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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Era uma Vez na América (1984) Once Upon a Time in America - 3 h 49 min

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 2 (#51 a #100)

Dois amigos leais crescem juntos cometendo pequenos crimes nas ruas do Lower East Side, em Manhattan, mas essa parceria com o tempo se desfaz em morte e mistério.


Comédia de Humor Negro, Drama de Época, Gângster, Crime


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,3   METASCORE: 7,5
86%Tomatometer56 Reviews   93%Popcornmete


A Memória como Território do Crime

Era uma Vez na América (Once Upon a Time in America, 1984), dirigido por Sergio Leone, é um épico melancólico sobre amizade, traição e o peso irreversível do tempo. Mais do que um filme de gângsteres, a obra se constrói como uma reflexão sobre a memória e a impossibilidade de retorno, transformando o passado em espaço de dor, culpa e idealização.


Infância, Amizade e Origem do Mito

A narrativa acompanha um grupo de jovens judeus no bairro pobre de Nova York que cresce unido pela marginalidade e pelo sonho de ascensão. A infância não é tratada como inocência, mas como laboratório moral onde ambição, lealdade e violência se entrelaçam desde cedo. Leone filma esse período com nostalgia amarga, antecipando a tragédia que moldará o destino dos personagens.


Noodles: O Homem Preso ao Passado

David “Noodles” Aaronson, interpretado por Robert De Niro, é o eixo emocional do filme. Solitário e introspectivo, ele atravessa décadas carregando a culpa de escolhas irreparáveis. Diferente do gângster triunfante do cinema clássico, Noodles é um homem derrotado pela própria memória, incapaz de separar lembrança, arrependimento e desejo.


Max e a Ambição Sem Limites


Max, vivido por James Woods, representa o oposto de Noodles: movido por poder, reconhecimento e ilusão de grandeza. Sua trajetória encarna a lógica destrutiva do sonho americano quando reduzido à ambição absoluta. O conflito entre os dois não é apenas pessoal, mas ideológico, colocando amizade e poder em rota de colisão.


Tempo Fragmentado e Narrativa da Memória

Leone rompe a linearidade clássica ao estruturar o filme em idas e vindas temporais, aproximando a narrativa do funcionamento da memória. Passado e presente se contaminam, sugerindo que o tempo não cura, apenas reorganiza a dor. Essa construção transforma o filme em experiência subjetiva, onde o espectador compartilha a confusão emocional do protagonista.


Violência, Amor e Perda

A violência em Era uma Vez na América não é espetacularizada, mas associada à perda irreversível. Relações amorosas são marcadas por frustração, posse e silêncio, reforçando a ideia de que o afeto, assim como o poder, é frequentemente corrompido. O filme insiste em um olhar trágico sobre as consequências das escolhas, recusando qualquer romantização do crime.


Música e Melancolia

A trilha sonora de Ennio Morricone é elemento central da narrativa. Seus temas recorrentes funcionam como memória sonora, evocando sentimentos de saudade e perda antes mesmo que os acontecimentos sejam plenamente compreendidos. Música e imagem se fundem em um lamento contínuo sobre o tempo que não volta.


Repercussão e Legado

Inicialmente incompreendido, especialmente após cortes impostos em seu lançamento nos Estados Unidos, Era uma Vez na América foi reavaliado ao longo dos anos e hoje é reconhecido como uma das obras-primas finais de Sergio Leone. Seu legado reside na capacidade de reinventar o filme de gângster como tragédia existencial, influenciando cineastas interessados em explorar o crime não como ação, mas como memória, culpa e ruína. É um filme sobre o fim dos sonhos — pessoais, coletivos e cinematográficos.


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Irlandês (2019) The Irishman - 3 h 29 min

 Um assassino lembra que talvez esteve envolvido na morte de Jimmy Hoffa.


O Irlandês (2019) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Drama de Época, Gângster, Biografia, História, Suspense


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 9,4
95%Tomatometer468 Reviews   86%Popcornmeter


O Irlandês (2019)

Um épico crepuscular sobre lealdade, arrependimento e o preço espiritual de uma vida dedicada ao crime.


1. Contexto Histórico e Produção


Baseado no livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, o filme narra a suposta vida criminal de Frank Sheeran, um veterano de guerra que se tornou matador da máfia e motorista do líder sindical Jimmy Hoffa.

