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segunda-feira, 22 de junho de 2026

The Watermelon Woman (1996) - 1 h 30 min

 <= Fora do Radar

The Watermelon Woman (1996) - IMDb
Dir: Cheryl Dunye

Comédia, Drama, Romance


CLC Balanced Ranking: 7,5





Sinopse

Cheryl é uma jovem negra e lésbica que trabalha em uma locadora de vídeo na Filadélfia enquanto tenta desenvolver seu primeiro projeto como cineasta. Assistindo a antigos filmes de Hollywood, interessa-se por uma atriz negra que aparece nos créditos apenas como “The Watermelon Woman”, sem que seu verdadeiro nome seja informado. Intrigada com esse apagamento, decide investigar quem foi aquela mulher.

A pesquisa conduz Cheryl por arquivos, bibliotecas, entrevistas e relatos contraditórios, até que ela começa a reconstruir a trajetória de Fae Richards, atriz que teria trabalhado em produções cinematográficas das décadas de 1930 e 1940. Paralelamente, Cheryl inicia um relacionamento com Diana, uma mulher branca, e percebe que sua investigação histórica começa a dialogar com questões presentes em sua própria vida.

Análise Crítica

The Watermelon Woman ocupa uma posição singular no cinema independente norte-americano porque transforma a ausência de registros históricos em matéria de invenção cinematográfica. Cheryl Dunye parte de um problema real: durante décadas, mulheres negras participaram do cinema norte-americano em posições subalternizadas, frequentemente interpretando empregadas, criadas ou figuras estereotipadas, enquanto suas histórias pessoais e profissionais permaneciam ausentes dos arquivos tradicionais. Diante dessa lacuna, a cineasta não procura apenas denunciar o apagamento. Decide imaginar aquilo que a história não preservou.

Essa escolha modifica completamente a natureza do filme. À primeira vista, acompanhamos um documentário em primeira pessoa sobre uma jovem diretora tentando descobrir a identidade de uma atriz esquecida. Entretanto, Fae Richards não existiu. A personagem, suas fotografias, sua filmografia e boa parte do material de arquivo apresentado foram criados especificamente para a obra. Dunye constrói uma falsa história para tornar visível uma verdade histórica muito concreta.

O procedimento poderia ser reduzido a simples jogo metalinguístico, mas sua implicação é muito mais profunda. Se os arquivos não registraram adequadamente determinadas vidas, a ausência documental não significa que essas vidas não tenham existido. Significa apenas que determinadas instituições decidiram quais experiências mereciam ser preservadas. A ficção torna-se então uma forma de confrontar a autoridade do arquivo.

Cheryl Dunye interpreta uma versão de si mesma, dissolvendo deliberadamente as fronteiras entre autora, personagem e narradora. Essa estratégia aproxima o filme do chamado cinema ensaístico, no qual a investigação do objeto é inseparável da experiência subjetiva de quem investiga. Cheryl não pesquisa Fae Richards de uma posição neutra. Procura nela uma genealogia possível para compreender sua própria condição de mulher negra, lésbica e cineasta.

Esse movimento produz uma relação especialmente interessante entre identidade e história. A protagonista não busca apenas informações sobre uma atriz antiga, mas uma antepassada simbólica que possa demonstrar que mulheres semelhantes a ela também participaram da construção do cinema. A ausência de referências torna sua própria posição no presente mais precária.

A pesquisa avança de maneira aparentemente informal. Cheryl entrevista familiares, conversa com especialistas, visita arquivos e reúne testemunhos que frequentemente se contradizem. O filme utiliza recursos associados ao documentário tradicional, como fotografias, depoimentos e registros históricos, mas cada nova informação torna mais evidente que a verdade biográfica não pode ser recuperada integralmente.

Dunye questiona, assim, a confiança automática depositada nas instituições responsáveis por preservar a memória. Bibliotecas, arquivos cinematográficos e coleções particulares não funcionam como espaços neutros. Aquilo que possuem depende de decisões anteriores sobre o que deveria ser documentado, catalogado e conservado.

A dimensão racial dessa crítica é inseparável da história do cinema norte-americano. Atrizes negras frequentemente apareciam nas telas dentro de papéis definidos pela imaginação branca, enquanto suas experiências fora dos filmes recebiam pouca atenção. Ao criar Fae Richards, Dunye não pretende corrigir esse passado com uma biografia falsa. Expõe justamente a violência de um sistema que torna plausível a existência de inúmeras figuras semelhantes sobre as quais pouco ou nada sabemos.

