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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Lenda do Santo Beberrão (1988) La leggenda del santo bevitore - 2 h 8 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um homem alcoólatra em situação de rua recebe duzentos francos de um estranho, que pede que, quando puder, devolva o dinheiro a Santa Teresa na catedral.


Drama


MEGA 1 (2 arquivos)
MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,1
85%Popcornmeter


A Lenda do Santo Beberrão (La leggenda del santo bevitore) é uma parábola humanista dirigida por Ermanno Olmi que transforma a marginalidade em espaço de graça e o acaso em possibilidade ética. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 1988, o filme se impôs como uma das obras mais serenas e comoventes do cinema europeu dos anos 1980.

Um milagre cotidiano

Ambientado em Paris, o filme acompanha Andreas Kartak, um sem-teto alcoólatra que recebe de um desconhecido uma quantia de dinheiro com uma única condição: devolvê-la, quando puder, à imagem de Santa Teresa numa igreja próxima. A partir desse gesto mínimo, Olmi constrói uma narrativa de pequenos milagres, encontros fortuitos e oportunidades que surgem — e se dissipam — com a mesma delicadeza.

A promessa não é um contrato moral rígido, mas um fio de dignidade que mantém Andreas ligado ao mundo.


O acaso como misericórdia

Diferentemente de narrativas de redenção tradicionais, A Lenda do Santo Beberrão não exige transformação radical do protagonista. Andreas não “supera” o alcoolismo nem se reintegra plenamente à sociedade. O filme prefere observar como o acaso — uma ajuda inesperada, um encontro, um copo compartilhado — pode funcionar como forma de misericórdia, sem julgamento.

O dinheiro retorna várias vezes às mãos de Andreas, e sempre escapa antes de cumprir seu destino, numa coreografia que mistura ironia e compaixão.


Corpo cansado, alma intacta

Interpretado com extraordinária contenção por Rutger Hauer, Andreas é um corpo gasto, mas não degradado. Olmi filma seu caminhar lento, seus silêncios e sua cortesia insistente como sinais de uma nobreza residual. A cidade de Paris surge menos como cenário turístico e mais como espaço de passagem, onde pontes, bares e igrejas acolhem sem perguntar.




Espiritualidade sem dogma

Baseado no conto homônimo de Joseph Roth, o filme articula uma espiritualidade laica e concreta. A fé não se manifesta em discursos, mas em gestos: cumprir a palavra, agradecer, reconhecer o outro. Olmi recusa o moralismo e aposta numa ética do cuidado, em que a santidade é possível mesmo — ou sobretudo — na falha.



Por que o Leão de Ouro

Ao premiar A Lenda do Santo Beberrão, Veneza reconheceu:

  • um cinema de compaixão sem sentimentalismo;
  • a elegância formal de uma narrativa simples e rigorosa;
  • a capacidade de falar de fé, acaso e dignidade humana fora de qualquer dogma.

👉 A Lenda do Santo Beberrão é um filme sobre graça tardia — aquela que não salva o mundo, mas torna a vida suportável. Um Leão de Ouro que permanece atual por lembrar que a dignidade humana não se mede pela correção dos atos, e sim pela delicadeza com que se atravessa o fracasso.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Batman Begins (2005) - 2 h 20 min

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo

CHRISTOPHER NOLAN: O Arquiteto dos Sonhos Cinematográficos


Batman Begins (2005) - IMDb
Dir: Christopher Nolan
Ação, Super-Herói, Drama Psicológico, crime, suspense

MP4 / HD- / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 8,2   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 7,6   CLC Balanced Rating: 7,8
85%Tomatometer

Bruce Wayne passou anos tentando entender o próprio medo. Quando entendeu, vestiu o medo e o devolveu para Gotham.


