Solange está mergulhada numa profunda depressão, e seu bondoso marido, Raoul, faz de tudo para curá-la. Após muitas tentativas frustradas de animá-la, Raoul encontra uma possível solução: arranjar um amante para a esposa. Infelizmente, sua escolha, Stéphane, se mostra tão ineficaz quanto ele em reanimá-la. No fim, a bela Solange encontra sua própria e problemática solução para seus problemas na forma de um garoto de 13 anos.
Preparem seus Lenços (1978) - IMDbDir: Bertrand Blier
Comédia, Drama, Romance
MP4 / SD+ / LEG: Português
IMDB: 6,9
Preparem Seus Lenços é um dos filmes mais
espirituosos, estranhos e subversivos da carreira de Bertrand Blier — cineasta
conhecido por brincar com tabus, com as convenções do amor e com a própria
estrutura narrativa do cinema francês dos anos 1970. Aqui, Blier entrega uma comédia
agridoce que, sob a aparência de leveza, discute frustração afetiva, crise
identitária masculina e a busca desesperada por sentido.
Enredo
O filme começa focado em Raoul (Gérard Depardieu), um
homem inquieto e quase neurótico que acredita que sua esposa Solange (Carole
Laure) está infeliz. Obcecado em “curá-la” de sua apatia, Raoul chama um
estranho — Stéphane (Patrick Dewaere) — para ajudá-lo a satisfazê-la
emocionalmente e sexualmente. A partir daí, forma-se um trio improvável que
questiona todo o modelo burguês de relacionamento.
A narrativa, porém, toma um rumo ainda mais inesperado
quando surge Christian (Riton Liebman), um adolescente prodígio que
desperta em Solange uma forma de realização até então inalcançável. É um golpe
na vaidade dos adultos: quem dá sentido à vida dessa mulher não é nem o marido,
nem o amante escolhido, mas um garoto que lê Tolstói e enxerga o mundo com uma
lucidez desconcertante.
Blier usa esses encontros para desmontar a masculinidade
ferida de Raoul e Stéphane, mesmo que ambos sobrevivam em meio a um humor
absurdo e melancólico.
Temas centrais
1. A falência das expectativas românticas
O filme ironiza a tendência masculina de acreditar que pode
“salvar” uma mulher. Raoul e Stéphane tentam moldar Solange conforme suas
próprias inseguranças — e falham.
2. O desejo feminino como enigma
Solange não é necessariamente infeliz: ela é incompreendida.
Seu silêncio funciona como crítica ao modo como os homens projetam suas
fantasias sobre ela.
3. Sátira social e existencial
A presença de Christian, o adolescente, funciona como quebra
da lógica moral. Blier questiona a maturidade, o amor e a inteligência de forma
irreverente.
4. Humor absurdo e libertador
A comédia surge do descompasso entre sentimentos verdadeiros
e comportamentos irracionais. Situações desconfortáveis são tratadas como
comédia de costumes, mas sempre com um fundo de crítica.
Estilo e direção
Blier combina diálogos rápidos e situações delirantes com
uma sensação de improviso. Nada no filme é convencional: a narrativa parece
caminhar por desvios, como se seguisse a lógica emocional dos personagens, e
não uma estrutura clássica.
A fotografia de Bruno Nuytten é suave, quase romântica,
contrastando com a bizarrice das ações dos personagens. A trilha de Mozart,
usada como contraponto irônico, intensifica o tom de farsa sofisticada.
Recepção
Preparem Seus Lenços recebeu aclamação crítica e
venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1979. Ao mesmo tempo, é
considerado um filme peculiar e provocativo, especialmente devido ao romance
entre uma mulher adulta e um adolescente — tema que hoje causa desconforto e
debates éticos.
Mesmo assim, o filme permanece como um exemplar único do
cinema francês: ousado, elegante, desconcertante e movido por uma lógica
emocional que mistura poesia, loucura e uma estranha ternura.
ATENÇÃO: SPOILER
Explorando o final de Preparem Seus Lenços
No desfecho do filme, Solange — por muito tempo tratada como
um enigma pelos homens ao seu redor — finalmente encontra uma forma de
plenitude. E essa plenitude não vem de Raoul, tampouco de Stéphane, mas do
adolescente Christian, cuja sensibilidade, inteligência precoce e introspecção
emocional conectam-se a ela de maneira libertadora.
A conclusão inverte completamente a lógica afetiva
apresentada no início do filme: o marido e seu cúmplice acreditavam que sabiam
o que Solange queria e precisavam “curá-la”. Mas é justamente quando ela escapa
dessa tutela masculina que encontra sentido para sua vida.
1. A inversão definitiva dos papéis masculinos
No final, Raoul e Stéphane são figuras quase patéticas — não
por ridicularização gratuita, mas porque representam um modelo de masculinidade
que fracassa ao tentar controlar o desejo alheio. Eles passam o filme todo
tentando “resolver” Solange, como se ela fosse um problema a ser decifrado.
O final mostra que ela nunca precisou deles para ser
feliz. A verdadeira ferida deles não é a perda amorosa, mas o choque
narcisista: eles não são mais indispensáveis.
Blier transforma os homens em espectadores atônitos —
incapazes de compreender por que foram descartados.
2. A afirmação do desejo feminino — num contexto
moralmente ambíguo
O final parte de uma provocação extrema: Solange é
plenamente despertada por um adolescente, um gênio triste e sensível. Essa
relação, evidentemente controversa e problemática sob a ótica atual, é tratada
no filme como metáfora satírica.
Solange encontra alguém que realmente a escuta, a lê, a
sente — alguém que não projeta sobre ela suas inseguranças.
Interpretar literalmente seria reducionista. O que o filme
propõe é:
Solange encontra completude fora da estrutura patriarcal
que a sufocava.
Christian simboliza o despertar de uma subjetividade
reprimida, e não uma defesa de relações inadequadas.
3. A cena final: a plenitude silenciosa
A última imagem de Solange é de serenidade — uma mulher que
finalmente não está em estado de apatia, que não é mais espectadora da própria
vida. Ela se torna ativa, ainda que através de um gesto narrativo ousado e
moralmente desconfortável.
Já Raoul e Stéphane, ao olharem para ela, não entendem nada.
Eles passaram o filme todo falando, discutindo, propondo soluções, mas nunca
escutaram Solange. O final evidencia essa incapacidade fundamental.
4. A ironia amarga de Bertrand Blier
O diretor encerra o filme com sua marca registrada: humor
ácido, provocação e desconstrução da moralidade social.
A mensagem não é que Solange “precisava” de um adolescente,
mas que os homens ao redor dela não tinham a mínima ideia de quem ela era.
O final, portanto, serve como sátira:
- à
masculinidade ansiosa e controladora,
- aos
modelos românticos tradicionais,
- à
incapacidade masculina de aceitar a autonomia feminina,
- à
tentativa de “consertar” o outro ao invés de compreender.
5. Ambiguidade deliberada
O filme se encerra sem respostas claras — típico de Blier.
Ele não diz se a relação entre Solange e Christian será duradoura, saudável ou
sustentável. Ele deixa apenas a imagem desse encontro improvável como uma
pequena epifania: uma ruptura com a ordem previsível das coisas.
O objetivo é o choque, a reflexão, a ironia — e o
desconforto.
O final é aberto, mas cheio de significados:
Solange se encontra. Os homens se perdem.