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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Los domingos (2025) - 1 h 55 min

Filme incluso na série "CINEMA 2026: O que Vale Ver" da Filmoteca.



Dir: Alauda Ruiz de Azúa
Drama, Suspense

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,4
Letterboxd: 7,8   Flick Metrix: 79

Ainara tem 17 anos, é boa aluna e órfã de mãe. Um dia comunica à família que quer entrar num convento de clausura. O pai fica paralisado. A tia acha que a Igreja a está manipulando.

Alauda Ruiz de Azúa e o projeto

Alauda Ruiz de Azúa estreou na direção de longas-metragens com Cinco Lobitos em 2022, um filme sobre maternidade e tensões familiares que foi bem recebido nos festivais e estabeleceu uma voz específica: a de uma cineasta interessada na vida privada filmada sem tese, sem melodrama, com a atenção de quem observa antes de concluir. Los Domingos toma uma premissa que nas mãos de outro diretor teria terminado em sermão, provocação fácil ou retrato geracional simples, e a transforma numa película de observação precisa sobre o que acontece quando uma decisão individual descompõe uma família inteira.

Ruiz de Azúa lembrou ao público da cerimônia do Goya que em quarenta anos de prêmios apenas três diretoras, Isabel Coixet, Pilar Miró e Iciar Bollain, haviam recebido o prêmio de Melhor Direção antes dela. Los Domingos é o filme que chegou depois de duas obras menores mas consistentes e que confirma uma trajetória de amadurecimento formal acelerado. 

Ainara e a decisão

Ainara é uma jovem de 17 anos, boa estudante e órfã de mãe, que comunica à família que quer ingressar num convento de clausura. A notícia cai como uma bomba. O pai fica paralisado, incapaz de reagir de nenhuma forma. A tia, interpretada por Patricia López Arnaiz, considera que a Igreja está manipulando a sobrinha e toma para si a missão de impedir a entrada no convento. A avó tem sua própria relação com a religião, diferente das duas. Ainara, interpretada pela debutante Blanca Soroa, permanece inabalável.

O que Ruiz de Azúa filma não é a fé de Ainara em si. O que está dentro da protagonista permanece parcialmente opaco ao espectador, como permanece opaco à família. O filme filma os mistérios que o cinema, e a vida, não pode explicar, apenas mostrar. Essa opacidade é a escolha mais honesta do filme sobre o que a vocação religiosa é para quem não a tem e para quem não a pode compreender de fora.

Blanca Soroa e a performance central

Blanca Soroa não tinha experiência cinematográfica quando foi escolhida para Ainara. A interpretação da debutante é magistral, com sequências genuinamente emocionantes. O que Soroa faz com o personagem é construir a convicção de Ainara sem nunca torná-la fanática ou ingênua: é uma jovem de inteligência evidente que chegou a uma conclusão sobre o que quer da vida e que não vai ser movida por argumentos que ela já considerou e descartou.

A cena em que Ainara explica à tia o que sente, com a calma específica de quem não precisa convencer ninguém porque não está buscando aprovação, é o momento mais preciso do filme sobre o que separa uma convicção genuína de uma postura defensiva. Soroa sustenta essa distinção com uma maturidade que performers muito mais experientes não garantiriam.

Patricia López Arnaiz e o personagem mais complexo

Patricia López Arnaiz venceu o Goya de Melhor Atriz pela performance da tia de Ainara. É o personagem mais difícil do filme precisamente porque tem as razões mais compreensíveis para fazer o que faz: é uma mulher secular, progressista, que viu a Igreja causar dano em contextos que conhece, e que acredita genuinamente que está protegendo a sobrinha de uma instituição que vai controlá-la. 

Los Domingos questiona quem dá a vida à religião, mas inclui nesse questionamento também quem tem a posição contrária diante do espiritual. A tia é tão convicta na sua visão de mundo quanto Ainara é na dela, e o filme examina o que acontece quando duas convicções igualmente sólidas não têm espaço para coexistir numa mesma família. 

A fotografia e os espaços

A fotografia de Bet Rourich usa movimentos de câmera etéreos e silenciosos, com enquadramentos fechados, íntimos, naturalistas e por momentos opressivos, que acentuam a guerra particular de Ainara entre dois mundos. 

