função narrativa. Okuyama filma o Japão real com o olhar de quem entende que a beleza do país tem uma relação específica com a transitoriedade, e que essa relação é o coração do que Shinkai criou. As locações não são decoração. São argumento.

O que o live-action ganha e o que perde

A versão de 2025 tem 123 minutos contra os 63 do anime, e essa diferença de duração não é apenas quantitativa. Okuyama usa o tempo adicional para desenvolver personagens secundários que no anime eram apenas silhuetas, especialmente as mulheres ao redor de Takaki, e essa expansão humaniza o universo do filme sem diluir seu foco. O que se perde é a pureza formal do anime: a animação de Shinkai tinha uma coerência estética que o live-action, por sua própria natureza, não pode replicar completamente. Mas o que se ganha é a presença, o peso, a respiração real dos personagens.

Onde assistir e o que esperar

Lançado no Japão em outubro de 2025, 5 Centímetros por Segundo ainda circula com distribuição limitada fora da Ásia. Vale buscar em plataformas especializadas em cinema japonês contemporâneo. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Espectadores que conhecem o anime vão ter uma experiência inevitavelmente comparativa, e isso não é problema: os dois filmes dialogam de formas que enriquecem os dois. Quem chega sem o anime tem a vantagem de encontrar o filme sem o peso da comparação, e talvez seja essa a melhor forma de entrar pela primeira vez nessa história.

A distância como destino

5 Centímetros por Segundo sempre foi um filme sobre o quanto a vida real difere do que imaginamos quando somos novos e ainda acreditamos que o amor é suficiente para vencer a distância. A versão live-action de Okuyama não trai esse argumento. Amplia-o ao traduzir para corpos reais e locações físicas uma história que, no anime, corria o risco de ser percebida como bela demais para doer de verdade. Dói. E a beleza, como sempre em Shinkai, não atenua a dor. A intensifica.



Gli anni ruggenti (1962) (ROARING YEARS) - 1 h 46 min

FORA DO RADAR: Filmes que mais gente deveria ter visto

A visita incógnita de um hierarca fascista em uma pequena cidade do interior abala profundamente a classe dominante e sua falta de integridade.


Comédia

MP4 / SD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,4 (0,5 mil)
Letterboxd: 7,2 (0,7 mil)   Flick Metrix: 73



Um inspetor fascista chega a uma cidade pequena para encontrar culpados. A cidade pequena devolve um espelho.


Zampa e a tradição da comédia com consciência

Luigi Zampa pertence a uma geração de diretores italianos que aprendeu com o neorrealismo que o cinema podia ser popular e honesto ao mesmo tempo, e Gli Anni Ruggenti é talvez sua síntese mais bem realizada. O filme opera no registro da commedia all'italiana, com toda a leveza e o timing cômico que o gênero exige, mas nunca perde de vista o que está debaixo da piada: a anatomia de uma sociedade que aprendeu a conviver com o autoritarismo não por covardia, mas por uma sabedoria prática que é ela mesma uma forma de resistência.

Nino Manfredi e o funcionário que acredita

A performance de Nino Manfredi como Battipaglia é o centro de gravidade do filme. O inspetor não é um vilão convencional: é um homem que acredita genuinamente no que faz, que internalizou a ideologia do regime com uma sinceridade que o torna simultaneamente ridículo e perturbador. Manfredi encontra o equilíbrio exato entre a caricatura e a humanidade, e o resultado é um personagem que o espectador consegue rir e reconhecer ao mesmo tempo, o que é exatamente o território mais incômodo que a comédia pode ocupar.

A cidade como organismo de sobrevivência

O verdadeiro protagonista de Gli Anni Ruggenti não é Battipaglia mas a cidade que ele vai investigar. Zampa constrói uma comunidade que desenvolveu um sistema coletivo de autopreservação: todos colaboram, todos mentem de forma coordenada, todos entendem as regras não escritas de como se comportar diante do poder sem se destruir. Essa inteligência coletiva não é apresentada como heroísmo, mas como pragmatismo, e essa recusa da romantização é o que torna o retrato honesto.

