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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Orgulho & Preconceito (2005) Pride & Prejudice - 2 h 9 min

<= se7e - Jane Austen

Quando Elizabeth Bennet conhece o belo Sr. Darcy, ela acredita que ele é o último homem com quem ela poderia se casar, mas, à medida que suas vidas se entrelaçam, ela se vê cativada pela pessoa que jurou odiar para sempre.


Drama de Época, Drama Histórico, Romance Alegre


CLC Score: 8,2




O romance mais amado de Austen nas mãos de um diretor de trinta e dois anos que decidiu filmá-lo como se fosse a primeira vez.

A obra original e seu lugar na trajetória de Austen

Pride and Prejudice foi escrito numa primeira versão chamada First Impressions por volta de 1796-97 e revisado extensamente antes da publicação em 1813. É o romance mais popular de Austen e provavelmente o romance mais popular da literatura inglesa, com uma história de recepção que começa com o próprio pai de Austen tentando publicar First Impressions em 1797 e sendo recusado sem que o editor sequer lesse o manuscrito.

Elizabeth Bennet é a protagonista que Austen declarou amar mais do que qualquer outra personagem que havia criado, e essa afeição é visível na construção do romance: Elizabeth tem a inteligência, a ironia e a independência de julgamento que Austen valorizava mais, e Darcy tem a arrogância que precisa ser desmontada para que o romance possa chegar onde precisa chegar. A história de amor é real, mas o que a sustenta é uma argumentação sobre julgamento, preconceito e a diferença entre a aparência das pessoas e o que as pessoas são.

O romance foi escrito num momento de relativa estabilidade na vida de Austen, antes das mudanças econômicas que forçariam a família a se mudar de Steventon para Bath em 1801, e essa estabilidade é visível na energia do texto: é o mais vivo dos romances de Austen, o mais cheio de movimento e de humor, o que mais claramente se diverte com o que está fazendo.


Wright e a decisão de não reverenciar

Joe Wright tinha trinta e dois anos e este era seu primeiro longa-metragem quando filmou Orgulho & Preconceito, e essa inexperiência com o peso da tradição produziu um filme que trata o romance mais adaptado de Austen com uma liberdade que diretores mais respeitosos pelo cânone dificilmente teriam arriscado. Wright filmou o romance como se fosse material novo, sem o reverenciar como monumento e sem tentar replicar as adaptações anteriores, especialmente a minissérie da BBC de 1995 com Colin Firth que havia se tornado referência absoluta para o público anglófono.

A fotografia de Roman Osin usa luz natural com uma consistência que dá ao filme uma textura quase documental: as cenas interiores têm a iluminação de velas e janelas que uma casa da época teria, sem a luminosidade artificial que as produções de época convencionais usam para tornar tudo mais palatável. Essa escolha de luz é parte do argumento de Wright sobre o mundo que está filmando: as Bennet não vivem numa fantasia de época iluminada uniformemente. Vivem numa casa real com as limitações reais de uma família de classe média em declínio.


Keira Knightley e o equilíbrio impossível

Keira Knightley recebeu uma indicação ao Oscar por Elizabeth Bennet e a indicação gerou debate entre os leitores de Austen que consideravam a performance demasiado moderna, demasiado física, demasiado afastada da Elizabeth do texto. Esse debate é ele mesmo um argumento sobre o que as adaptações de Austen fazem e devem fazer: replicar o texto ou interpretar o texto para um momento diferente.

Knightley constrói Elizabeth com uma presença que é mais corporal do que a tradição austeniana costuma permitir: ela corre, ri alto, tem uma relação com o espaço físico que as convenções da época que o filme retrata não aprovariam completamente. Wright usa essa modernidade deliberadamente, como forma de tornar Elizabeth reconhecível para um público contemporâneo sem trair o que a personagem é no texto: a mulher que se recusa a ser menos do que é para corresponder ao que o mundo ao redor espera.

Matthew Macfadyen como Darcy opera numa frequência diferente das interpretações anteriores do personagem: menos imponente fisicamente, mais claramente desconfortável na própria pele, com uma timidez que o texto sugere mas que as adaptações frequentemente substituem por frieza. Esse Darcy é um homem que não sabe como dizer o que sente, e Macfadyen comunica essa incapacidade com uma sutileza que torna a progressão do personagem mais crível do que as versões mais heroicas.


