Várias mulheres com quem se envolveu comparecem ao enterro de Bertrand, engenheiro de 40 anos. Voltamos então à sua vida e relações amorosas, narradas na autobiografia que escrevia.
Dirigido por François Truffaut, O Homem Que Amava
as Mulheres é um dos filmes mais ambíguos e inquietantes de sua fase
final. À primeira vista leve, espirituoso e até sedutor, o longa esconde um
núcleo profundamente trágico: aqui, o amor não é encontro, mas compulsão;
o desejo não é abertura ao outro, mas repetição infinita. Trata-se de um
retrato preciso do momento em que amar deixa de libertar — e passa a
aprisionar.
Desejo como movimento incessante
Bertrand Morane é um homem que ama as mulheres — todas. Não
uma em particular, não um tipo específico, mas o
fluxo interminável do
desejo. Ele observa pernas nas ruas, coleciona encontros, escreve sobre
suas experiências amorosas como quem organiza um arquivo.
Truffaut filma esse movimento com leveza aparente, quase
elegância. Mas logo se percebe que não há alegria verdadeira nessa circulação:
o desejo não conduz a vínculos, apenas a novos começos que nunca chegam a
lugar algum.
Amar sem relação
O aspecto mais perturbador do filme não é a multiplicidade
de mulheres, mas a
impossibilidade de relação real. Cada mulher é
desejada intensamente — e rapidamente substituída. O outro nunca se constitui
como sujeito pleno; ele permanece como
episódio, fragmento, lembrança.
Nesse sentido, Bertrand é o inverso do amante romântico: ele
não se perde no outro, mas se protege da perda evitando qualquer fixação
duradoura. O resultado é uma vida feita de instantes, sem profundidade nem
continuidade.
A escrita como tentativa de sentido
Bertrand escreve para compreender — ou para tentar conter —
sua própria compulsão. Mas, assim como em
A História de Adèle H., a
escrita não organiza a experiência: ela a
fixa. O livro que ele prepara
não é libertação, mas sintoma. Registrar o desejo não o transforma; apenas o
eterniza.
A memória, aqui, não consola. Ela repete.
Leveza formal, núcleo trágico
Formalmente, o filme é um dos mais agradáveis de Truffaut:
montagem fluida, diálogos espirituosos, encenação clássica, humor delicado.
Essa leveza, porém, funciona como
contraponto cruel ao vazio existencial
do personagem.
Truffaut cria um descompasso consciente entre forma e
sentido: o espectador sorri enquanto percebe, aos poucos, que aquele homem não
sabe — ou não consegue — amar.
Amor como objeto colecionável
Dentro da
Fase 6 — Obsessão, Memória e Luto, este
filme apresenta uma variação específica da prisão amorosa: a
obsessão
dispersa. Se Adèle se fixa em um único objeto até desaparecer, Bertrand se
dissolve na multiplicidade. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo:
impossibilidade
de presença plena no mundo.
O amor, reduzido a objeto colecionável, perde sua dimensão ética e
relacional.
O corpo e o tempo
Há no filme uma consciência crescente do corpo e do
envelhecimento. O desejo continua ativo, mas o tempo cobra seu preço. Truffaut
sugere que essa corrida atrás do desejo é também uma fuga da finitude —
uma tentativa de negar o tempo acumulando instantes.
Mas o tempo vence. Sempre.
Lugar na obra de Truffaut
O Homem Que Amava as Mulheres ocupa um lugar central
na Fase 6 porque demonstra que a obsessão amorosa não se manifesta apenas pelo
excesso trágico (
Adèle H.), mas também pela
superfície sedutora da
repetição. É um filme sobre o amor esvaziado de alteridade — e, por isso,
profundamente solitário.
Ele prepara o terreno para O Quarto Verde, onde a
memória já não se fixa nos vivos, mas nos mortos.
Um filme sem julgamento — e sem saída
Truffaut não condena Bertrand, nem o ridiculariza. Ele o
observa com a mesma atenção dedicada a todos os seus personagens. Mas essa
atenção não oferece consolo. O filme não propõe cura, redenção ou aprendizado
tardio.
O que resta é a constatação silenciosa de que amar pode
ser uma forma de evitar amar.
O Homem Que Amava as Mulheres é, assim, um filme
delicado e devastador:
um retrato elegante daquilo que acontece quando o desejo substitui o vínculo —
e a vida se torna apenas memória de encontros que nunca chegaram a ser vida.