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quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Abadia de Northanger (2007) Northanger Abbey - Filme para televisão - 1 h 24 min

<= se7e - Jane Austen

A propensão de uma jovem por romances góticos sensacionais leva a mal-entendidos nas questões do coração.


Amadurecimento, Drama de Época, Romance


CLC Score: 7,3 (público)


Austen escreveu uma paródia do romance gótico. Jones filmou a paródia e o romance gótico ao mesmo tempo, e os dois funcionam.


A obra original e seu lugar na trajetória de Austen

Northanger Abbey foi escrita por volta de 1798-99, quando Austen tinha vinte e dois anos e havia acabado de completar as primeiras versões do que se tornaria Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito. É o romance mais explicitamente literário de Austen, uma paródia dos romances góticos que dominavam o mercado editorial inglês do final do século XVIII, especialmente os de Ann Radcliffe, cujo Os Mistérios de Udolpho aparece citado nominalmente no texto.

Catherine Morland, a protagonista, é leitora ávida de ficção gótica e tem a imaginação formada por essas leituras. Quando visita a Abadia de Northanger, uma propriedade antiga com arquitetura medieval, sua mente transborda de fantasias sobre crimes ocultos, documentos secretos e vilões aristocráticos. Austen usa essa imaginação exaltada para dois fins simultâneos: satirizar o gênero gótico e examinar o que acontece quando uma jovem de boa índole mas julgamento imaturo aplica a lógica da ficção à realidade.

O romance foi vendido a um editor em 1803 mas nunca publicado, comprado de volta pela família em 1816 e publicado postumamente em 1817. É o texto em que Austen está mais visivelmente brincando, mais disposta a deixar a ironia aparecer na superfície em vez de escondê-la na estrutura, e isso o torna simultaneamente o mais acessível e o menos profundo dos seis romances completos. Jon Jones entendeu que filmar essa leveza era condição para filmar o que existe por baixo dela.


Jones e o equilíbrio entre paródia e sentimento

Jon Jones dirigiu Northanger Abbey para a ITV como filme de televisão de 90 minutos, e essa restrição de formato e orçamento produziu escolhas que o filme transformou em vantagens. Sem o peso de uma produção de época de grande escala, Jones pode se concentrar no que o texto exige: a alternância rítmica entre o humor da paródia gótica e o desenvolvimento emocional genuíno de Catherine.

A decisão mais inteligente de Jones é levar a sério as fantasias góticas de Catherine em vez de apenas rir delas. Quando Catherine imagina crimes e mistérios na Abadia de Northanger, o filme entra nesses devaneios com uma linguagem visual que replica o gótico que ela está parodiando: iluminação dramática, ângulos expressionistas, música que cita os excessos do gênero. Essa entrada no imaginário de Catherine é respeito pela forma como a ficção habita a mente de quem a lê intensamente, e Austen teria reconhecido o gesto.


Felicity Jones e a ingenuidade como argumento

Felicity Jones tinha vinte e três anos quando filmou Northanger Abbey e constrói Catherine Morland com uma qualidade específica que o texto exige e que é difícil de executar sem escorregar para a caricatura: a ingenuidade genuína de alguém que ainda não aprendeu a desconfiar do mundo porque o mundo ao redor dela, até então, não havia exigido desconfiança.

Catherine acredita no que lê, projeta na realidade o que a ficção ensinou a esperar, e quando a realidade não corresponde às expectativas góticas, a decepção tem a qualidade específica da pessoa que descobriu que o mundo é mais complicado e menos dramático do que imaginava. Jones entrega essa progressão, da ingenuidade à maturidade, com uma sutileza que combina com o tom do filme: a mudança de Catherine não é ruptura dramática mas acumulação gradual de evidências que o julgamento vai processando em tempo diferente da emoção.

JJ Feild como Henry Tilney é o par romântico mais intelectualmente sofisticado dos romances de Austen, o único que usa a ironia com a mesma fluidez que a própria escritora, e Feild o interpreta com uma leveza que evita o risco de tornar Henry condescendente: ele educa Catherine mas com afeto genuíno, e o filme preserva essa distinção.


O gótico como espelho

Northanger Abbey é o único romance de Austen que usa explicitamente outro gênero literário como instrumento de análise, e Jones explora essa dimensão metaficcional com mais consciência do que a maioria das adaptações de Austen tentou. As sequências góticas no interior da Abadia não são apenas humor: são o momento em que o filme examina o que a ficção faz com quem a consome, como as narrativas que habitamos moldam a forma como lemos a realidade, e como o julgamento maduro consiste em parte em aprender a separar as categorias.