O título também participa desse processo. “Watermelon Woman” remete diretamente ao repertório racista de imagens que associou pessoas negras à melancia dentro da cultura popular norte-americana. O apelido reduz a atriz a uma caricatura, apagando seu nome e substituindo sua individualidade por um estereótipo imediatamente reconhecível pelo público da época.

A investigação de Cheryl consiste, em grande medida, em devolver um nome à mulher escondida atrás dessa imagem. Nomear torna-se gesto político porque permite reconhecer uma pessoa onde antes existia apenas uma função narrativa.

Paralelamente, o relacionamento com Diana impede que o filme se transforme em investigação histórica abstrata. Cheryl começa a confrontar questões de raça dentro de sua própria comunidade lésbica, especialmente quando amigas questionam sua relação com uma mulher branca. A narrativa evita oferecer respostas simples, permitindo que desejo, identidade racial e pertencimento comunitário permaneçam em tensão.

Guinevere Turner interpreta Diana com uma naturalidade que impede sua redução à figura da mulher branca privilegiada utilizada apenas para ilustrar um debate. Sua relação com Cheryl contém atração genuína, mas também revela assimetrias e diferentes formas de compreender a experiência racial.

A montagem aproxima frequentemente o romance contemporâneo da história atribuída a Fae Richards, especialmente quando surgem informações sobre sua possível relação amorosa com Martha Page, diretora branca com quem teria trabalhado. A correspondência entre passado e presente não oferece uma repetição perfeita, mas mostra como determinadas questões atravessam gerações.

Formalmente, The Watermelon Woman utiliza sua aparente simplicidade como recurso estético. Imagens em vídeo, entrevistas informais, fotografias e cenas ficcionais convivem sem preocupação em estabelecer uma hierarquia rígida entre registros. O resultado preserva a energia do cinema independente dos anos 1990 e transforma limitações materiais em parte da linguagem da obra.

Mais do que narrar a descoberta de uma cineasta esquecida, Dunye investiga quem possui o direito de produzir memória e o que acontece quando determinados grupos precisam inventar suas próprias genealogias porque a história oficial não se preocupou em registrá-las.


Atenção: a partir deste ponto, o texto contém spoilers

A Interpretação da Obra

A revelação decisiva ocorre fora da narrativa propriamente dita. Ao final, o filme informa que Fae Richards é uma personagem inventada e que todo o material histórico associado a ela foi produzido pela equipe. A frase final resume a operação: “Sometimes you have to create your own history.”

Essa declaração não significa que qualquer ficção possa substituir livremente os fatos. Dunye realiza precisamente o movimento oposto. Ao revelar a fabricação, obriga o espectador a reconsiderar por que acreditou tão facilmente na existência de Fae. A personagem parece historicamente plausível porque conhecemos a extensão do apagamento de artistas negras dentro da indústria cinematográfica.

A ficção torna visível uma ausência real.

Essa estratégia também questiona a posição do documentário como forma privilegiada de acesso à verdade. Fotografias e depoimentos parecem oferecer evidências confiáveis, mas o filme demonstra como esses elementos podem ser construídos e contextualizados de maneira a produzir uma narrativa convincente. O arquivo não deixa de possuir importância. Apenas perde a aparência de neutralidade.

A investigação modifica Cheryl mesmo quando o objeto procurado nunca existiu. Ao construir a história de Fae Richards, ela constrói também uma linhagem artística para si mesma. O gesto revela que pertencimento cultural não depende apenas de encontrar antecessores, mas também de reconhecer e preencher os espaços deixados pelo apagamento histórico.

A dimensão lésbica da personagem inventada torna esse processo ainda mais significativo. Se a história registrou insuficientemente mulheres negras no cinema, registrou ainda menos suas experiências afetivas fora dos padrões heterossexuais. Dunye não afirma que uma Fae Richards específica tenha existido. Afirma que o desaparecimento documental de mulheres semelhantes não pode ser confundido com inexistência.

