Um assassino lembra que talvez esteve envolvido na morte de Jimmy Hoffa.
O Irlandês (2019) - IMDbDir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Drama de Época, Gângster, Biografia, História, Suspense
MP4 / HD- / LEG: Português
IMDB: 7,8 METASCORE: 9,4
O Irlandês (2019)
Um épico crepuscular sobre lealdade, arrependimento e
o preço espiritual de uma vida dedicada ao crime.
1. Contexto Histórico e Produção
Baseado no livro
I Heard You Paint Houses, de Charles
Brandt, o filme narra a suposta vida criminal de
Frank Sheeran, um
veterano de guerra que se tornou matador da máfia e motorista do líder sindical
Jimmy Hoffa.
Depois de décadas criando mitologias em torno da máfia (Caminhos
Perigosos, Os Bons Companheiros, Cassino), Scorsese retorna
ao tema para descontruir tudo:
não há glamour, apenas desgaste, culpa e a passagem impiedosa do tempo.
É também um filme marcante por:
- reunir
De Niro, Pacino e Pesci sob sua direção;
- utilizar
tecnologia de rejuvenescimento digital;
- ser
uma produção ambiciosa financiada pela Netflix;
- simbolizar
a maturidade emocional de Scorsese frente ao crime organizado.
2.
Enredo
⭐ Frank Sheeran (Robert De Niro)
Um caminhoneiro irlandês que, por acaso e conveniência
moral, entra no mundo do crime.
O título do filme (“pintar casas”) é um eufemismo para matar pessoas — o
“sangue na parede”.
Frank é um homem:
- obediente,
- pragmático,
- emocionalmente
opaco,
- inteiramente
moldado pela violência.
⭐ Russell Bufalino (Joe Pesci)
Chefão da máfia que toma Frank como protegido.
Pesci entrega uma atuação contida e arrepiante — poder calmo, silêncio fatal.
⭐ Jimmy Hoffa (Al Pacino)
Carismático, impulsivo, orgulhoso.
Um dos homens mais poderosos da América, cuja queda se torna o eixo moral do
filme.
A relação triangular entre Frank, Bufalino e Hoffa é:
- paternal,
- política,
- psicológica,
- e
fatal.
A narrativa acompanha décadas de amizade, lealdade e
traições dentro da criminalidade sindical.
3. Temas Centrais
⭐ 3.1 O fim da mitologia da máfia
Este não é um filme sobre glamour, ascensão, ou
charme criminoso.
É um filme sobre:
- corpos
que se deterioram,
- amizades
que apodrecem,
- homens
que envelhecem sozinhos,
- pecados
que não trazem recompensa.
Scorsese revisita o universo mafioso para encerrar
seu ciclo.
Não há brilho — apenas a poeira do tempo.
⭐ 3.2 O custo moral da obediência
Frank é o homem que “apenas segue ordens”.
Mas a vida inteira dele é construída sobre essas ordens — e destruída da mesma
forma.
Incapaz de questionar, ele:
- mata
amigos,
- abandona
a família,
- destrói
sua própria humanidade.
⭐ 3.3 A solidão como punição
final
Em vez de morte violenta, Frank recebe a pior punição
possível:
viver muito tempo para ver tudo desmoronar.
Ele termina:
- velho,
- esquecido,
- incapaz
de confessar plenamente,
- incapaz
de se redimir,
- e
sem ninguém na vida.
A filha Peggy, que representa consciência moral,
simplesmente o abandona.
⭐ 3.4 Tempo, memória e
arrependimento
O filme é estruturado como um grande flashback de um homem
tentando lembrar — mas sem saber como lidar com o que lembra.
Scorsese filma os assassinatos de forma fria, rápida, sem
peso —
e deixa todo o peso para o afeto, não para o sangue.
⭐ 3.5 Política, crime e a América
do pós-guerra
O Irlandês conclui que:
- máfia
- sindicatos
- política
- polícia
- e
governo
estão entrelaçados numa teia cinzenta de poder e violência,
onde ninguém é inocente.
4. Estética, Linguagem e Tom
4.1 Minimalismo Ético
Diferente do ritmo frenético de Os Bons Companheiros,
aqui tudo é lento, pesado, arrastado como lembranças de um velho.
