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domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Graça (2025) La grazia - 2 h 12 min

 Filme incluso na Série "CINEMA 2026: O Que Vale Assistir"


A Graça (2025) - IMDb
Dir: Paolo Sorrentino
Drama

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,4   METASCORE: 6,9
Letterboxd: 7,4   CLC Rating: 7,4
87%Tomatometer79 Reviews

Mariano De Santis governou a Itália por sete anos. Todos o chamavam de Cimento Armado. O filme descobre o que havia por dentro.


O presidente como figura sorrentiniana

Paolo Sorrentino tem uma galeria de homens poderosos no final do poder. Giulio Andreotti em Il Divo, Silvio Berlusconi em Loro, Jep Gambardella em A Grande Beleza. Mariano De Santis entra nessa galeria com uma diferença fundamental: onde os outros eram corruptos, irônicos ou emocionalmente esvaziados pela própria grandeza, De Santis é honesto. Profundamente, desconfortavelmente honesto. O apelido que carrega, Cimento Armado, reflete a inflexibilidade de um homem que sempre disse não ao que seria mais fácil dizer sim.

Toni Servillo, na sétima colaboração com Sorrentino, ganhou a Copa Volpi em Veneza pela performance. O prêmio é correto, mas subestima o que Servillo faz aqui: constrói um homem que o filme inteiro observa de perto sem nunca deixar a câmera penetrar completamente, e essa resistência controlada é a performance. De Santis é um presidente que ninguém leu direito em sete anos, e Servillo protege esse mistério até onde o roteiro permite.


A graça como dilema

O ponto de partida do filme vem de um caso real: o presidente italiano Sergio Mattarella concedeu graça a um homem condenado por matar a esposa com Alzheimer avançado. Sorrentino ficcionalizou o evento e colocou De Santis diante de duas solicitações de graça simultâneas, cada uma com implicações morais que o jurista católico em fim de mandato precisa resolver com a própria consciência.

O que o roteiro faz com esse material é mais interessante do que o debate jurídico sugere. As decisões sobre as solicitações de graça vão se entrelaçando com a vida privada de De Santis, com a descoberta póstuma de uma traição da mulher morta, com a relação com a filha Dorotea, com a memória do passado que não para de reaparecer. Sorrentino usa o cargo presidencial como amplificador das questões que sempre o interessaram: culpa, perdão, o peso do que não foi feito, a distância entre a vida que se viveu e a que se imaginou.


Anna Ferzetti e o que a filha carrega

Dorotea é o personagem que ancora o filme no presente quando De Santis deriva para a memória e para a contemplação. Anna Ferzetti constrói uma filha que conhece o pai melhor do que ele imagina e que ainda assim mantém uma distância respeitosa que às vezes parece proteção e às vezes parece resignação. As cenas entre os dois têm uma qualidade de amor não declarado que o filme reconhece sem precisar nomear.


Sorrentino após Parthenope

A Graça foi o filme de abertura de Veneza 82 e chegou depois de Parthenope, recebido de forma dividida em 2024. A comparação entre os dois filmes revela uma escolha deliberada de Sorrentino em direção à contenção: menos excesso visual, menos personagens orbitando o centro, uma câmera que observa mais do que celebra. A fotografia de Daria D'Antonio, numa das primeiras grandes colaborações da diretora de fotografia com Sorrentino fora do eixo de Luca Bigazzi, tem uma sobriedade que Il Divo e A Grande Beleza nunca teriam aceitado.

O resultado é um Sorrentino mais austero, o que divide o público que o ama justamente pelo excesso. Mas é também um Sorrentino mais preciso, e A Graça tem cenas com a densidade de um diretor que sabe exatamente o que está fazendo e escolheu fazer menos para que cada escolha pesasse mais.


