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terça-feira, 19 de maio de 2026

O Sucesso a Qualquer Preço (1992) Glengarry Glen Ross - 1 h 40 min

 Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Comédia de Humor Negro, Drama Financeiro, Drama no Trabalho, Crime, Mistério

MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,6   METASCORE: 8,4
Letterboxd: 7,8   Flick Metrix: 8,1
95%Tomatometer60 Reviews

Sempre esteja fechando. Os que não fecham não existem.

Mamet e a linguagem como arma

David Mamet escreveu Glengarry Glen Ross como peca teatral em 1983 e ganhou o Premio Pulitzer no ano seguinte. A adaptação cinematográfica de James Foley em 1992 adicionou uma cena de abertura que não existe na peça original, o monólogo de Alec Baldwin como o executivo da matriz que chega para informar as regras do concurso de vendas, e essa adição é a decisão mais importante do filme porque estabelece o sistema antes de mostrar as pessoas que funcionam dentro dele.

O monólogo de Baldwin dura cerca de sete minutos e é uma das cenas mais citadas do cinema americano: uma demonstração de como a linguagem corporativa pode ser usada para humilhar, ameaçar e desumanizar enquanto tecnicamente permanece dentro dos limites do discurso profissional. Cada frase é simultaneamente motivacional e cruel, cada elogio é também um insulto, e a estrutura do discurso é projetada para fazer os corretores sentirem que a única saida da humilhação é vender mais, que é exatamente o que o sistema quer que eles sintam.

O elenco e o que cada um representa

Glengarry Glen Ross tem um dos elencos mais extraordinários do cinema americano dos anos 1990: Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris, Alan Arkin, Kevin Spacey e Alec Baldwin numa única sala de vendas durante menos de 24 horas. Foley usa esse elenco para construir um mapa humano do ambiente de alta pressão: cada personagem representa uma posição diferente dentro do sistema e uma forma diferente de responder à pressão que o sistema produz.

Ricky Roma, interpretado por Pacino, e o líder do ranking, o vendedor que internalizou completamente a lógica predatória do sistema e a aplica com uma fluência que é ao mesmo tempo impressionante e perturbadora. Shelly Levene, interpretado por Lemmon, é o vendedor que estava no topo há anos e que o declínio transformou em desespero: a cena em que Levene tenta subornar o gerente para conseguir acesso às melhores listas de clientes é uma das mais dolorosas do filme porque Lemmon filma a humilhação de um homem que está comprometendo o que resta da própria dignidade para sobreviver num sistema que decidiu que ele não serve mais.

Dave Moss, interpretado por Ed Harris, é o vendedor que responde à pressão com raiva e com um plano de roubar as listas de clientes da concorrência, e George Aaronow, interpretado por Alan Arkin, é o vendedor que acompanha Moss no plano sem entender completamente no que está se metendo. Os dois juntos representam o que o sistema produz quando a pressão ultrapassa o ponto em que as pessoas conseguem se manter dentro das regras: não vilania planejada, mas desespero que encontra uma saida disponível.

Kevin Spacey e o sistema personificado

John Williamson, o gerente interpretado por Kevin Spacey, é o personagem que o filme usa para mostrar o que o sistema produz quando funciona perfeitamente: um homem que aplica as regras sem julgamento moral, que protege os interesses da corporação sem questionar se esses interesses são legítimos, e que é odiado por todos os corretores precisamente porque representa o sistema que os está destruindo sem ser destruído por ele.

A cena em que Roma confronta Williamson após descobrir que uma venda foi comprometida pela incompetência do gerente é o momento em que o filme revela a lógica do sistema com mais clareza: Roma não está errado que Williamson errou, mas a forma como Roma articula o erro replica exatamente a lógica de humilhação e dominância que Baldwin havia estabelecido na abertura. O predador e o gerente são o mesmo sistema aplicado a posições diferentes.

A linguagem e o que ela faz

O que torna Glengarry Glen Ross extraordinário como objeto cinematográfico é que a linguagem de Mamet é ela mesma o argumento do filme. Os diálogos são um ambiente predatório. Cada conversa é uma negociação de poder, cada frase é simultaneamente informação e posicionamento, e o espectador que presta atenção ao ritmo dos diálogos vai percebendo que as mesmas técnicas que os corretores usam para vender imóveis para clientes que não precisam deles são as técnicas que usam uns com os outros o tempo todo.