A cena da primeira proposta

Orgulho & Preconceito tem uma das primeiras propostas de casamento mais célebres da literatura, e Wright a filma numa chuva crescente que não está no texto mas que é cinematograficamente precisa: a intempérie externa replica a intempérie interna de dois personagens que estão se dizendo coisas que nenhum dos dois deveria estar dizendo daquela forma, com aquele grau de honestidade brutal, naquele momento.

Wright entendeu que a primeira proposta de Darcy é o coração do romance precisamente porque vai tão mal: Darcy propõe com arrogância, Elizabeth recusa com raiva, e os dois saem da cena tendo revelado mais sobre si mesmos do que qualquer conversa social teria permitido. A chuva é o ambiente certo para essa revelação involuntária, e Wright a usa sem explicar, confiando que o espectador vai sentir o que está acontecendo antes de entender.


Onde assistir e o que esperar

Orgulho & Preconceito está disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 129 minutos que passam com a velocidade do romance que adapta: há muito acontecendo em cada cena, muito sendo dito e não dito, e Wright filma com uma mobilidade de câmara que replica o ritmo da sociedade que está retratando, onde o movimento entre ambientes sociais é constante e cada transição carrega informação. Espectadores que chegam conhecendo a minissérie da BBC de 1995 vão encontrar aqui uma leitura diferente e igualmente válida do mesmo material. Espectadores que chegam sem nenhum conhecimento prévio de Austen vão encontrar o ponto de entrada mais imediatamente envolvente da mostra.

Pride & Prejudice (2005) Official Trailer


A Austen no pleno domínio da voz

Pride and Prejudice marca o momento em que Austen chegou ao pleno domínio do que seria sua voz definitiva: a ironia como instrumento de análise social, o diálogo como revelação de caráter, a estrutura do romance de costumes como território onde questões filosóficas sobre julgamento e preconceito podiam ser examinadas com rigor sem jamais parecerem uma tese. O que viria depois, Mansfield Park e Emma, seria mais ambicioso formalmente e mais sombrio moralmente. Mas nenhum dos dois teria a energia específica de Pride and Prejudice, que é a energia de uma escritora que encontrou exatamente o que queria dizer e exatamente como queria dizer, e que se divertiu fazendo isso de uma forma que o leitor, duzentos anos depois, ainda consegue sentir.


sábado, 4 de outubro de 2025

Um Crime de Mestre (2007) Fracture - 1 h 53 min

Após descobrir que a sua esposa o traía, Ted Crawford mata-a. Preso, confessa de imediato. William Beachum, o advogado da acusação, acredita que será um caso simples e a vitória são favas contadas - mas nada é tão simples como parece.


Um Crime de Mestre (2007) - IMDb
Dir: Gregory Hoblit


MEGA1
MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 6,8
72%Tomatometer170 Reviews   73%Popcornmeter


Certified fresh score. Consenso dos críticos

Embora o enredo de Fracture seja um tanto implausível, o confronto na tela entre Gosling e Hopkins ofusca quaisquer falhas.

Leia as avaliações dos críticos






Suspense Jurídico



sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Garota Exemplar (2014) Gone Girl - 2 h 29 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Mostra David Fincher - Vida e Obra

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 4 (#151 a #200)

O desaparecimento de uma mulher expõe manipulação, espetáculo e guerra psicológica.


Garota Exemplar (2014) - IMDb
Dir: David Fincher
Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Thriller Erótico, Tragédia, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,1   METASCORE: 7,9
88%Tomatometer377 Reviews   87%Popcornmeter


Garota Exemplar (2014): Casamento, Mídia e Manipulação na Era do Psicodrama Pós-Moderno

Dirigido por David Fincher a partir do romance de Gillian Flynn, Garota Exemplar (Gone Girl) é um dos neo-noirs mais complexos, corrosivos e brilhantes da década de 2010.
É um thriller psicológico que opera como comentário feroz sobre:

  • o casamento como campo de batalha,
  • a performance de gênero,
  • a fabricação de narrativas pela mídia,
  • e a manipulação como linguagem dominante da vida contemporânea.

Em vez de becos escuros e investigadores solitários, Fincher filma um subúrbio solar, organizado, aparentemente perfeito — e descobre ali um abismo tão profundo quanto qualquer noir clássico.


Nick e Amy: o casal como ficção, contrato e guerra fria emocional

A história gira em torno de Nick Dunne (Ben Affleck), marido ambíguo e apático, e Amy Elliott Dunne (Rosamund Pike), esposa brilhante, controladora e profundamente performática.
Quando Amy desaparece em circunstâncias suspeitas, Nick se torna o principal suspeito — e a narrativa pública que se forma ao seu redor é tão manipulada quanto o próprio casamento.