O que o filme pergunta

A Graça não resolve os dilemas que coloca, o que é a decisão mais honesta do roteiro. De Santis chega ao fim do mandato sem que o espectador saiba ao certo se ele tomou as decisões certas, se perdoou a mulher morta, se a relação com a filha ficou mais próxima ou apenas pareceu mais próxima. Sorrentino sempre soube que as perguntas mais importantes não têm resposta que caiba numa cena final, e esse filme é o mais claro que ele já foi sobre essa convicção.












segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A Grande Beleza (2013) La grande bellezza - 2 h 21 min

Em Roma, durante o verão, o escritor Jap Gambardella (Toni Servillo) reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade, e desde o grande sucesso do romance "O Aparelho Humano", escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida, e talvez voltar a escrever.


A Grande Beleza (2013) - IMDb
Dir: Paolo Sorrentino
Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7   METASCORE: 8,6
91%Tomatometer135 Reviews   81%Popcornmeter


Introdução

A Grande Beleza é um dos filmes mais marcantes do cinema europeu contemporâneo — uma obra que mistura melancolia, decadência, humor, sensualidade e filosofia numa carta de amor (e de desencanto) à cidade de Roma.

Dirigido por Paolo Sorrentino, o filme é frequentemente comparado à tradição de Fellini, especialmente La Dolce Vita. Mas, mesmo dialogando com o passado do cinema italiano, ele cria uma estética e uma sensibilidade próprias: exuberante, barrocamente bela, emocionalmente fragmentada e profundamente existencial.


🎭 Enredo

O protagonista é Jep Gambardella, um escritor de 65 anos que fez sucesso com um único romance na juventude e nunca mais escreveu outro.

Hoje, vive como jornalista socialite, circulando por festas decadentes da elite romana: artistas performáticos, políticos, intelectuais cansados, magnatas entediados, aspirantes a celebridades.

A narrativa acompanha Jep em seu aniversário de 65 anos, quando um choque emocional — a notícia da morte de uma antiga paixão — o faz repensar sua vida, sua arte e o sentido (ou ausência de sentido) de tudo ao seu redor.

É uma viagem por noites longas, festas barulhentas, palácios deslumbrantes, ruínas históricas, confissões íntimas e silêncios espirituais.


🔍 Temas centrais

1. A decadência da sociedade contemporânea

Roma aparece como um palco de superficialidade e espetáculo constante. Todos buscam atenção, relevância, beleza — mas ninguém parece realmente satisfeito. A elite cultural, política e econômica transita entre a frivolidade e o vazio existencial.

Sorrentino critica:

  • a ostentação sem profundidade,
  • a arte transformada em performance vazia,
  • o intelectualismo de fachada,
  • a hipocrisia (inclusive de quem critica os outros).

2. A memória como ferida e salvação

Jep vive ancorado em um passado que não sabe como revisitar. A lembrança do amor juvenil perdido desperta nele: culpa, nostalgia, incompletude e desejo de reencontro com a própria verdade.

O filme sugere que só é possível encontrar beleza quando se encara a própria vulnerabilidade.


3. A beleza como experiência espiritual

Embora retrate decadência, o filme está repleto de momentos de pura transcendência:

  • um coral de crianças,
  • o mar calmo visto ao amanhecer,
  • conversas com uma freira de 104 anos,
  • jardins secretos,
  • obras de arte escondidas atrás de portas fechadas.

Sorrentino sugere que a grande beleza existe — mas não nas festas e no espetáculo. Ela aparece em instantes minúsculos, íntimos, reveladores.


4. Roma como personagem viva

A cidade é o coração do filme: alternando majestade e decrepitude, glória eterna e caos contemporâneo. Os monumentos são filmados com reverência, como se observados por alguém que vive entre admiração e cansaço. Roma é bela, mas também esmagadora — um espelho da própria vida de Jep.


🎬 Estética e direção

Sorrentino cria um estilo visual inconfundível:

Movimentos de câmera fluidos, quase coreografados - Travellings sinuosos, panorâmicas lentas, enquadramentos teatrais.