Mamet entendeu que o ambiente de vendas de alta pressão não é um lugar onde pessoas se comportam de determinada forma, que produz uma linguagem própria e que essa linguagem, uma vez internalizada, torna-se a única forma disponível de se relacionar com o mundo. Os corretores de Glengarry Glen Ross não conseguem ter uma conversa que não seja uma venda porque o sistema os treinou para que qualquer interação seja uma oportunidade e qualquer pessoa seja um cliente potencial.

O que fica

Glengarry Glen Ross termina com o sistema continuando: o concurso de vendas vai para o próximo mês, as listas de melhores clientes vão continuar sendo o prêmio, e os corretores que sobreviveram vão continuar tentando sobreviver ao próximo ciclo. O filme não oferece saída do sistema porque não há alguma disponível dentro do quadro que escolheu mostrar: o sistema é total e as pessoas dentro dele só tem as opções que o sistema oferece. O que fica não é a história de nenhum personagem específico mas o mecanismo que o sistema usa para produzir esses personagens, e a consciência de que o mesmo mecanismo opera em qualquer ambiente que recompensa resultado sem questionar método.

Onde assistir: Glengarry Glen Ross está disponível na Filmoteca Seu Manolo e na Oldflix: O Sucesso a Qualquer Preço - Onde assistir. O filme tem 100 minutos em ambiente quase inteiramente interno que passam com a velocidade do thriller de diálogos. O espectador que tiver paciência para ouvir o que as palavras estão fazendo além do que estão dizendo vai encontrar o retrato mais preciso da lógica predatória do ambiente de vendas que o cinema americano produziu.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Uma Secretária de Futuro (1988) Working Girl - 1 h 53 min

Mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Comédia Romântica, Drama no Trabalho

MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,8   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 6,8   FlickMetrix: 7,1
83%Tomatometer48 Reviews


Tess McGill teve a ideia. Katherine Parker roubou a ideia. O sistema estava do lado de Katherine.


O contexto e o que ele significa

Working Girl foi lançado em 1988, no auge do boom financeiro de Wall Street que havia transformado o mercado de fusões e aquisições numa arena de ambição sem limite. Oliver Stone havia filmado Wall Street um ano antes com Gordon Gekko declarando que a ganância é boa. Mike Nichols respondeu com um filme sobre uma secretária de Staten Island que tinha uma boa ideia e uma chefe que a roubou, e a diferença entre as duas respostas ao mesmo ambiente diz algo importante sobre o que cada um dos dois diretores estava interessado em examinar: Stone filmou o topo da hierarquia, Nichols filmou o que acontece no meio.

Tess McGill é inteligente, ambiciosa e treinada num sistema que criou para ela um teto de vidro tão sólido que ela consegue ver através dele o lugar onde quer estar mas não consegue encontrar a porta. Katherine Parker é o que Tess poderia se tornar se tivesse nascido do outro lado de uma distinção de classe que o filme examina com uma precisão que a comédia romântica que o embala raramente permite.


Nichols e a comédia como instrumento de análise

Mike Nichols dirigiu Quem Tem Medo de Virginia Woolf e A Primeira Noite de um Homem antes de Working Girl, e trouxe para a comédia de escritório dos anos 1980 uma consciência de que o gênero pode carregar mais do que normalmente carrega. Working Girl usa os elementos da comédia romântica, a confusão de identidades, o amor improvável, o obstáculo que precisa ser removido, como estrutura para um argumento sobre classe, gênero e poder no ambiente profissional que a comédia romântica pura raramente articula.

A cena em que Tess descobre que Katherine havia roubado sua ideia é filmada com uma contenção que a torna mais eficaz do que qualquer confronto dramático seria: Tess está sozinha, Katherine está com a perna quebrada numa cama de hospital, e o roubo foi tão limpo que provar é quase impossível. Nichols entendeu que o poder de Katherine sobre Tess não reside na força mas na credibilidade: num sistema em que secretárias têm ideias e executivas as apresentam, a questão de autoria é sempre resolvida em favor de quem tem o título.


