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domingo, 31 de maio de 2026

As Horas (2002) The Hours - 1 h 50 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



As Horas (2002) - IMDb
Dir: Stephen Daldry
Drama Psicológico, Tragédia, Romance

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 8,0
Letterboxd: 7,8   FLICK METRIX: 7,7
79%Tomatometer194 Reviews

Clarissa organizou a vida inteira em torno do cuidado dos outros. Num único dia percebeu o custo disso.

Michael Cunningham, o romance e a adaptação

Michael Cunningham publicou As Horas em 1998 e venceu o Prêmio Pulitzer. O romance conecta três mulheres em três épocas diferentes através do romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf: a própria Woolf escrevendo o livro na Inglaterra dos anos 1920, uma dona de casa lendo o livro na Califórnia dos anos 1950, e uma editora vivendo uma versão contemporânea da narrativa do livro na Nova York de 2001.

David Hare adaptou o roteiro e Stephen Daldry dirigiu. O filme foi produzido pela Miramax com orçamento de 25 milhões de dólares e arrecadou 108,8 milhões mundialmente. A trilha de Philip Glass e a fotografia de Seamus McGarvey estabelecem desde o início uma qualidade de presença que o filme mantém consistentemente ao longo de duas horas.

As três mulheres e o que as conecta

O argumento central de Cunningham e de Daldry é que a mesma pressão, a de organizar a vida em torno das necessidades dos outros enquanto as próprias necessidades ficam sem nome, opera em mulheres de épocas e contextos completamente diferentes. Virginia Woolf nos anos 1920, Laura Brown nos anos 1950 e Clarissa Vaughan em 2001 são versões do mesmo problema em estágios diferentes de consciência sobre ele.

Streep como Clarissa Vaughan é a mais consciente das três: ela chegou ao lugar que queria chegar, tem uma vida que escolheu, e num único dia em que prepara uma festa para o amigo que está morrendo de AIDS percebe o que a chegada custou. A questão que As Horas coloca para Clarissa não é se ela fez as escolhas certas mas se as escolhas que fez foram de fato suas ou foram aquelas que o mundo ao redor esperava que ela fizesse.

Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep

A crítica especializada considerou Streep o elemento mais preciso do filme, descrita como extraordinária na sua versão da Mrs. Dalloway do século XXI. Nicole Kidman venceu o Oscar de Melhor Atriz pelo papel de Virginia Woolf, uma performance de transformação radical com prótese nasal e sotaque britânico específico. Julianne Moore foi indicada ao Oscar por Laura Brown.

As três performances são tecnicamente distintas e tematicamente coerentes: Kidman opera no registro da crise iminente, Moore no da sufocação gradual, Streep no da realização tardia. Cada uma ilumina o problema central do filme de um ângulo diferente, e a montagem que alterna entre as três cria um argumento que nenhuma das histórias isoladas conseguiria.


Philip Glass e o que a música faz

A trilha de Philip Glass para As Horas é um dos trabalhos mais estudados da música de cinema contemporânea. Glass usa padrões de piano repetitivos com variações graduais que criam uma sensação de tempo que avança sem que nada se resolva, o que é precisamente o estado emocional das três protagonistas. A música não ilustra o drama, produz o mesmo efeito no espectador que o drama produz nos personagens: a sensação de estar dentro de algo que se move sem ter para onde ir.




Clique aqui para saber onde assistir



quinta-feira, 19 de março de 2026

A Última Noite (2006) A Prairie Home Companion - 1 h 45 min

O CINEMA DE ROBERT ALTMAN — Uma Obra em Mosaico

Um olhar sobre o que acontece nos bastidores durante a última transmissão do programa de rádio mais celebrado da América, apresentando cowboys cantores Dusty e Lefty, uma sirene de música country e muitos outros.


Comédia, Drama, Música, Romance


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,7   METASCORE: 7,5
FLICK METRIX: 70   Average Percentile: 50.24%
81%Tomatometer197 Reviews   59%Popcornmeter

O Espetáculo que se Despede

Em sua última transmissão, vozes se encontram — e, entre canções e memórias, celebram aquilo que está prestes a desaparecer.


