Mostrando postagens com marcador PAÍS: Cuba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PAÍS: Cuba. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A Morte de um Burocrata (1966) La muerte de un burócrata - 1 h 25 min

Mostra:

FORA DO RADAR: filmes que ficaram menores do que são

Um trabalhador cubano morre acidentalmente e é enterrado junto com seu cartão do sindicato. Logo, sua viúva vai precisar do cartão para reivindicar a pensão deixada pelo marido. O jovem sobrinho deles entra nesta briga e inicia uma hilariante luta contra as autoridades para exumar o cadáver de seu tio, a fim de recuperar o precioso documento.


A Morte de um Burocrata (1966) - IMDb
Dir: Tomás Gutiérrez Alea
Pastelão, Sátira, Comédia, Horror


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6
Letterboxd: 7,8
100%Tomatometer5 Reviews

Um operário cubano exemplar foi enterrado com sua carteira de trabalho. A viúva não pode receber a pensão sem o documento. Kafka teria escrito isso como tragédia. Alea filmou como comédia. Os dois estão certos.

A carteira de trabalho como detonador

A Morte de um Burocrata começa com um funeral de Estado. Um operário exemplar, inventor de uma máquina que produzia bustos de José Martí em série, recebe como homenagem póstuma o enterro de sua carteira de trabalho junto com seu corpo. O gesto é solene, respeitoso, revolucionário no sentido literal: o homem e sua identidade laboral foram unidos para sempre em reconhecimento aos seus méritos. O problema aparece na cena seguinte, quando a viúva descobre que não pode receber a pensão sem apresentar a carteira de trabalho do marido. A carteira está enterrada. O marido também. E o sistema que os enterrou juntos não previu formulário para essa situação.

Tomás Gutiérrez Alea instala essa premissa com a precisão de um relojoeiro e a libera como um mecanismo que vai se complicando sozinho, cada solução gerando um problema maior, cada formulário exigindo três outros formulários, cada funcionário remetendo ao superior que remete ao departamento que remete ao arquivo que está fechado para inventário. A carteira precisa ser desenterrada. Para desenterrar é preciso autorização. Para obter autorização é preciso a carteira. O círculo é perfeito e intransponível, e Alea o filma com um prazer que é simultaneamente artístico e político.


Alea e o cinema cubano como território de contradição

Tomás Gutiérrez Alea era socialista convicto e defensor da Revolução Cubana de 1959. Fez A Morte de um Burocrata em 1966, sete anos depois da revolução, financiado pelo ICAIC, o instituto estatal de cinema cubano, e dedicou o filme a Ingmar Bergman, Akira Kurosawa e outros cineastas que havia estudado e admirado. Essa combinação de compromisso político e sofisticação cinematográfica internacional define o que o filme é: uma crítica ao sistema feita por alguém que acredita no sistema, que entende que a burocracia não é a revolução mas o que sobrou das estruturas pré-revolucionárias dentro da revolução, e que o humor é o instrumento mais honesto para examinar esse resíduo.

O próprio Alea declarou que não tinha muita fé na eficácia da sátira como força transformadora da história, e que imaginava que os burocratas viriam ver o filme e rirão de si mesmos sem mudar nada. Essa lucidez sobre os limites do que estava fazendo não o impediu de fazer com o máximo de rigor e inventividade possíveis, e o resultado é um filme que décadas depois continua sendo a crítica mais precisa ao absurdo burocrático que o cinema latino-americano produziu, não porque a burocracia cubana seja excepcional mas porque é universal.


As referências como argumento

A Morte de um Burocrata é um filme de cinéfilo feito por um cinéfilo para um público que pode ou não reconhecer as referências, e que funciona igualmente nos dois casos. Os créditos iniciais listam os diretores que Alea está homenageando, e as cenas que se seguem entregam essas homenagens com uma consciência que é parte do argumento: Buñuel aparece nas sequências de sonho surrealista, Chaplin e Mack Sennett aparecem na comédia física do sobrinho tentando navegar o labirinto burocrático, Harold Lloyd aparece numa sequência em que o sobrinho fica preso num edifício e precisa escapar pelo parapeito do alto de uma fachada, Laurel e Hardy aparecem numa briga no cemitério que começa com dignidade e termina com tortas.

