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FORA DO RADAR: filmes que ficaram menores do que são
A cidade que deu nome ao filme
Hibiscus Town começa em 1963 numa pequena cidade do interior de Hunan onde Hu Yuyin vende arroz de tofu numa barraca na rua principal e onde a vida tem a textura do cotidiano chinês pré-Revolução Cultural: trabalho, economia doméstica, relações de vizinhança, pequenas ambições e pequenas alegrias. Xie Jin filma esse mundo inicial com uma atenção ao detalhe que vai além da reconstituição de época: tudo na rua principal está carregado de uma normalidade que o filme vai usar como medida do que a Revolução Cultural vai destruir.A escolha de começar pela vida ordinária, pelo sucesso modesto de uma mulher que trabalha duro e prospera dentro das possibilidades do que o sistema oferece, é a decisão mais importante do roteiro. Xie Jin e o coroteirista Ah Cheng entendem que o horror da Revolução Cultural só pode ser medido em contraste com o que existia antes, e que esse contraste precisa ser estabelecido com suficiente detalhe para que o espectador sinta a perda em vez de apenas entendê-la intelectualmente.
Xie Jin e o melodrama como instrumento político
Xie Jin foi durante décadas o diretor mais popular do cinema chinês, um cineasta que operava dentro do sistema de estúdio estatal com uma habilidade rara de fazer filmes que o grande público amava e que continham críticas ao próprio sistema que os produzia. Hibiscus Town é o ponto mais alto dessa trajetória e o filme que quase custou sua carreira: quando foi lançado em 1987, setores conservadores do Partido Comunista pressionaram pela proibição, os ingressos já haviam sido vendidos, o público que havia comprado os ingressos ficou furioso com a ameaça de cancelamento, e Xie Jin teve que se apresentar publicamente para acalmar os ânimos antes que o filme pudesse ser exibido.O melodrama que Xie Jin usa como linguagem central do filme é argumento político. A Revolução Cultural destruiu vidas reais de pessoas reais e o melodrama é o gênero cinematográfico mais adequado para tornar essa destruição visível em escala humana, para transformar a abstração da catástrofe histórica na concretude do que aconteceu com pessoas específicas em lugares específicos. Xie Jin entendeu que o espectador que chora pela Hu Yuyin está entendendo a Revolução Cultural de uma forma que o documentário histórico não alcança.
Liu Xiaoqing e a mulher que o sistema tentou quebrar
Liu Xiaoqing interpreta Hu Yuyin ao longo de décadas, da jovem viúva próspera à mulher marcada como inimiga de classe, varrendo ruas sob vigilância pública, até a sobrevivente que emerge do outro lado da Revolução Cultural com algo ainda intacto que o sistema não conseguiu confiscar completamente. A performance ganhou o Golden Rooster e o Hundred Flowers de melhor atriz, os dois principais prêmios do cinema chinês, e ambos são justos por razões que o filme vai revelando em camadas.Liu Xiaoqing constrói Yuyin com uma fisicalidade que muda ao longo do filme de forma que vai além da caracterização de época: a postura da mulher que prospera é diferente da postura da mulher humilhada de forma visível, antes que qualquer diálogo verbalize. Há uma sequência em que Yuyin e Qin Shutian, o homem com quem vai se apaixonar, varrem juntos as ruas da cidade sob olhares hostis, e Xie Jin filma essa sequência com uma dignidade que transforma um ato de humilhação pública num ato de resistência silenciosa: duas pessoas que continuam sendo pessoas dentro de um sistema que decidiu que não são.
