Assim Estava Escrito (1952) - IMDb
Jonathan Shields construiu carreiras e destruiu vidas com a mesma frieza. Anos depois, três pessoas que ele traiu são convocadas para decidir se trabalham com ele de novo.
Hollywood julgando a si mesma
The Bad and the Beautiful é um dos maiores filmes já feitos sobre Hollywood, e a ironia central é que foi a própria MGM quem produziu esse retrato implacável da indústria que a sustentava. O filme ajudou a consolidar a imagem popular nada lisonjeira do magnata de Hollywood sem escrúpulos, e fez isso de dentro do sistema de estúdios, não como crítica externa.
A estrutura é precisa: contado em flashback, o filme traça a ascensão e queda do produtor Jonathan Shields através dos olhos de quem trabalhou com ele, um roteirista, uma atriz e um diretor, cada um carregando uma traição específica que Shields cometeu contra eles no caminho até o topo. A semelhança com a estrutura de Rashomon, de Kurosawa, vencedor do Leão de Ouro no ano anterior, não passou despercebida pela crítica da época.
Kirk Douglas e o magnetismo da crueldade
Clark Gable recusou o papel antes de Kirk Douglas ler o roteiro, achá-lo maravilhoso e aceitar de imediato. O resultado é uma das performances mais magnéticas da carreira de Douglas: poucos atores conseguiram ir do zero ao auge da escala emocional com a velocidade que Douglas demonstra, especialmente na cena em que Lana Turner descobre a traição dele, com uma intensidade assustadoramente real.
Shields é um produtor magnético cuja ambição e visão arrastam todos para dentro do próprio campo gravitacional, e o filme permite que o espectador sinta a emoção dessa força ao mesmo tempo em que revela o estrago que ela deixa para trás. É um retrato que não pede desculpas pela sedução do personagem, e é exatamente essa recusa que torna Shields mais perturbador do que um vilão convencional.
Lana Turner e o papel que ela teve que reivindicar
Turner relataria depois, em autobiografia, que como estrela glamourosa da MGM dificilmente teria a chance de interpretar o papel dramático de Georgia Lorrison se John Houseman e Vincente Minnelli não tivessem pedido especificamente por ela. Ela reconheceu de imediato que entendia aquela personagem, uma estrela de cinema vista no início como um desastre encharcado de álcool e depois ressuscitada pela vontade de um produtor sem escrúpulos.
A interpretação rendeu o que muitos consideram a melhor performance da carreira de Turner, embora a recepção tenha sido dividida: alguns críticos a consideram o ponto fraco do elenco, especialmente numa cena de carro deliberadamente artificial que o público da época já apontava como implausível, levando Minnelli e o produtor Houseman a cortarem doze minutos do filme após reações negativas em exibições-teste.
Cinco Oscars e uma vitória inesperada
Apesar das complicações na edição, o filme arrecadou lucro modesto e foi amplamente premiado: cinco Oscars conquistados, de seis indicações. Gloria Grahame, com participação relativamente pequena, venceu Melhor Atriz Coadjuvante, e a direção de arte de Cedric Gibbons também levou estatueta, com cenários ricos em detalhes que comunicam volumes sobre cada personagem e cada lugar. Curiosamente, Kirk Douglas foi indicado a Melhor Ator mas perdeu para o discreto Gary Cooper, premiado por Matar ou Morrer.
Críticas contemporâneas, ainda divididas
A recepção atual reflete a mesma divisão da época. Parte da crítica o trata como um dos grandes clássicos sobre a indústria, ao lado de Crepúsculo dos Deuses e A Malvada, com elogios à confiança melodramática e ao retrato sem piscar dos egos feios que moldaram a história de Hollywood. Outra parte considera o filme excessivamente seco e formal, com um enredo que poderia caber em noventa minutos mas se estende por quase duas horas com ritmo arrastado.
A crítica original do New York Times, embora elogiosa em partes, lamentava que, apesar de toda a escavação no interior do produtor, o filme nunca explicasse de fato o que move esse homem vicioso.
Por que ainda importa
Assim Estava Escrito é Hollywood produzindo seu próprio espelho deformado, um estúdio celebrando a si mesmo ao mesmo tempo em que expõe a crueldade que sustenta a fábrica de sonhos. Setenta anos depois, continua sendo referência obrigatória para qualquer filme que queira olhar para dentro da indústria com honestidade, e prova que o melodrama, quando bem executado, pode ser tão afiado quanto qualquer crítica direta.