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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Aos Nossos Amores (1983) À nos amours - 1 h 39 min

 

Aos Nossos Amores (1983) - IMDb
Dir: Maurice Pialat
Amadurecimento, Drama de Época, Romance

CLC Balanced Rating: 7,1





Suzanne tem quinze anos, uma família em colapso e a certeza de que só se sente viva quando está com alguém. O único homem que ela realmente ama é o pai, que vai embora.


O Cassavetes francês e uma atriz descoberta por acaso

Maurice Pialat foi chamado de o John Cassavetes do cinema francês e Aos Nossos Amores é uma das suas maiores conquistas. Sandrine Bonnaire foi descoberta quando acompanhou a irmã a um teste de elenco e Pialat decidiu fazer um filme dedicado a ela. O resultado é uma estreia reveladora de uma atriz dinâmica de quinze anos que interpreta Suzanne, uma parisiense que embarca numa série de aventuras sexuais impulsivas para se separar do pai adorado e dominador, da mãe ineficaz e do irmão brutal.

O método de trabalho de Pialat amplificou essa naturalidade: o roteiro original não previa que o pai retornaria na cena do jantar e Pialat simplesmente entrou no set sem avisar os atores, que precisaram improvisar durante quase dez minutos diante de um acontecimento completamente inesperado. Nenhum deles errou a cena.


Suzanne e a impossibilidade de amar

A única pessoa que Suzanne realmente ama é o pai, talvez porque ele seja a única pessoa que a entende e a ama incondicionalmente. Tudo o mais é fuga. Os rapazes com quem ela dorme não são objeto de desejo no sentido convencional, são territórios onde ela se perde temporariamente de uma casa que não a contém. Ela evita justamente Luc, o único que a ama de verdade, tratando-o com uma crueldade que o filme nunca explica completamente, mas que a câmera de Pialat filma com uma atenção que sugere que Suzanne também não a entende.

Há um momento no filme em que Suzanne volta para casa à uma da manhã e o pai, que a havia esbofeteado antes de ela sair, observa que ela sorri menos do que antes e que onde havia duas covinhas nas bochechas agora há apenas uma. É a cena que define o filme: um pai que conhece a filha melhor do que qualquer pessoa ao redor e que por isso mesmo é o único que vê o que está sendo perdido.


Pialat na frente da câmera

Pialat interpreta o pai com um magnetismo assombroso, notável porque ele nunca havia atuado antes. A decisão de colocar-se no filme é coerência com um método que sempre preferiu: a presença real à performance preparada. Todas as cenas entre Pialat e Bonnaire são o coração do filme. Quando o pai some, o filme muda de temperatura, e Suzanne passa a buscar nos outros homens algo que nenhum deles pode dar porque nenhum deles é ele.

O irmão, interpretado por Dominique Besnehard, é o contraponto necessário e o elemento mais perturbador do filme: um homem que substitui o pai na família, mas sem nenhuma da generosidade do pai, apenas com a autoridade e a violência. A crítica o descreve como um dos personagens mais detestáveis do cinema.


Improvisação como método, violência como registro

Pialat trabalhou principalmente com atores estreantes, ou não profissionais, e o estilo cru e imediato que resulta disso faz do filme um estudo de personagem delicado que pode explodir em violência surpreendente. As brigas familiares não são coreografadas para parecer violência de cinema. Têm a irregularidade e o excesso real de conflitos entre pessoas que se conhecem há tempo suficiente para saber exatamente onde doer.

A Criterion Collection descreve o estilo do filme como doloroso, belo e desconcertante, tão honesto na sua mistura de selvageria e delicadeza quanto era em 1983. Damien Chazelle, em texto publicado pela Criterion, descreveu como um encontro precoce com Aos Nossos Amores o ensinou a misturar espontaneidade e surpresa no próprio trabalho, o que é, em si, uma declaração sobre a influência específica que Pialat exerce sobre diretores de gerações muito posteriores.