Melanie Griffith, Sigourney Weaver e Harrison Ford

Melanie Griffith como Tess constrói um personagem que o filme exige que seja simultaneamente ingênuo e inteligente, vulnerável e determinado, e que o espectador acredite nessa combinação sem que pareça inconsistente. Griffith resolve o problema pela fisicalidade: Tess ocupa o espaço de forma diferente dependendo do ambiente, retraída e pequena no escritório de Staten Island, expansiva e presente quando finalmente consegue o acesso ao mundo onde suas ideias têm valor.

Sigourney Weaver como Katherine é a grande surpresa do filme para quem chega esperando uma vilã simples: Katherine é inteligente, competente e completamente consciente do que fez. Não roubou a ideia de Tess por descuido ou por impulso: avaliou que poderia e que as consequências seriam mínimas, porque o sistema estava estruturado para dar razão a ela. Weaver interpreta Katherine com uma frieza que é mais perturbadora do que qualquer excesso dramático seria, porque é o tipo de frieza que os sistemas profissionais recompensam como profissionalismo.

Harrison Ford como Jack Trainer existe no filme com uma função que vai além do interesse romântico: é o homem que tem acesso ao sistema que Tess precisa acessar, e sua disposição de tratar a ideia de Tess como ideia de Tess quando descobre a verdade é o que torna a resolução do filme possível. Ford interpreta Jack com uma simplicidade que combina com o papel: um homem que não entende completamente o que Tess está navegando mas que, quando entende, decide estar do lado certo.


O final e o que ele promete e não promete

Working Girl termina com Tess numa posição que o sistema havia negado a ela durante todo o filme, com um escritório próprio, com uma assistente, com uma ideia implementada. A cena final, em que ela liga para a mãe de Staten Island e olha pela janela para o horizonte de Manhattan, é filmada com uma emoção que o filme ganhou pela honestidade do caminho que percorreu.

O que o filme não promete é que o sistema mudou. Tess chegou dentro do sistema usando as ferramentas do sistema, e o sistema que a havia excluído agora a inclui porque ela provou que consegue jogar pelas suas regras. Working Girl não é um filme sobre a transformação do sistema: é sobre uma mulher que encontrou uma forma de entrar num sistema que não havia sido projetado para ela, e que o fez sem perder completamente quem era. Essa distinção entre mudar o sistema e sobreviver dentro dele é o argumento mais honesto do filme, e Nichols a filma com uma satisfação que não é ingênua: Tess ganhou uma batalha dentro de uma guerra que ainda está acontecendo.

Onde assistir: Working Girl está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em ocasionalmente em plataformas de streaming no Brasil: Uma Secretária de Futuro - Veja onde assistir. O filme tem 113 minutos que passam com o ritmo da comédia bem executada. O espectador que chegar esperando apenas diversão vai encontrar algo mais preciso sobre o ambiente profissional do que a maioria dos dramas que se levam mais a sério.


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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (1997) Midnight in the Garden of Good and Evil - 2 h 35 min

A missão de um repórter que visita uma cidade de repente passa a ser em torno do julgamento por assassinato de um milionário local, de quem ele se torna amigo.


Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (1997) - IMDb
Dir: Clint Eastwood
Crime Verdadeiro, Drama, Mistério, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 5,6
50%Tomatometer38 Reviews   65%Popcornmeter


Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal é um dos filmes mais estranhos, atmosféricos e ambíguos da carreira de Clint Eastwood.


Inspirado no livro de John Berendt, o filme abandona a estrutura clássica do thriller judicial para se tornar um retrato etnográfico e moral de uma cidade, onde justiça, excentricidade, desejo e poder coexistem em permanente desequilíbrio.

É menos um filme sobre um crime do que sobre um lugar onde o bem e o mal se confundem por hábito.


Savannah como personagem central

Desde os primeiros minutos, fica claro que o verdadeiro protagonista do filme é Savannah, na Geórgia. Eastwood filma a cidade com olhar paciente e curioso, atento aos rituais sociais, aos sotaques, aos silêncios e às estranhezas.

Savannah não é exótica por espetáculo, mas por permanência:

  • tradições rígidas
  • hierarquias sociais implícitas
  • tolerância seletiva
  • julgamentos informais mais fortes que a lei

A cidade funciona como um organismo moral próprio, onde tudo é conhecido — e tudo é permitido, desde que mantidas as aparências.


O crime como pretexto

O assassinato de Billy Hanson Jr. (Jude Law) e o julgamento de Jim Williams (Kevin Spacey) fornecem a estrutura narrativa, mas nunca dominam o filme. Eastwood deliberadamente esvazia o suspense tradicional.

