Um chefe de detetives da seção de homicídios mata sua amante e deixa deliberadamente pistas para provar sua própria responsabilidade pelo crime.
Análise do filme
1. O poder como patologia
O protagonista — um alto funcionário da polícia, chamado
apenas de Il Dottore — é a representação viva do poder absoluto. Petri o
constrói não apenas como um indivíduo, mas como uma doença social
personificada. Sua necessidade de dominar, controlar, humilhar e,
finalmente, matar, é um mecanismo que se retroalimenta: quanto mais poder
adquire, mais ele se sente autorizado a transgredir.
A genialidade do filme está em mostrar que sua impunidade
não se baseia na esperteza, mas na estrutura cúmplice que o cerca. Ele
deixa provas explícitas do assassinato exatamente porque quer ser punido,
quer testar os limites da instituição — e descobre que tais limites
simplesmente não existem.
2. A polícia como máquina autoritária
O aparato estatal, representado pela polícia política, é
retratado como um organismo paranoico, masculino, hierárquico e castrador. Seus
membros são moldados por um discurso de ordem que, na prática, se transforma em
uma forma de violência legitimada.
Os interrogatórios, a vigilância, a coleta de dossiês e a
obsessão por “inimigos internos” compõem um ambiente sufocante. O filme revela
como a repressão opera não apenas contra opositores do regime, mas também
contra o próprio indivíduo, corroendo quem a exerce.
3. A relação entre o assassino e a vítima
Augusto (o protagonista) mantém uma relação erótica e
violenta com Augusta, sua amante. A dinâmica entre eles mistura desejo,
humilhação e poder. Ela o provoca, expõe seu sadismo, revela o que está por
trás da máscara oficial. Em certo sentido, Augusta é a única pessoa que enxerga
sua verdadeira natureza — por isso ele a mata.
Petri constrói essa relação como um microcosmo do
autoritarismo: a mesma lógica de dominação que estrutura o Estado também
permeia as relações íntimas.
4. A crítica ao mito da autoridade infalível
O maior alvo do filme não é apenas a polícia italiana, mas a
ideia universal de que certas figuras — juízes, agentes, chefes, líderes —
estão “acima de qualquer suspeita”. A sátira é devastadora: o protagonista
confessa abertamente, deixa pistas, denuncia-se, e ainda assim o sistema se
recusa a admiti-lo como culpado. A instituição prefere manter o mito intacto
a aceitar o crime cometido por um de seus pilares.
A mensagem é simples e assustadora:
quando o poder é absoluto, até a verdade se torna
irrelevante.
5. Estética e linguagem
Petri utiliza recursos formais que reforçam o sentido
político:
- Montagem
frenética e fragmentada, que imita o fluxo mental paranoico.
- Trilha
de Ennio Morricone, que mistura ironia e suspense.
- Cenários
limpos e opressivos, que refletem uma burocracia desumanizante.
- Uso
de flashbacks, criando uma narrativa em espiral — repetição, culpa,
obsessão.
A estética exagerada — quase grotesca — faz parte do
discurso: Petri transforma o autoritarismo num espetáculo distorcido.
Por que o filme permanece atual
Mesmo décadas depois, o filme continua relevante por
abordar:
- abuso
de autoridade
- violência
institucional
- manipulação
da verdade
- crise
moral das forças de segurança
- fetichização
social da “ordem”
- como
o sistema protege seus próprios agentes
A obra de Petri antecipa debates contemporâneos sobre
accountability, violência policial e estruturas de poder que operam na sombra.
Análise simbólica do protagonista
O protagonista — chamado apenas de “O Chefe”, “Il
Dottore” ou “o Funzionario” — é, deliberadamente, uma figura sem
nome. Isso faz com que ele deixe de ser uma pessoa e se torne um símbolo,
uma força abstrata que representa uma forma de poder.
A seguir, uma leitura simbólica em camadas.
1. O protagonista como o próprio Estado
O personagem encarna o Estado autoritário internalizado:
ele vigia, controla, acusa, manipula e pune.