O uso de planos e espaços, a casa e o convento, sugere que o que vemos é uma prisão. Mas a precisão do filme está em que os dois espaços funcionam como prisão e como liberdade simultaneamente, dependendo de quem está olhando: para a tia, o convento é um aprisionamento. Para Ainara, a casa com suas expectativas e seus projetos para o futuro dela é o confinamento real. 

O que o filme recusa fazer

Los Domingos não busca apontar quem é o mau, mas mostrar o quão diferentes podem ser as posições dos personagens. Essa recusa de hierarquizar as posições é o gesto editorial mais importante do filme e o que o distingue da maioria dos filmes sobre religião, que raramente conseguem não tomar partido de alguma forma.

Alguns críticos apontaram que o filme não explora suficientemente a dúvida ou o processo da fé, apresentando um choque de convicções onde ninguém verdadeiramente evolui. É uma objeção legítima. O que Ruiz de Azúa parece mais interessada é precisamente nessa impossibilidade de evolução: há decisões que não têm meio-termo disponível, e Los Domingos examina o que uma família faz quando se encontra diante de uma delas.

San Sebastián, os Goya e o que representam

Los Domingos venceu a Concha de Ouro em San Sebastián em setembro de 2025 e cinco Goya em março de 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. O reconhecimento duplo, no maior festival espanhol e no prêmio da Academia espanhola, é raro e significativo: os dois costumam valorizar tipos diferentes de cinema, e Los Domingos conseguiu os dois por razões que o filme justifica: é acessível o suficiente para um público amplo e preciso o suficiente para satisfazer uma audiência mais exigente.

O filme faturou cinco milhões de euros em bilheteria na Espanha, um resultado expressivo para um drama de autor sem estrelas internacionais e com um tema que a crítica havia apostado ser comercialmente arriscado.

Onde assistir: Los Domingos ainda não tem data confirmada de lançamento no Brasil. Está disponível em plataformas com VPN ou por importação. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo e os membros do Clube de Cinema podem ter acesso. Um filme para assistir quando você quer ver uma diretora no controle total do que está fazendo.




Se você chegou até aqui, você é cinéfilo de verdade. Participe do nosso Clube de Cinema Seu Manolo. Um filme por semana para debatermos sobre ele.

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sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Vazio do Domingo (2018) La enfermedad del domingo - 1 h 53 min

Uma mulher idosa de classe alta recebe uma visita inesperada de sua filha, que ela não vê há mais de trinta anos, mas ela lhe faz um estranho pedido: passar dez dias juntas.


Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,9   METASCORE: 9,2
Letterboxd: 7,2   Flick Metrix: 71
89%Tomatometer19 Reviews   73%Popcornmeter

Chiara encontrou a mãe que a abandonou aos seis anos e propôs dez dias juntas numa casa isolada nas montanhas. O filme acompanha esses dez dias sem julgamento e sem resolução.


Salazar e o cinema de câmara


Ramón Salazar é um cineasta espanhol cujo trabalho circula quase exclusivamente no circuito de festivais e plataformas especializadas, invisível para o grande público e consistentemente admirado pela crítica especializada. O Vazio do Domingo é seu trabalho mais acessível sem ser menos rigoroso: usa a estrutura de thriller de câmara para investigar a impossibilidade de reparar certos danos e o que duas pessoas fazem quando se sentam diante dessa impossibilidade por dez dias consecutivos.

 

Bárbara Lennie e Susi Sánchez


Bárbara Lennie como Chiara e Susi Sánchez como Anabel formam um dos pares mais precisos do cinema espanhol contemporâneo. Anabel é uma mulher socialmente bem-sucedida que abandonou a filha ainda na infância. O pedido de Chiara de passar dez dias juntas numa casa isolada funciona como ponto de partida para uma convivência marcada por tensão e revelações. Lennie constrói Chiara com uma raiva contida que nunca explode completamente porque Chiara sabe que a explosão não vai dar o que precisa. Sánchez constrói Anabel com uma culpa que não sabe como se expressar para alguém que não quer consolação, apenas presença.

 

O silêncio como linguagem


O filme utiliza cenários naturais e uma condução narrativa baseada em diálogos contidos e pausas prolongadas. A construção visual reforça o clima introspectivo da obra, destacando os conflitos emocionais e a dificuldade de comunicação entre as personagens. Salazar entendeu que o que Chiara e Anabel não conseguem dizer uma para a outra é mais importante do que o que dizem, e usa o silêncio como instrumento dramático com uma precisão que o cinema de câmara raramente alcança sem virar hermetismo vazio.