A pergunta central não é “quem matou?”, mas:

quem Savannah escolhe absolver?

O tribunal é apenas uma extensão ritualizada do julgamento social que a cidade pratica diariamente.


Um observador deslocado

John Kelso (John Cusack), jornalista vindo do Norte, funciona como ponto de entrada do espectador. Ele observa, anota, tenta compreender — mas nunca se integra completamente.

Eastwood o filma como testemunha passiva, incapaz de impor uma lógica externa àquele mundo. Seu olhar racional se dissolve diante da complexidade moral da cidade.


Personagens como mitos locais

A galeria de personagens é essencial para o filme:

  • Jim Williams, aristocrata carismático e enigmático
  • Lady Chablis, figura de provocação e liberdade
  • Minerva, a vidente marginalizada
  • artistas, advogados, herdeiros decadentes

Essas figuras não são tratadas como excêntricas caricaturais, mas como expressões legítimas de um ecossistema social peculiar.

Eastwood observa sem ironia, mas também sem sentimentalismo.


Estilo contido, atmosfera densa

A direção é deliberadamente clássica. A câmera raramente julga ou dramatiza. O ritmo é lento, quase contemplativo, permitindo que o desconforto surja naturalmente.

A fotografia quente e sombria reforça a sensação de suspensão moral — como se Savannah existisse fora do tempo histórico.


Justiça como teatro social

Um dos temas centrais do filme é a justiça enquanto performance. O julgamento não busca a verdade absoluta, mas a preservação da ordem social.

Eastwood sugere que:

  • a lei pode ser flexível
  • o poder redefine a culpa
  • o veredito é um pacto coletivo

Essa visão dialoga diretamente com Os Imperdoáveis e antecipa Richard Jewell.


Um final sem fechamento

O desfecho do filme recusa conclusões morais claras. Não há catarse, revelação definitiva ou lição explícita. A ambiguidade permanece — como permanece a cidade.

Esse gesto é coerente com o título: bem e mal não são opostos claros, mas jardins entrelaçados.


Lugar na obra de Clint Eastwood



Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal ocupa um lugar singular na filmografia do diretor:

  • é seu filme mais observacional
  • privilegia atmosfera sobre narrativa
  • expande seu interesse por justiça informal e poder simbólico

É uma obra de transição entre o melodrama íntimo (As Pontes de Madison) e o cinema institucional crítico dos anos 2000.


Conclusão

Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal é um filme sobre convivência com a ambiguidade. Clint Eastwood filma Savannah como um espaço onde a moral não se resolve — apenas se administra.

É um cinema que entende que, em certos lugares, a pergunta não é quem é culpado, mas quem pode ser.

 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Em Ritmo de Fuga (2017) Baby Driver - 1 h 53 min

DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão

Depois de ser obrigado a trabalhar para um chefe do crime, um jovem condutor se ve envolvido num assalto destinado a fracassar.


Em Ritmo de Fuga (2017) - IMDb
Dir: Edgar Wright
Ação do Carro, Filme de Assalto, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 8,6
Letterboxd: 7,4   Flick Metrix: 80
92%Tomatometer394 Reviews   86%Popcornmeter

O motorista ouve música o tempo todo. O filme também. E tudo se encaixa no ritmo.


Wright e a sincronização como linguagem

Baby Driver é o resultado de uma ideia que Edgar Wright teve décadas antes de conseguir financiamento para executá-la: fazer um filme de ação onde cada movimento fosse coreografado com a trilha sonora com a mesma precisão que um musical coreografa seus números. A execução dessa ideia exigiu um processo de produção invertido: a trilha foi montada antes das filmagens, e as sequências de ação foram planejadas para encaixar nos beats específicos de cada música. O resultado é um filme que parece espontâneo e foi o mais planejado possível.

A trilha como personagem

A seleção musical de Baby Driver, que vai de Jon Spencer Blues Explosion a Simon & Garfunkel passando por Queen e Focus, não é apenas curation de bom gosto: é narrativa. As músicas que Baby escolhe para cada situação dizem algo sobre seu estado interno de forma que o roteiro não precisa explicar. Wright usa a trilha com a inteligência de um cineasta que entende que a relação entre imagem e som no cinema é sempre dramaturgia, e que a escolha de qual som acompanha qual imagem é uma das decisões mais importantes que um diretor pode tomar.