Palco da Efemeridade

Em A Última Noite, Robert Altman transforma o fim de um programa de rádio em uma reflexão sobre o próprio ato de performar. Acompanhando os bastidores e a transmissão ao vivo, o filme articula múltiplos personagens que circulam entre palco e camarins, criando uma narrativa coral onde o tempo parece suspenso entre o que ainda acontece e o que já se perdeu.


Entre Vida e Representação


Altman constrói um espaço onde realidade e ficção se confundem, e onde a performance se torna forma de existência. Os personagens cantam, contam histórias e interagem como se tentassem prolongar o momento, resistindo ao fim iminente. Há uma leveza melancólica que atravessa o filme, sugerindo que toda forma de arte é, ao mesmo tempo, celebração e despedida.


Recepção e Legado

Amplamente bem recebido, o filme foi celebrado como uma despedida à altura da carreira de Altman, que faleceu pouco após sua realização. Críticos destacaram sua sensibilidade, seu humor e sua capacidade de reunir, em tom leve, muitos dos elementos que marcaram sua obra. Com o tempo, consolidou-se como um encerramento simbólico de uma trajetória singular.


Entre Fascínio e Rejeição

Os índices de recepção indicam uma obra calorosamente acolhida, com avaliações positivas tanto em plataformas gerais quanto em ambientes mais cinéfilos. Em espaços como Flick Metrix e Criticker, o filme mantém boa reputação, especialmente entre aqueles que reconhecem sua dimensão de despedida. Ainda assim, seu tom contemplativo, sua estrutura fragmentada e a ausência de conflito central podem afastar espectadores que buscam maior dramaticidade, fazendo com que o filme funcione mais como um gesto de encerramento do que como uma narrativa convencional.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Além da Linha Vermelha (1998) The Thin Red Line - 2 h 50 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Adaptação do romance autobiográfico de 1962 do James Jones, do conflito em Guadalcanal durante a Segunda Guerra Mundial.


Drama, Guerra, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6   METASCORE: 7,8
80%Tomatometer106 Reviews   80%Popcornmeter


Uma meditação lírica sobre a guerra que transforma o campo de batalha em paisagem da alma humana.


🌿 A Guerra como Experiência Interior

Em Além da Linha Vermelha (1998) — The Thin Red Line —, o diretor Terrence Malick reinventa o filme de guerra ao deslocar o foco da estratégia militar para a dimensão espiritual do conflito. Ambientado durante a Batalha de Guadalcanal na Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha um pelotão do exército americano enquanto atravessa não apenas a selva do Pacífico, mas também dilemas existenciais profundos.


🧠 Muitos Homens, Muitas Consciências

A narrativa coral abandona o protagonismo tradicional para mergulhar nos pensamentos fragmentados dos soldados. Vozes em off poéticas revelam medo, deslumbramento, culpa e perplexidade diante da violência. Malick constrói assim um mosaico de consciências que questiona a própria natureza da guerra e da condição humana.


🎬 Natureza, Luz e Contemplação


Visualmente, o filme se destaca pela fotografia deslumbrante e pelo uso contemplativo da paisagem natural. A selva não é apenas cenário, mas contraponto filosófico à destruição humana. A câmera flui com suavidade quase meditativa, enquanto a montagem privilegia associações sensoriais em vez de progressão dramática convencional, marcando uma ruptura importante dentro do gênero bélico.


🏆 Recepção e Legado

Além de ter vencido o Urso de Ouro, Além da Linha Vermelha tornou-se uma das obras de guerra mais influentes do cinema moderno e foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Indicado a sete Oscars, o filme consolidou o retorno de Terrence Malick após duas décadas de silêncio e redefiniu as possibilidades poéticas do cinema de guerra. Hoje, é frequentemente citado como contraponto filosófico a narrativas bélicas mais tradicionais.


🌌 A Linha Invisível

Ao final, o filme sugere que a verdadeira “linha vermelha” não separa exércitos, mas atravessa o próprio coração humano. Entre a beleza da natureza e a brutalidade do combate, Malick deixa uma pergunta suspensa no ar: o que, afinal, a guerra revela sobre quem somos?