 

A paisagem como estado emocional


A região montanhosa entre Espanha e França onde o filme acontece funciona como exteriorização do estado interno das duas personagens: bela e austera simultaneamente, sem saída fácil, com uma qualidade de isolamento que é suspensão do mundo exterior. Salazar usa a natureza com a mesma atenção que usa os rostos das atrizes: como informação sobre o que os personagens estão vivendo antes que as palavras cheguem.

 

Onde assistir


O Vazio do Domingo está disponível no catálogo da Netflix Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem um ritmo que pede paciência e recompensa quem não tenta acelerar o que Salazar construiu para ser habitado. Espectadores que chegam esperando thriller convencional com revelações e confrontos dramáticos vão precisar reajustar completamente as expectativas. O filme é mais próximo de Antonioni do que de qualquer thriller espanhol recente.

 

O que fica


O Vazio do Domingo termina sem resolver o que Chiara foi buscar, porque o que ela foi buscar não tem resolução disponível. Uma mãe que abandona uma filha de seis anos não pode desfazer esse abandono com dez dias de presença, e o filme tem a honestidade de não fingir que pode. O que Chiara ganha com esses dez dias não é reparação: é outra coisa, mais difícil de nomear e mais verdadeira do que qualquer reconciliação que o roteiro convencional ofereceria. Salazar confia no espectador para nomear sozinho o que é. E essa confiança é o maior elogio disponível. 

 


domingo, 3 de maio de 2026

O Que Você Faria? (2005) El método - 1 h 55 min

Os sete melhores candidatos espanhóis a empresas são deixados em uma sala e informados na tela do computador sobre suas tarefas e que um deles é um observador.


O Que Você Faria? (2005) - IMDb
Dir: Marcelo Piñeyro
Drama, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 6,8
Letterboxd: 6,6   Flick Metrix: 68
72%Tomatometer18 Reviews   70%Popcornmeter

Sete candidatos. Uma vaga. O processo seletivo como câmara de tortura.

 

O espaço fechado como personagem

Marcelo Piñeyro adapta a peça teatral de Jordi Galceran e toma uma decisão que define tudo: manter a ação praticamente dentro de uma única sala de reunião. Essa escolha é argumento. O espaço fechado produz uma claustrofobia que o roteiro alimenta sistematicamente, e os candidatos vão preenchendo o ambiente com uma tensão que cresce sem precisar de eventos externos. A câmera de Piñeyro circula entre os personagens com uma mobilidade que contrasta com o confinamento, criando a sensação de que há sempre algo acontecendo fora do campo de visão. 

O processo como sistema opaco

O Método Grönholm, nome do processo seletivo dentro do filme, funciona como uma série de dinâmicas de grupo projetadas para revelar comportamento sob pressão. O que o filme expõe com precisão é o quanto as pessoas estão dispostas a aceitar quando o prêmio é suficientemente desejável. Os candidatos sabem que estão sendo manipulados e continuam jogando. Sabem que as regras são arbitrárias e continuam obedecendo. Essa adesão voluntária ao processo é o centro moral do filme, e Piñeyro tem a inteligência de não explicá-la, apenas de mostrá-la funcionando. 

Os personagens como tipos e como pessoas

O roteiro apresenta sete candidatos que poderiam ser apenas arquétipos: o ambicioso, a pragmática, o frágil, a calculista. O que salva o filme do esquematismo é a precisão dos atores e a velocidade com que o roteiro revira as expectativas. Quem parecia forte desmorona, quem parecia frágil resiste, e essas inversões não são gratuitas: respondem à lógica do próprio processo, que foi desenhado para desestabilizar exatamente as certezas que cada candidato traz consigo. 

A ansiedade da avaliação constante

O que O Método captura com mais acuidade é a ansiedade específica de não saber como está sendo julgado. Os candidatos performam o tempo inteiro sem saber qual performance é a correta, e essa incerteza é mais paralisante do que qualquer critério explícito. Piñeyro entendeu que a ansiedade moderna do trabalho não vem da exigência clara, mas da exigência vaga, daquela sensação de que há sempre um padrão invisível sendo aplicado e que você pode estar falhando nele agora mesmo sem perceber. 

Onde assistir e o que esperar

O filme circula em plataformas com disponibilidade variável e está disponível na Filmoteca Seu Manolo. A fotografia de Unax Mendía usa a iluminação artificial do ambiente corporativo de forma funcional, e o elenco espanhol, com Eduardo Noriega e Najwa Nimri entre os destaques, sustenta o ritmo sem deixar a tensão cair. Por ser adaptação teatral, o filme exige um espectador disposto a habitar o espaço junto com os personagens. 