Depois de décadas criando mitologias em torno da máfia (Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros, Cassino), Scorsese retorna ao tema para descontruir tudo:
não há glamour, apenas desgaste, culpa e a passagem impiedosa do tempo.

É também um filme marcante por:

  • reunir De Niro, Pacino e Pesci sob sua direção;
  • utilizar tecnologia de rejuvenescimento digital;
  • ser uma produção ambiciosa financiada pela Netflix;
  • simbolizar a maturidade emocional de Scorsese frente ao crime organizado.

2. Enredo

⭐ Frank Sheeran (Robert De Niro)

Um caminhoneiro irlandês que, por acaso e conveniência moral, entra no mundo do crime.
O título do filme (“pintar casas”) é um eufemismo para matar pessoas — o “sangue na parede”.



Frank é um homem:

  • obediente,
  • pragmático,
  • emocionalmente opaco,
  • inteiramente moldado pela violência.

⭐ Russell Bufalino (Joe Pesci)

Chefão da máfia que toma Frank como protegido.
Pesci entrega uma atuação contida e arrepiante — poder calmo, silêncio fatal.





⭐ Jimmy Hoffa (Al Pacino)

Carismático, impulsivo, orgulhoso.
Um dos homens mais poderosos da América, cuja queda se torna o eixo moral do filme.




A relação triangular entre Frank, Bufalino e Hoffa é:

  • paternal,
  • política,
  • psicológica,
  • e fatal.

A narrativa acompanha décadas de amizade, lealdade e traições dentro da criminalidade sindical.


3. Temas Centrais

⭐ 3.1 O fim da mitologia da máfia

Este não é um filme sobre glamour, ascensão, ou charme criminoso.

É um filme sobre:

  • corpos que se deterioram,
  • amizades que apodrecem,
  • homens que envelhecem sozinhos,
  • pecados que não trazem recompensa.

Scorsese revisita o universo mafioso para encerrar seu ciclo.
Não há brilho — apenas a poeira do tempo.




⭐ 3.2 O custo moral da obediência

Frank é o homem que “apenas segue ordens”.
Mas a vida inteira dele é construída sobre essas ordens — e destruída da mesma forma.

Incapaz de questionar, ele:

  • mata amigos,
  • abandona a família,
  • destrói sua própria humanidade.

⭐ 3.3 A solidão como punição final

Em vez de morte violenta, Frank recebe a pior punição possível:

viver muito tempo para ver tudo desmoronar.

Ele termina:

  • velho,
  • esquecido,
  • incapaz de confessar plenamente,
  • incapaz de se redimir,
  • e sem ninguém na vida.

A filha Peggy, que representa consciência moral, simplesmente o abandona.


⭐ 3.4 Tempo, memória e arrependimento

O filme é estruturado como um grande flashback de um homem tentando lembrar — mas sem saber como lidar com o que lembra.

Scorsese filma os assassinatos de forma fria, rápida, sem peso —
e deixa todo o peso para o afeto, não para o sangue.

⭐ 3.5 Política, crime e a América do pós-guerra

O Irlandês conclui que:

  • máfia
  • sindicatos
  • política
  • polícia
  • e governo

estão entrelaçados numa teia cinzenta de poder e violência, onde ninguém é inocente.


4. Estética, Linguagem e Tom

4.1 Minimalismo Ético

Diferente do ritmo frenético de Os Bons Companheiros, aqui tudo é lento, pesado, arrastado como lembranças de um velho.

4.2 Fotografia Crepuscular (Rodrigo Prieto)

Cores dessaturadas, verdes mortos, marrons e cinzas.
É um filme que parece já envelhecido.





4.3 De-aging como ferramenta narrativa

Não é tecnologia para impressionar — é para mostrar que o passado não é confiável, que a memória é uma superfície borrada.

4.4 Narrativa fragmentada

O tempo se dobra:

  • a viagem para o casamento,
  • os flashbacks,
  • a narração,
  • o asilo,
  • o caso Hoffa.

Tudo cria um mosaico de memórias trincadas.

4.5 Violência objetiva

Assassinatos filmados com frieza total: um tiro, um corpo, e pronto.
Sem glamour, sem espetáculo.

Scorsese mostra que, quando a violência é real, ela é rápida e banal, não cinematográfica.


5. Atuação dos Três Titãs

⭐ Robert De Niro — Frank Sheeran

Uma das atuações mais silenciosas e autocontidas de sua carreira.

⭐ Al Pacino — Jimmy Hoffa

Explosivo, carismático, tragicômico — mas profundamente humano.

