Filme incluso na mostra da Filmoteca:
Mambéty e o contexto do Senegal pós-independência
Djibril Diop Mambéty nasceu em 1945 em Colobane, perto de Dakar, filho de um clérigo muçulmano. Não teve formação formal em cinema: passou pela atuação teatral, foi expulso de um grupo de teatro de vanguarda em 1968, e fez dois curtas antes de realizar Touki Bouki em 1973. O filme pinta um retrato fragmentado do desencantamento do Senegal no início dos anos 1970, pouco mais de uma década após a independência do país.O Senegal que aparece no filme é um país que trocou o colonialismo francês por uma independência que para muitos jovens urbanos de Dakar parecia ter prometido mais do que entregou. As construções europeias sobre as habitações africanas mais modestas, a voz de Joséphine Baker repetindo "Paris, Paris, Paris" num disco que nunca avança, a riqueza visível de poucos ao lado da precariedade de muitos: Mambéty filma esse ambiente com uma câmera que não é documental nem surrealista mas as duas coisas ao mesmo tempo.
Mory, Anta e a viagem que pode não acontecer
Mory, interpretado por Magaye Niang, conduz uma motocicleta decorada com um crânio de boi pelos morros de Dakar. Anta, interpretada por Mareme Niang, estuda na universidade e está tão impaciente com o que encontra quanto Mory. Os dois querem ir para a França, onde imaginam que existe uma vida diferente da que Dakar parece oferecer. O plano é vago, as tentativas de conseguir dinheiro são malsucedidas, e a distância entre o desejo e a realização é o espaço onde o filme vive.Mambéty não julga Mory e Anta por quererem partir nem por não conseguirem. O que filma é mais complexo: a consciência simultânea de que Paris pode não ser o que imaginam e de que ficar pode não ser o que conseguem. É uma armadilha sem saída boa, e o filme tem a honestidade de não fingir que tem.
A linguagem formal e o que ela faz
Touki Bouki tem uma sensibilidade de vanguarda caracterizada por imagens vívidas, humor sombrio, montagem não convencional e paisagens sonoras irregulares. Mambéty usa rimas visuais que conectam elementos aparentemente díspares: o abate de um boi no início liga-se visualmente à motocicleta de Mory, o sangue de um animal escorre numa ligação de montagem com as ondas do mar. São conexões que a lógica narrativa convencional não faria e que Mambéty faz porque está filmando não uma história mas um estado de espírito, uma condição, uma forma específica de estar num lugar que você quer deixar mas que ainda é o único lugar que conhece.A trilha sonora mistura música tradicional senegalesa com as canções francesas de Joséphine Baker e Mado Robin. Esse choque cultural na banda sonora é o argumento mais preciso do filme sobre o que Mory e Anta estão vivendo: dois mundos que existem simultaneamente sem que nenhum dos dois seja completamente deles.
A Nouvelle Vague africana que não foi assim chamada
Touki Bouki é frequentemente descrito como um filme da Nouvelle Vague africana, e a influência de Godard e Varda é visível na montagem e na liberdade formal. Mas Mambéty rejeitava esse enquadramento. O que ele estava fazendo não era aplicar uma estética francesa a um contexto africano: estava encontrando uma linguagem para contar histórias africanas de um jeito que o realismo social que dominava o cinema africano da época não conseguia capturar.Mambéty rejeitou o realismo preferido pela maioria dos cineastas africanos. Seus filmes eram notáveis pela qualidade onírica que deixava os temas completamente abertos à interpretação do espectador, o que era, claro, o efeito desejado. Essa recusa do didatismo foi o que isolou Touki Bouki no contexto do cinema africano dos anos 1970 e que o tornou simultaneamente o mais singular e o menos distribuído dos filmes importantes daquele momento.
O desaparecimento e a restauração
Apesar do sucesso de Touki Bouki, Mambéty não faria outro longa-metragem por quase vinte anos, até Hyenas em 1992. O filme ficou praticamente inacessível durante décadas, com cópias deteriorando e sem distribuição consistente em nenhum mercado. Foi restaurado em 2008 pela Cineteca di Bologna em associação com o World Cinema Foundation de Martin Scorsese. Scorsese havia incluído Touki Bouki entre os filmes que considerava essenciais para a história do cinema e cuja preservação era urgente.A restauração devolveu ao filme a qualidade visual que Mambéty havia criado com 30 mil dólares em 1973, e tornou possível que uma nova geração de espectadores chegasse a ele. Na Sight and Sound 2022, apareceu no 66º lugar entre os maiores filmes de todos os tempos. A desproporção entre reconhecimento crítico e visibilidade do público é o dado mais preciso sobre o que aconteceu com a distribuição do cinema africano ao longo do século XX.
Mambéty e a morte prematura
Djibril Diop Mambéty morreu de câncer de pulmão em 1998, aos 53 anos, depois de ter realizado apenas dois longas-metragens e uma série de curtas. Hyenas, de 1992, foi o único outro longa que completou. Estava trabalhando numa trilogia sobre os pequenos povos da África quando morreu. O que deixou é extraordinário e incompleto ao mesmo tempo, o que é a forma mais precisa de descrever o que Touki Bouki também é: uma obra que vai até onde vai e que deixa o resto para o espectador completar.Onde assistir: Touki Bouki está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em streaming no Brasil Touki Bouki - A viagem da hiena - onde assistir. Um filme para assistir quando você quiser ver o cinema que fez algo que nunca viu antes.
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