César de Melhor Filme e o que ficou

Aos Nossos Amores venceu o César de Melhor Filme em 1984 e o Prix Louis Delluc de Melhor Filme em 1983. A Time Out o listou em 38º lugar entre os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos, citando o retrato emocionante da relação pai-filha e a conclusão de que a felicidade é tão rara quanto um dia de sol, e a tristeza é permanente.

O corte final do filme, de Bonnaire num avião para Pialat sozinho num ônibus mergulhando na escuridão e de volta a Bonnaire recomeçando, é descrito por críticos como um dos finais mais devastadores do cinema francês dos anos 1980. Quarenta anos depois, o filme não envelheceu porque a questão que coloca sobre amor, fuga e o que acontece quando a pessoa que nos ancora desaparece continua sem resposta disponível.

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os Renegados (1985) Sans toit ni loi - 1 h 45 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

O corpo de uma jovem mulher é encontrado congelado em uma fossa. Através de flashbacks e entrevistas, vemos os eventos que levaram à sua morte inevitável.


Os Renegados (1985) - IMDb
Dir: Agnès Varda
Drama Psicológico, Tragédia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,6
100%Tomatometer26 Reviews   85%Popcornmeter

 
Os Renegados (Sans toit ni loi / Vagabond) é um retrato radical da marginalidade dirigido por Agnès Varda, que desmonta qualquer romantização da liberdade ao acompanhar a trajetória errante de uma jovem sem teto. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 1985, o filme se afirma como uma das obras mais incisivas do cinema europeu dos anos 1980.

Começar pelo fim

Varda abre o filme com a descoberta do corpo de Mona, morta em um campo durante o inverno. A partir daí, a narrativa retrocede em fragmentos, reconstruindo seus últimos meses por meio de encontros episódicos. Essa estrutura recusa suspense e identificação confortável: sabemos desde o início onde a trajetória termina. O interesse não é o desfecho, mas como o mundo reage à presença de alguém que se recusa a se ajustar.




Liberdade sem verniz

Mona vive à margem por escolha — mas o filme insiste em mostrar o custo dessa escolha. Sem dinheiro, abrigo ou vínculos estáveis, ela atravessa paisagens rurais e estradas com uma autonomia que é também exposição constante à violência, ao frio e ao desprezo. Varda desmonta o mito da liberdade absoluta: fora das estruturas sociais, a independência cobra um preço físico e moral alto.




Olhares que classificam

Ao longo do caminho, Mona cruza com trabalhadores rurais, estudantes, intelectuais, agricultores. Cada um projeta nela um rótulo — vagabunda, símbolo, ameaça, objeto de estudo. O filme é construído como um mosaico de pontos de vista, em que depoimentos à câmera (quase documentais) revelam mais sobre quem observa do que sobre quem é observada. Mona permanece opaca, irredutível às interpretações.




Forma híbrida, ética clara


Varda combina ficção e procedimentos documentais: câmera móvel, locações reais, ritmo irregular. Essa forma híbrida reforça a recusa ao melodrama e ao julgamento moral. Não há música que conduza a emoção, nem arco de redenção. O cinema aqui observa — e, ao observar, responsabiliza o espectador por suas conclusões.

A atuação de Sandrine Bonnaire, premiada em Veneza, sustenta essa opacidade com força: Mona é rude, vulnerável, contraditória, viva — e nunca explicada.

Por que o Leão de Ouro

Ao premiar Os Renegados, Veneza reconheceu:

  • a coragem de um cinema anti-romântico sobre a marginalidade;
  • a invenção formal que une investigação social e rigor narrativo;
  • um olhar feminino que recusa tanto a idealização quanto a condenação.

👉 Os Renegados é um filme sobre o preço de não pertencer. Um cinema que confronta o espectador com a própria necessidade de julgar, classificar e domesticar o outro — e que encontra, na recusa de explicar, sua mais profunda forma de respeito.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Acontecimento (2021) L'événement - 1 h 40 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Uma adaptação do romance homônimo de Annie Ernaux, que lembra sua experiência com o aborto quando ainda era ilegal na França nos anos 60.