⭐ Joe Pesci — Russell Bufalino

Sua melhor atuação desde Cassino.
A suavidade assassina de Pesci é devastadora.


6. O Final — um dos mais devastadores da carreira de Scorsese

Frank termina:

  • abandonado,
  • falando sozinho,
  • tentando rezar sem saber rezar,
  • incapaz de se arrepender plenamente,
  • e pedindo ao padre para deixar a porta do quarto entreaberta.

Esse detalhe — a porta — é simbólico:

Ele ainda espera que alguém entre.
Mas ninguém virá.

É o oposto do final de Os Bons Companheiros,
onde Henry Hill vive mas se sente entediado.

Aqui, Frank vive — mas está espiritualmente morto.


7. Importância na Carreira de Scorsese

  • encerra sua tetralogia da máfia (Caminhos Perigosos → Bons Companheiros → Cassino → O Irlandês)
  • marca sua obra mais madura e espiritual sobre o crime
  • questiona o próprio cinema de gangster que o consagrou
  • sintetiza seu domínio absoluto da linguagem cinematográfica

É o filme de um diretor olhando para trás — não para celebrar, mas para fazer balanço.


Conclusão

O Irlandês é um épico íntimo.
Um filme sobre tempo, velhice, culpa e o preço de viver sem confrontar a própria consciência.

Scorsese desmonta a fantasia do gangster e revela o que sobra quando a lealdade vira prisão e a violência vira rotina:

um homem sozinho, olhando para uma porta entreaberta, esperando por algo que nunca virá.

É um dos filmes mais profundos, sombrios e humanos de sua carreira — um testamento artístico.

 



⭐ CURIOSIDADES RELEVANTES SOBRE O IRLANDÊS (2019) — THE IRISHMAN


1. Um sonho de 12 anos para se tornar realidade

Scorsese e De Niro queriam adaptar o livro I Heard You Paint Houses desde 2007.
O maior obstáculo era:

  • orçamento altíssimo,
  • tecnologia insuficiente para o rejuvenescimento,
  • Hollywood receosa com um épico de 3h30.

A produção só aconteceu quando a Netflix aceitou financiar o projeto.


2. A volta triunfal de Pesci — após aposentadoria

Joe Pesci estava aposentado há quase 20 anos.
Ele recusou o filme entre 40 e 50 vezes até aceitar.

Scorsese contou que Pesci dizia:

“Marty, eu não sou mais esse cara.”

Quando finalmente topou, entregou uma das atuações mais contidas e devastadoras da carreira.


3. Pacino nunca havia trabalhado com Scorsese

Embora ambos fossem lendas do cinema desde os anos 70,
Pacino e Scorsese nunca haviam colaborado antes de O Irlandês.

O filme marca:

  • o primeiro trabalho juntos,
  • e o retorno de Pacino a um papel grandioso após anos de ausência no cinema de prestígio.

4. O rejuvenescimento digital custou uma fortuna

O filme utilizou a tecnologia de "de-aging" mais sofisticada já aplicada em um longa.

Curiosidades técnicas:

  • não foram usados pontos no rosto dos atores
  • foram usadas três câmeras simultâneas para cada tomada (incluindo infravermelha)
  • o software foi criado especialmente para o filme
  • aproximadamente 200 artistas de efeitos visuais trabalharam por anos

O tratamento digital consumiu boa parte dos US$ 160 milhões do orçamento.


5. Não há NENHUMA trilha musical original

Ao contrário de muitos filmes de Scorsese, O Irlandês:

  • não tem trilha original composta,
  • usa apenas músicas pré-existentes,
  • todas selecionadas para evocar épocas específicas.

A ausência de música original reforça o tom documental e melancólico.


6. O filme desconstrói a própria mitologia criada por Scorsese

O Irlandês é “o anti–Bons Companheiros”:

  • sem glamour,
  • sem ritmo frenético,
  • sem humor explosivo,
  • sem ascensão sedutora.

É Scorsese revisitando seu próprio legado para desmontar os mitos que ajudou a criar.


7. O tempo é o verdadeiro vilão

A estrutura do filme foi pensada como:

  • um rio de tempo,
  • fluindo e apagando memórias.

Todos os saltos temporais são intencionais:
mostram que a violência não leva à glória, mas ao esquecimento.