 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Neblina e Sombras (1991) Shadows and Fog - 1 h 25 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Com um estrangulador em série à solta, um contador vagueia pela cidade em busca do grupo de vigilantes com a intenção de capturar o assassino.


Neblina e Sombras (1991) - IMDb
Dir: Woody Allen
Comédia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,7
54%Tomatometer26 Reviews   55%Popcornmeter


Neblina e Sombras é um dos filmes mais radicais, estilizados e conscientemente artificiais de Woody Allen. Inspirado diretamente no expressionismo alemão e nos primórdios do cinema de horror e suspense, o longa transforma uma história de assassinato serial em farsa existencial, onde medo, culpa e absurdo se misturam sob uma névoa permanente.

É menos um filme narrativo e mais um exercício estético-filosófico.

Expressionismo como estado de espírito

Filmado inteiramente em preto e branco e repleto de sombras angulosas, cenários distorcidos e ruas artificiais, Neblina e Sombras recria um mundo que parece saído de O Gabinete do Dr. Caligari ou M, o Vampiro de Düsseldorf.
A cidade não é realista: é um labirinto mental, onde tudo parece provisório, ameaçador e instável.

Allen utiliza o expressionismo não como homenagem vazia, mas como forma de traduzir uma ideia central:
👉 o medo antecede os fatos.


O assassino como desculpa narrativa


Embora haja um serial killer à solta, o crime nunca ocupa o centro dramático. O assassino funciona como pretexto para expor a paranoia coletiva, a histeria social e a facilidade com que comunidades aceitam soluções arbitrárias diante do pânico.

A busca pelo culpado é caótica, desorganizada e frequentemente absurda — mais próxima de uma caça às bruxas do que de uma investigação racional.

O homem comum diante do absurdo


O protagonista é um sujeito tímido, covarde e deslocado, arrastado involuntariamente para a perseguição ao assassino. Ele não possui coragem, liderança ou clareza moral — apenas medo.

Allen transforma esse personagem em símbolo do indivíduo comum diante de sistemas irracionais: polícia, justiça, multidão. O terror não vem apenas do crime, mas da resposta coletiva a ele.

Violência sem heroísmo

Em Neblina e Sombras, não existe heroísmo clássico. Ninguém assume responsabilidade plena; ninguém compreende o que está acontecendo. A violência surge de maneira abrupta e sem catarse, reforçando a ideia de um mundo onde a lógica falhou.

Allen retira qualquer glamour do suspense. O medo não é excitante — é desgastante.


Circo, desejo e fuga


O universo do circo, presente no filme, funciona como contraponto simbólico à cidade opressiva. Ali existe movimento, erotismo, liberdade instável. Mas mesmo esse espaço é precário, ameaçado, transitório.

A fuga não oferece salvação definitiva — apenas adiamento.

Humor nervoso e deslocado


O humor do filme é estranho, quase deslocado. Piadas surgem em meio à tensão, criando desconforto em vez de alívio. Allen ri do medo, não para neutralizá-lo, mas para expor sua irracionalidade.

Esse riso nervoso aproxima o filme do teatro do absurdo.

Um filme sobre culpa difusa

Diferente de Crimes e Pecados, onde a culpa é individual e moral, aqui ela é coletiva e atmosférica. Todos se sentem ameaçados; todos são potencialmente culpados; ninguém entende o motivo.

A neblina não encobre apenas a cidade — encobre a responsabilidade.

Um dos filmes mais experimentais de Allen


Neblina e Sombras
não busca agradar. Sua artificialidade é extrema, seu ritmo é estranho, sua narrativa é fragmentada. Trata-se de um filme conscientemente anticomercial, que exige do espectador disposição para entrar num mundo de referências, metáforas e sensações.

Síntese final

Neblina e Sombras é uma fábula sombria sobre medo, paranoia e impotência humana. Um filme que utiliza o passado do cinema para falar de um mal permanente:
a facilidade com que o pânico substitui o pensamento.

Na obra de Woody Allen, ocupa um lugar singular e corajoso:
um gesto de ruptura formal e conceitual, onde o riso não conforta e a sombra nunca se dissipa.