4.2 Fotografia Crepuscular (Rodrigo Prieto)
Cores dessaturadas, verdes mortos, marrons e cinzas.
É um filme que parece já envelhecido.
4.3 De-aging como ferramenta narrativa
Não é tecnologia para impressionar — é para mostrar que o
passado não é confiável, que a memória é uma superfície borrada.
4.4 Narrativa fragmentada
O tempo se dobra:
- a
viagem para o casamento,
- os
flashbacks,
- a
narração,
- o
asilo,
- o
caso Hoffa.
Tudo cria um mosaico de memórias trincadas.
4.5 Violência objetiva
Assassinatos filmados com frieza total: um tiro, um corpo, e
pronto.
Sem glamour, sem espetáculo.
Scorsese mostra que, quando a violência é real, ela é rápida
e banal, não cinematográfica.
5. Atuação dos Três Titãs
⭐ Robert De Niro — Frank Sheeran
Uma das atuações mais silenciosas e autocontidas de sua
carreira.
⭐ Al Pacino — Jimmy Hoffa
Explosivo, carismático, tragicômico — mas profundamente
humano.
⭐ Joe Pesci — Russell Bufalino
Sua melhor atuação desde Cassino.
A suavidade assassina de Pesci é devastadora.
6. O Final — um dos mais devastadores da carreira de
Scorsese
Frank termina:
- abandonado,
- falando
sozinho,
- tentando
rezar sem saber rezar,
- incapaz
de se arrepender plenamente,
- e
pedindo ao padre para deixar a porta do quarto entreaberta.
Esse detalhe — a porta — é simbólico:
Ele ainda espera que alguém entre.
Mas ninguém virá.
É o oposto do final de Os Bons Companheiros,
onde Henry Hill vive mas se sente entediado.
Aqui, Frank vive — mas está espiritualmente morto.
7. Importância na Carreira de Scorsese
- encerra
sua tetralogia da máfia (Caminhos Perigosos → Bons Companheiros → Cassino
→ O Irlandês)
- marca
sua obra mais madura e espiritual sobre o crime
- questiona
o próprio cinema de gangster que o consagrou
- sintetiza
seu domínio absoluto da linguagem cinematográfica
É o filme de um diretor olhando para trás — não para
celebrar, mas para fazer balanço.
Conclusão
O Irlandês é um épico íntimo.
Um filme sobre tempo, velhice, culpa e o preço de viver sem confrontar a
própria consciência.
Scorsese desmonta a fantasia do gangster e revela o que
sobra quando a lealdade vira prisão e a violência vira rotina:
um homem sozinho, olhando para uma porta entreaberta,
esperando por algo que nunca virá.
É um dos filmes mais profundos, sombrios e humanos de sua
carreira — um testamento artístico.
⭐ CURIOSIDADES RELEVANTES SOBRE O
IRLANDÊS (2019) — THE IRISHMAN
1. Um sonho de 12 anos para se tornar realidade
Scorsese e De Niro queriam adaptar o livro I Heard You
Paint Houses desde 2007.
O maior obstáculo era:
- orçamento
altíssimo,
- tecnologia
insuficiente para o rejuvenescimento,
- Hollywood
receosa com um épico de 3h30.
A produção só aconteceu quando a Netflix aceitou
financiar o projeto.
2. A volta triunfal de Pesci — após aposentadoria
Joe Pesci estava aposentado há quase 20 anos.
Ele recusou o filme entre 40 e 50 vezes até aceitar.
Scorsese contou que Pesci dizia:
“Marty, eu não sou mais esse cara.”
Quando finalmente topou, entregou uma das atuações mais
contidas e devastadoras da carreira.
3. Pacino nunca havia trabalhado com Scorsese
Embora ambos fossem lendas do cinema desde os anos 70,
Pacino e Scorsese nunca haviam colaborado antes de O Irlandês.
O filme marca:
- o
primeiro trabalho juntos,
- e o
retorno de Pacino a um papel grandioso após anos de ausência no cinema de
prestígio.
