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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Bolo do Presidente (2025) Mamlaket al-qasab - 1 h 45 min


No Iraque dos anos 1990, durante o período das sanções econômicas impostas após a Guerra do Golfo, a jovem Lamia recebe da escola uma missão obrigatória: preparar um bolo para celebrar o aniversário de Saddam Hussein. Vivendo com a avó em meio à escassez de alimentos e à pobreza crescente, ela inicia uma jornada para conseguir os ingredientes necessários. O que parece uma tarefa simples revela, pouco a pouco, o peso do autoritarismo sobre a vida cotidiana.


Drama


CLC Score: 8,1






Crítica

Há filmes que retratam ditaduras por meio de golpes de Estado, conflitos militares ou grandes acontecimentos políticos. O Bolo do Presidente escolhe um caminho muito mais delicado e, justamente por isso, mais contundente. Hasan Hadi mostra como um regime autoritário é capaz de controlar até os gestos mais banais da vida de seus cidadãos.

A narrativa acompanha a pequena Lamia em uma missão aparentemente simples. No entanto, desde o início percebemos que aquela busca por farinha, açúcar e ovos vai muito além da preparação de um bolo. Cada dificuldade encontrada revela um país devastado pela escassez e pelo medo, onde até uma comemoração escolar pode transformar-se em um instrumento de submissão política.

O grande mérito do roteiro está em evitar discursos explícitos. O diretor nunca explica o funcionamento da ditadura. Ele permite que o espectador descubra esse ambiente através das experiências da protagonista. Os olhares cautelosos dos adultos, a insegurança diante das autoridades e a constante preocupação em cumprir ordens revelam muito mais do que qualquer exposição histórica.

Baneen Ahmad Nayyef entrega uma interpretação de grande naturalidade. Sua Lamia mistura inocência, curiosidade e coragem, conduzindo o espectador por uma realidade que ela própria ainda não compreende completamente. Ao seu redor, os personagens secundários representam diferentes formas de adaptação a um sistema que controla comportamentos, desejos e até demonstrações públicas de lealdade.

A direção aposta na simplicidade. A fotografia privilegia paisagens áridas, ruas vazias e ambientes marcados pela escassez, enquanto a câmera permanece próxima das crianças, reforçando que a história é contada a partir da perspectiva daqueles que apenas tentam sobreviver às circunstâncias impostas pelos adultos.

Mais do que um drama político, O Bolo do Presidente é uma reflexão sobre a maneira como o poder autoritário invade a vida cotidiana. O filme demonstra que ditaduras não se sustentam apenas pela violência física, mas também pela obrigação permanente de participar de rituais de obediência, mesmo quando eles parecem completamente absurdos.



⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A interpretação da obra

Embora acompanhemos toda a narrativa pela perspectiva infantil de Lamia, o verdadeiro protagonista do filme é o próprio sistema político em que ela vive. O bolo nunca representa apenas uma tarefa escolar. Ele simboliza a submissão exigida por um regime que transforma até uma celebração infantil em demonstração pública de fidelidade ao líder.

Ao longo da jornada, Lamia enfrenta dificuldades que, isoladamente, poderiam parecer consequência apenas da pobreza. Entretanto, o filme deixa claro que essa escassez faz parte de uma realidade produzida tanto pelas sanções internacionais quanto pela própria estrutura autoritária do regime de Saddam Hussein. A falta de ingredientes, o medo constante e a resignação dos adultos revelam um país em que a sobrevivência cotidiana se tornou prioridade absoluta.

O aspecto mais interessante da obra é que Hasan Hadi nunca transforma Saddam Hussein em uma presença física dominante. Sua figura quase não aparece, mas sua influência está em toda parte. Ela se manifesta nas ordens da escola, no comportamento das autoridades, na cautela dos moradores e na necessidade permanente de demonstrar obediência. O poder torna-se invisível, mas onipresente.

A jornada de Lamia também representa o fim da inocência. Durante sua busca, ela conhece pessoas generosas, oportunistas, resignadas e desesperadas. Aos poucos, começa a perceber que o mundo adulto é governado por regras que ela ainda não compreendia. Sua missão deixa de ser apenas encontrar ingredientes para tornar-se uma experiência de amadurecimento.

O desfecho reforça essa ideia sem recorrer a grandes acontecimentos. O que permanece na memória não é o bolo em si, mas a constatação de que uma sociedade pode ser levada a considerar normal aquilo que jamais deveria ser. Quando o medo passa a organizar todos os aspectos da vida cotidiana, até um simples aniversário transforma-se em instrumento de dominação.

Conclusão

O Bolo do Presidente demonstra que o cinema político não precisa de grandes discursos para produzir impacto. Hasan Hadi encontra na experiência de uma criança a escala perfeita para revelar o funcionamento cotidiano de uma ditadura.

Ao transformar uma missão aparentemente banal em uma poderosa metáfora sobre obediência, medo e perda da inocência, o diretor constrói uma obra sensível que permanece com o espectador muito depois do término da sessão. É um filme que fala sobre um momento específico da história do Iraque, mas cuja reflexão ultrapassa fronteiras ao lembrar que toda forma de autoritarismo começa quando o absurdo passa a ser aceito como parte da rotina.