Conclusão

The Watermelon Woman é uma obra fundamental do cinema queer norte-americano porque transforma uma questão histórica em problema formal. Cheryl Dunye não apenas fala sobre apagamento. Constrói um filme cuja própria estrutura obriga o espectador a experimentar a instabilidade existente entre memória, documento e ficção.

Ao interpretar uma versão de si mesma, a diretora elimina a distância confortável entre pesquisadora e objeto de estudo. A busca por Fae Richards é também uma tentativa de compreender o lugar que Cheryl pode ocupar dentro de uma história cinematográfica que raramente preservou mulheres como ela.

A invenção da atriz não reduz a dimensão política da obra. Pelo contrário, demonstra que o vazio dos arquivos também constitui informação. Quando determinadas vidas não foram preservadas, o silêncio documental revela as prioridades e exclusões das instituições responsáveis por construir a memória coletiva.

O filme permanece particularmente atual porque vivemos em uma época na qual arquivos, imagens e registros são constantemente apresentados como provas transparentes do passado. Dunye lembra que todo arquivo é resultado de seleção e que toda memória institucional possui zonas de silêncio.

A frase final não deve ser entendida como defesa da substituição da história pela fantasia. Ela constitui uma reivindicação do direito de imaginar aquilo que foi deliberadamente deixado fora do registro. Para grupos historicamente excluídos, criar imagens também pode significar disputar o passado.

É nessa combinação entre humor, investigação, romance e reflexão sobre a própria linguagem documental que The Watermelon Woman encontra sua força. Cheryl Dunye não recupera uma atriz perdida porque sabe que nenhuma reconstrução seria suficiente para reparar décadas de apagamento. Faz algo mais radical: inventa uma presença capaz de tornar a ausência impossível de ignorar.

Aos Nossos Amores (1983) À nos amours - 1 h 39 min

 

Aos Nossos Amores (1983) - IMDb
Dir: Maurice Pialat
Amadurecimento, Drama de Época, Romance

CLC Balanced Rating: 7,1





Suzanne tem quinze anos, uma família em colapso e a certeza de que só se sente viva quando está com alguém. O único homem que ela realmente ama é o pai, que vai embora.


O Cassavetes francês e uma atriz descoberta por acaso

Maurice Pialat foi chamado de o John Cassavetes do cinema francês e Aos Nossos Amores é uma das suas maiores conquistas. Sandrine Bonnaire foi descoberta quando acompanhou a irmã a um teste de elenco e Pialat decidiu fazer um filme dedicado a ela. O resultado é uma estreia reveladora de uma atriz dinâmica de quinze anos que interpreta Suzanne, uma parisiense que embarca numa série de aventuras sexuais impulsivas para se separar do pai adorado e dominador, da mãe ineficaz e do irmão brutal.

O método de trabalho de Pialat amplificou essa naturalidade: o roteiro original não previa que o pai retornaria na cena do jantar e Pialat simplesmente entrou no set sem avisar os atores, que precisaram improvisar durante quase dez minutos diante de um acontecimento completamente inesperado. Nenhum deles errou a cena.


Suzanne e a impossibilidade de amar

A única pessoa que Suzanne realmente ama é o pai, talvez porque ele seja a única pessoa que a entende e a ama incondicionalmente. Tudo o mais é fuga. Os rapazes com quem ela dorme não são objeto de desejo no sentido convencional, são territórios onde ela se perde temporariamente de uma casa que não a contém. Ela evita justamente Luc, o único que a ama de verdade, tratando-o com uma crueldade que o filme nunca explica completamente, mas que a câmera de Pialat filma com uma atenção que sugere que Suzanne também não a entende.

Há um momento no filme em que Suzanne volta para casa à uma da manhã e o pai, que a havia esbofeteado antes de ela sair, observa que ela sorri menos do que antes e que onde havia duas covinhas nas bochechas agora há apenas uma. É a cena que define o filme: um pai que conhece a filha melhor do que qualquer pessoa ao redor e que por isso mesmo é o único que vê o que está sendo perdido.


Pialat na frente da câmera

Pialat interpreta o pai com um magnetismo assombroso, notável porque ele nunca havia atuado antes. A decisão de colocar-se no filme é coerência com um método que sempre preferiu: a presença real à performance preparada. Todas as cenas entre Pialat e Bonnaire são o coração do filme. Quando o pai some, o filme muda de temperatura, e Suzanne passa a buscar nos outros homens algo que nenhum deles pode dar porque nenhum deles é ele.