Alea usa essas referências com a consciência de que o absurdo burocrático é universal o suficiente para ter gerado uma tradição cinematográfica inteira, e que inserir A Morte de um Burocrata nessa tradição é uma forma de dizer que o problema que está filmando não é cubano nem soviético nem capitalista mas humano, que qualquer sistema suficientemente grande e suficientemente regulado vai produzir o mesmo tipo de situação em que a regra existe para servir a pessoa e a pessoa passa a existir para servir a regra.


O sobrinho e a escalada do absurdo

Salvador Wood interpreta o sobrinho que assume a missão de recuperar a carteira de trabalho do tio com uma expressividade que combina com o registro híbrido do filme: há momentos de comédia física pura, sequências de farsa que exigem timing preciso, e há momentos de desespero genuíno que o filme não cancela com a piada seguinte. O sobrinho começa a jornada com a certeza de que o problema tem solução, que existe algum formulário ou algum funcionário com autoridade para resolver aquilo, e vai descobrindo que o sistema foi projetado para não ter saída, que cada porta que se abre revela apenas outra porta fechada.

A escalada da frustração de Wood é filmada com uma progressão que replica a experiência real de quem já tentou resolver qualquer coisa dentro de uma burocracia suficientemente kafkiana: a paciência inicial, a irritação crescente, a tentativa de usar lógica num sistema que funciona por procedimento, a descoberta de que o procedimento existe independentemente de qualquer lógica, e finalmente a ruptura, o momento em que o personagem decide que se o sistema não tem saída razoável vai encontrar uma saída não razoável.


Leo Brouwer e a trilha como comentário

A trilha de Leo Brouwer, um dos maiores compositores cubanos do século XX, usa a música com uma consciência que combina com a inteligência formal do resto do filme. Brouwer alterna entre música que replica os gêneros das referências cinematográficas que Alea está homenageando, o piano de comédia silenciosa, as cordas do suspense hitchcockiano, e música que pertence especificamente ao contexto cubano, ritmos e harmonias que localizam o absurdo universal numa situação geográfica e histórica específica.

Essa localização é importante: A Morte de um Burocrata é uma comédia sobre burocracia universal filmada num contexto específico, e Brouwer usa a música para manter os dois registros ativos ao mesmo tempo. O espectador que conhece Cuba em 1966 ouve uma coisa. O espectador que não conhece ouve outra. Os dois estão ouvindo o mesmo filme.


Onde assistir e o que esperar

A Morte de um Burocrata está disponível no Filmicca com boa qualidade de cópia, restaurado pelo Academy Film Archive em 2019 e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 85 minutos em espanhol cubano legendado que passam com a velocidade da comédia bem executada: Alea não desperdiça cenas e o ritmo de escalada do absurdo não dá trégua. O espectador que chegar esperando drama político vai encontrar comédia física de alto nível. O espectador que chegar esperando apenas diversão vai encontrar um argumento político preciso embutido na diversão. Os dois vão sair satisfeitos e levemente perturbados pela quantidade de situações reconhecíveis numa Cuba de 1966 que parecem ter sido filmadas ontem.




Por que ficou fora do radar

A Morte de um Burocrata ficou fora do radar brasileiro por razões que têm menos a ver com qualidade do que com o lugar que o cinema cubano ocupa na distribuição internacional. Cuba produziu uma cinematografia extraordinária nas décadas seguintes à revolução, com Alea como seu maior nome, mas o bloqueio americano criou barreiras de distribuição que afetaram o acesso ao cinema cubano em toda a América Latina de forma que o circuito de arte nunca completamente corrigiu.

A Morte de um Burocrata levou quatorze anos para chegar aos Estados Unidos, lançado apenas em 1980, e nunca recebeu no Brasil a atenção que merecia. O que o radar perdeu é um dos filmes mais engraçados e mais precisos sobre o absurdo burocrático que o cinema mundial produziu, feito por um diretor que tinha o talento raro de usar o humor como instrumento de análise política sem diminuir nenhum dos dois, e que encerrou a segunda edição do Fora do Radar com exatamente o registro que faltava: a prova de que cinema fora do radar pode ser, além de importante e belo, genuinamente divertido.