Austen escreveu Northanger Abbey num momento em que o romance como gênero ainda era tratado com desconfiança pelas classes educadas, considerado entretenimento menor com efeitos potencialmente corruptores sobre os leitores, especialmente as leitoras jovens. Ao escrever uma heroína cuja imaginação foi formada pelo romance gótico e que precisa aprender a corrigir o excesso dessa formação, Austen estava participando de um debate sobre leitura e julgamento que o século XVIII levava completamente a sério. Jones captura essa dimensão sem sobrecarregá-la: o filme é leve o suficiente para que o argumento chegue pelo prazer em vez de pela lição.


Onde assistir e o que esperar

A Abadia de Northanger está disponível no Youtube e na Filmotecca Seu Manolo. O filme tem 90 minutos que funcionam como entrada natural para quem está chegando ao universo de Austen pela primeira vez: é o mais imediatamente divertido da mostra, o que usa o humor de forma mais visível e o que tem a protagonista mais fácil de acompanhar. Espectadores que conhecem bem Austen vão encontrar aqui uma adaptação honesta e inteligente que não tenta ser mais do que o texto exige, e essa modéstia é uma virtude. A produção televisiva não compromete a experiência: Jones usa o formato com a consciência de quem entende que o que está filmando é uma história de câmara que não precisa de escala épica para funcionar.

Northanger Abbey (2007) HD [Sub. Español-Portugués Bra.]


A Austen que ainda estava aprendendo a confiar no mundo

A Abadia de Northanger é um texto em que Austen ainda está trabalhando com materiais alheios, usando o gótico como andaime para construir algo que ainda não tinha nome. A ironia já está lá, o julgamento moral já está lá, o interesse pelo que acontece quando a ficção encontra a realidade já está lá. O que viria nos romances seguintes seria a mesma inteligência aplicada a materiais inteiramente seus, sem a paródia como mediação, com a confiança de quem descobriu que não precisava de outro gênero para dizer o que queria dizer.




sábado, 9 de maio de 2026

Loucamente Apaixonados (2011) Like Crazy - 1 h 26 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

Uma estudante universitária britânica se apaixona por um estudante americano, só para ter que se separar dele quando for expulsa dos Estados Unidos por prolongar sua estadia.



Romance Sensual, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 6,8
Letterboxd: 6,6   Flick Metrix: 62
70%Tomatometer152 Reviews

O amor que sobrevive à distância costuma não sobreviver ao reencontro.


O visto como sentença

Like Crazy começa onde a maioria dos filmes românticos termina: dois jovens que se encontraram, se reconheceram e decidiram que o que têm vale qualquer custo. Anna é britânica, Jacob é americano, os dois estudam em Los Angeles, e o problema que vai destruir tudo que construíram não é falta de amor nem incompatibilidade de caráter. É um visto de estudante vencido e uma decisão de ficar mais algumas semanas para aproveitar o verão. Drake Doremus filma a consequência dessa decisão com uma crueldade específica: a da realidade que não se dobra para acomodar o que as pessoas sentem. A deportação de Anna e a proibição de reentrada nos Estados Unidos instalam a distância que o filme vai usar como instrumento de erosão. Like Crazy é um filme sobre o que o amor se torna quando os obstáculos são permanentes o suficiente para que as pessoas precisem construir vidas paralelas enquanto esperam que eles sejam resolvidos.


Doremus e a gramática do improviso

Drake Doremus dirigiu Like Crazy a partir de um roteiro de outline, sem diálogo fixo, deixando que Felicity Jones e Anton Yelchin construíssem as cenas em tempo real. Essa escolha formal é método para chegar a uma textura de verdade que o diálogo escrito raramente produz. As hesitações, as frases que começam e não terminam, os momentos em que duas pessoas estão no mesmo espaço e não sabem o que dizer, têm a qualidade específica de algo que está acontecendo em vez de algo que foi ensaiado. John Guleserian fotografa o filme numa paleta que privilegia a luz natural e os ambientes íntimos, e o resultado é uma proximidade física com os personagens que amplifica o efeito do distanciamento emocional quando ele chega. O filme foi rodado em Super 16mm, e essa granularidade da imagem contribui para a sensação de que estamos vendo algo que não deveria ser visto, que a câmera chegou cedo demais ou ficou tarde demais numa cena que pertencia só a eles.