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sábado, 27 de dezembro de 2025

Deus da Carnificina (2011) Carnage - 1 h 20 min

Mostra Roman Polanski - Cinema do Cerco

Dois casais têm uma reunião cordial depois que os filhos se envolvem em uma briga, embora, à medida que passam o tempo juntos, o comportamento cada vez mais infantil leva a discussão ao caos.


Deus da Carnificina (2011) - IMDb
Dir: Roman Polanski
Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 6,1
71%Tomatometer197 Reviews   66%Popcornmeter

Em Deus da Carnificina, Roman Polanski leva ao extremo um de seus gestos mais recorrentes: confinar adultos civilizados em um espaço mínimo até que as máscaras sociais se desfaçam. Adaptando a peça de Yasmina Reza, o diretor transforma um encontro aparentemente cordial em um tribunal doméstico onde linguagem, moral e boas maneiras entram em colapso.

Aqui, o cerco é verbal — e por isso mesmo devastador.


Um apartamento como arena

Toda a ação se passa em um único apartamento. Dois casais se reúnem para “resolver” civilizadamente um conflito entre seus filhos. O que começa como negociação racional logo se converte em combate retórico, onde cada argumento expõe ressentimentos, inseguranças e hierarquias invisíveis.

Polanski filma o espaço como armadilha moral: quanto mais os personagens tentam sair, mais afundam na própria agressividade.


A civilidade como performance

O filme desmonta a ideia de civilização como valor interior. Educação, discurso progressista, empatia e correção política surgem como performances frágeis, mantidas apenas enquanto não são testadas. Bastam pequenas frustrações para que a violência simbólica irrompa.

Não há inocentes. Todos participam do jogo — e todos o alimentam.


Linguagem como arma


Em Carnage, a palavra substitui o punho. Interrupções, ironias, acusações veladas e mudanças de tom funcionam como golpes. Polanski dirige os diálogos com precisão rítmica, explorando pausas e sobreposições para tornar o confronto inescapável.

O humor — ácido e cruel — não alivia: expõe.


O mundo como tribunal permanente


Cada personagem julga e é julgado o tempo todo. Não há juiz imparcial, apenas veredictos momentâneos que mudam conforme alianças circunstanciais. O filme sugere que a vida social contemporânea opera assim: todos observam, todos avaliam, ninguém absolve.

A noção de consenso é ilusória; o conflito é estrutural.


Teatro filmado, cinema afiado


Embora fiel à origem teatral, Polanski utiliza o cinema para intensificar o claustro: enquadramentos fechados, movimentos mínimos, exploração do fora de campo. O riso nasce da proximidade excessiva — e do reconhecimento incômodo.

A encenação controlada revela o absurdo da racionalidade moderna quando confrontada com o ego.


Lugar na obra de Polanski

Deus da Carnificina integra a fase final do diretor, marcada por julgamento, poder e confrontos sem saída. Dialoga diretamente com Vênus em Pele e Baseado em Fatos Reais, onde a palavra e a performance se tornam instrumentos de dominação.

Se antes o cerco vinha de paredes, sistemas ou história, aqui ele surge da convivência civilizada.


Conclusão


Deus da Carnificina
é uma comédia sem reconciliação e um drama sem vítimas claras. Polanski afirma, com ironia cortante, que a barbárie não está fora da cultura — ela a habita. Quando o verniz cai, resta o que sempre esteve ali: o desejo de vencer, humilhar e julgar.

É um filme curto, preciso e implacável — um retrato de um mundo em que o tribunal nunca se fecha.

