Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Docudrama, Drama de Época, Drama Político, Drama Psicológico, Biografia, Crime, História
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 7,4 METASCORE: 8,4
Letterboxd: 8,0 Flick Metrix: 81
Fred Hampton tinha 21 anos quando o FBI decidiu que ele
era perigoso demais para continuar vivo.
A história e por que importa
Fred Hampton era o presidente da seção de Chicago do Partido
dos Panteras Negras em 1969. Tinha 21 anos, era um orador extraordinário e
estava construindo algo que o FBI de J. Edgar Hoover classificou como a maior
ameaça interna ao país: uma coalizão multiétnica entre grupos que
historicamente se ignoravam ou se hostilizavam, incluindo gangues de Chicago,
organizações puertorriquenhas e grupos de trabalhadores brancos pobres. Hampton
chamava isso de Arco-íris de Coalizão.
Bill O'Neal era um ladrão de carros que foi preso e ofereceu
ao FBI a alternativa de se infiltrar no Partido dos Panteras Negras em troca de
imunidade. Ele se aproximou de Hampton, ganhou sua confiança e tornou-se chefe
de segurança da organização. Na madrugada de 4 de dezembro de 1969, com base em
informações que O'Neal forneceu sobre o layout do apartamento e a localização
do quarto de Hampton, agentes do FBI e policiais de Chicago realizaram uma
operação que matou Hampton enquanto dormia. Ele tinha 21 anos.
Daniel Kaluuya e a performance que ganhou o Oscar
Kaluuya ganhou o Oscar de Coadjuvante pela performance de
Fred Hampton, e a escolha da categoria é ela mesma um argumento sobre o filme:
Hampton é o coração moral e político de Judas e o Messias Negro, mas o
protagonista narrativo é Bill O'Neal, interpretado por Lakeith Stanfield. É
O'Neal que o filme acompanha, é pela perspectiva dele que o espectador entra na
história, e é a contradição de O'Neal, um homem que admirava Hampton e que o
traiu, que o filme examina.
Kaluuya interpreta Hampton com uma fisicalidade que captura
o que faz um líder: não apenas o que diz mas como ocupa o espaço, como faz as
pessoas ao redor sentirem que são capazes de mais do que pensavam. As cenas de
discurso são filmadas por Shaka King com uma câmera que se move entre a
multidão como se estivesse dentro dela, e Kaluuya habita esses momentos com uma
intensidade que faz o espectador entender por que o FBI tinha medo.
O dilema de O'Neal e o que o filme faz com ele
Lakeith Stanfield interpreta O'Neal com uma ambiguidade que
é o gesto mais corajoso do filme. O'Neal não é apresentado como vilão nem como
vítima: é um homem jovem, sem recursos, colocado numa situação em que a única
saída disponível era uma que exigia trair alguém que ele passou a respeitar
genuinamente. Stanfield não resolve essa contradição porque o filme não
resolve: O'Neal viveu com ela pelo resto da vida e nunca conseguiu nomeá-la de
forma satisfatória. Numa entrevista para um documentário filmada em 1989, no
dia anterior ao suicídio, O'Neal disse que não havia um momento em que não
pensasse no que havia feito.
Shaka King e as escolhas formais
Shaka King filmou Judas e o Messias Negro com uma câmera que
raramente fica estável: há um tremor constante, quase imperceptível, que
instala desde o início uma sensação de que nada é seguro e que qualquer cena
pode mudar de direção. É uma escolha que replica formalmente a situação de
O'Neal: um homem que nunca sabe quando vai ser descoberto, quando a lealdade
que performou vai ser testada de uma forma que não pode sustentar.
A fotografia de Sean Bobbitt, que trabalhou com Steve
McQueen em 12 Anos de Escravidão, usa a paleta de cores do Chicago de 1969 com
uma precisão que ancora o filme num período específico sem torná-lo período
histórico distante. O que está sendo contado parece ter acontecido ontem
precisamente porque as estruturas que tornaram possível o que aconteceu a
Hampton ainda existem.
Onde assistir: Judas e o Messias Negro está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em streaming no Brasil: Judas e o Messias Negro - Onde assistir. Um filme necessário sobre uma história que
a maioria das pessoas não conhece e deveria.
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