Jiang Wen e o início de uma filmografia
Jiang Wen tinha 24 anos quando filmou Hibiscus Town e entrega uma performance que já contém o que ele se tornaria: um dos atores e diretores mais importantes do cinema chinês contemporâneo. Qin Shutian, o escritor enviado para reeducação que encontra Yuyin na humilhação compartilhada, é construído com uma ironia suave que o filme usa como válvula de pressão, uma forma de manter o humor humano vivo dentro de um contexto que sistematicamente tenta extingui-lo.A relação entre Yuyin e Qin Shutian tem a qualidade específica do amor que nasce em condições extremas, que se forma entre pessoas que se veem com clareza precisamente porque o sistema ao redor retirou todas as camadas sociais que normalmente mediam o contato. Xie Jin filma essa relação com uma contenção que respeita a gravidade do contexto sem deixar que a gravidade do contexto impeça o amor de existir, e Jiang Wen e Liu Xiaoqing constroem a química entre os dois com uma autenticidade que torna a trajetória do casal emocionalmente real mesmo dentro de uma narrativa de escala épica.
A cidade como microcosmo
Xie Jin usa a cidade de Hibiscus como microcosmo da sociedade chinesa durante a Revolução Cultural com uma precisão que vai além do recurso narrativo conveniente. Cada personagem da cidade representa uma posição diferente dentro do sistema: o oportunista que abraça a Revolução porque o poder que ela oferece compensa qualquer custo moral, o fanático que acredita genuinamente no que está fazendo, o burocrata que obedece por medo, o resistente que paga o preço da resistência, o sobrevivente que aprende a se tornar invisível.Esse mapa humano da Revolução Cultural nunca é esquemático porque Xie Jin e Ah Cheng constroem cada personagem com contradições reais: o oportunista tem momentos de humanidade que o roteiro não cancela, o fanático tem uma lógica interna que o filme apresenta sem validar, o sobrevivente tem sua própria culpa pelo que aceitou durante anos de silêncio. A Revolução Cultural destruiu as pessoas que destruiu, mas também distorceu as pessoas que pareciam estar do lado certo, e Hibiscus Town é honesto sobre o custo humano dessa distorção em todos os lados.
Onde assistir e o que esperar
Hibiscus Town está disponível no YouTube em versão restaurada em 4K com legendas em inglês, e essa disponibilidade gratuita numa qualidade excepcional é uma das circunstâncias mais favoráveis possíveis para um filme dessa raridade. Está também disponível na Filmoteca Seu Manolo com legenda em português traduzida do inglês. O filme percorre aproximadamente duas décadas da história chinesa, da prosperidade pré-Revolução ao caos da Revolução Cultural até o período pós-Gang dos Quatro. O contexto histórico é suficientemente específico para que o espectador que chegar sem nenhum conhecimento da Revolução Cultural precise de uma pesquisa prévia de dez minutos que vai multiplicar o que o filme entrega. A escala épica e o ritmo do melodrama chinês dos anos 1980 pedem entrega a um tempo narrativo diferente do cinema contemporâneo, e essa entrega é recompensada com uma experiência que poucos filmes do período alcançam.Por que ficou fora do radar
Hibiscus Town ficou fora do radar ocidental por razões que têm menos a ver com qualidade do que com o lugar que o cinema chinês da geração de Xie Jin ocupa na hierarquia crítica internacional. Quando o filme foi lançado em 1987, o Ocidente estava descobrindo a Quinta Geração do cinema chinês, Chen Kaige e Zhang Yimou, e a sofisticação formal desses diretores mais jovens fez com que o melodrama de Xie Jin parecesse, para certos críticos, uma linguagem ultrapassada. Essa leitura foi injusta então e permanece injusta: o melodrama de Xie Jin tem uma inteligência política e uma humanidade que a formalidade da Quinta Geração frequentemente sacrificava pelo gesto estético.O que o radar ocidental perdeu é um dos retratos mais completos que o cinema produziu sobre o que o fanatismo ideológico faz com vidas humanas concretas, filmado por um diretor que estava dentro do sistema que estava criticando, com atores que viveram dentro da história que estavam encenando, numa língua e numa tradição narrativa que o circuito de arte ocidental nunca aprendeu completamente a ouvir. Quarenta anos depois, com a China de Xi Jinping tornando cada vez mais difícil fazer cinema honesto sobre a Revolução Cultural, Hibiscus Town adquiriu uma dimensão adicional: é um documento do que o cinema chinês foi capaz de dizer num momento específico de abertura relativa, antes que as janelas voltassem a se fechar.