VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento
Um dramaturgo de Chicago usa a auto-hipnose para viajar no tempo e conhecer a atriz cujo retrato antigo está em um grande hotel.
Em Algum Lugar do Passado (1980) - IMDbDir: Jeannot Szwarc
Drama de Época, Tragédia, Fantasia, Romance
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 7,2 METASCORE: 2,9
Flix Metrix: 64 Criticker Average Percentile: 52%
Somewhere in Time, dirigido por Jeannot Szwarc, é um
dos romances mais singulares do cinema sobre viagem no tempo. Longe de
máquinas, paradoxos ou engenharias causais, o filme propõe uma ideia
radicalmente simples e poética: é possível atravessar o tempo pela força
absoluta da crença e do amor.
Inserido no BLOCO 7 - AFETO da mostra VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento,
Em Algum Lugar do Passado trata o tempo não como obstáculo técnico, mas
como fronteira emocional.
O tempo como ato de fé
O protagonista, Richard Collier, é um dramaturgo que, ao se
hospedar em um hotel histórico, torna-se obcecado pelo retrato de uma atriz do
início do século XX, Elise McKenna. A descoberta de uma dedicatória enigmática - “Volte para mim” - funciona como gatilho narrativo e existencial.
A viagem no tempo ocorre sem aparato científico. Richard se
isola, elimina referências do presente e entra em um estado de concentração
profunda que o projeta para o passado. Aqui, o tempo não se dobra à tecnologia,
mas à imaginação disciplinada.
O filme afirma algo ousado: o tempo é permeável à intensidade do desejo.
Romance como travessia temporal
Quando Richard encontra Elise no passado, o romance não é
vivido como fantasia escapista, mas como
experiência condenada desde o
início. O espectador sabe que aquele amor existe sob prazo determinado.
Diferente de narrativas que tentam “consertar” o passado, Somewhere
in Time aceita a fragilidade do encontro. O tempo não é inimigo a ser
derrotado, mas condição que torna o amor precioso.
A irreversibilidade como tragédia
O elemento mais cruel do filme não é a separação, mas o
detalhe mínimo que a provoca: um objeto do presente quebra o estado de imersão
e devolve Richard ao seu tempo original.
Esse gesto banal carrega uma ideia central: não é preciso um grande erro para perder o que é essencial; basta lembrar
do tempo em que se vive.
O retorno não é escolha; é colapso.
Tempo, memória e melancolia
A partir desse ponto, o filme abandona qualquer ilusão
romântica convencional e se entrega à melancolia. O passado não pode ser
retomado. O amor vivido não pode ser repetido.
A viagem no tempo não gera aprendizado prático nem redenção
— apenas consciência da perda. O tempo é vivido como algo que se
atravessa uma única vez.
Estilo clássico, emoção direta
A encenação privilegia:
- trilha
musical lírica e recorrente,
- enquadramentos
clássicos,
- ritmo
contemplativo.
Tudo contribui para uma sensação de suspensão temporal. O
filme parece existir fora de época, como o próprio romance que narra.
Lugar no subgênero da viagem no tempo
Em Algum Lugar do Passado ocupa um lugar raro dentro
do cinema de viagem no tempo: não
científico, não
paradoxal e não
corretivo.
Ele se aproxima de About Time e A Chegada por
tratar o tempo como condição emocional, mas é mais trágico: aqui, não
há escolha consciente de aceitar o futuro, apenas a impossibilidade de
permanecer no passado.
O filme representa o extremo romântico
da irreversibilidade.
Conclusão: amar é não permanecer
Somewhere in Time sustenta uma das ideias mais
dolorosas do cinema:
alguns encontros só existem porque não podem durar.
A viagem no tempo não serve para corrigir destinos, mas para revelar sua
fragilidade.
Em Em Algum Lugar do Passado, viajar no tempo não é
mudar a história; é tocar, por um instante, aquilo que o tempo não permite reter.
O filme funciona como meditação final
sobre amor e perda, lembrando que o tempo não é apenas o que separa, mas também é o
que dá peso e verdade a tudo o que se ama.