Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Alonzo Harris conhecia todas as regras. Usava todas para quebrá-las.
O único vilão
Training Day é o único filme da carreira de Washington em que ele interpreta um vilão sem redenção possível. Alonzo Harris é corrupto, carismático e completamente convicto de que o que faz é necessário. Washington nunca mais voltou a esse território depois de 2001, o que torna a performance ainda mais singular: é um experimento único numa carreira construída sobre personagens de integridade moral, e o experimento rendeu o segundo Oscar, desta vez de Melhor Ator.Um dia como estrutura
O filme se passa em um único dia, e Antoine Fuqua usa essa unidade de tempo para criar uma pressão que vai aumentando sem que o espectador consiga identificar exatamente quando a situação ficou irreversível. A Los Angeles de Training Day é filmada como território, com bairros que têm fronteiras invisíveis e regras próprias que Alonzo conhece e Jake desconhece. Washington navega esse território com a naturalidade de quem passou décadas construindo alianças e dívidas, e a performance incorpora essa história sem precisar explicá-la.Carisma como instrumento
A escolha mais arriscada de Washington em Training Day foi manter Alonzo carismático até o fim. Vilões que perdem o carisma quando são expostos são mais fáceis de jogar fora narrativamente, e o espectador se sente aliviado quando isso acontece. Alonzo não perde nada quando a máscara cai porque não havia máscara. O homem que Jake conheceu de manhã e o homem que tenta matá-lo à noite são a mesma pessoa, e Washington sustenta essa continuidade com uma consistência que impede qualquer distância segura.O que o Oscar reconheceu
A Academia ignorou Malcolm X em 1993 e premiou Training Day em 2002, e essa inversão diz algo sobre o tipo de performance que o Oscar reconhece com mais facilidade. Malcolm X é uma performance de construção lenta, acumulativa, que só revela sua extensão quando o filme acaba. Training Day é uma performance de superfície visível, com cenas desenhadas para demonstrar alcance. Washington é extraordinário nos dois filmes, mas por razões diferentes, e o fato de o Oscar ter chegado pelo vilão e não pelo ícone histórico é uma ironia que a carreira inteira contextualiza.Alonzo Harris permanece como o personagem mais distante de tudo que Washington construiu antes e depois. O que a performance prova é que a integridade moral que define a maior parte da sua carreira foi sempre uma escolha, nunca uma limitação.
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