Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Com intenção de espiar o seu companheiro, Claire, uma professora divorciada de 50 anos, cria um perfil falso no Facebook de uma mulher de 24 anos, apropriando-se de uma foto de uma jovem bonita.
Nebbou e o romance de Camille Laurens
Safy Nebbou adaptou o romance de Camille Laurens com uma fidelidade que preserva o que o livro tem de mais perturbador: a primeira pessoa de Claire, essa voz que narra e que o espectador vai gradualmente percebendo ser uma narração dentro de uma narração. O filme usa a estrutura do livro, Claire contando sua história a uma psicanalista, para criar uma distância entre o que aconteceu e como Claire o interpreta, e essa distância é o espaço onde o filme vive. Nebbou filma material com a seriedade de quem entende que a história de uma mulher de 50 anos que cria um avatar digital para espionar o ex-amante e se apaixona pelo amigo dele é simultaneamente ridícula e completamente humana.Juliette Binoche e a performance dupla
Juliette Binoche interpreta Claire em dois registros simultâneos: a mulher de 50 anos sentada no consultório da psicanalista e a jovem Clara de 24 anos que existe apenas nas telas e na imaginação de Alex. Nebbou resolve esse desafio formal com uma elegância que poderia facilmente virar truque: quando Claire é Clara, o filme a mostra como ela imagina que Alex a imagina, não como ela realmente é, e Binoche habita essa distinção com uma precisão que torna a performance tecnicamente extraordinária. O espectador vê simultaneamente a mulher que Claire é e a mulher que Clara finge ser, e a distância entre as duas é o tema central do filme.Alex e o amor que não sabe o que está amando
François Civil interpreta Alex com uma abertura emocional que torna o equívoco ainda mais doloroso: Alex está genuinamente se apaixonando, genuinamente se revelando, genuinamente construindo uma intimidade que Claire recebe sem poder revelar quem realmente é. Nebbou usa essa assimetria para fazer um argumento sobre a natureza da identidade nos relacionamentos digitais: o que Alex ama em Clara é real no sentido de que são emoções reais respondendo a estímulos reais, mas a pessoa que os produziu não existe. Quando a ficção e o sentimento são reais mas a identidade é falsa, o amor que resulta é válido?
A invisibilidade da mulher de meia-idade
O que motiva Claire a criar Clara não é apenas ciúme ou vingança: é a descoberta de que como Claire, com 50 anos, ela se tornou invisível para um tipo específico de atenção que como Clara, com 24 anos, recupera instantaneamente. Nebbou filma essa dimensão com uma honestidade que o cinema raramente permite sobre o envelhecimento feminino: como diagnóstico preciso sobre o que a cultura contemporânea faz com as mulheres quando elas saem da faixa etária que o mercado considera desejável. Claire criou Clara porque descobriu que Clara existe num mundo que Claire havia deixado de habitar sem perceber.
A estrutura do interrogatório como argumento
O filme é construído como uma sessão de análise em que Claire conta sua história à psicanalista, e Nebbou usa essa moldura para introduzir uma ambiguidade sobre a confiabilidade da narradora que só se revela completamente no final. O espectador está ouvindo a versão de Claire, que é a única versão disponível, e vai gradualmente percebendo que a versão de Claire sobre si mesma é tão construída quanto o perfil de Clara. Essa recursividade, uma mulher que inventou uma identidade falsa contando sua história para uma profissional que está avaliando sua sanidade, é onde o filme encontra sua profundidade mais perturbadora.
Onde assistir
Quem Você Pensa que Sou está disponível em plataformas de streaming com disponibilidade variável e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem uma estrutura que se revela gradualmente: o final recontextualiza o que veio antes de uma forma que justifica a revisita. Juliette Binoche é a razão principal para assistir, mas o roteiro de Nebbou e Julie Peyr sustenta a performance com uma precisão que o cinema de gênero raramente oferece ao material que usa.
A identidade fabricada como forma de amor
Quem Você Pensa que Sou é o filme desta mostra que mais diretamente mapeia o que as redes sociais fizeram com a identidade nos relacionamentos contemporâneos. Claire descobriu que pode ser outra pessoa com um clique e que essa outra pessoa é amada de formas que ela mesma não é. O argumento do filme não é que Claire agiu errado: é que o mundo que tornou Clara possível e desejável é o mesmo mundo que tornou Claire invisível. A tecnologia não criou o desejo de ser outra pessoa nos relacionamentos, mas deu a esse desejo uma interface tão fácil de usar que a fronteira entre quem somos e quem gostaríamos de ser nunca foi tão porosa. E nunca foi tão difícil saber de qual lado do espelho estamos.