Fotografia de Luca Bigazzi - Uma das mais belas da década: cores intensas, luz crepuscular, contrastes fortes e texturas que misturam realismo com sonho.

Montagem fragmentada - O filme avança como uma série de vinhetas poéticas, não como uma narrativa linear tradicional.

Trilha sonora híbrida - Vai de música eletrônica pesada nas festas para corais sacros e peças minimalistas, refletindo a dualidade entre profano e sagrado.


Jep Gambardella: um protagonista inesquecível

Interpretado magistralmente por Toni Servillo, Jep é: irônico, elegante, cínico, melancólico, profundamente solitário. Ele usa humor e brilho social para disfarçar a dor de não ter sido o artista que poderia ter sido.

Jep é também uma metáfora do artista moderno: sempre entre a inspiração e o bloqueio, entre a memória e a superficialidade.


🏆 Recepção e legado

A Grande Beleza foi amplamente aclamado, considerado por muitos críticos:

  • uma obra-prima da década,
  • um renascimento do cinema italiano autoral,
  • um marco estético na linguagem audiovisual contemporânea.

O filme venceu:

  • Oscar de Filme Internacional,
  • BAFTA,
  • Globo de Ouro,
  • e dezenas de prêmios europeus.

Conclusão

A Grande Beleza é uma meditação melancólica sobre envelhecimento, memória, arte e o sentido da vida num mundo dominado pelo espetáculo e pelo vazio. Ele alterna momentos de ironia mordaz com instantes de profunda beleza espiritual.
É um filme que observa a superficialidade sem perder a ternura, que critica sem abandonar a poesia.

No final, Sorrentino sugere:

“A vida é um truque, sim.
Mas há, escondida nas frestas,
sempre uma grande beleza.”




ATENÇÃO: SPOILER


A seguir, uma análise profunda, simbólica e completa do final de A Grande Beleza (La grande bellezza, 2013) de Paolo Sorrentino, um dos encerramentos mais belos, poéticos e enigmáticos do cinema contemporâneo.


O FINAL: O QUE ACONTECE?

Nos minutos finais do filme:

  1. Jep visita a Santa, uma freira de 104 anos, figura austera e espiritual.
  2. Ela fala pouco, mas suas palavras são diretas:

“A pobreza é muito chata.”
“As raízes são importantes.”

  1. Jep retorna ao seu apartamento, adormece, e vemos finalmente a memória do seu grande amor juvenil, o momento que abriu sua vida e posteriormente a fechou.
  2. O filme encerra-se com Jep andando pelo Tibre, enquanto sua narração em voice-over reflete sobre a vida, a morte, a beleza e o vazio.
  3. Imagens poéticas da Roma eterna se sobrepõem, como se a cidade respirasse ao lado dele.

O QUE ESSE FINAL SIGNIFICA?

Paolo Sorrentino constrói um final que funciona como:

  • revelação,
  • melancolia,
  • confissão,
  • resgate da própria identidade,
  • epifania espiritual.

Cada camada do final contribui para o despertar tardio de Jep Gambardella.


🎯 1. O encontro com a Santa: uma intervenção espiritual (ou anti-espetacular)

A Santa representa o oposto da elite decadente que Jep frequentou durante décadas: ela não busca prestígio; não gosta de superficialidade; vive com o mínimo; é desprovida de ego; é totalmente fiel à sua missão interior.

Quando ela sobe os 104 degraus de joelhos — gesto realista e simbólico — isso confronta Jep com algo que ele não vê há muito tempo:

👉 uma vida com propósito.

As falas dela são pequenas chaves:

“As raízes são importantes.” - Jep percebe que perdeu as suas — memórias, carreira literária, paixões, simplicidade.

