Aos Nossos Amores (1983) - IMDb
O Cassavetes francês e uma atriz descoberta por acaso
Maurice Pialat foi chamado de o John Cassavetes do cinema
francês e Aos Nossos Amores é uma das suas maiores conquistas. Sandrine
Bonnaire foi descoberta quando acompanhou a irmã a um teste de elenco e Pialat
decidiu fazer um filme dedicado a ela. O resultado é uma estreia reveladora de
uma atriz dinâmica de quinze anos que interpreta Suzanne, uma parisiense que
embarca numa série de aventuras sexuais impulsivas para se separar do pai
adorado e dominador, da mãe ineficaz e do irmão brutal.
O método de trabalho de Pialat amplificou essa naturalidade:
o roteiro original não previa que o pai retornaria na cena do jantar e Pialat
simplesmente entrou no set sem avisar os atores, que precisaram improvisar
durante quase dez minutos diante de um acontecimento completamente inesperado.
Nenhum deles errou a cena.
Suzanne e a impossibilidade de amar
A única pessoa que Suzanne realmente ama é o pai, talvez
porque ele seja a única pessoa que a entende e a ama incondicionalmente. Tudo o
mais é fuga. Os rapazes com quem ela dorme não são objeto de desejo no sentido
convencional, são territórios onde ela se perde temporariamente de uma casa que
não a contém. Ela evita justamente Luc, o único que a ama de verdade,
tratando-o com uma crueldade que o filme nunca explica completamente, mas que a
câmera de Pialat filma com uma atenção que sugere que Suzanne também não a
entende.
Há um momento no filme em que Suzanne volta para casa à uma
da manhã e o pai, que a havia esbofeteado antes de ela sair, observa que ela
sorri menos do que antes e que onde havia duas covinhas nas bochechas agora há
apenas uma. É a cena que define o filme: um pai que conhece a filha melhor do
que qualquer pessoa ao redor e que por isso mesmo é o único que vê o que está
sendo perdido.
Pialat na frente da câmera
Pialat interpreta o pai com um magnetismo assombroso,
notável porque ele nunca havia atuado antes. A decisão de colocar-se no filme é
coerência com um método que sempre preferiu: a presença real à performance
preparada. Todas as cenas entre Pialat e Bonnaire são o coração do filme.
Quando o pai some, o filme muda de temperatura, e Suzanne passa a buscar nos
outros homens algo que nenhum deles pode dar porque nenhum deles é ele.
O irmão, interpretado por Dominique Besnehard, é o
contraponto necessário e o elemento mais perturbador do filme: um homem que
substitui o pai na família, mas sem nenhuma da generosidade do pai, apenas com
a autoridade e a violência. A crítica o descreve como um dos personagens mais
detestáveis do cinema.
Improvisação como método, violência como registro
Pialat trabalhou principalmente com atores estreantes, ou
não profissionais, e o estilo cru e imediato que resulta disso faz do filme um
estudo de personagem delicado que pode explodir em violência surpreendente. As
brigas familiares não são coreografadas para parecer violência de cinema. Têm a
irregularidade e o excesso real de conflitos entre pessoas que se conhecem há
tempo suficiente para saber exatamente onde doer.
A Criterion Collection descreve o estilo do filme como
doloroso, belo e desconcertante, tão honesto na sua mistura de selvageria e
delicadeza quanto era em 1983. Damien Chazelle, em texto publicado pela
Criterion, descreveu como um encontro precoce com Aos Nossos Amores o ensinou a
misturar espontaneidade e surpresa no próprio trabalho, o que é, em si, uma
declaração sobre a influência específica que Pialat exerce sobre diretores de
gerações muito posteriores.
César de Melhor Filme e o que ficou
Aos Nossos Amores venceu o César de Melhor Filme em 1984 e o
Prix Louis Delluc de Melhor Filme em 1983. A Time Out o listou em 38º lugar
entre os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos, citando o retrato
emocionante da relação pai-filha e a conclusão de que a felicidade é tão rara
quanto um dia de sol, e a tristeza é permanente.
O corte final do filme, de Bonnaire num avião para Pialat
sozinho num ônibus mergulhando na escuridão e de volta a Bonnaire recomeçando,
é descrito por críticos como um dos finais mais devastadores do cinema francês
dos anos 1980. Quarenta anos depois, o filme não envelheceu porque a questão
que coloca sobre amor, fuga e o que acontece quando a pessoa que nos ancora
desaparece continua sem resposta disponível.
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