Ansel Elgort e o centro calmo

Baby é um personagem construído em torno de uma contradição: o motorista de fuga mais habilidoso do circuito é também o mais vulnerável, o mais deslocado, o único que não quer estar onde está. Ansel Elgort comunica essa contradição com uma economia expressiva que é a escolha certa para um personagem que prefere a música às palavras. O zumbido nos ouvidos que justifica os fones é detalhe médico mas é também metáfora: Baby está tentando abafar um mundo que é barulhento demais para habitar sem proteção.

Jamie Foxx, Jon Hamm e Kevin Spacey como o mundo ao redor

Os personagens que cercam Baby existem num espectro que vai do carisma calculado de Hamm ao caos de Foxx, com Spacey no centro como o operador que orquestra o sistema sem nunca se sujar. Wright usa esse elenco para construir o ambiente de coerção em que Baby opera: ele não escolhe o crime, é mantido nele por uma dívida que Doc usa como coleira. Essa dimensão de aprisionamento é o que torna Baby Driver, além de  um exercício de estilo, um filme sobre a dificuldade de sair de um sistema que não quer te deixar sair.

Onde assistir e o que esperar

Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O som é parte absolutamente essencial da experiência e o filme perde de forma significativa em dispositivos sem qualidade adequada. Baby Driver tem 113 minutos e uma estrutura que divide em dois momentos distintos: a primeira metade é puro prazer formal, a segunda introduz as consequências. A transição entre os dois registros é deliberada e funciona como argumento sobre o que acontece quando a música para.

O ritmo como argumento moral

Baby Driver é a versão mais contemporânea e mais formal do heist: um filme que usa a sincronização entre imagem e som para dizer algo sobre a experiência de seu protagonista que nenhuma quantidade de diálogo poderia expressar. Baby vive num mundo que só faz sentido quando tem ritmo, e Wright fez um filme que funciona pelo mesmo princípio. Quando o ritmo quebra, as consequências chegam. E no heist, como em qualquer outra coisa, o ritmo sempre quebra no momento menos oportuno.







sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Los Angeles: Cidade Proibida (1997) L.A. Confidential - 2 h 18 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)

A corrupção cresce em Los Angeles nos anos 50. Três policiais estão investigando uma série de assassinatos com sua própria marca de justiça.


Dir: Curtis Hanson
Detetive Obstinado, Drama Policial, Investigação Policial, Thriller de Conspiração, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 9,1
99%Tomatometer165 Reviews   94%Popcornmeter


L.A. Confidential (1997): O Noir do Cinismo Dourado e da Corrupção que Sustenta uma Cidade

Dirigido por Curtis Hanson, L.A. Confidential é um dos mais brilhantes neo-noirs do cinema moderno. Baseado no romance polifônico e labiríntico de James Ellroy, o filme reconstrói a Los Angeles dos anos 1950 não como sonho hollywoodiano, mas como máquina de relações públicas, onde polícia, imprensa sensacionalista, prostituição de luxo e política se entrelaçam de forma indissociável.

É um noir que homenageia o passado — Bogart, Chandler, os anos dourados — ao mesmo tempo em que o desmonta, expondo o lado podre do glamour.

A narrativa acompanha três policiais muito diferentes:

  • Ed Exley (Guy Pearce), o idealista rígido, ambicioso e moralista;
  • Bud White (Russell Crowe), o brutamontes de coração ferido que odeia abusadores;
  • Jack Vincennes (Kevin Spacey), o policial celebridade, peça-chave no conluio entre polícia e mídia tabloide.

Quando um massacre em uma lanchonete revela uma teia de corrupção e violência, os caminhos desses homens se entrelaçam em uma investigação que vai demolir suas convicções, reputações e identidades.


Um neo-noir que resgata — e transcende — o noir clássico

L.A. Confidential devolve ao noir:

  • os ternos elegantes,
  • a cidade iluminada por néon,
  • os bares esfumaçados,
  • a femme fatale carismática,
  • o detetive moralmente dividido.

Mas, ao contrário do noir dos anos 40, aqui a corrupção não está apenas nos becos escuros — está:

  • nos gabinetes,
  • na imprensa,
  • nos estúdios,
  • na polícia que fabrica heróis,
  • na cidade que vende sonhos enquanto destrói vidas.