“Eu sei tudo sobre a pobreza.” - Uma frase enigmática: a Santa não fala de pobreza material, mas de pobreza de alma. Ela reconhece em Jep uma pobreza interior, uma esterilidade existencial. A presença dela o desnuda de seu cinismo.


🎯 2. A memória do grande amor: o trauma secreto de Jep

O final revela, pela primeira vez, o episódio fundador da vida emocional de Jep:
a lembrança da mulher que ele amou na juventude — e que, como descobrimos, amou mais a ele do que ao marido com quem ficou.

Essa revelação é essencial:

  • Jep guardou essa memória em silêncio por toda a vida.
  • Foi um amor que nunca se cumpriu totalmente.
  • Foi também uma ferida que o impediu de escrever outro romance.
  • Seu bloqueio criativo e seu cinismo começam ali.

O final sugere:

👉 Jep não escreveu mais porque viveu preso a um passado que não sabia como elaborar.

A lembrança vem como catarse e libertação.


🎯 3. A narração final: as contradições da existência

Jep diz:

“No fim, tudo é um truque.”
“Mas também há a grande beleza.”

Essa frase resume o filme inteiro.

A vida é feita de truques - De ilusões sociais, festas vazias, vaidade, espetáculos, máscaras, conversas banais.

Mas também há beleza - Não a beleza dos palácios barrocos e das festas intermináveis, mas a beleza escondida nos gestos mínimos, na memória, no amor perdido, no rio que flui, na cidade que respira, no acordar espiritual.

O final afirma que:

👉 O mundo pode ser superficial.
👉 Mas o ser humano não precisa ser.
👉 Há sempre algo profundo esperando ser reencontrado.


🎯 4. Roma como espelho da alma

As últimas imagens da cidade não são mais: festivas, barulhentas, noturnas, decadentes. São quietas, contemplativas, orgânicas.

Roma, que sempre foi personagem viva no filme, simboliza agora:

  • memória que persiste,
  • beleza que sobrevive,
  • eternidade diante da vida passageira.

Jep, ao caminhar pelo rio Tibre, parece finalmente em sintonia com a cidade, como se, por um instante, deixasse de apenas observá-la para finalmente pertencer a ela.


INTERPRETAÇÃO FINAL

Jep desperta. Tarde — mas desperta.

Após décadas de vida mundana, vazia e irônica, Jep:

  • reencontra suas raízes,
  • encara sua ferida original,
  • relembra o amor que o formou,
  • escuta uma figura espiritual,
  • percebe que a vida contém mais do que festas e decadência.

Ele não se torna santo, nem vira um artista renascido imediatamente. Mas ele abre a porta para algo que havia trancado por anos.

O fim não é uma conclusão, mas um recomeço silencioso.


CONCLUSÃO: UM FINAL POÉTICO, NÃO DIDÁTICO

Sorrentino fecha o filme com a mesma ambiguidade bela que o percorre:

  • A vida é decadência e beleza.
  • Memória e esquecimento.
  • Superfície e profundidade.
  • Ironia e verdade.
  • Cinismo e transcendência.

Jep, ao ver novamente sua origem, entende que ainda há tempo — pouco, talvez — mas há tempo de buscar a verdade dentro da própria vida.

O final é uma epifania, mas também uma aceitação:

👉 A beleza não está nas festas. Está na memória, na dor, e na capacidade de olhar honestamente para dentro.


 


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A Mão de Deus (2021) È stata la mano di Dio - 2 h 10 min

Na Nápoles dos anos 80, um jovem louco por futebol se vê diante de uma tragédia familiar que define seu futuro incerto, porém promissor, como cineasta.


Dir: Paolo Sorrentino


MEGA2
MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 7,6
84%Tomatometer158 Reviews   76%Popcornmeter



Certified fresh score. Consenso dos críticos

Embora A Mão de Deus não seja o melhor trabalho de Sorrentino, esta história de amadurecimento lindamente filmada canta em um tom sedutor, embora menor.

Leia as avaliações dos críticos