Anna e Jacob como versões de si mesmos

Felicity Jones e Anton Yelchin entregam performances que funcionam pela acumulação de pequenos detalhes ao longo do tempo. Like Crazy percorre vários anos na vida dos dois, e Doremus registra como os corpos mudam, como os jeitos mudam, como as formas de estar juntos mudam sem que nenhum dos dois tenha feito algo que possa ser identificado como o erro que causou tudo. Há o desgaste silencioso de duas pessoas que constroem vidas separadas porque não têm alternativa e descobrem que as vidas separadas vão tomando forma própria. Jacob começa a se aproximar de Samantha, interpretada por Jennifer Lawrence numa das primeiras aparições que estabeleceram o que ela seria, e essa aproximação é a resposta natural de alguém que está sozinho e que encontrou outra pessoa que também está. Like Crazy tem a honestidade de não punir Jacob por isso, da mesma forma que não pune Anna pelo que ela faz do lado de lá do Atlântico. O filme entende que a fidelidade exige condições que a situação deles não oferece.


A distância como personagem

O que Like Crazy filma com mais precisão é o efeito específico da distância longa sobre a intimidade. Não é que Anna e Jacob parem de amar um ao outro. É que o amor passa a existir em modo de suspensão, ativado nos reencontros e desligado nos intervalos, e essa intermitência vai criando uma relação com o próprio sentimento que é diferente da relação que se tem com algo contínuo. Eles aprendem a guardar o amor, a acessá-lo nos momentos certos, a fechá-lo quando a vida cotidiana exige presença em outras direções.O problema é que amor guardado e amor vivido são coisas diferentes, e a diferença vai aparecendo nos reencontros. Cada vez que Anna e Jacob se encontram depois de um longo intervalo, há um período de reajuste, de lembrar quem a outra pessoa é agora em vez de quem era na última vez. Doremus filma esses períodos de reajuste com atenção, e é nesses momentos que o filme é mais honesto: os dois querem que funcione, se esforçam para que funcione, e mesmo assim alguma coisa não encaixa completamente, e nenhum dos dois sabe nomear o que é.


O final como argumento

Like Crazy termina num lugar que desconcertou parte do público e é o mais preciso que o filme poderia ter escolhido. Anna e Jacob finalmente conseguem estar juntos de forma permanente, o obstáculo burocrático é resolvido, e o que acontece então é o contrário do que os filmes românticos prometem: o problema não era a distância. A distância era o sintoma. O que estava se corroendo era outra coisa, e a presença permanente não conserta, apenas torna visível o que estava escondido atrás da saudade.Doremus termina o filme num close de Felicity Jones que diz mais do que qualquer diálogo conseguiria. Anna conseguiu o que queria e o que ela sente não é felicidade nem alívio. É a pergunta que o filme inteiro estava construindo: quando o amor sobrevive a tudo que tentou acabar com ele, o que sobra ainda é o mesmo amor? A resposta que o close sugere é que talvez a pergunta seja o problema. Talvez o amor não precise ser o mesmo para continuar sendo amor. Ou talvez precise, e esse seja o problema.


Onde assistir e o que esperar

Like Crazy está disponível para locação em plataformas de streaming com disponibilidade variável. O filme tem 1h26 que passam com a velocidade irregular da memória afetiva: alguns momentos parecem durar mais do que o relógio indica, outros desaparecem antes que você perceba que eram importantes. A trilha de Dustin O'Halloran, piano solo e cordas esparsas, é uma das mais funcionalmente discretas do cinema romântico americano da década, presente quando necessária e ausente quando o silêncio serve melhor. Anton Yelchin, que morreu em 2016, está aqui numa das performances que mostram com mais clareza o que o cinema perdeu.


O amor que não consegue pousar

Like Crazy não mostra personagens que fogem da vulnerabilidade, mas personagens que a enfrentam completamente e descobrem que enfrentar não é suficiente para garantir que o que se tem vai durar. Anna e Jacob não têm medo de se expor um ao outro. O problema deles é outro, é estrutural, é feito de fronteiras e vistos e vidas que cresceram em direções diferentes enquanto o amor ficava em espera.




terça-feira, 7 de outubro de 2025

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016) A Monster Calls - 1 h 48 min

 Um menino procura a ajuda de três monstros para sobreviver a doença da sua mãe solteira.


Dir: J.A. Bayona


MEGA1
MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 7,6
86%Tomatometer265 Reviews   81%Popcornmeter



Certified fresh score. Consenso dos críticos

A Monster Calls habilmente equilibra temas sombrios e elementos fantásticos para oferecer uma entrada cativante e incomumente comovente no gênero de amadurecimento.