O fechamento do bloco


O Método coloca a ansiedade do cotidiano no ambiente onde ela é mais sistemática e mais aceita: o processo seletivo corporativo, quando tudo ainda está em jogo e o candidato ainda não sabe se vai ser consumido pelo sistema ou descartado por ele.  


sexta-feira, 20 de março de 2026

Verão 1993 (2017) Estiu 1993 - 1 h 37 min


Verão 1993 (2017) - IMDb
Dir: Carla Simón
Drama, Família


CLC Balanced Rating: 7,9




“Um filme onde a infância descobre, silenciosamente, que o mundo pode mudar para sempre.”


O verão como suspensão do tempo

Dirigido por Carla Simón, Estiu 1993 (Verão 1993, 2017) acompanha a pequena Frida durante um período de transição que ela ainda não consegue compreender totalmente. Após a morte da mãe, a menina deixa Barcelona para viver com os tios no interior da Catalunha. O verão surge como um intervalo — um tempo suspenso onde o luto não se manifesta em palavras, mas em gestos, silêncios e pequenas rupturas no cotidiano.


O mundo visto à altura de uma criança

A grande força do filme está em sua perspectiva: tudo é filtrado pelo olhar de Frida. Não há explicações didáticas nem dramatizações excessivas. O que vemos são fragmentos — brincadeiras, ciúmes, hesitações — que revelam, aos poucos, a complexidade emocional da criança. Carla Simón constrói uma narrativa que respeita a opacidade da infância, onde sentimentos não são nomeados, mas vividos de forma intensa e, muitas vezes, contraditória.


A natureza como espaço de transformação

O ambiente rural não é apenas cenário, mas um território de descoberta e adaptação. Entre árvores, rios e caminhos de terra, Frida experimenta novas formas de pertencimento. A luz natural, os sons do campo e a proximidade com o corpo e o espaço criam uma sensação de intimidade que reforça o caráter quase autobiográfico do filme. É nesse contato com o mundo físico que a personagem começa, lentamente, a elaborar sua perda.


Recepção, legado e para quem é este filme

Verão 1993 foi amplamente aclamado, estreando com destaque no Festival de Berlim, onde recebeu importantes prêmios e reconhecimento crítico. O filme consolidou Carla Simón como uma das vozes mais sensíveis do cinema contemporâneo europeu. Seu legado reside na forma honesta e delicada com que aborda o luto infantil, evitando clichês e privilegiando a experiência subjetiva. É uma obra que tende a ressoar especialmente com espectadores atentos a narrativas intimistas, ao cinema de observação e a histórias que encontram profundidade no cotidiano.


O instante em que a infância se transforma

Ao final, Verão 1993 revela que crescer não é um processo linear, mas uma sucessão de pequenos choques invisíveis. Há um momento — quase imperceptível — em que a infância deixa de ser apenas jogo e passa a carregar consciência. O filme captura exatamente esse instante, com uma delicadeza rara, transformando o silêncio em uma das formas mais profundas de expressão.

 







quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Depressa, Depressa (1981) Deprisa, deprisa - 1 h 39 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Angela começa a andar com Pablo e sua gangue de jovens ladrões.


Crime, Drama, Romance

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,0
62%Popcornmeter




Um retrato urgente da juventude que vive rápido demais para perceber o abismo à frente.


🚗 Velocidade como Destino

Em Depressa, Depressa (1981) — Deprisa, deprisa —, o diretor espanhol Carlos Saura mergulha no universo de jovens marginalizados nos arredores de Madri. Acompanhando um grupo envolvido em pequenos crimes, o filme constrói uma narrativa marcada pela pressa, pela adrenalina e pela sensação constante de futuro encurtado. Desde o início, paira a impressão de que essa corrida não pode terminar bem.


🧒 Juventude Sem Rede

Saura observa seus personagens com olhar direto e pouco sentimental. São jovens que vivem entre a necessidade econômica, o desejo de consumo e a ausência de perspectivas reais. O filme evita julgamentos morais fáceis e prefere mostrar como o ambiente social empurra seus protagonistas para uma espiral de risco e inevitável desgaste.