Sua identidade coincide com as instituições que representa — ele não é “um
policial”, mas a essência da polícia, assim como o burocrata kafkiano é
a essência da burocracia.
- Sua
frieza representa a lógica da máquina estatal.
- Sua
paranoia simboliza o medo estrutural que sustenta regimes repressivos.
- Sua
violência íntima simboliza a violência pública legitimada.
Ele é o Estado em sua forma mais crua:
impune, invisível, incontestável.
2. O protagonista como mito da autoridade patriarcal
A figura masculina rígida, vertical, hierárquica e
disciplinadora faz dele um símbolo da autoridade patriarcal:
- Provê
ordens e regras.
- Não
tolera fragilidade.
- Mantém
sua identidade baseada no controle.
A relação com Augusta (sua amante) funciona como metáfora: a
mesma lógica que ele aplica à sociedade — dominação, humilhação, vigilância —
ele aplica ao corpo feminino. A violência íntima é extensão da violência
institucional.
Assim, ele simboliza o poder masculino que teme perder
sua posição.
3. O protagonista como a patologia do poder
Elio Petri constrói o personagem como um doente,
alguém cujo “vírus” é o poder.
Simbologicamente, ele é:
O Narciso do autoritarismo
- Fascinado
pela própria autoridade.
- Obcecado
por sua imagem institucional.
- Desejoso
de ser visto como infalível.
O Tirano frustrado
Ele precisa testar os limites da própria impunidade. Quando
mata Augusta e deixa pistas, não é para se condenar, mas para se afirmar:
provar que é tão poderoso que nem confessando será punido.
Ele é o símbolo da psicose do poder absoluto — poder
que não encontra resistência, e por isso adoece.
4. O protagonista como o “Inquisidor interior”
Petri parte de uma leitura foucaultiana antes de Foucault se
tornar popular no cinema: o personagem representa o mecanismo disciplinador que
cada indivíduo carrega dentro de si.
Ele é o símbolo do:
- policial
que vigia
- juiz
que sentencia
- carcereiro
que punirá
- dedo
acusador que todos temem
Simbologicamente, ele é o super-ego autoritário, a
voz interna da repressão social.
5. O protagonista como o mártir invertido
Há um paradoxo fascinante: quando ele tenta confessar o
assassinato, ninguém acredita.
Isso o transforma num mártir do próprio sistema, mas de maneira
pervertida.
Ele simboliza:
- o
indivíduo tão submerso no poder que já não consegue existir fora dele;
- o
homem que só encontra sentido sendo opressor, e que quando tenta ser
punido, o sistema o protege;
- a
circularidade infernal da autoridade que absolve a si mesma.
É como se ele fosse um santo ao contrário: não alguém
que sofre injustiças do poder, mas alguém que sofre por não conseguir ser
punido por ele.
6. O protagonista como alegoria da impunidade estrutural
Petri não escolheu um policial qualquer. Ele escolheu alguém
acima de qualquer suspeita para denunciar que:
a impunidade não é um erro do sistema — é parte do seu
funcionamento.
Assim, o protagonista se torna a alegoria viva da impunidade
institucionalizada, da lógica segundo a qual:
- quem
manda não responde
- quem
acusa não pode ser acusado
- quem
define a verdade não pode ser desmentido
Ele é a personificação simbólica do mecanismo que
transforma crime em “ato de serviço”.
Conclusão simbólica
O protagonista de Investigação Sobre um Cidadão Acima de
Qualquer Suspeita é mais do que um assassino. Ele é a representação:
- do
poder que se autoconsome,
- do
Estado que teme a verdade,
- da
instituição que se protege antes de proteger o cidadão,
- da
masculinidade autoritária,
- da
violência como linguagem oficial,
- da
impunidade como dogma.
É um personagem que só existe plenamente quando domina.
E quando tenta ser humano (assumindo culpa), o sistema o devolve ao papel de
máquina — a única identidade que ele pode ter.