O fascismo como burocracia do absurdo


Zampa filma o aparato do regime como uma máquina produtora de absurdo: formulários que não servem, hierarquias que se contradizem, ordens que chegam de lugares que ninguém sabe identificar. Essa representação burocrática do fascismo tem uma eficácia crítica que a representação monstruosa raramente alcança, porque humaniza o mecanismo sem absolvê-lo. O mal aqui não tem face dramática. Tem carimbo, tem protocolo, tem expediente regular.


Onde assistir e o que esperar

Gli Anni Ruggenti não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras. Vale buscar em acervos especializados em cinema italiano clássico ou plataformas de importação europeias. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 106 minutos e um ritmo que combina o timing da comédia italiana com a densidade do drama político. Espectadores familiarizados com a commedia all'italiana de Pietro Germi e Dino Risi vão reconhecer o território. Para quem chega sem essa referência, é uma porta de entrada generosa para um dos melhores momentos do cinema italiano.


Por que ficou fora do radar

Gli Anni Ruggenti chegou em 1962 numa janela de mercado ocupada por nomes maiores e mais barulhentos. Fellini lançava Oito e Meio no ano seguinte, Visconti dominava o prestígio internacional, e a commedia all'italiana de Risi e Monicelli consumia o espaço do cinema popular. Zampa, sem o perfil de autor nem o apelo comercial dos contemporâneos mais famosos, ficou numa faixa de invisibilidade que o tempo não corrigiu. O filme merecia o mesmo circuito que encontrou para Germi e para Risi. Não encontrou. E continua esperando.





Vale Abraão (1993) - 3 h 7 min

FORA DO RADAR: Filmes que mais gente deveria ter visto

Ema é uma garota muito bonita e inocente. Ela se casa com o Dr. Carlo Paiva. Eles se estabelecem no Vale de Abraão. Pouco a pouco, Ema se torna infeliz em seu casamento e, aproveitando sua liberdade, ela se apaixona.


Vale Abraão (1993) - IMDb
Dir: Manoel de Oliveira
Drama

MP4 / HD- / LEG: Português / ÁUDIO: Português (Portugal)

IMDB: 7,3 (1,7 mil)   Critic: 75
Letterboxd: 82 (2,8 mil)   Flick Metrix: 76
86%Tomatometer7 Reviews   77%Popcornmeter


Madame Bovary sobreviveu. Mudou de país, de século e de nome. Continua insatisfeita.


Oliveira e a duração como forma

Vale Abraão dura 187 minutos e cada um deles é uma declaração de intenção. Manoel de Oliveira, que tinha 84 anos quando o filmou, não estava interessado em contar uma história com eficiência. Estava interessado em criar uma experiência de tempo que replicasse a experiência interna de Ema: a lentidão sufocante de uma vida que não corresponde ao que se imaginou para ela. A duração não é excesso. É o filme. Espectadores que resistem ao ritmo estão tendo a experiência correta, porque Ema também resiste, e essa resistência é o seu drama central.

Agustina Bessa-Luís e a palavra como arquitetura

O roteiro de Agustina Bessa-Luís, adaptado do seu próprio romance, tem uma relação com a linguagem que é incomum no cinema: as palavras não servem à ação, são a ação. Os diálogos de Vale Abraão têm a densidade da prosa literária portuguesa do século XIX, e Oliveira filma as conversas com uma frontalidade que recusa a naturalização cinematográfica convencional. Personagens falam para a câmera, pausas duram mais do que o conforto permite, e o resultado é um filme que exige do espectador uma escuta ativa que o cinema raramente pede.

Ema e a impossibilidade do suficiente

Leonor Silveira interpreta Ema com uma presença que comunica o vazio sem precisar representá-lo. Ema não é simplesmente insatisfeita: é alguém para quem a realidade tem uma textura errada, um peso errado, uma temperatura errada. Cada relacionamento que busca fora do casamento é uma tentativa de encontrar o mundo que imaginou existir, e cada um fracassa não por causa dos homens mas por causa do que Ema procura neles, que é algo que nenhuma pessoa real poderia oferecer. Oliveira não julga Ema. Observa.