🎬 Realismo Cru


A força do filme reside em sua abordagem quase documental. Saura utiliza atores não profissionais e locações reais, criando uma textura de autenticidade que intensifica o impacto dramático. A câmera acompanha os personagens de perto, captando a energia nervosa e a fragilidade por trás da aparente bravata.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1981, Depressa, Depressa foi amplamente elogiado pela crítica por seu realismo contundente e sua leitura social da juventude espanhola no período pós-franquista. O filme consolidou Carlos Saura como um dos grandes observadores das transformações da Espanha contemporânea e permanece como referência do cinema juvenil de viés realista.


⚡ Viver Rápido Demais

Ao final, Depressa, Depressa deixa a sensação amarga de uma corrida sem saída. Entre motores acelerados e sonhos curtos, o filme permanece como um aviso silencioso sobre o preço de viver sem horizonte — quando o presente corre mais rápido que qualquer futuro possível.

 



A Colmeia (1982) La colmena - 1 h 52 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Assim como no romance de mesmo título de Camilo José Cela, "La Colmena" é uma triste composição com as histórias de muitas pessoas na Madri de 1942, apenas no pós-guerra da guerra civil espanhola. O tema principal do filme é o contraste entre os poetas, que sobreviveram quase à miséria sob o regime franquista, e os vencedores da guerra, a classe emergente do povo que ganha dinheiro fácil com negócios ilegais.


A Colmeia (1982) - IMDb
Dir: Mario Camus
Drama

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,1
69%Popcornmeter


Um retrato coral onde vidas anônimas revelam, em conjunto, o pulsar abafado de uma sociedade sob vigilância.


🐝 Madrid como Microcosmo

Em A Colmeia (1982) — La colmena —, o diretor espanhol Mario Camus adapta o romance de Camilo José Cela para construir um amplo painel da vida madrilenha no imediato pós-Guerra Civil. Ambientado nos anos 1940, o filme acompanha dezenas de personagens cujas rotinas se cruzam em cafés, pensões e ruas marcadas pela escassez e pelo medo. A cidade surge como organismo vivo — uma verdadeira colmeia humana.


👥 Fragmentos de uma Sociedade Ferida

Sem protagonista único, o filme se organiza como mosaico de pequenas histórias que revelam frustrações, desejos reprimidos e estratégias de sobrevivência sob o franquismo. Camus observa com olhar humanista figuras comuns — garçons, escritores, prostitutas, pequenos comerciantes — compondo um retrato coletivo de um país ainda traumatizado e socialmente comprimido.


🎬 Realismo de Observação


A encenação privilegia naturalismo e fluidez narrativa, permitindo que os episódios se encadeiem com organicidade. O tom é contido, por vezes melancólico, evitando dramatizações excessivas. Essa abordagem reforça a sensação de cotidiano vivido e aproxima o filme de uma tradição europeia de dramas corais de forte dimensão social.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1983, A Colmeia foi amplamente reconhecido por sua ambição narrativa e fidelidade ao espírito do romance original. O filme consolidou Mario Camus no panorama internacional e tornou-se uma das representações mais abrangentes da Espanha franquista no cinema. Com o tempo, firmou-se como referência do cinema coral espanhol dos anos 1980.


🌫️ O Zumbido que Permanece

Ao final, A Colmeia sugere que a história de um país se escreve nos gestos mínimos de sua gente comum. Entre murmúrios, encontros fugazes e silêncios impostos, o filme permanece como um retrato sensível de vidas que, juntas, formam o rumor persistente de uma época.

 





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Teta Assustada (2009) La teta asustada - 1 h 35 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Fausta sofre de uma doença rara chamada Leite da Tristeza, que é transmitida pelo leite materno de mulheres grávidas que foram abusadas ou estupradas durante ou logo após a gravidez. Vivendo em constante medo e confusão devido a essa doença, ela precisa enfrentar a morte repentina de sua mãe. Ela escolhe tomar medidas drásticas para não seguir os passos da mãe.


Drama


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 6,7   METASCORE: 6,8
78%Tomatometer41 Reviews   69%Popcornmeter


Um conto delicado e perturbador sobre como o trauma herdado pode habitar o corpo.


🌺 O Medo que se Transmite

Em A Teta Assustada (2009) — La teta asustada —, a diretora peruana Claudia Llosa constrói uma fábula contemporânea enraizada nas feridas deixadas pelo período de violência política no Peru. A história acompanha Fausta, jovem que acredita sofrer de uma doença transmitida pelo leite materno de mulheres traumatizadas pela guerra. A partir dessa premissa entre o real e o mítico, o filme investiga como o medo pode atravessar gerações.