8. A viagem para o casamento é o “esqueleto” narrativo

Scorsese usa a viagem de carro rumo ao casamento (evento histórico real) como:

  • estrutura principal,
  • ponto de retorno da narrativa,
  • símbolo da inevitabilidade do destino.

É uma estrada sem saída — como a própria vida de Frank.


9. A verdadeira Peggy Sheeran está viva — e discordou do filme

A filha real de Frank Sheeran, Peggy, disse publicamente que:

  • não acredita que o pai tenha matado Hoffa,
  • considerou a narrativa de Brandt duvidosa,
  • não colaborou com o filme.

Scorsese manteve a versão do livro por seu valor dramático, não histórico.


10. A cena final da porta entreaberta tem origem pessoal

A porta deixada entreaberta por Frank foi ideia de Scorsese inspirada em:

  • memórias de infância,
  • portas entreabertas em casas de parentes idosos,
  • a sensação de abandono espiritual.

É símbolo de:

  • esperança,
  • culpa,
  • medo,
  • e da morte se aproximando.

11. O único filme de Scorsese com duração acima de 3h30

É o filme mais longo de toda a carreira dele.

Scorsese brincou que:

“É o tempo das memórias.
Não dava para cortar.”


12. O filme foi pensado como testamento — e Scorsese reconhece isso

Ele afirmou em entrevistas:

  • “é um filme sobre o fim”,
  • “sobre olhar para trás com dor”,
  • “sobre aceitar que nada do que fizemos nos salva”.

É sua obra mais madura, mais triste e mais espiritual desde Silêncio.


13. A câmera nunca romantiza a violência

Cada assassinato é:

  • rápido,
  • seco,
  • inestético,
  • sem trilha sonora,
  • quase documental.

Scorsese disse que queria mostrar:

“a violência como fato, não como espetáculo.”


14. O elenco todo foi escolhido por memória afetiva

Scorsese queria revisitar:

  • De Niro,
  • Pesci,
  • Keitel,

— como uma espécie de reencontro final de sua família cinematográfica.

É a última grande reunião da linhagem histórica do “cinema de gângster”.


15. A frase “Eu ouvi dizer que você pinta casas” é literal

Na gíria da máfia, significa:

  • "você mata pessoas",
  • "pinta a parede com sangue".

O título do filme, portanto, é um eufemismo brutal.


⭐ Conclusão — Por que essas curiosidades importam?

Porque O Irlandês não é apenas um filme:

  • é um testamento artístico,
  • um ato de encerramento,
  • uma meditação sobre culpa e tempo,
  • e uma reunião final de gigantes.

Cada curiosidade revela camadas adicionais de significado que reforçam o que o filme realmente é:

um crepúsculo — o último grande olhar para o passado do crime e do próprio cinema de Scorsese.

 


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Cassino (1995) Casino - 2 h 58 min

Mostra Martin Scorsese - Vida, Obra e Estilo

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)

Uma história de ganância, dinheiro e assassinato acontece entre dois melhores amigos: um mafioso e um executivo de cassino, que competem uns com os outros por um império de jogo e pelo amor de uma socialite.


Cassino (1995) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Gângster, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 7,3
79%Tomatometer77 Reviews   93%Popcornmeter


Cassino (1995)

O império do luxo, da violência e da ilusão — e sua inevitável implosão


1. Contexto Histórico e Produção

Depois do impacto de Os Bons Companheiros (1990), Scorsese e Nicholas Pileggi se reuniram para adaptar outro livro-reportagem do autor: Casino: Love and Honor in Las Vegas.

O filme é baseado em fatos reais sobre:


  • Frank “Lefty” Rosenthal → Frank “Ace” Rothstein (Robert De Niro)
  • Tony Spilotro → Nicky Santoro (Joe Pesci)
  • Geri McGee → Ginger McKenna (Sharon Stone)

Nos anos 1970 e início dos 80, a máfia controlou Las Vegas por meio de cassinos aparentemente limpos, que drenavam dinheiro ilegalmente para chefes de várias famílias criminosas.

Scorsese transformou esse mundo em um épico operático:
3 horas de excesso, brilho, violência e colapso emocional, filmadas com maestria absoluta.


2. Enredo


O filme acompanha três figuras centrais:

⭐ 1. Ace Rothstein (De Niro)

Um gênio das apostas, disciplinado, elegante, obcecado pelo controle.
É o homem que administra o Tangiers como um império de precisão matemática.