O irmão, interpretado por Dominique Besnehard, é o contraponto necessário e o elemento mais perturbador do filme: um homem que substitui o pai na família, mas sem nenhuma da generosidade do pai, apenas com a autoridade e a violência. A crítica o descreve como um dos personagens mais detestáveis do cinema.


Improvisação como método, violência como registro

Pialat trabalhou principalmente com atores estreantes, ou não profissionais, e o estilo cru e imediato que resulta disso faz do filme um estudo de personagem delicado que pode explodir em violência surpreendente. As brigas familiares não são coreografadas para parecer violência de cinema. Têm a irregularidade e o excesso real de conflitos entre pessoas que se conhecem há tempo suficiente para saber exatamente onde doer.

A Criterion Collection descreve o estilo do filme como doloroso, belo e desconcertante, tão honesto na sua mistura de selvageria e delicadeza quanto era em 1983. Damien Chazelle, em texto publicado pela Criterion, descreveu como um encontro precoce com Aos Nossos Amores o ensinou a misturar espontaneidade e surpresa no próprio trabalho, o que é, em si, uma declaração sobre a influência específica que Pialat exerce sobre diretores de gerações muito posteriores.


César de Melhor Filme e o que ficou

Aos Nossos Amores venceu o César de Melhor Filme em 1984 e o Prix Louis Delluc de Melhor Filme em 1983. A Time Out o listou em 38º lugar entre os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos, citando o retrato emocionante da relação pai-filha e a conclusão de que a felicidade é tão rara quanto um dia de sol, e a tristeza é permanente.

O corte final do filme, de Bonnaire num avião para Pialat sozinho num ônibus mergulhando na escuridão e de volta a Bonnaire recomeçando, é descrito por críticos como um dos finais mais devastadores do cinema francês dos anos 1980. Quarenta anos depois, o filme não envelheceu porque a questão que coloca sobre amor, fuga e o que acontece quando a pessoa que nos ancora desaparece continua sem resposta disponível.

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Estrangeiro (2025) L'étranger - 2 h 2 min



O Estrangeiro (2025) - IMDb
Dir: François Ozon
Crime, Drama


AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 8,2
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,7
91%Tomatometer

Quando nada faz sentido, até existir se torna um ato estranho.


Um Homem Desalinhado do Mundo

O Estrangeiro (2025), dirigido por François Ozon, acompanha Meursault, um personagem que parece sempre deslocado da própria vida. Ele não reage como se espera, não sente como os outros, não performa emoção. A morte da mãe não o abala, o amor não o transforma, e o mundo ao redor parece passar por ele sem realmente tocá-lo.


A Indiferença Como Escândalo

O mais desconcertante não é o crime em si, mas o modo como ele acontece. Quase sem intenção clara, quase sem explicação. E depois, no julgamento, o filme deixa evidente que o problema não é só o que Meursault fez, mas quem ele é. A sociedade não julga apenas o ato, mas a incapacidade dele de seguir as regras invisíveis da emoção.


O Absurdo em Preto e Branco


A escolha estética de filmar em preto e branco reforça essa sensação de distanciamento. Tudo parece seco, duro, sem espaço para conforto. Não existe romantização aqui. O filme abraça o vazio e transforma isso em linguagem. É como se a imagem também recusasse qualquer calor humano, refletindo o próprio estado interno do protagonista.


Mais do que Adaptação, Uma Revisita


Baseado no clássico de Albert Camus, o filme não tenta suavizar a obra original. Pelo contrário, ele atualiza sua dureza. Ao ampliar certos elementos, como as personagens femininas e o contexto colonial, a adaptação propõe uma leitura mais crítica e contemporânea sem perder o núcleo existencialista da história.


O Julgamento do Invisível

No fim, O Estrangeiro não é sobre um assassinato. É sobre o desconforto que alguém causa ao simplesmente não se encaixar. O filme expõe uma ideia incômoda: talvez a sociedade não tolere quem não joga o jogo emocional coletivo. E talvez o verdadeiro crime de Meursault seja não fingir que a vida faz sentido.