O Douro como contraponto

Oliveira filma o vale do Douro com uma beleza que não é consolação. A paisagem existe no filme como aquilo que permanece enquanto as vidas humanas se consomem, indiferente e permanente, e essa indiferença do mundo natural ao drama humano é um dos argumentos visuais mais consistentes do filme. As quintas, os vinhedos, o rio: tudo tem uma solidez que contrasta com a fluidez autodestrutiva de Ema, e Oliveira usa esse contraste sem sublinhar, deixando-o trabalhar em silêncio por baixo da narrativa.

Onde assistir e o que esperar

Vale Abraão não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras. Vale buscar em acervos especializados em cinema europeu de autor ou plataformas de importação. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. A experiência pede uma tarde inteira e a disposição de abandonar qualquer expectativa de ritmo convencional. A fotografia de Mario Barroso usa a luz natural do Douro com uma qualidade pictórica que justifica sozinha parte da duração. Assistir em tela pequena é possível, mas empobrece o trabalho visual de Oliveira de forma considerável.

Por que ficou fora do radar

Vale Abraão chegou em 1993 num circuito de festivais que já reconhecia Oliveira como mestre, mas nunca o transformou em nome acessível ao público cinéfilo mais amplo. A duração funcionou como barreira de entrada, a língua portuguesa como barreira de distribuição, e o refinamento extremo da linguagem como barreira de recepção. O filme exige demais para quem não está preparado e entrega demais para quem está, e esse desequilíbrio entre exigência e recompensa é o destino comum das obras que chegam antes do público que precisariam ter encontrado.

Hebi no michi (1998) (SERPENT'S PATH) - 1 h 25 min

FORA DO RADAR: Filmes que mais gente deveria ter visto

Um homem recruta um amigo para ajudá-lo a identificar e vingar o assassino de sua filha.


Hebi no michi (1998) - IMDb
Dir: Kiyoshi Kurosawa
Crime, Drama, Suspense

MP4 / SD / LEG: Português

IMDB: 7,0 (1,4 mil)
Letterboxd = 7,4 (4,5 mil)   Flick Metrix = 7,2
82%Popcornmeter


Vingança não é um ato. É um processo. E Kiyoshi Kurosawa filma cada etapa sem desviar o olhar.


O vídeo como linguagem do sórdido

Serpent's Path foi filmado em vídeo digital numa época em que isso ainda era escolha de baixo orçamento, não de estética deliberada, e Kiyoshi Kurosawa transforma essa limitação em argumento. A textura granulada e a paleta dessaturada criam um ambiente visual que contamina tudo que aparece na tela com uma qualidade de documento, de coisa que não deveria ter sido registrada mas foi. O vídeo aproxima o espectador da violência.

Nijima e Shinkichi como par improvável

A dinâmica central do filme é a relação entre dois homens unidos pelo mesmo objetivo mas separados por tudo mais: temperamento, método, limites. Nijima, o matemático frio, e Shinkichi, o pai em luto, formam um par que Kurosawa usa para explorar os dois vetores da vingança, o calculado e o emocional, sem privilegiar nenhum dos dois como moralmente superior. O roteiro de Hiroshi Takahashi, que também escreveu Cure, tem a precisão de quem entende que a vingança é sempre uma negociação entre o que se quer fazer e o que se é capaz de fazer.

A tortura como procedimento

Serpent's Path contém cenas de violência que o filme trata com uma burocracia perturbadora: não há música dramática, não há câmera que busca o ângulo mais impactante, não há sinalização de que o espectador deve sentir horror ou alívio. A violência acontece como procedimento, como etapa de um processo que tem lógica própria, e essa frieza é mais perturbadora do que qualquer estética de horror convencional. Kurosawa entendeu que o monstruoso se torna mais monstruoso quando parece razoável.


