Austen escreveu uma paródia do romance gótico. Jones filmou a paródia e o romance gótico ao mesmo tempo, e os dois funcionam.
A obra original e seu lugar na trajetória de Austen
Northanger Abbey foi escrita por volta de 1798-99, quando
Austen tinha vinte e dois anos e havia acabado de completar as primeiras
versões do que se tornaria Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito. É o
romance mais explicitamente literário de Austen, uma paródia dos romances
góticos que dominavam o mercado editorial inglês do final do século XVIII,
especialmente os de Ann Radcliffe, cujo Os Mistérios de Udolpho aparece citado
nominalmente no texto.
O romance foi vendido a um editor em 1803 mas nunca
publicado, comprado de volta pela família em 1816 e publicado postumamente em
1817. É o texto em que Austen está mais visivelmente brincando, mais disposta a
deixar a ironia aparecer na superfície em vez de escondê-la na estrutura, e
isso o torna simultaneamente o mais acessível e o menos profundo dos seis
romances completos. Jon Jones entendeu que filmar essa leveza era condição para
filmar o que existe por baixo dela.
Jones e o equilíbrio entre paródia e sentimento
A decisão mais inteligente de Jones é levar a sério as
fantasias góticas de Catherine em vez de apenas rir delas. Quando Catherine
imagina crimes e mistérios na Abadia de Northanger, o filme entra nesses
devaneios com uma linguagem visual que replica o gótico que ela está
parodiando: iluminação dramática, ângulos expressionistas, música que cita os
excessos do gênero. Essa entrada no imaginário de Catherine é respeito pela forma como a ficção habita a mente de quem a
lê intensamente, e Austen teria reconhecido o gesto.
Felicity Jones e a ingenuidade como argumento
Catherine acredita no que lê, projeta na realidade o que a
ficção ensinou a esperar, e quando a realidade não corresponde às expectativas
góticas, a decepção tem a qualidade específica da pessoa que descobriu que o
mundo é mais complicado e menos dramático do que imaginava. Jones entrega essa
progressão, da ingenuidade à maturidade, com uma sutileza que combina com o tom
do filme: a mudança de Catherine não é ruptura dramática mas acumulação gradual
de evidências que o julgamento vai processando em tempo diferente da emoção.
JJ Feild como Henry Tilney é o par romântico mais
intelectualmente sofisticado dos romances de Austen, o único que usa a ironia
com a mesma fluidez que a própria escritora, e Feild o interpreta com uma
leveza que evita o risco de tornar Henry condescendente: ele educa Catherine
mas com afeto genuíno, e o filme preserva essa distinção.
O gótico como espelho
Austen escreveu Northanger Abbey num momento em que o
romance como gênero ainda era tratado com desconfiança pelas classes educadas,
considerado entretenimento menor com efeitos potencialmente corruptores sobre
os leitores, especialmente as leitoras jovens. Ao escrever uma heroína cuja
imaginação foi formada pelo romance gótico e que precisa aprender a corrigir o
excesso dessa formação, Austen estava participando de um debate sobre leitura e
julgamento que o século XVIII levava completamente a sério. Jones captura essa
dimensão sem sobrecarregá-la: o filme é leve o suficiente para que o argumento
chegue pelo prazer em vez de pela lição.
Onde assistir e o que esperar
A Abadia de Northanger está disponível no Youtube e na Filmotecca Seu Manolo. O filme tem 90 minutos que funcionam
como entrada natural para quem está chegando ao universo de Austen pela
primeira vez: é o mais imediatamente divertido da mostra, o que usa o humor de
forma mais visível e o que tem a protagonista mais fácil de acompanhar.
Espectadores que conhecem bem Austen vão encontrar aqui uma adaptação honesta e
inteligente que não tenta ser mais do que o texto exige, e essa modéstia é uma
virtude. A produção televisiva não compromete a experiência: Jones usa o
formato com a consciência de quem entende que o que está filmando é uma
história de câmara que não precisa de escala épica para funcionar.
Northanger Abbey (2007) HD [Sub. Español-Portugués Bra.]
A Austen que ainda estava aprendendo a confiar no mundo