4. O rejuvenescimento digital custou uma fortuna
O filme utilizou a tecnologia de "de-aging" mais
sofisticada já aplicada em um longa.
Curiosidades técnicas:
- não
foram usados pontos no rosto dos atores
- foram
usadas três câmeras simultâneas para cada tomada (incluindo
infravermelha)
- o
software foi criado especialmente para o filme
- aproximadamente
200 artistas de efeitos visuais trabalharam por anos
O tratamento digital consumiu boa parte dos US$ 160
milhões do orçamento.
5. Não há NENHUMA trilha musical original
Ao contrário de muitos filmes de Scorsese, O Irlandês:
- não
tem trilha original composta,
- usa
apenas músicas pré-existentes,
- todas
selecionadas para evocar épocas específicas.
A ausência de música original reforça o tom documental e
melancólico.
6. O filme desconstrói a própria mitologia criada por
Scorsese
O Irlandês é “o anti–Bons Companheiros”:
- sem
glamour,
- sem
ritmo frenético,
- sem
humor explosivo,
- sem
ascensão sedutora.
É Scorsese revisitando seu próprio legado para desmontar
os mitos que ajudou a criar.
7. O tempo é o verdadeiro vilão
A estrutura do filme foi pensada como:
- um
rio de tempo,
- fluindo
e apagando memórias.
Todos os saltos temporais são intencionais:
mostram que a violência não leva à glória, mas ao esquecimento.
8. A viagem para o casamento é o “esqueleto” narrativo
Scorsese usa a viagem de carro rumo ao casamento (evento
histórico real) como:
- estrutura
principal,
- ponto
de retorno da narrativa,
- símbolo
da inevitabilidade do destino.
É uma estrada sem saída — como a própria vida de Frank.
9. A verdadeira Peggy Sheeran está viva — e discordou do
filme
A filha real de Frank Sheeran, Peggy, disse
publicamente que:
- não
acredita que o pai tenha matado Hoffa,
- considerou
a narrativa de Brandt duvidosa,
- não
colaborou com o filme.
Scorsese manteve a versão do livro por seu valor dramático,
não histórico.
10. A cena final da porta entreaberta tem origem pessoal
A porta deixada entreaberta por Frank foi ideia de Scorsese
inspirada em:
- memórias
de infância,
- portas
entreabertas em casas de parentes idosos,
- a
sensação de abandono espiritual.
É símbolo de:
- esperança,
- culpa,
- medo,
- e
da morte se aproximando.
11. O único filme de Scorsese com duração acima de 3h30
É o filme mais longo de toda a carreira dele.
Scorsese brincou que:
“É o tempo das memórias.
Não dava para cortar.”
12. O filme foi pensado como testamento — e Scorsese
reconhece isso
Ele afirmou em entrevistas:
- “é
um filme sobre o fim”,
- “sobre
olhar para trás com dor”,
- “sobre
aceitar que nada do que fizemos nos salva”.
É sua obra mais madura, mais triste e mais
espiritual desde Silêncio.
13. A câmera nunca romantiza a violência
Cada assassinato é:
- rápido,
- seco,
- inestético,
- sem
trilha sonora,
- quase
documental.
Scorsese disse que queria mostrar:
“a violência como fato, não como espetáculo.”
14. O elenco todo foi escolhido por memória afetiva
Scorsese queria revisitar:
— como uma espécie de reencontro final de sua família
cinematográfica.
É a última grande reunião da linhagem histórica do “cinema
de gângster”.
15. A frase “Eu ouvi dizer que você pinta casas” é
literal
Na gíria da máfia, significa:
- "você
mata pessoas",
- "pinta
a parede com sangue".
O título do filme, portanto, é um eufemismo brutal.
⭐ Conclusão — Por que essas
curiosidades importam?
Porque O Irlandês não é apenas um filme:
- é
um testamento artístico,
- um ato
de encerramento,
- uma
meditação sobre culpa e tempo,
- e
uma reunião final de gigantes.
Cada curiosidade revela camadas adicionais de significado
que reforçam o que o filme realmente é:
um crepúsculo — o último grande olhar para o passado do
crime e do próprio cinema de Scorsese.