⭐ 2. Ginger McKenna (Sharon Stone)

Ex-prostituta de luxo e manipuladora emocional brilhante — mas profundamente frágil.
Ace se apaixona cegamente por ela, acreditando poder salvá-la de si mesma.

⭐ 3. Nicky Santoro (Joe Pesci)

Um criminoso psicopata enviado pela máfia para garantir a segurança das operações.
Impulsivo, feroz, incontrolável.

O filme narra:

  • a ascensão do império do Tangiers,
  • o casamento tóxico entre Ace e Ginger,
  • o colapso provocado pelos excessos de Nicky,
  • e a inevitável queda da velha Las Vegas para uma nova era corporativa.

3. Temas Centrais

3.1 A ilusão do controle

Ace acredita que pode:

  • controlar o cassino,
  • controlar a máfia,
  • controlar a fortuna,
  • controlar Ginger.

Essa crença é sua tragédia.



3.2 O sonho americano como armadilha mortal

Em Las Vegas, a promessa é brilho e riqueza.
Mas no centro de tudo, Scorsese revela:

  • corrupção,
  • exploração,
  • ganância,
  • traição,
  • violência.

O paraíso é um inferno disfarçado de neon.

3.3 O amor como destruição

A relação Ace–Ginger é uma das mais trágicas do cinema moderno.

Eles se confundem, se usam, se machucam profundamente.
É uma história de paixão tóxica e dependência emocional.


3.4 A masculinidade criminosa

O filme disseca a cultura da máfia:

  • lealdade frágil,
  • paranoia constante,
  • demonstrações de força,
  • violência impulsiva.

Nicky é seu expoente mais puro — e seu monstro mais previsível.

3.5 O fim da era “romântica” do crime

O colapso da máfia em Las Vegas dá lugar à corporativização.
Como diz Ace no final:

“Os caras com terno e gravata assumiram.”


4. Estilo Visual e Narrativo

4.1 Fotografia extravagante, quase barroca




Scorsese e o diretor de fotografia Robert Richardson criam um universo visual feito de:

  • neons,
  • brilhos dourados,
  • vitrines de vidro,
  • roletas e fichas,
  • luzes estouradas,
  • contrastes extremos.

É um carnaval visual.

4.2 Montagem vertiginosa

Thelma Schoonmaker entrega aqui um dos trabalhos mais extraordinários de sua carreira:

  • narrações paralelas,
  • congelamentos,
  • cortes rápidos,
  • informações sobrepostas,
  • elipses ferozes.

O ritmo do filme espelha o frenesi de Las Vegas.

4.3 Narrativas múltiplas e contraditórias

Ace e Nicky narram o filme (e até Ginger ganha voz subjetiva em momentos).
O resultado é uma visão multifacetada, cheia de ironia e revisão de memórias.

4.4 Cenas de violência crua

A brutalidade é mostrada como feia, real, desconfortável — não estilizada.
A cena do canetaço e a execução final de Nicky e seu irmão são de arrepiar.

4.5 Figurinos espetaculares

Sharon Stone usa mais de 40 figurinos, ganhando o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar.
Cada roupa reflete sua ascensão e decadência.


5. Personagens e Atuações

⭐ Robert De Niro — Ace Rothstein

Contido, elegante, metódico.
Uma das performances mais maduras de sua carreira.


⭐ Sharon Stone — Ginger McKenna

Hipnotizante, trágica e selvagem.
Entregou um dos papéis mais icônicos dos anos 90.


⭐ Joe Pesci — Nicky Santoro

Violência encarnada.
Sua psicopatia domina o filme com energia assustadora.


6. Importância para a carreira de Scorsese

  • É um dos filmes mais abrangentes e densos de sua filmografia.
  • Consolida seu domínio sobre narrativas criminais.
  • Expande o universo temático de Os Bons Companheiros.
  • Eleva a estética scorsesiana do excesso a um nível operático.
  • É, até hoje, referência obrigatória para filmes sobre Las Vegas e sobre máfia.

7. Recepção e Legado

Na época, o filme foi bem recebido, mas comparado desfavoravelmente com Goodfellas.
Com o passar dos anos:

  • virou cult,
  • ganhou status de obra-prima tardia,
  • foi reavaliado como um dos melhores filmes de Scorsese.

Hoje é considerado um dos grandes épicos criminais do cinema americano.

