FORA DO RADAR: 5 filmes que mais gente deveria ter visto
Um filme sobre o poder do cinema feito por alguém que cresceu dentro dele.
A tela como primeiro mundo
Electric Shadows começa com uma briga numa rua de Pequim e termina numa sala de cinema improvisada no campo, e entre esses dois pontos reconstrói duas infâncias que o cinema salvou de formas diferentes. Xiao Jiang, estreando na direção longa, parte de uma premissa aparentemente simples e vai abrindo gavetas com uma paciência que o cinema chinês dos anos 2000 praticava com uma naturalidade que o Ocidente raramente alcançava. O filme entende que a memória não é linear e que a infância não termina quando a idade adulta começa.
Mao Dabing e o peso do que foi herdado
O protagonista adulto carrega uma história que não escolheu e que o filme vai entregando em fragmentos. Xiao Jiang não tem pressa de revelar as conexões entre passado e presente, e essa recusa da resolução rápida é o que separa Electric Shadows da maioria dos dramas de memória: o roteiro confia no espectador para habitar a ambiguidade sem precisar de sinalização constante. O peso do que foi herdado não tem cena de explicação. Tem peso.
O cinema ambulante como instituição
Uma das camadas mais ricas do filme é o retrato do cinema ambulante na China rural, aquelas projeções ao ar livre que eram simultaneamente entretenimento, política e ritual comunitário. Xiao Jiang filma essas cenas com uma reverência que não é romantismo: sabe que aquele mundo estava acabando enquanto o filmava, e essa consciência do fim iminente dá às imagens uma textura documental que o drama em torno delas não apaga.A menina e a tela
A história paralela da infância de Ling, projetada em flashbacks que vão ganhando densidade à medida que o presente avança, é onde o filme mostra sua melhor escrita. Ling não é uma personagem construída para explicar o protagonista. Tem vida própria, contradições próprias, um arco que o filme respeita sem transformar em alegoria. A relação dela com o cinema é visceral e específica, e Xiao Jiang tem a inteligência de não generalizá-la em metáfora antes que a narrativa esteja pronta para isso.
A China entre dois tempos
Electric Shadows é também um documento sobre a China na dobra entre o coletivismo do passado recente e o individualismo emergente dos anos 2000. Xiao Jiang não tematiza essa tensão de forma explícita, mas ela está presente em cada escolha de cenário, em cada relação entre personagens, na distância entre o que as pessoas dizem e o que o filme mostra que sentiram. É um cinema político que não precisa se declarar político para funcionar como tal.Onde assistir e o que esperar
Electric Shadows não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras no momento. Vale buscar em acervos digitais especializados em cinema asiático, plataformas de importação ou versões físicas de importação. Está disponível no Youtube. O filme tem 93 minutos e um ritmo que pede atenção nos primeiros vinte, quando a estrutura ainda não se revelou completamente. A fotografia de Wu Di usa a luz natural com uma qualidade que lembra o melhor do cinema iraniano da mesma época.
Por que ficou fora do radar
Electric Shadows chegou num momento em que o cinema chinês de autor estava disputando atenção com Zhang Yimou e Wong Kar-wai, dois nomes que consumiam todo o oxigênio disponível para o cinema asiático no circuito ocidental. Xiao Jiang, estreante sem nome de marquise, ficou sem distribuição fora da Ásia e sem a segunda chance que filmes menores precisam para construir reputação. As métricas contam essa história com precisão: 1.100 votos no IMDB e 580 no Letterboxd para um filme com 7.5 de nota e 85% no Popcornmeter. A qualidade estava lá. O momento não.