O espaço como prisão

Kurosawa filma Serpent's Path quase inteiramente em interiores fechados, e esses espaços têm a qualidade específica de lugares onde ninguém deveria estar por muito tempo. Armazéns, apartamentos vazios, corredores sem saída. A câmera não embeleza esses ambientes nem os transforma em cenário estilizado. Os registra com a mesma indiferença com que registra tudo mais, e esse olhar equânime sobre o sórdido é uma das marcas mais perturbadoras do cinema de Kurosawa nesse período.

Onde assistir e o que esperar

Serpent's Path não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras. Vale buscar em acervos especializados em cinema japonês ou plataformas de importação. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 85 minutos e um ritmo que não concede pausas dramáticas convencionais. Espectadores familiarizados com Cure vão reconhecer o território imediatamente. Para quem chega sem referência prévia de Kurosawa, é uma porta de entrada exigente mas reveladora.

Por que ficou fora do radar

Serpent's Path foi lançado no mesmo ano que Cure, e Cure consumiu toda a atenção disponível para o cinema de Kurosawa naquele momento. Produzido como projeto paralelo com orçamento mínimo e distribuição quase inexistente fora do Japão, o filme ficou à sombra do irmão mais famoso por décadas. A ironia é que os dois filmes se complementam: onde Cure explora o mal como contágio, Serpent's Path o explora como escolha. Vistos juntos, definem um dos períodos mais coerentes e mais subestimados do cinema japonês dos anos 90.





Meng ying tong nian (2004) (ELECTRIC SHADOWS) - 1 h 33 min

FORA DO RADAR: 5 filmes que mais gente deveria ter visto

Dois amigos de infância escapam da realidade através do cinema tendo como pano de fundo a violenta revolução cultural chinesa.


Drama

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,5 (1,1 mil)   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 70 (580) Flick Metrix: 73
73%Tomatometer11 Reviews   85%Popcornmeter


Um filme sobre o poder do cinema feito por alguém que cresceu dentro dele.


A tela como primeiro mundo

Electric Shadows começa com uma briga numa rua de Pequim e termina numa sala de cinema improvisada no campo, e entre esses dois pontos reconstrói duas infâncias que o cinema salvou de formas diferentes. Xiao Jiang, estreando na direção longa, parte de uma premissa aparentemente simples e vai abrindo gavetas com uma paciência que o cinema chinês dos anos 2000 praticava com uma naturalidade que o Ocidente raramente alcançava. O filme entende que a memória não é linear e que a infância não termina quando a idade adulta começa.

Mao Dabing e o peso do que foi herdado

O protagonista adulto carrega uma história que não escolheu e que o filme vai entregando em fragmentos. Xiao Jiang não tem pressa de revelar as conexões entre passado e presente, e essa recusa da resolução rápida é o que separa Electric Shadows da maioria dos dramas de memória: o roteiro confia no espectador para habitar a ambiguidade sem precisar de sinalização constante. O peso do que foi herdado não tem cena de explicação. Tem peso.

O cinema ambulante como instituição

Uma das camadas mais ricas do filme é o retrato do cinema ambulante na China rural, aquelas projeções ao ar livre que eram simultaneamente entretenimento, política e ritual comunitário. Xiao Jiang filma essas cenas com uma reverência que não é romantismo: sabe que aquele mundo estava acabando enquanto o filmava, e essa consciência do fim iminente dá às imagens uma textura documental que o drama em torno delas não apaga.

A menina e a tela

A história paralela da infância de Ling, projetada em flashbacks que vão ganhando densidade à medida que o presente avança, é onde o filme mostra sua melhor escrita. Ling não é uma personagem construída para explicar o protagonista. Tem vida própria, contradições próprias, um arco que o filme respeita sem transformar em alegoria. A relação dela com o cinema é visceral e específica, e Xiao Jiang tem a inteligência de não generalizá-la em metáfora antes que a narrativa esteja pronta para isso.

