Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York
Em uma casa de verão em Vermont, o vizinho Howard se apaixona por Lane, que está namorando Peter, que está se apaixonando por Stephanie, que é casada e tem filhos.
Setembro (1987) - IMDbDir: Woody Allen
Drama
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 6,5
Setembro é um dos filmes mais contidos,
melancólicos e rigorosamente introspectivos de Woody Allen.
Inspirado explicitamente no teatro de Anton Tchekhov, o longa abandona
quase totalmente o humor e a exuberância narrativa para se concentrar em afetos
reprimidos, silêncios prolongados e frustrações que nunca encontram forma clara.
É um filme sobre pessoas educadas demais para ferir — e, por
isso mesmo, incapazes de se salvar.
Um espaço fechado, emoções bloqueadas
A ação se passa quase inteiramente numa casa de campo ao fim
do verão. O espaço é acolhedor, mas emocionalmente estagnado. Como em Tchekhov,
o ambiente não aprisiona fisicamente —
aprisiona psicologicamente.
Os personagens circulam, conversam, tomam chá, escutam
música. Tudo parece calmo. No entanto, sob essa superfície civilizada,
acumulam-se ressentimentos, desejos não confessados e amores impossíveis.
Personagens presos à renúncia
Os protagonistas de
Setembro não são movidos por
grandes paixões trágicas, mas por
incapacidade de agir. Eles amam as
pessoas erradas, no tempo errado, da maneira errada — e sabem disso.
Allen constrói personagens que vivem num estado de adiamento
emocional constante. Nada explode; tudo apodrece lentamente. O sofrimento
não é dramático — é cotidiano, persistente, educado.
Amor como desencontro estrutural
O filme desmonta a ideia de que o amor fracassa por falta de
intensidade. Em
Setembro, ele fracassa por
excesso de autoconsciência,
medo de ferir e respeito mal direcionado.
Os personagens preferem a frustração silenciosa ao risco do
conflito. Amar, aqui, é quase sempre sinônimo de renunciar.
A palavra como obstáculo
Diferente de
Maridos e Esposas, onde os diálogos são
armas, em
Setembro as palavras são
insuficientes. Os personagens
falam — mas nunca dizem o essencial. O discurso serve para contornar, não para
revelar.
Allen filma longas conversas que evitam o centro do
problema, reforçando a sensação de que a linguagem falhou como ponte afetiva.
Influência direta de Tchekhov
A presença de Tchekhov não é apenas temática, mas
estrutural. O filme ecoa peças como
As Três Irmãs e
O Jardim das
Cerejeiras:
- o
tempo passa sem transformação real;
- o
futuro é sempre projetado, nunca vivido;
- o
passado pesa mais do que qualquer esperança.
Allen não adapta Tchekhov — ele transplanta seu espírito
para um contexto contemporâneo americano.
Um cinema de contenção absoluta
A mise-en-scène é austera: poucos movimentos de câmera,
enquadramentos discretos, iluminação suave. Tudo conspira para a sensação de
vida
suspensa, como se qualquer gesto mais intenso fosse indecoroso.
Essa contenção formal reforça a tese central do filme: há
vidas inteiras que se perdem não por excesso, mas por cautela demais.
Um filme sobre o tempo perdido — sem nostalgia
Setembro não romantiza o passado nem oferece consolo
no futuro. O tempo aqui é
erosão, não memória afetiva. Cada dia que
passa torna as escolhas mais difíceis — e as omissões mais definitivas.
O mês do título não é apenas estação: é estado emocional.
Setembro é o momento em que se percebe que o verão acabou — e nada realmente
aconteceu.
Um dos filmes mais exigentes de Allen
Este é um filme que
não seduz facilmente. Ele exige
atenção, paciência e sensibilidade para o não-dito. Não há humor como alívio,
nem drama como catarse.
Por isso mesmo, ocupa um lugar singular na obra de Allen: é
um de seus trabalhos mais honestos sobre fracasso emocional sem espetáculo.
Síntese final
Setembro é um retrato delicado e doloroso de pessoas
que sabem demais e sentem de menos — ou sentem demais, mas nunca se permitem
agir. Um filme sobre a tragédia da
vida não vivida, da palavra não dita,
do amor sempre adiado.
Na filmografia de Woody Allen, ele representa um extremo
silencioso:
o momento em que o cinema deixa de perguntar “e se?”
e passa a constatar, com melancolia irreversível,
“já foi tarde demais.”