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domingo, 12 de outubro de 2025

Chicago (2002) - 1 h 53 min

ENTRE O RECONHECIMENTO E O TEMPO: Uma interpretação crítica da história do Oscar

Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) é uma famosa dançarina que é também a principal atração da boate onde trabalha. Após matar seu marido, Velma entra em uma seleta lista de assassinas de Chicago, a qual é controlada por Billy Flynn (Richard Gere), um advogado que busca sempre se aproveitar ao máximo da situação. Ao contrário do se esperava, o assassinato faz com que a fama de Velma cresça ainda mais, tornando-a uma verdadeira celebridade do showbizz. Enquanto isso a aspirante a cantora Roxie Hart (Renée Zellweger) sonha com um mundo de glamour e fama, até que mata seu namorado após uma briga. Billy fica sabendo do crime e decide adiar ao máximo o julgamento de Velma, de forma a poder explorar os dois assassinatos ao máximo nos jornais. Assim como ocorreu com Velma, Roxie também se torna uma estrela por causa de seu crime cometido, iniciando uma disputa entre as duas pelo posto de maior celebridade do meio artístico.


Dir: Rob Marshall
Crime Verdadeiro, Comédia, Musical


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 8,1
Flick Metrix: 79   Criticker Average Percentile: 49%
87%Tomatometer260 Reviews   83%Popcornmeter

O Espetáculo como Julgamento

Dirigido por Rob Marshall, Chicago (2002) constrói sua narrativa a partir da fusão entre realidade e espetáculo. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, o longa organiza o universo jurídico e midiático como extensão do palco, em que verdade e performance se tornam indistinguíveis.


O Crime como Performance


As personagens não apenas vivem seus atos — elas os encenam. O julgamento não é busca por verdade, mas construção de narrativa.

O filme articula:

  • espetáculo
  • manipulação
  • visibilidade

A culpa é menos importante do que a apresentação.


O Palco como Realidade

Os números musicais não interrompem a narrativa — eles traduzem a percepção das personagens. O mundo é filtrado pela lógica do espetáculo.

A encenação constrói:

  • alternância entre fantasia e realidade
  • estilização constante
  • integração entre música e narrativa

Entre Ironia e Repetição

A estrutura do filme se baseia na repetição de um mecanismo:

  • crime
  • exposição
  • manipulação da opinião pública

Esse padrão produz impacto inicial, mas com o tempo revela previsibilidade.


A Forma como Conceito


A força do filme reside em sua ideia central: tudo é espetáculo. A encenação reforça esse conceito de maneira consistente.

No entanto:

  • a dependência do conceito limita variações
  • a experiência torna-se mais mecânica
  • a surpresa diminui

Entre Energia e Limitação

O filme mantém dinamismo e ritmo, mas sua estrutura revela um funcionamento fechado. A inventividade inicial não se expande ao longo da narrativa.

O espetáculo sustenta — mas também restringe.


O Tempo que Revela Limites

Inserido no Bloco 3: O Tempo que Revela Limites da mostra ENTRE O RECONHECIMENTO E O TEMPO: Uma interpretação crítica da história do Oscar, Chicago mantém sua energia e estilo, mas expõe com maior clareza sua construção.

Com o passar do tempo:

  • seu impacto permanece
  • sua estrutura revela repetição
  • seu conceito mostra limites

O filme não perde sua eficácia — mas se torna mais previsível.


Leitura Crítica

Chicago resiste como um musical estilizado e inteligente, capaz de articular crítica social e entretenimento em uma forma visualmente marcante. Seu Oscar reconhece essa capacidade de integrar linguagem e conceito.

Para o espectador contemporâneo, no entanto, o filme pode parecer excessivamente dependente de seu dispositivo central, com pouca variação ao longo do tempo. Sua força permanece na energia e na encenação, mas seus limites tornam-se evidentes na repetição estrutural.

Ele não é um filme que o tempo corrige — é um filme que o tempo revela, expondo as engrenagens de seu próprio espetáculo.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Licorice Pizza (2021) - 2 h 13 min

A história de Alana Kane e Gary Valentine crescendo, correndo por aí e percorrendo o difícil caminho do primeiro amor em San Fernando Valley em 1973.


Dir: Paul Thomas Anderson
Amadurecimento, Comédia Romântica, Drama de Época, Romance Alegre


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 9,0
90%Tomatometer326 Reviews   65%Popcornmeter


“Licorice Pizza” (2021) é um dos filmes mais calorosos, livres e encantadores de Paul Thomas Anderson. Uma celebração da juventude, da descoberta, dos equívocos e das emoções confusas que moldam quem somos. Ambientado no Vale de San Fernando dos anos 1970, o filme mistura nostalgia, humor, romance torto e aventuras caóticas para criar um retrato vibrante de uma era e de uma geração.