Reconstruir um personagem do zero

Em 2005, Batman era uma propriedade que Hollywood havia exaurido. Batman & Robin, de 1997, tinha deixado a franquia num estado que parecia irrecuperável: tom de pastiche, visual de brinquedo, personagens reduzidos a piada. Christopher Nolan recebeu o projeto com uma proposta que parecia simples e era radical: tratar Batman como personagem dramático, não como ícone de quadrinhos. A origem da história não seria pretexto para chegar mais rápido à ação. Seria o filme.

Batman Begins dedica boa parte do tempo de tela ao Bruce Wayne que ainda não é Batman: o trauma da morte dos pais, os anos de treinamento na Liga das Sombras, a relação com Henri Ducard e Ra's al Ghul, a construção lenta de um código moral antes da construção do traje. Nolan e o co-roteirista David Goyer apostaram que o público aceitaria esperar pelo Batman se o que viesse antes fosse suficientemente sólido. A aposta funcionou porque o que vem antes é o argumento do filme.


O medo como tema central

O Espantalho, interpretado por Cillian Murphy, é o vilão escolhido para um filme sobre medo, e a escolha não é arbitrária. Jonathan Crane usa uma toxina que materializa os medos mais profundos de quem a inala, e o filme constrói em torno dessa ideia uma estrutura temática que conecta vilão e herói: Bruce Wayne também transformou o próprio medo em instrumento, mas para proteger em vez de aterrorizar. A diferença entre os dois é de propósito, não de método, e o filme deixa essa simetria implícita sem precisar declará-la.

Liam Neeson como Ducard constrói um mentor que oferece a Bruce exatamente o que ele precisa e, ao mesmo tempo, algo que ele precisa recusar. A Liga das Sombras propõe justiça através do medo absoluto, sem limites morais, e a recusa de Bruce em seguir esse caminho até o fim é o momento em que o personagem se torna Batman em vez de se tornar outra coisa.


Gotham como personagem

Nolan filmou Gotham City com uma escala e uma textura que nenhum filme anterior da franquia havia tentado. A cidade é vertical, decadente, dividida entre a riqueza visível e a corrupção que sustenta tudo por baixo. O monorail elevado que cruza a cidade torna-se central ao clímax do filme e essa integração entre arquitetura urbana e narrativa é uma das contribuições mais duradouras de Nolan ao gênero.

A fotografia de Wally Pfister evita a estilização gótica exagerada dos filmes de Tim Burton sem abandonar completamente a atmosfera sombria que o personagem pede. O resultado é uma Gotham que parece uma cidade real em crise, não um cenário expressionista, e essa escolha visual ancora o tom realista que o filme persegue em todos os outros aspectos.


Christian Bale e os dois homens

Christian Bale interpreta Bruce Wayne e Batman como duas performances distintas, e a distância entre elas é parte do argumento do filme. O Bruce Wayne público, o playboy displicente que a sociedade de Gotham conhece, é uma máscara tão deliberada quanto o traje de Batman. Bale constrói os dois registros com uma consistência que torna a transformação física e vocal de Batman menos um truque e mais uma extensão lógica de um homem que já vivia escondido atrás de uma performance antes de existir qualquer traje.

Michael Caine como Alfred e Gary Oldman como Jim Gordon completam o filme com performances que ancoram Bruce Wayne em relações humanas reais, algo que os filmes anteriores da franquia raramente haviam priorizado.


O que Batman Begins mudou

Batman Begins não foi apenas um reboot bem-sucedido. Estabeleceu um modelo de como tratar material de quadrinhos com seriedade dramática sem abandonar a escala do blockbuster, e esse modelo influenciou praticamente todo o cinema de super-heróis que veio depois, para o bem e para o mal. O filme também redefiniu o que se esperava de um filme de origem: não um prólogo apressado, mas uma história completa sobre como um homem se torna o que se torna.

Vinte anos depois, Batman Begins permanece como o ponto em que o gênero de super-heróis decidiu que podia ser tratado como cinema, e não apenas como adaptação de quadrinhos para a tela.