 









terça-feira, 31 de março de 2026

Caso 137 (2025) Dossier 137 - 1 h 55 min



Caso 137 (2025) - IMDb
Dir: Dominik Moll
Crime, Drama

Disponível em streaming no Reserva Imovision

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,3
93%Tomatometer

Alguém atirou na cabeça de um manifestante. Stéphanie foi descobrir quem. O sistema foi descobrir como proteger os seus.


Moll depois de A Noite do 12

Dominik Moll reencontra seu roteirista habitual Gilles Marchand em Caso 137, seu terceiro filme de gênero consecutivo depois de Apenas os Animais e do estrondoso sucesso de A Noite do 12. A comparação com A Noite do 12 é inevitável e em parte desfavorável: aquele filme usava o procedimento policial para investigar algo mais profundo sobre misoginia e impunidade. Caso 137 usa o mesmo procedimento para investigar a violência policial durante os protestos dos Coletes Amarelos, e o resultado é tecnicamente sólido e tematicamente menos surpreendente do que o antecessor sugeria que seria.

Stéphanie e a posição impossível

Caso 137 coloca o espectador num lugar desconfortável: entre a lei e a ordem, o bom policial e o mau policial, o manifestante e o agitador, levantando perguntas para as quais não há respostas simples. Stéphanie Bertrand trabalha na IGPN, a polícia que investiga a própria polícia, e sua posição estrutural é o argumento mais interessante do filme: ela é o sistema tentando se responsabilizar, o que é uma tarefa que o sistema projetou para falhar. Léa Drucker carrega essa contradição com uma precisão que torna Stéphanie simultaneamente competente, limitada e humana, o que é o equilíbrio mais difícil disponível para um personagem nessa posição.

O procedimento como tensão e como limitação

É um filme sobre perguntas. Sobre o negócio oficial de fazê-las, as novas que instantaneamente substituem as respondidas e as suprimidas que envenenam qualquer chance de igualdade social. Moll filma o processo investigativo com uma paciência que replica a burocracia real: depoimentos contraditórios, câmeras que não filmaram o ângulo certo, testemunhos que mudam com a pressão. O problema é que essa fidelidade ao procedimento real torna o segundo ato mais árido do que deveria. 

Léa Drucker e o peso de cada cena

Dizer que Léa Drucker carrega o filme nos ombros é um eufemismo. Ela é o filme, e o filme vale ser visto pela performance dela sozinha. Drucker encontrou em Stéphanie um personagem que exige contenção absoluta numa situação que pede explosão, e essa tensão entre o estado interno e a postura profissional é onde ela entrega seu melhor trabalho. Ganhou o César de Melhor Atriz por essa performance, e o prêmio é justo: é uma das atuações mais economicamente precisas do cinema francês recente.

O que o filme diz sobre a França e o que não diz

Caso 137 é baseado num episódio real dos protestos dos Coletes Amarelos de 2018, e a triste ironia do filme é que ambas as mulheres centrais querem fazer a coisa certa. O problema é que vivem num mundo onde não se trata mais de certo ou errado, mas de de que lado você está. Essa dimensão política poderia ter sido explorada com mais radicalidade, e é onde a comparação com o Godard que teria feito um filme muito diferente sobre o mesmo tema pesa sobre Moll. O diretor optou pela contenção social-realista quando o material talvez pedisse algo mais disposto a incomodar.

Onde assistir e o que esperar

O filme teve sua estreia mundial na competição principal do Festival de Cannes de 2025, onde concorreu à Palme d'Or. Está disponível em plataformas europeias com acesso variável no Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. Os 115 minutos são densos no primeiro e no terceiro atos e mais áridos no segundo, onde o acúmulo de procedimento investigativo testa a paciência antes de a tensão retornar. Chegar ao filme sem expectativa de thriller convencional é a melhor preparação: o que Moll oferece é mais próximo do docudrama do que do suspense.

Um bom filme que poderia ter sido mais

Caso 137 é um thriller político competente com uma performance central excepcional e um argumento sobre impunidade institucional que o cinema francês raramente aborda com essa clareza. O que falta é a disposição de ir além do que o procedimento permite, de fazer o sistema desconfortável de forma que a investigação interna, por definição, não consegue. Moll entrega um filme honesto sobre os limites da accountability dentro de uma instituição que controla seus próprios limites. É um argumento válido e bem executado. É também um argumento que fica seguro exatamente onde poderia arriscar.


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