Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
O inventário como fuga
Rob Gordon tem uma loja de discos em Chicago, um conhecimento enciclopédico de música pop e uma capacidade notável de organizar qualquer coisa em listas exceto a própria vida emocional. Alta Fidelidade começa com o fim do relacionamento de Rob com Laura e com Rob construindo mentalmente o ranking dos cinco maiores términos de sua vida, não para entender o que aconteceu mas para administrar o que está sentindo através do instrumento que sempre usou para administrar o que sente: a classificação, a catalogação, a transformação da experiência em lista que pode ser ordenada e controlada.Stephen Frears adapta o romance de Nick Hornby com uma fidelidade ao espírito do livro que sobrevive à transposição de Londres para Chicago sem perder nada essencial, porque o que Hornby estava descrevendo não é geograficamente específico. É um tipo de homem que existe em qualquer cidade grande com lojas de discos e tempo livre para pensar demais sobre a própria vida sentimental enquanto evita fazer qualquer coisa concreta a respeito dela.
Frears e o monólogo como método
A decisão mais importante de Frears é manter os monólogos diretos para a câmera que o livro usa em forma de narração em primeira pessoa. Rob fala com o espectador ao longo de todo o filme, explica seu raciocínio, justifica suas escolhas, constrói casos para sua própria defesa com a articulação de alguém que passou muito tempo pensando sobre si mesmo e pouco tempo ouvindo o que as outras pessoas dizem sobre ele.Essa estrutura de monólogo é argumento sobre o personagem. Rob tem acesso privilegiado à própria perspectiva e acesso muito limitado às perspectivas das pessoas ao redor, e o filme usa isso de forma que o espectador vai percebendo antes que Rob perceba. Cada vez que Rob explica por que alguém foi embora, a explicação revela mais sobre Rob do que sobre a pessoa que foi embora, e essa distância entre o que Rob acredita sobre si mesmo e o que o filme mostra sobre ele é onde Alta Fidelidade mora.
John Cusack e o charme como armadura
John Cusack constrói Rob com um charme que funciona exatamente como o personagem usa o charme: para manter distância segura enquanto parece estar se aproximando. Rob é engraçado, é inteligente, tem opiniões sobre tudo e as articula bem, e usa essas qualidades para criar uma versão de intimidade que não exige a vulnerabilidade real que a intimidade exige. Cusack entendeu que o personagem precisa ser suficientemente atraente para que o espectador entenda por que as mulheres se interessaram por ele, e suficientemente opaco para que o espectador entenda por que foram embora.A performance funciona porque Cusack nunca pede simpatia para Rob de forma explícita: deixa que o personagem construa seu próprio caso e confia que o espectador vai perceber as lacunas. Rob desenvolveu mecanismos de proteção tão eficientes que não sabe que precisaria desmontar esses mecanismos para ter o tipo de relação que diz querer.
As cinco ex e o padrão que Rob não vê
O dispositivo central do filme, Rob visitando as cinco maiores ex para entender o que deu errado, é simultaneamente engraçado e revelador da forma mais precisa. Cada ex tem sua versão do que aconteceu com Rob, e as versões convergem num padrão que Rob é o último a reconhecer: ele estava presente fisicamente e ausente emocionalmente, comprometido com a ideia do relacionamento mas resistente ao trabalho real que o relacionamento exige, capaz de sentir mas incapaz de demonstrar o que sentia de formas que a outra pessoa pudesse receber.Frears filma essas recordações com um humor que torna o desconforto suportável, e cada ex funciona como um espelho ligeiramente diferente que mostra um ângulo diferente do mesmo problema. Rob sai de cada recordação com uma compreensão parcial e incompleta, acrescentando a nova informação ao inventário sem ainda saber o que fazer com o inventário completo.
Laura e a questão real
Iben Hjejle interpreta Laura com uma presença que o filme reserva estrategicamente: ela aparece em flashback e em imaginação de Rob antes de aparecer em carne e osso, e quando aparece traz consigo uma qualidade de pessoa real que contrasta com as versões que Rob havia construído dela na própria cabeça. Laura não é a mulher idealizada que Rob perdeu nem a inimiga que o abandonou. É alguém que tentou estar num relacionamento com alguém que não estava completamente disponível e que decidiu que o custo era alto demais.A cena em que Laura e Rob finalmente têm a conversa real, a conversa que o filme inteiro estava adiando, é o momento em que Alta Fidelidade para de ser comédia e decide ser outra coisa por tempo suficiente para que o que está em jogo fique claro. Laura quer que Rob mude porque percebe que ele quer mudar e não sabe como, e essa distinção é o que o filme estava construindo desde o primeiro monólogo.
Onde assistir e o que esperar
Alta Fidelidade está disponível na Disney+ e na Filmoteca Seu Manolo. A trilha sonora é parte inseparável da experiência: as escolhas musicais de Rob funcionam como comentário sobre seu estado emocional com uma precisão que o diálogo não precisaria explicar para quem conhece as músicas, e para quem não conhece o filme oferece contexto suficiente. Jack Black como Barry e Todd Louiso como Dick, os dois funcionários da loja, existem numa frequência cômica que alivia o peso das cenas de Rob sem diminuir o que essas cenas estão fazendo. O filme tem 113 minutos que passam com a velocidade de uma boa lista de reprodução, e a segunda visita revela o quanto a estrutura é mais precisa do que a leveza do tom sugere.A masculinidade que não aprendeu a habitar outra forma
Alta Fidelidade é o retrato mais honesto e mais gentil disponível no cinema sobre um tipo específico de homem que o modelo tradicional de masculinidade produziu e que o mundo contemporâneo dos relacionamentos não sabe mais acomodar. Rob foi ensinado a ser competente, a ter opiniões, a construir identidade através do gosto e do conhecimento, e ninguém o ensinou que nada disso substitui a capacidade de estar emocionalmente presente para outra pessoa.Frears filma um homem que usa o humor e o conhecimento cultural para gerar distância como proteção contra a vulnerabilidade que o amor exige, num mundo que mudou as regras dos relacionamentos sem oferecer manual para quem foi formado pelas regras antigas.