 



domingo, 16 de novembro de 2025

Esqueceram de Mim (1990) Home Alone - 1 h 43 min

Quando seus pais viajaram e o esqueceram sozinho em casa, Kevin pensou que tudo seria uma maravilha. Até que ele se viu forçado a ser o homem da casa, defendendo-a de invasores inesperados e atrapalhados.


Esqueceram de Mim (1990) - IMDb
Dir: Chris Columbus
Pastelão, Comédia, Família


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7   METASCORE: 6,3
66%Tomatometer115 Reviews   80%Popcornmeter



ESQUECERAM DE MIM (1990) – UM CLÁSSICO DE NATAL, AVENTURA E AQUECIMENTO DO CORAÇÃO

“Esqueceram de Mim” (Home Alone), dirigido por Chris Columbus e escrito por John Hughes, tornou-se um dos filmes mais queridos do cinema norte-americano e um verdadeiro ritual de fim de ano ao redor do mundo. Lançado em 1990, ele combina comédia física, aventura infantil, emoção familiar e um espírito natalino que atravessa gerações.

O filme acompanha Kevin McCallister (Macaulay Culkin), um garoto de oito anos que vive cercado por uma família numerosa que raramente o leva a sério. Após uma briga na véspera de uma viagem, Kevin deseja que todos desapareçam — e, numa confusão típica das comédias de Hughes, sua família realmente parte para Paris e o deixa para trás. Quando acorda sozinho, o menino vive inicialmente a fantasia de liberdade absoluta: sorvete no café da manhã, filmes proibidos e uma casa inteira para chamar de sua.

Mas a trama não se contenta apenas com a euforia da independência. Kevin enfrenta o medo da solidão, o silêncio da casa e a ausência dos pais, numa jornada emocional que o faz amadurecer rapidamente. Esse arco é essencial para o charme do filme: por trás das armadilhas e das gags, existe uma história sobre crescimento e reconciliação.

O elemento mais famoso do filme — e que o tornou um ícone da cultura pop — é o confronto entre Kevin e os assaltantes Harry e Marv, interpretados com perfeição cômica por Joe Pesci e Daniel Stern. As engenhosas armadilhas que o garoto prepara, exageradas e cartunescas, são tanto uma sátira às aventuras infantis quanto uma catarse hilariante. É a vitória da criatividade sobre a força bruta, um tema universalmente satisfatório.

Ao mesmo tempo, “Esqueceram de Mim” traz momentos de ternura, especialmente nas cenas entre Kevin e o vizinho Marley, um senhor inicialmente visto como assustador, mas que guarda uma história de dor e afastamento familiar. O encontro entre os dois resume a essência do filme: o Natal como tempo de perdão, reencontros e recomeços.

A trilha sonora de John Williams, com seu clima mágico e melódico, amplifica a sensação de aconchego e fantasia. A fotografia, as luzes natalinas e a direção de arte transformam a casa dos McCallister em um dos cenários mais memoráveis da cultura pop.

Mais de três décadas após o lançamento, “Esqueceram de Mim” continua encantando crianças e adultos. Parte dessa força vem da mistura equilibrada entre humor, emoção e nostalgia — qualidades que o tornaram não apenas um grande sucesso comercial, mas um verdadeiro filme-conforto, revisitado anualmente como um abraço cinematográfico




sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Os Bons Companheiros (1990) Goodfellas - 2 h 25 min

Mostra Martin Scorsese - Vida, Obra e Estilo

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - #17

Mostra Os Vencedores do BAFTA: Uma Linhagem de Grandes Filmes

A história do Henry Hill e sua vida na máfia, sua relação com sua esposa Karen Hill e seus colegas da máfia Jimmy Conway e Tommy DeVito no sindicato ítalo-americano do crime.


Os Bons Companheiros (1990) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Gângster, Biografia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,7   METASCORE: 9,2
94%Tomatometer166 Reviews   97%Popcornmeter


Os Bons Companheiros (1990)

A ascensão e queda da máfia através dos olhos de um homem que queria pertencer a qualquer custo


1. Contexto Histórico e Produção

O filme é baseado no livro Wiseguy (1985), de Nicholas Pileggi, que documenta a vida do mafioso Henry Hill. Scorsese se encantou pelo material por seu tom documental, cotidiano e, principalmente, pela oportunidade de explorar o funcionamento interno da máfia não como épico, mas como vida diária — rotinas, códigos, vícios, recompensas e punições.