A China entre dois tempos

Electric Shadows é também um documento sobre a China na dobra entre o coletivismo do passado recente e o individualismo emergente dos anos 2000. Xiao Jiang não tematiza essa tensão de forma explícita, mas ela está presente em cada escolha de cenário, em cada relação entre personagens, na distância entre o que as pessoas dizem e o que o filme mostra que sentiram. É um cinema político que não precisa se declarar político para funcionar como tal.

Onde assistir e o que esperar

Electric Shadows não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras no momento. Vale buscar em acervos digitais especializados em cinema asiático, plataformas de importação ou versões físicas de importação. Está disponível no Youtube. O filme tem 93 minutos e um ritmo que pede atenção nos primeiros vinte, quando a estrutura ainda não se revelou completamente. A fotografia de Wu Di usa a luz natural com uma qualidade que lembra o melhor do cinema iraniano da mesma época.

Por que ficou fora do radar

Electric Shadows chegou num momento em que o cinema chinês de autor estava disputando atenção com Zhang Yimou e Wong Kar-wai, dois nomes que consumiam todo o oxigênio disponível para o cinema asiático no circuito ocidental. Xiao Jiang, estreante sem nome de marquise, ficou sem distribuição fora da Ásia e sem a segunda chance que filmes menores precisam para construir reputação. As métricas contam essa história com precisão: 1.100 votos no IMDB e 580 no Letterboxd para um filme com 7.5 de nota e 85% no Popcornmeter. A qualidade estava lá. O momento não.







domingo, 26 de abril de 2026

O Menu (2022) The Menu - 1 h 46 min

DO PRAZER AO PODER: 7 Filmes sobre o que a Comida Revela

Um jovem casal viaja para uma ilha remota para comer em um restaurante exclusivo, onde o chef preparou um menu luxuoso, com algumas surpresas chocantes.


O Menu (2022) - IMDb
Dir: Mark Mylod
Comédia de Humor Negro, Sátira, Terror Psicológico, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 7,1
88%Tomatometer337 Reviews   76%Popcornmeter

O jantar mais caro da sua vida. E também o último.


A sátira servida em courses

Mark Mylod construiu The Menu como um thriller disfarçado de comédia negra disfarçado de filme gastronômico, e a eficiência dessa construção em camadas é o maior trunfo do filme. Um grupo seleto de convidados viaja até uma ilha remota para um jantar de degustação no restaurante mais exclusivo do mundo. O chef Slowik, interpretado por Ralph Fiennes numa contenção assustadora, tem preparado algo muito além de um menu. Mylod revela o que está em jogo aos poucos, com a precisão de um cozinheiro que sabe exatamente quando adicionar cada ingrediente.

O cliente como alvo

The Menu é uma sátira sobre consumo cultural de luxo e sobre as relações de poder entre quem cria e quem consome. Os convidados são arquétipos cuidadosamente escolhidos: o crítico gastronômico que destrói carreiras com uma frase, o investidor que compra experiências como ativos, o ator famoso por papéis que não o representam. Slowik os conhece melhor do que eles imaginam, e o jantar é uma forma de acerto de contas com uma indústria que transformou a arte culinária em produto de status para pessoas que não sabem distinguir sabor de prestígio.

Anya Taylor-Joy e a única pergunta certa

O personagem de Anya Taylor-Joy é a única convidada que não deveria estar ali, e essa posição de outsider se torna a chave do filme. Ela não faz parte do sistema que Slowik quer destruir, e sua presença obriga o chef a confrontar algo que o plano meticuloso não havia previsto. A cena em que ela faz o pedido mais simples possível num restaurante de alta gastronomia é um dos momentos mais inteligentes do filme, e a resposta de Slowik revela onde o personagem ainda existe como ser humano por baixo da performance do chef genial e implacável.

O prazer que o excesso eliminou

The Menu termina com uma imagem que resume tudo que o filme quis dizer sobre gastronomia, arte e consumo. Mylod não precisa explicar porque a cena fala por si mesma, e porque o filme inteiro foi construído para chegar exatamente ali. É um final que vai dividir opiniões, como qualquer bom final deveria fazer, e que convida a uma segunda leitura onde cada prato servido ao longo do jantar ganha um significado adicional. The Menu não é um filme sobre comida. É um filme sobre o que acontece quando o prazer é substituído pelo ritual vazio de consumi-lo.