É o noir como crítica estrutural da mitologia americana.


Os três detetives: espelhos quebrados do ideal de justiça

Ed Exley

Ambicioso, rígido, educado, calculista.
Quer ser herói pelos “métodos corretos”.
Mas descobre que a lei, em Los Angeles, é uma engrenagem suja — e que sua ascensão depende de compromissos éticos sombrios.
Sua jornada é a mais política.


Bud White

Violento, intuitivo, marcado por traumas.
Ataca abusadores porque ele próprio carrega feridas profundas.
Quando se apaixona por Lynn, descobre uma humanidade que nunca teve permissão para sentir.
Sua jornada é a mais emocional.




Jack Vincennes

Carismático, irônico, vaidoso.

Vende prisões encenadas para tabloides.
Representa o policial que trocou integridade por fama.
Sua busca por redenção — tardia e fatal — é a mais trágica.



Esses três homens representam três faces do noir:
a ambição, a brutalidade, a vaidade — todas falhas, todas humanas.


Lynn Bracken: a femme fatale que não é fatal

Interpretada com beleza melancólica por Kim Basinger, Lynn é uma prostituta de luxo moldada para parecer Veronica Lake.
Mas ela não é manipuladora: é sensível, digna e lúcida.
É a mulher que, no final das contas, protege os detetives de seus piores impulsos — e que expõe a verdadeira natureza da exploração de Hollywood.

O noir clássico castigava suas mulheres fatais.
Este noir lhes devolve humanidade.


O sistema como vilão: polícia, imprensa, capital e ego

O antagonista do filme não é um criminoso isolado — é a instituição:

  • a polícia que fabrica bodes expiatórios,
  • a imprensa sensacionalista que destrói reputações,
  • a elite que usa violência como ferramenta de controle,
  • o racismo estrutural,
  • os esquemas de drogas e prostituição vinculados ao poder.

L.A. Confidential revela que a cidade só funciona porque é corrupta.
E seus heróis só sobrevivem porque aprendem a navegar essa lama — perdendo inevitavelmente partes de si.


A violência: limpa, seca, moralmente carregada

As explosões de violência no filme são rápidas e decisivas:

  • interrogatórios brutais,
  • execuções frias,
  • tiroteios “cirúrgicos” em cenários claustrofóbicos,
  • traições que surgem nos momentos mais inesperados.

A sequência na casa abandonada — o clímax — é um dos confrontos mais elegantes e tensos do neo-noir.


O final: justiça imperfeita para um mundo imperfeito

O filme conclui com uma espécie de “justiça” possível — imperfeita, política, negociada.
Não há triunfo moral; há apenas rearranjo da corrupção.

Ed sobe na carreira.
Bud foge para um recomeço.
Lynn encontra dignidade.
A cidade continua.

É o noir moderno em sua forma mais pura:
não existe final limpo quando o sistema é sujo.


Conclusão

L.A. Confidential é uma obra-prima do neo-noir, um filme que combina investigação complexa, personagens profundos e crítica mordaz à mitologia de Hollywood.
É simultaneamente homenagem e desconstrução — elegante e brutal, romântico e cínico, clássico e absolutamente moderno.

Um dos melhores filmes dos anos 1990 e um dos pilares do noir contemporâneo.



sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995) Se7en - 2 h 7 min

Mostra David Fincher - Vida e Obra

Mostra Film Noir

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - #20

Somerset é um detective a uma semana da reforma. Mills é um detective jovem e ansioso por tomar o seu lugar. No entanto, ambos vão acabar juntos a resolver o caso de um «serial killer» meticuloso que mata as suas vítimas de acordo com os sete pecados capitais.


Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995) - IMDb
Dir: David Fincher
Neo-noir, Assassino em Série, Detetive Obstinado, Drama Policial, Drama Psicológico, Investigação Policial, Suspense Psicológico, Mistério, Tragédia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,6   METASCORE: 6,5
84%Tomatometer156 Reviews   95%Popcornmeter


Seven (1995): O Mal como Arquitetura e o Noir como Desespero Existencial

Dirigido por David Fincher, Se7en é um dos filmes neo-noir mais sombrios, perturbadores e influentes dos anos 1990.
Ele reinventa o noir como horror psicológico urbano, substituindo becos úmidos por uma metrópole permanentemente chuvosa e decadente, e substituindo o detetive clássico por dois homens à beira da ruína moral.