Esse é o projeto que marca a chegada de Scorsese aos anos 1990 com toda sua maturidade:

  • realização técnica exuberante,
  • energia narrativa incansável,
  • violência estilizada,
  • humor sombrio,
  • e o tema central de sua carreira:
    um homem tentando pertencer a uma comunidade moralmente questionável.

Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci formam o trio principal, com performances icônicas.


2. Enredo

A história acompanha Henry Hill (Ray Liotta) desde a infância em um bairro ítalo-americano até sua vida adulta dentro da máfia.

A estrutura segue três movimentos:



Ascensão (década de 1950–60)

  • Henry seduzido pelos gângsteres locais.
  • Sua entrada no mundo do crime organizado.
  • Pequenos golpes, camaradagem, poder, dinheiro fácil.

Auge (década de 1970)

  • Parceria com Jimmy Conway (De Niro) e Tommy DeVito (Joe Pesci).
  • O famoso assalto da Lufthansa.
  • Estabilidade e glamour, festas e restaurantes, carros e ternos.

Queda (final dos anos 1970–1980)

  • A cocaína, a paranoia e a desconfiança.
  • A violência de Tommy.
  • Henry se tornando informante do FBI para sobreviver.

A narrativa acompanha o colapso dessas relações e de toda a vida criminosa dos personagens — algo inevitável no universo scorsesiano.


3. Temas Centrais

3.1 Pertencimento e identidade

Henry quer ser alguém. Quer respeito, quer comunidade, quer família.
A máfia oferece tudo isso… por um preço alto demais.

3.2 Sedução do crime

O filme mostra o crime como sedutor, divertido, luxuoso — e depois desmonta essa ilusão com brutalidade.



3.3 Violência banalizada

A violência não é épica; é cotidiana, impulsiva, irracional.

3.4 Masculinidade e poder

Scorsese examina como os laços entre homens são guiados por ego, lealdade, controle e medo.

3.5 Consequências e decadência

O preço da escolha criminosa é pago lentamente, em paranoia e isolamento.


4. Estilo Visual e Narrativo

4.1 O plano-sequência do Copacabana

Um dos momentos mais famosos do cinema:
Henry conduz Karen por corredores, cozinhas e entradas secretas em um movimento contínuo que simboliza a sedução do mundo mafioso.

4.2 Montagem frenética

Thelma Schoonmaker cria um ritmo acelerado, hipnótico, especialmente na sequência da cocaína no final do filme.

4.3 Narração em off dupla

Henry e Karen narram parte da história, oferecendo um olhar íntimo e irônico.

4.4 Realismo brutal

Scorsese evita glamourizar a violência: ela é suja, repentina, chocante — especialmente nas mãos de Tommy, interpretado por Joe Pesci.




4.5 Uso magistral da trilha sonora

Rock, soul e pop dos anos 50 a 80, com canções usadas como comentários emocionais e irônicos da ação.


5. Personagens e Atuações


Henry Hill (Ray Liotta)

Um protagonista ambíguo, carismático, frágil e perdido. Liotta entrega uma das performances mais intensas da década.

Jimmy Conway (Robert De Niro)

Frio, calculista, elegante e assustador. O “mentor” que nunca demonstra afeto de verdade.

Tommy DeVito (Joe Pesci)

Explosivo, imprevisível, violento. Pesci venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
Sua cena “Funny how?” é histórica.

Karen Hill (Lorraine Bracco)

A voz feminina que observa o mundo mafioso com fascínio e horror. Nomeada ao Oscar.



6. Importância na Carreira de Scorsese

✔ marco absoluto de sua maturidade artística;
✔ redefiniu o filme de máfia moderno, influenciando Família Soprano e dezenas de obras;
✔ consolidou parcerias, especialmente com Thelma Schoonmaker;
✔ tornou-se estudo obrigatório em escolas de cinema.

É considerado por muitos críticos o maior filme de Scorsese.


7. Recepção e Legado

  • 6 indicações ao Oscar; Pesci ganhou sua estatueta.
  • Elogiado como uma obra-prima instantânea.
  • Presença constante em listas dos melhores filmes da história.
  • Influenciou Cassino (1995), Os Infiltrados (2006) e até filmes de outros autores.
  • A frase "As far back as I can remember, I always wanted to be a gangster" tornou-se ícone cultural.
Hoje, Os Bons Companheiros é visto como um dos pilares do cinema americano contemporâneo — e uma obra que permanece fresca, veloz 
e fascinante décadas após sus estreia.