Enredo

A história acompanha Gary Valentine, um adolescente de 15 anos ousado, empreendedor e cheio de autoconfiança, que conhece Alana Kane, uma mulher de 25 anos que ainda não encontrou um rumo claro para sua vida. Entre eles nasce uma relação improvável e irresistível: amizade, briga, carinho, tensão romântica, cumplicidade, tudo embaralhado de forma orgânica e sincera.

Gary vive inventando negócios mirabolantes: distribuição de colchões d’água, participação em feiras de invenção, uma empresa de marketing improvisada. Alana, simultaneamente fascinada e frustrada por sua própria vida, acaba sendo sugada por esse espírito aventureiro. Juntos, cruzam Los Angeles em histórias cada vez mais absurdas que envolvem:

  • estrelas decadentes de Hollywood,
  • políticos ambiciosos,
  • atores excêntricos,
  • crises de combustível,
  • e grandes e pequenas desventuras juvenis.

A narrativa é solta, episódica, cheia de acontecimentos inesperados e encontros improváveis como a própria vida costuma ser aos 15 ou aos 25.


Temas Centrais

1. A juventude como combustão

Gary representa o impulso, a audácia, a fantasia.
Alana, o desejo de reencontrar algo que perdeu ao crescer.

O filme captura a energia elétrica da juventude, aquela fase em que tudo parece possível, mesmo quando nada faz muito sentido.

2. Identidade, amadurecimento e crise existencial

Alana vive no limbo: jovem demais para se sentir adulta, velha demais para se misturar aos adolescentes. A relação com Gary a coloca diante de suas próprias inseguranças e desejos.

3. Amor torto, mas verdadeiro

A relação entre eles evita fórmulas convencionais. Não é exatamente romance, nem exatamente amizade. É algo entre, com movimentos de aproximação e afastamento, como marés emocionais.

4. Los Angeles dos anos 70 como personagem

Anderson recria o Vale de San Fernando com detalhes vivos:

  • trilhas sonoras carregadas de soul, rock e pop da época
  • luz dourada e nostálgica
  • bairros, lojas, escolas e ruas carregadas de memória

A cidade parece respirar junto dos personagens.

5. A espontaneidade da vida

Ao contrário de narrativas rígidas, “Licorice Pizza” abraça o caos. Pequenas decisões mudam tudo; encontros casuais viram grandes aventuras; a vida acontece sem pedir permissão.


Estilo e Direção

Paul Thomas Anderson resgata aqui uma leveza que dialoga com seus primeiros filmes, mas com a maturidade de um diretor completamente no controle.

Seu estilo se destaca por:

  • câmera fluida, sempre acompanhando os personagens com intimidade;
  • composição visual rica, quente, de atmosfera retrô;
  • humor naturalista, nascido das interações e não de piadas;
  • trilha sonora pulsante, que guia o ritmo emocional da narrativa.

A estética evoca o cinema de Robert Altman, Hal Ashby e filmes adolescentes dos anos 70, tudo filtrado pela sensibilidade própria de PTA.


Atuações

  • Cooper Hoffman (estreante e filho de Philip Seymour Hoffman) é carismático e genuíno como Gary.
  • Alana Haim (também estreando como atriz) entrega uma das performances mais surpreendentes do ano: intensa, humana, engraçada, cheia de nuances.
  • Participações especiais de Bradley Cooper, Sean Penn e Tom Waits adicionam caos cômico e momentos icônicos ao filme.

Impacto e Significado

“Licorice Pizza” é um filme sobre crescer, mas também sobre não querer crescer.
Sobre amar alguém sem saber exatamente o que isso significa.
Sobre se perder e se reencontrar, repetidamente.

É leve e profundo, nostálgico e moderno, realista e cheio de fantasia. Um abraço cinematográfico que captura o espírito de uma época e de uma fase da vida.

No fim, é uma história sobre duas pessoas imperfeitas que, juntas, descobrem algo raro: uma conexão verdadeira.

 

d fresh score.