👁️ Corpo, Trauma e Sobrevivência


Fausta vive em permanente estado de defesa, e seu corpo torna-se o principal campo simbólico do filme. Llosa trabalha com delicadeza a relação entre trauma psicológico e manifestação física, criando uma narrativa em que o silêncio, o canto e os pequenos gestos revelam mais do que qualquer explicação direta. A protagonista move-se pelo mundo como quem carrega uma memória que não viveu — mas que a define.


🎬 Realismo Mágico de Contenção


A encenação equilibra observação realista e elementos de fabulação, aproximando o filme de uma sensibilidade latino-americana marcada pelo realismo poético. A câmera privilegia a intimidade de Fausta, enquanto a paleta visual e o uso da música reforçam a atmosfera de estranhamento e melancolia. O resultado é uma obra de tom singular, ao mesmo tempo áspera e lírica.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009, o filme projetou internacionalmente o cinema peruano contemporâneo e recebeu ampla aclamação crítica. Também foi indicado ao Oscar de Filme Internacional, ampliando seu alcance global. Com o passar dos anos, A Teta Assustada consolidou-se como uma das obras latino-americanas mais marcantes de sua geração, frequentemente citada em debates sobre memória histórica e trauma coletivo.


🌙 Cantar para Curar


Ao final, o filme sugere que a cura não vem do esquecimento, mas da elaboração sensível da dor. A Teta Assustada permanece como um sussurro poderoso sobre herança, medo e a lenta possibilidade de voltar a habitar o próprio corpo.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Alcarràs (2022) - 2 h

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Em uma pequena vila catalã, os agricultores da família Solé passam todos os verões juntos colhendo frutas de seu pomar. Mas quando surgem planos para instalar painéis solares e cortar árvores, os membros desse grupo unido enfrentam repentinamente o despejo e a perda de muito mais do que sua casa.


Alcarràs (2022) - IMDb
Dir: Carla Simón
Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,0   METASCORE: 8,5
93%Tomatometer60 Reviews   72%Popcornmeter

Um canto de despedida à terra e às famílias que dela vivem, entre a doçura do verão e a dureza da mudança.


🌾 O Último Verão de uma Família

Em Alcarràs (2022), a diretora espanhola Carla Simón constrói um retrato profundamente humano de uma família de agricultores catalães que enfrenta a iminente perda de suas terras. Ambientado ao longo de um único verão, o filme acompanha o cotidiano dos Solé enquanto a ameaça da modernização, simbolizada pela instalação de painéis solares, paira sobre gerações inteiras ligadas à terra. O resultado é um drama íntimo que captura o fim silencioso de um modo de vida.


👨‍👩‍👧‍👦 Laços de Sangue e de Terra

Simón aposta numa narrativa coral, observando adultos e crianças com igual sensibilidade. As tensões familiares emergem de forma orgânica: divergências sobre o futuro, ressentimentos acumulados e afetos que resistem ao desgaste do tempo. O uso de atores não profissionais confere uma autenticidade ao filme, fazendo com que cada gesto e diálogo pareçam arrancados da vida real.


🎥 Naturalismo Sob o Sol Catalão

A encenação privilegia a luz natural, os espaços abertos e a fluidez do cotidiano. A câmera de Simón observa mais do que dramatiza, permitindo que o espectador sinta o calor, a poeira e o ritmo do trabalho agrícola. Esse naturalismo rigoroso aproxima Alcarràs de uma tradição do cinema europeu atento às transformações sociais vistas a partir do microcosmo familiar.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2022, Alcarràs foi amplamente celebrado pela crítica internacional por sua delicadeza e força política silenciosa. O filme consolidou Carla Simón como uma das vozes mais importantes do cinema espanhol contemporâneo e reforçou a presença de narrativas rurais no circuito de prestígio. Sua vitória também marcou a valorização de obras intimistas que abordam as consequências humanas das mudanças econômicas globais.


🍑 Quando a Terra Guarda Memórias


Mais do que um drama sobre agricultura, Alcarràs é um filme sobre pertencimento e despedida. Ao registrar o último verão dos Solé, Carla Simón cria uma elegia ao mundo que desaparece e lembra que, mesmo quando a terra muda de dono, as memórias nela plantadas continuam a florescer.