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sábado, 23 de maio de 2026

Judas e o Messias Negro (2021) Judas and the Black Messiah - 2 h 6 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Docudrama, Drama de Época, Drama Político, Drama Psicológico, Biografia, Crime, História

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 8,4
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 81
96%Tomatometer359 Reviews

Fred Hampton tinha 21 anos quando o FBI decidiu que ele era perigoso demais para continuar vivo.

A história e por que importa

Fred Hampton era o presidente da seção de Chicago do Partido dos Panteras Negras em 1969. Tinha 21 anos, era um orador extraordinário e estava construindo algo que o FBI de J. Edgar Hoover classificou como a maior ameaça interna ao país: uma coalizão multiétnica entre grupos que historicamente se ignoravam ou se hostilizavam, incluindo gangues de Chicago, organizações puertorriquenhas e grupos de trabalhadores brancos pobres. Hampton chamava isso de Arco-íris de Coalizão.

Bill O'Neal era um ladrão de carros que foi preso e ofereceu ao FBI a alternativa de se infiltrar no Partido dos Panteras Negras em troca de imunidade. Ele se aproximou de Hampton, ganhou sua confiança e tornou-se chefe de segurança da organização. Na madrugada de 4 de dezembro de 1969, com base em informações que O'Neal forneceu sobre o layout do apartamento e a localização do quarto de Hampton, agentes do FBI e policiais de Chicago realizaram uma operação que matou Hampton enquanto dormia. Ele tinha 21 anos.

Daniel Kaluuya e a performance que ganhou o Oscar

Kaluuya ganhou o Oscar de Coadjuvante pela performance de Fred Hampton, e a escolha da categoria é ela mesma um argumento sobre o filme: Hampton é o coração moral e político de Judas e o Messias Negro, mas o protagonista narrativo é Bill O'Neal, interpretado por Lakeith Stanfield. É O'Neal que o filme acompanha, é pela perspectiva dele que o espectador entra na história, e é a contradição de O'Neal, um homem que admirava Hampton e que o traiu, que o filme examina.

Kaluuya interpreta Hampton com uma fisicalidade que captura o que faz um líder: não apenas o que diz mas como ocupa o espaço, como faz as pessoas ao redor sentirem que são capazes de mais do que pensavam. As cenas de discurso são filmadas por Shaka King com uma câmera que se move entre a multidão como se estivesse dentro dela, e Kaluuya habita esses momentos com uma intensidade que faz o espectador entender por que o FBI tinha medo.

O dilema de O'Neal e o que o filme faz com ele

Lakeith Stanfield interpreta O'Neal com uma ambiguidade que é o gesto mais corajoso do filme. O'Neal não é apresentado como vilão nem como vítima: é um homem jovem, sem recursos, colocado numa situação em que a única saída disponível era uma que exigia trair alguém que ele passou a respeitar genuinamente. Stanfield não resolve essa contradição porque o filme não resolve: O'Neal viveu com ela pelo resto da vida e nunca conseguiu nomeá-la de forma satisfatória. Numa entrevista para um documentário filmada em 1989, no dia anterior ao suicídio, O'Neal disse que não havia um momento em que não pensasse no que havia feito.



Shaka King e as escolhas formais

Shaka King filmou Judas e o Messias Negro com uma câmera que raramente fica estável: há um tremor constante, quase imperceptível, que instala desde o início uma sensação de que nada é seguro e que qualquer cena pode mudar de direção. É uma escolha que replica formalmente a situação de O'Neal: um homem que nunca sabe quando vai ser descoberto, quando a lealdade que performou vai ser testada de uma forma que não pode sustentar.

A fotografia de Sean Bobbitt, que trabalhou com Steve McQueen em 12 Anos de Escravidão, usa a paleta de cores do Chicago de 1969 com uma precisão que ancora o filme num período específico sem torná-lo período histórico distante. O que está sendo contado parece ter acontecido ontem precisamente porque as estruturas que tornaram possível o que aconteceu a Hampton ainda existem.