A história acompanha William Somerset (Morgan Freeman), detetive veterano e melancólico, prestes a se aposentar, e David Mills (Brad Pitt), jovem policial impulsivo que acaba de chegar à cidade.
Juntos, investigam uma série de assassinatos inspirados nos sete pecados capitais, cometidos por um assassino metódico, filosófico e invisível — John Doe (Kevin Spacey).

Mas o verdadeiro interesse do filme não é “quem é o assassino”, e sim como ele usa o mal para expor as falhas de uma sociedade em decomposição.


Uma cidade sem nome — e sem salvação

Fincher cria uma metrópole gótica contemporânea:

  • sempre chuvosa,
  • escura mesmo de dia,
  • com prédios sujos,
  • apartamentos claustrofóbicos,
  • corredores intermináveis,
  • e uma atmosfera de decadência moral absoluta.



A cidade não é cenário — é personagem, representação física de um mundo que perdeu:

  • empatia,
  • esperança,
  • humanidade.

Esse espaço opressor molda tanto as vítimas quanto os detetives.


Somerset: o último homem lúcido em um mundo condenado

Morgan Freeman interpreta Somerset como um homem cansado, sábio, profundamente desencantado. Ele sabe que o mal não pode ser derrotado — apenas adiado. Lê poesia, usa metrônomo para suportar o caos, observa tudo com tristeza.

Somerset é herdeiro do noir clássico: um detetive que reconhece que a investigação não leva à restauração da ordem, mas à constatação de que a ordem nunca existiu.


Mills: fúria, impulsividade e a tragédia da esperança

Mills, interpretado por Brad Pitt com franqueza emocional, é o oposto de Somerset:

  • impulsivo,
  • idealista,
  • ansioso por justiça,
  • crente em verdades simples,
  • facilmente manipulado pelo próprio senso de indignação.

Se Somerset representa o cansaço moral, Mills representa a revolta ética — que, no mundo de Se7en, é vulnerável e facilmente explorada.


John Doe: o assassino como arquiteto moral

O assassino é um dos vilões mais inquietantes do cinema moderno, não por seus métodos, mas por sua filosofia:
  • metódico,
  • frio,
  • articulado,
  • estrategista,
  • capaz de transformar assassinato em “obra moral”.

John Doe não mata por prazer; mata para dar forma a um manifesto, para provar que a sociedade está tão morta por dentro quanto suas vítimas.
É uma figura que lembra a tradição noir dos criminosos intelectuais, mas elevada ao extremo — quase um monge da perversidade.


Crimes como capítulos — violência como tese filosófica

Cada assassinato é uma performance moral:

  • Gula → a bestialização do corpo;
  • Avareza → o grotesco do apego material;
  • Preguiça → a decomposição lenta;
  • Luxúria → a crueldade sexual;
  • Orgulho → a vaidade castigada;
  • Inveja e Ira → reservadas para o ato final.

A violência é sempre sugerida, raramente mostrada — mas o impacto psicológico é devastador.


A cena final: o golpe perfeito do noir moderno

Sem revelar nada além do essencial, a conclusão de Se7en é um dos momentos mais icônicos do cinema:

  • um deserto árido substitui a cidade chuvosa,
  • um caminhão para,
  • uma caixa é entregue,
  • e a tragédia moral se completa.

É o momento em que todos os temas convergem:

  • Mills é manipulado por John Doe,
  • Somerset assiste à destruição que tentou evitar,
  • o “plano perfeito” se cumpre,
  • o mal vence,
  • o espectador é forçado a confrontar a impossibilidade de justiça.

O noir moderno aceita a tragédia como destino — e Fincher a filma com precisão de cirurgião.


Conclusão

Se7en é um dos maiores neo-noirs já feitos:
um filme que une horror, filosofia moral, atmosfera sombria e estudo psicológico profundo.
É uma obra sobre crime, sim — mas sobretudo sobre a falência moral da sociedade, sobre detetives à deriva e sobre como o mal pode ser inteligente, estratégico e devastador.

É um thriller que nunca oferece catarse.
Apenas a noite.
Apenas a chuva.
Apenas a pergunta: “O que resta quando o mal vence?”

Um clássico absoluto — perturbador, elegante e inesquecível.