<= se7e - Jane Austen
Quando Elizabeth Bennet conhece o belo Sr. Darcy, ela acredita que ele é o último homem com quem ela poderia se casar, mas, à medida que suas vidas se entrelaçam, ela se vê cativada pela pessoa que jurou odiar para sempre.
Drama de Época, Drama Histórico, Romance Alegre
CLC Score: 8,2
O romance mais amado de Austen nas mãos de um diretor
de trinta e dois anos que decidiu filmá-lo como se fosse a primeira vez.
A obra original e seu lugar na trajetória de Austen
Pride and Prejudice foi escrito numa primeira versão chamada
First Impressions por volta de 1796-97 e revisado extensamente antes da
publicação em 1813. É o romance mais popular de Austen e provavelmente o
romance mais popular da literatura inglesa, com uma história de recepção que
começa com o próprio pai de Austen tentando publicar First Impressions em 1797
e sendo recusado sem que o editor sequer lesse o manuscrito.
Elizabeth Bennet é a protagonista que Austen declarou amar
mais do que qualquer outra personagem que havia criado, e essa afeição é
visível na construção do romance: Elizabeth tem a inteligência, a ironia e a
independência de julgamento que Austen valorizava mais, e Darcy tem a
arrogância que precisa ser desmontada para que o romance possa chegar onde
precisa chegar. A história de amor é real, mas o que a sustenta é uma
argumentação sobre julgamento, preconceito e a diferença entre a aparência das
pessoas e o que as pessoas são.
O romance foi escrito num momento de relativa estabilidade
na vida de Austen, antes das mudanças econômicas que forçariam a família a se
mudar de Steventon para Bath em 1801, e essa estabilidade é visível na energia
do texto: é o mais vivo dos romances de Austen, o mais cheio de movimento e de
humor, o que mais claramente se diverte com o que está fazendo.
Wright e a decisão de não reverenciar
Joe Wright tinha trinta e dois anos e este era seu primeiro
longa-metragem quando filmou Orgulho & Preconceito, e essa inexperiência
com o peso da tradição produziu um filme que trata o romance mais adaptado de
Austen com uma liberdade que diretores mais respeitosos pelo cânone
dificilmente teriam arriscado. Wright filmou o romance como se fosse material
novo, sem o reverenciar como monumento e sem tentar replicar as adaptações
anteriores, especialmente a minissérie da BBC de 1995 com Colin Firth que havia
se tornado referência absoluta para o público anglófono.
A fotografia de Roman Osin usa luz natural com uma
consistência que dá ao filme uma textura quase documental: as cenas interiores
têm a iluminação de velas e janelas que uma casa da época teria, sem a
luminosidade artificial que as produções de época convencionais usam para
tornar tudo mais palatável. Essa escolha de luz é parte do argumento de Wright
sobre o mundo que está filmando: as Bennet não vivem numa fantasia de época
iluminada uniformemente. Vivem numa casa real com as limitações reais de uma família
de classe média em declínio.
Keira Knightley e o equilíbrio impossível
Keira Knightley recebeu uma indicação ao Oscar por Elizabeth
Bennet e a indicação gerou debate entre os leitores de Austen que consideravam
a performance demasiado moderna, demasiado física, demasiado afastada da
Elizabeth do texto. Esse debate é ele mesmo um argumento sobre o que as
adaptações de Austen fazem e devem fazer: replicar o texto ou interpretar o
texto para um momento diferente.
Knightley constrói Elizabeth com uma presença que é mais
corporal do que a tradição austeniana costuma permitir: ela corre, ri alto, tem
uma relação com o espaço físico que as convenções da época que o filme retrata
não aprovariam completamente. Wright usa essa modernidade deliberadamente, como
forma de tornar Elizabeth reconhecível para um público contemporâneo sem trair
o que a personagem é no texto: a mulher que se recusa a ser menos do que é para
corresponder ao que o mundo ao redor espera.
Matthew Macfadyen como Darcy opera numa frequência diferente
das interpretações anteriores do personagem: menos imponente fisicamente, mais
claramente desconfortável na própria pele, com uma timidez que o texto sugere
mas que as adaptações frequentemente substituem por frieza. Esse Darcy é um
homem que não sabe como dizer o que sente, e Macfadyen comunica essa
incapacidade com uma sutileza que torna a progressão do personagem mais crível
do que as versões mais heroicas.
A cena da primeira proposta
Orgulho & Preconceito tem uma das primeiras propostas de
casamento mais célebres da literatura, e Wright a filma numa chuva crescente
que não está no texto mas que é cinematograficamente precisa: a intempérie
externa replica a intempérie interna de dois personagens que estão se dizendo
coisas que nenhum dos dois deveria estar dizendo daquela forma, com aquele grau
de honestidade brutal, naquele momento.
Wright entendeu que a primeira proposta de Darcy é o coração
do romance precisamente porque vai tão mal: Darcy propõe com arrogância,
Elizabeth recusa com raiva, e os dois saem da cena tendo revelado mais sobre si
mesmos do que qualquer conversa social teria permitido. A chuva é o ambiente
certo para essa revelação involuntária, e Wright a usa sem explicar, confiando
que o espectador vai sentir o que está acontecendo antes de entender.
Onde assistir e o que esperar
Orgulho & Preconceito está disponível em plataformas de
streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 129 minutos que passam com a
velocidade do romance que adapta: há muito acontecendo em cada cena, muito
sendo dito e não dito, e Wright filma com uma mobilidade de câmara que replica
o ritmo da sociedade que está retratando, onde o movimento entre ambientes
sociais é constante e cada transição carrega informação. Espectadores que
chegam conhecendo a minissérie da BBC de 1995 vão encontrar aqui uma leitura
diferente e igualmente válida do mesmo material. Espectadores que chegam sem
nenhum conhecimento prévio de Austen vão encontrar o ponto de entrada mais
imediatamente envolvente da mostra.
Pride & Prejudice (2005) Official Trailer
A Austen no pleno domínio da voz
Pride and Prejudice marca o momento em que Austen chegou ao
pleno domínio do que seria sua voz definitiva: a ironia como instrumento de
análise social, o diálogo como revelação de caráter, a estrutura do romance de
costumes como território onde questões filosóficas sobre julgamento e
preconceito podiam ser examinadas com rigor sem jamais parecerem uma tese. O
que viria depois, Mansfield Park e Emma, seria mais ambicioso formalmente e
mais sombrio moralmente. Mas nenhum dos dois teria a energia específica de
Pride and Prejudice, que é a energia de uma escritora que encontrou exatamente
o que queria dizer e exatamente como queria dizer, e que se divertiu fazendo
isso de uma forma que o leitor, duzentos anos depois, ainda consegue sentir.