A grande força do filme é mostrar que:

o casamento deles não é uma união — é uma narrativa competitiva.

A versão “ideal” do casal, registrada no diário de Amy e nos gestos públicos, é apenas uma fachada.
Atrás dela há duas pessoas frustradas, magoadas e dispostas a usar qualquer arma psicológica contra o outro.


Amy Elliott Dunne: a anti-femme fatale perfeita para o século XXI

A interpretação de Rosamund Pike é hipnótica.
Amy não é apenas manipuladora; ela é autora da própria narrativa, dramaturga da própria vida.
Ela encarna uma femme fatale pós-moderna, que não seduz apenas homens, mas seduz a sociedade inteira — usando:
  • mídia,
  • diários fabricados,
  • encenações minuciosas,
  • e até o feminismo espetacularizado como estratégia.

Amy não quer apenas sobreviver:
ela quer controlar a história.

É uma das personagens femininas mais complexas do cinema contemporâneo — simultaneamente vítima, vilã, mito e monstro.


Nick Dunne: o homem comum como suspeito universal

Ben Affleck interpreta Nick com uma ambiguidade fundamental. Ele não é exatamente inocente — é omisso, mentiroso, infiel, emocionalmente opaco.
Mas não é o monstro que a mídia fabrica.

Nick se torna símbolo perfeito do homem cuja história é sequestrada por narrativas externas:
repórteres, vizinhos, advogados, programas sensacionalistas.

Ele é o homem do noir moderno:
não perseguido pela polícia, mas pela opinião pública.


A mídia: espetáculo, moralismo, tribunal instantâneo

O filme é um ataque cirúrgico à imprensa sensacionalista. Fincher mostra como a mídia:
  • cria vilões antes das investigações,
  • explora comoção pública,
  • produz narrativas emocionalmente satisfatórias,
  • molda fatos para caber em estruturas melodramáticas,
  • transforma dor privada em entretenimento.

A figura da apresentadora Sharon Schieber é uma sátira direta ao jornalismo-espetáculo, onde a verdade é irrelevante diante da coerência narrativa.

No noir clássico, o vilão manipulava documentos.
Aqui, a vilã manipula a mídia, o aparelho social que define o que é real.


Estética Fincher: precisão cirúrgica e inquietação moral

A direção de Fincher privilegia:

  • luz artificial e fria,
  • interiores ordenados demais,
  • enquadramentos simétricos,
  • ritmo impecável,
  • montagem que alterna versões contraditórias da história.

Visualmente, o filme cria um mundo onde tudo parece limpo demais, perfeito demais — e justamente por isso perturbador.


A virada do meio: quando a verdade substitui a narrativa

O momento em que o filme revela a verdadeira natureza do plano de Amy é um dos pontos altos do cinema recente:

          • monólogo ácido,
          • cortes precisos,
          • ironia feroz,
          • e a revelação do “diário falso”.

A partir dali, o filme abandona o mistério e abraça o thriller psicológico, mostrando Amy não como vítima, mas como arquiteta da própria mitologia — com inteligência assustadora.


O retorno de Amy: o casamento como prisão voluntária

Quando Amy retorna, coberta de sangue, inventando uma história rocambolesca sobre sequestro e abuso, ela se transforma em:

            • heroína nacional,
            • símbolo de resiliência,
            • a “esposa perfeita” que sobreviveu ao mal.

Nick sabe que tudo é mentira. Amy sabe que Nick sabe. E Nick sabe que ninguém jamais acreditará nele. Esse é o gesto final do noir:

a verdade é irrelevante; o poder pertence a quem controla a história.


O final: ciclo fechado, prisão compartilhada

Nick tenta escapar, mas Amy está grávida — ou diz estar — e o prende psicologicamente com isso.
O final é claustrofóbico e brilhante:

  • não há morte,
  • não há prisão,
  • não há confissão,
  • não há vilão derrotado.

O casamento se torna um pacto de medo, chantagem e reconhecimento mútuo.

Eles merecem um ao outro — e é essa ironia cruel que encerra o filme.


Conclusão

Garota Exemplar é um neo-noir afiado, feroz e profundamente desconfortável.
Fincher transforma o casamento em campo de batalha psicológico, a mídia em tribunal e a narrativa pessoal em arma.

Amy é a femme fatale perfeita para a era da performance digital:
uma mulher que compreende que, no século XXI, a identidade é construída — e pode ser fabricada.

É um filme brilhante, elegante, perverso e totalmente contemporâneo.
Um marco absoluto do noir moderno.