O Acontecimento (2021) - IMDb
Dir: Audrey Diwan
Amadurecimento, Drama


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 8,6
99%Tomatometer172 Reviews   79%Popcornmeter



O Acontecimento (L’événement) é um drama francês dirigido por Audrey Diwan que transforma uma experiência íntima e dolorosa em cinema de urgência moral. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2021, o filme se impôs não apenas pelo tema, mas pela forma rigorosa e implacável com que o aborda.

Baseado no livro autobiográfico de Annie Ernaux, o filme acompanha Anne, uma jovem estudante na França do início dos anos 1960 que descobre estar grávida em um contexto em que o aborto era ilegal e criminalizado. A narrativa segue sua tentativa desesperada de interromper a gravidez sem perder o futuro, a saúde ou a própria vida.

Corpo, tempo e aprisionamento

O Acontecimento é construído como uma experiência claustrofóbica. A câmera permanece colada ao corpo de Anne, interpretada com intensidade física e emocional por Anamaria Vartolomei. O filme evita explicações sociológicas diretas: tudo é vivido no presente do corpo, no medo constante, na contagem obsessiva do tempo.

O calendário avança como uma ameaça. Cada semana que passa reduz as possibilidades e amplia os riscos. O filme transforma o tempo em pressão dramática absoluta, fazendo da espera uma forma de violência.

Uma recusa ao melodrama

Audrey Diwan opta por uma encenação seca, sem música manipuladora ou catarse emocional. Não há discursos edificantes nem alívio simbólico. O sofrimento não é espetacularizado, mas registrado. Essa recusa ao melodrama torna o filme ainda mais perturbador: o horror nasce da banalidade das situações, da indiferença institucional, do silêncio social.

O mundo ao redor de Anne — colegas, médicos, professores — aparece como uma rede de obstáculos e omissões, nunca como apoio. A solidão não é psicológica: é estrutural.

Dimensão política sem panfleto

Embora trate de um tema profundamente político, O Acontecimento não funciona como tese ou manifesto explícito. Sua força está em mostrar, sem atenuantes, o que acontece quando o Estado controla o corpo feminino. A política emerge do concreto: da dor, do risco, do medo de morrer sozinha.

Essa escolha estética confere ao filme uma atualidade inquietante, especialmente em contextos onde direitos reprodutivos continuam sendo disputados ou revertidos.

Por que o Leão de Ouro

Ao premiar O Acontecimento, o júri de Veneza reconheceu um filme que alia rigor formal, coragem temática e impacto ético. O Leão de Ouro consagrou uma obra que não busca consenso, mas confronto — e reafirmou o cinema como espaço de memória, denúncia e responsabilidade histórica.

👉 O Acontecimento não pede empatia: exige reconhecimento. É um filme que permanece no corpo do espectador, como uma lembrança incômoda e necessária.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Sob o Sol de Satã (1987) Sous le soleil de Satan - 1 h 38 min

O filme segue a história de um jovem padre, Donissan, que luta contra suas dúvidas e tenta entender a natureza do pecado e da redenção. Ele se envolve com uma mulher que representa a tentação e a luta entre o bem e o mal.


Dir: Maurice Pialat
Drama, Fantasia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,7
78%Tomatometer9 Reviews   61%Popcornmeter


Elenco Principal

  • Gérard Depardieu como Donissan
  • Sandrine Bonnaire como a mulher tentadora
  • Maurice Pialat como o personagem secundário

Temas Principais

  • Conflito Moral: A luta interna entre o bem e o mal.
  • Religião e Fé: A busca pela compreensão da fé em tempos de dúvida.
  • Redenção: A possibilidade de salvação e perdão.

Recepção

  • O filme foi aclamado pela crítica, destacando a atuação de Gérard Depardieu e a direção de Pialat.
  • Ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1987.

Curiosidades

  • O filme é conhecido por sua abordagem profunda e filosófica sobre a moralidade.
  • A cinematografia é marcada por uma estética sombria que reflete os temas pesados da narrativa.