O Sabor da Vida (2023) La passion de Dodin Bouffant - 2 h 15 min




Drama de Época, Romance Alegre, História



CLC Score: 8,2





Sinopse

No final do século XIX, na França, o célebre gourmet Dodin Bouffant (Benoît Magimel) e sua cozinheira pessoal há vinte anos, Eugénie (Juliette Binoche), também sua parceira romântica, dedicam os dias a preparar refeições elaboradas para ele e seu círculo de amigos gastrônomos. O filme abre com uma longa sequência quase muda inteiramente dedicada ao preparo de um banquete, estabelecendo desde o início a cumplicidade silenciosa entre os dois.

Apesar da intimidade profunda que compartilham, Eugénie recusa repetidamente os pedidos de casamento de Dodin, preferindo a parceria como ela já é. Enquanto isso, os dois descobrem e passam a orientar Pauline, uma jovem aprendiz de paladar excepcional, ao mesmo tempo em que a saúde de Eugénie começa a apresentar sinais preocupantes.

Análise Crítica

O Sabor da Vida adapta livremente o romance de 1924 de Marcel Rouff, A Vida e a Paixão de Dodin-Bouffant, Gourmet, sob direção do cineasta vietnamita radicado na França Trần Anh Hùng, premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2023. Hùng explicou sua opção por realismo absoluto nas cenas de cozinha afirmando que, "para fazer um filme sobre gastronomia, tudo pode ser real, porque todo mundo sabe cozinhar."

As sequências culinárias foram filmadas com os próprios atores cozinhando de verdade, em planos longos e contínuos, sob orientação do chef francês Pierre Gagnaire, detentor de três estrelas Michelin e também responsável pela consultoria gastronômica do filme, além do chef Michel Nave, que treinou o elenco. A direção rejeita deliberadamente a estética glamourizada típica da fotografia de comida em redes sociais, optando por luz natural e sons táticos, como o estalar de uma massa, para valorizar o processo de cozinhar como experiência sensorial em si.

Juliette Binoche e Benoît Magimel foram casal na vida real entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000 e têm uma filha juntos, história pessoal amplamente comentada pela imprensa como um elemento que adiciona ressonância à química do casal em cena. Binoche comentou sobre a experiência de atuar novamente ao lado do ex-companheiro dizendo que, independentemente do que a vida traga, separações, conflitos ou coisas nunca ditas, o amor costuma vencer no final.

O filme, lançado nos Estados Unidos primeiro sob o título The Pot-au-Feu e depois rebatizado The Taste of Things por razões de estratégia de distribuição, foi selecionado como representante oficial da França na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar, chegando à lista dos quinze finalistas. A recepção crítica foi extremamente favorável, com 97% de aprovação no Rotten Tomatoes e 85 pontos no Metacritic, faixa de aclamação universal. No Brasil, Marcelo Müller, do Papo de Cinema, deu nota 7 de 10 e descreveu o filme como uma celebração "da beleza de um amor cultivado por muito tempo, distante da paixão que consome até a extinção", ainda que tenha apontado certa estagnação no ritmo deliberadamente lento da narrativa.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A recusa constante de Eugénie em se casar com Dodin nasce da convicção de que o casamento costuma matar o amor que pretende proteger, e o filme trata essa posição não como capricho, mas como uma defesa consciente da parceria escolhida diariamente em vez de uma união selada por convenção social. Ao repetir o pedido de casamento até os momentos finais da vida de Eugénie, Dodin representa o desejo de formalizar algo que, para ela, já era completo sem qualquer selo institucional.

Pouco antes de morrer enquanto dorme, Eugénie comenta que provavelmente partirá durante o verão, frase que Dodin interpreta apenas como uma referência à estação favorita dela. Depois de sua morte, a cozinha que antes era descrita como um lugar solar e caloroso se torna sombria e fria, e Dodin passa a recusar comida e a evitar contratar uma substituta, incapaz de repor tanto a parceira quanto a artista que perdeu.