Onde assistir: Judas e o Messias Negro está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em streaming no Brasil: Judas e o Messias Negro - Onde assistir. Um filme necessário sobre uma história que a maioria das pessoas não conhece e deveria.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Sicario: Terra de Ninguém (2015) Sicario - 2 h 1 min



Dir: Denis Villeneuve

Ação, Crime, Drama, Mistério, Suspense


CLC Score: 8,0





Sinopse

Kate Macer, agente idealista do FBI especializada em operações de resgate de reféns, é recrutada por uma força-tarefa interagências liderada pelo enigmático oficial da CIA Matt Graver para participar de uma missão contra o tráfico de drogas na fronteira entre Estados Unidos e México, sem receber informações completas sobre os verdadeiros objetivos da operação.

À medida que a missão avança rumo a métodos cada vez mais brutais e moralmente ambíguos, Kate passa a questionar a legalidade das ações conduzidas pela equipe, especialmente diante da presença do misterioso consultor Alejandro Gillick, ex-promotor colombiano cujos verdadeiros motivos e vínculos pessoais com o cartel visado permanecem obscuros até os estágios finais da narrativa.

Análise Crítica

Escrito por Taylor Sheridan em sua estreia como roteirista, o filme marca o primeiro capítulo daquilo que o próprio Sheridan viria a descrever como sua trilogia da fronteira americana, consolidando-se como uma das produções mais influentes do cinema de suspense policial da década ao abordar a guerra às drogas através de uma perspectiva moralmente ambígua e deliberadamente desconfortável.

Dirigido por Denis Villeneuve com fotografia assinada por Roger Deakins, o filme reúne Emily Blunt como Kate, Benicio del Toro como Alejandro e Josh Brolin como Matt, contando com trilha sonora tensa composta por Jóhann Jóhannsson que reforça constantemente a sensação de perigo iminente ao longo de toda a operação retratada.

Estreado no Festival de Cannes em maio de 2015, o filme recebeu três indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Edição de Som, consolidando-se posteriormente como uma das obras mais aclamadas da carreira de Villeneuve antes de sua consagração definitiva em Hollywood com produções de maior escala.

O filme recebeu 91% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e nota 82 no Metacritic, classificação equivalente a aclamação universal pelo agregador, com a crítica destacando repetidamente as atuações de Emily Blunt e Benicio del Toro ao lado da direção tensa e da fotografia premiada de Roger Deakins.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A exclusão sistemática de Kate das informações mais críticas sobre a verdadeira natureza da operação, apesar de sua posição oficial como agente federal supostamente no comando legal da missão, expõe desde o início como as estruturas de poder interagências operam através da opacidade deliberada, transformando a protagonista em testemunha impotente de decisões que ela nominalmente deveria estar autorizando.

A revelação gradual de que Alejandro é na verdade um ex-promotor colombiano movido por vingança pessoal contra o cartel que assassinou sua família, e não um consultor legal legítimo como inicialmente sugerido, recontextualiza retrospectivamente toda a violência extrajudicial cometida ao longo do filme como expressão de trauma pessoal disfarçada de política de Estado.

O confronto final entre Alejandro e Kate, no qual ele a obriga sob ameaça de morte a assinar um documento validando a legalidade de operações que ela sabe serem ilegítimas, cristaliza a impotência estrutural da protagonista diante de um sistema que exige sua cumplicidade silenciosa como preço de sua própria sobrevivência profissional e física.

Ao encerrar com Alejandro executando pessoalmente a vingança contra o líder do cartel responsável pela morte de sua família, incluindo os próprios filhos deste diante de seus olhos, o filme recusa qualquer justiça institucional convencional, sugerindo que a verdadeira lógica que rege o conflito fronteiriço retratado opera inteiramente fora dos marcos legais que personagens como Kate ainda acreditam representar.

Conclusão

Sicario: Terra de Ninguém consolidou Denis Villeneuve como um dos cineastas mais habilidosos em construir tensão através de contenção visual e sonora, demonstrando capacidade rara de transformar o gênero de suspense policial em investigação moral genuinamente perturbadora.