Ao final, questionado se Eugénie havia sido sua cozinheira ou sua esposa, Dodin responde simplesmente "cozinheira", resposta que resume o argumento central do filme: a genialidade culinária de Eugénie e sua intimidade única com o paladar dele eram, por si só, mais importantes do que qualquer título formal poderia oferecer. A comida, ao longo de todo o filme, funciona como a verdadeira linguagem de afeto entre os dois, tornando quase impossível separar o amor que sentem pela cozinha do amor que sentem um pelo outro.

Conclusão

O Sabor da Vida transforma o preparo de cada prato numa declaração de amor tão eloquente quanto qualquer diálogo, e encontra em Juliette Binoche e Benoît Magimel, reunidos décadas depois de seu relacionamento real, uma cumplicidade que o roteiro jamais precisa explicar. Trần Anh Hùng entrega um filme sobre luto e criação artística que recusa o sentimentalismo fácil, sugerindo que a forma mais duradoura de amar alguém pode ser continuar, ou não conseguir continuar, fazendo aquilo que os dois construíram juntos.


Estômago (2007) - 1 h 40 min

DO PRAZER AO PODER: 7 Filmes sobre o que a Comida Revela

Raimundo Nonato deixa o Nordeste para tentar a vida em São Paulo e, por acaso, descobre ter um talento para a culinária. Tudo vai bem até que uma traição muda os rumos de sua vida.


Estômago (2007) - IMDb
Dir: Marcos Jorge
Comédia, Crime, Drama


MP4 / HD / LEG: Português / ÁUDIO: Português

IMDB: 7,8
86%Popcornmeter

Ele não tinha nada. Descobriu que sabia cozinhar. E entendeu que isso era tudo que precisava.


A cozinha como ascensão social

Marcos Jorge estreou na direção com um filme que inverte completamente a lógica romântica do cinema gastronômico. Raimundo Nonato chega a São Paulo sem dinheiro, sem contatos e sem perspectiva. O que ele tem é um talento instintivo para cozinhar, e esse talento se torna sua única moeda de troca num mundo que não oferece outras oportunidades. Jorge filma essa ascensão com um olhar que não romantiza nem condena: simplesmente observa como um homem usa o que tem para sobreviver num ambiente que nunca foi projetado para recebê-lo.

Do boteco à prisão

A estrutura narrativa de Estômago alterna entre dois tempos: o presente, numa prisão onde Nonato já chegou ao topo da hierarquia, e o passado, mostrando o caminho que o trouxe até lá. Jorge usa essa construção para criar uma tensão constante entre o que vemos e o que ainda não sabemos, e para mostrar que a lógica que governa o boteco e a prisão é essencialmente a mesma. Em ambos os lugares, quem controla a comida controla as relações de poder. A cozinha é o mesmo instrumento nos dois contextos, apenas mais explícita na cadeia.

O sabor do poder

 Estômago pertence a uma tradição do cinema brasileiro que não tem medo de mostrar a violência estrutural sem embalagem. Nonato não é um herói nem uma vítima: é um sobrevivente que aprende as regras do jogo e as joga com competência crescente. O talento culinário que em outro filme seria fonte de prazer e conexão aqui é conscientemente transformado em ferramenta de dominação. Jorge não julga essa escolha porque entende que, no contexto em que Nonato existe, não havia outra escolha disponível.

O contraponto necessário

Numa mostra sobre cinema e gastronomia, Estômago é o filme que impede qualquer idealização do tema. Ao lado de Babette, que cozinha por pura generosidade, Nonato cozinha por sobrevivência e por poder. Os dois gestos partem do mesmo talento e chegam a lugares completamente opostos, e essa distância diz algo preciso sobre como o contexto social transforma o significado de qualquer ato humano. Estômago ganhou mais de vinte prêmios internacionais e revelou Marcos Jorge como um dos diretores mais originais do cinema brasileiro contemporâneo.