Leia as avaliações dos críticos

Fantasia Sombria, Drama Psicológico














quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O Brutalista (2024) The Brutalist - 3 h 36 min

Mostra:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 1

Quando o visionário arquiteto László Toth e sua esposa Erzsébet fogem da Europa do pós-guerra em 1947 para reconstruir seu legado e testemunhar o nascimento da América moderna, suas vidas são mudadas por um misterioso e rico cliente.


Dir: Brady Corbet
Drama Psicológico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 9,0
Letterboxd: 7,8   Letterboxd: 84
93%Tomatometer333 Reviews

A América não destruiu László Tóth. Apenas terminou o trabalho que a Europa havia começado.

A chegada como argumento

The Brutalist começa com László Tóth saindo do navio em Nova York, a câmera de baixo para cima, a Estátua da Liberdade aparecendo invertida no enquadramento antes de se corrigir. Brady Corbet instala em segundos o argumento que o filme vai sustentar por três horas e trinta minutos: a promessa americana não é o que parece, e quem chega com a câmera errada, com a perspectiva errada, com a história errada, vai precisar de muito mais do que talento para que a correção aconteça, se é que acontece.

László é arquiteto húngaro judeu, sobrevivente do Holocausto, que chega aos Estados Unidos em 1947 sem dinheiro, sem inglês fluente e com uma visão arquitetônica que o mundo ainda não sabe que precisa. O filme percorre décadas de sua vida na América, da imigração à encomenda de sua vida, e usa essa trajetória para examinar o que o sonho americano faz com as pessoas que acredita estar salvando.


Corbet e a ambição como método

Brady Corbet tem 36 anos e fez o filme mais ambicioso do cinema americano da década. The Brutalist foi filmado em VistaVision, formato de película de alta resolução usado em Hollywood nos anos 1950 e ressuscitado aqui como argumento formal: o filme que examina a América do pós-guerra usa a linguagem visual da América do pós-guerra, e essa consciência histórica da forma é argumento sobre como o cinema constrói o passado.

A duração de três horas e meia, com intervalo, é a decisão de dar ao material o espaço que o material exige. The Brutalist é um filme sobre uma vida inteira, sobre décadas de trabalho e fracasso e compromisso e traição, e comprimir isso numa duração convencional seria produzir um resumo em vez de uma experiência. Corbet e a coroteirista Mona Fastvold construíram uma estrutura em duas partes que tem a qualidade de um romance do século XIX transposto para o cinema do século XXI, com a densidade e a paciência que esse tipo de narrativa exige.


Adrien Brody e o corpo como arquivo

Adrien Brody ganhou o Oscar de melhor ator pela performance e a distinção é a mais justa da temporada por razões que vão além do reconhecimento de um trabalho difícil. László Tóth é além de um personagem: é uma acumulação de décadas, de traumas sobrepostos, de uma integridade artística que vai sendo testada por cada compromisso que a sobrevivência exige e que resiste de formas que o próprio László não consegue sempre controlar.

Brody constrói o personagem a partir do corpo: a postura que carrega o peso da Europa, os gestos de um homem que aprendeu a ocupar menos espaço do que tem direito, a forma como a voz muda quando László está dentro de seu trabalho em vez de dentro das negociações que o trabalho exige. Há cenas em que Brody comunica décadas de erosão apenas na forma como László segura um copo ou atravessa um cômodo, e essa fisicalidade acumulada é o que torna a performance insubstituível: não é possível fazer o que Brody faz com texto ou com inteligência técnica isolada. É preciso habitar o personagem de uma forma que o tempo dentro do personagem replique o tempo dentro do filme.


Harrison Lee Van Buren e o mecenas como predador

Guy Pearce interpreta Harrison Lee Van Buren, o homem rico da Pensilvânia que descobre László num trabalho menor e decide que quer um monumento, com uma precisão que recusa a caricatura do vilão capitalista. Harrison não é mau no sentido de consciente de sua malícia: é alguém que foi formado por um sistema que lhe deu poder suficiente para nunca ter precisado examinar o que faz com esse poder, e que genuinamente acredita que o que está oferecendo a László é generosidade.

A relação entre os dois é o motor do filme e seu território mais rico. Harrison precisa de László para construir algo que dure além de si mesmo, algo que transforme o dinheiro em legado. László precisa de Harrison para realizar a única coisa que sobrou como razão de existir depois de tudo que perdeu. Os dois se usam com uma consciência que o filme não iguala moralmente: o poder que Harrison tem sobre László não é o mesmo poder que László tem sobre Harrison, e Corbet filma essa assimetria com um rigor que não deixa o espectador esquecer o desequilíbrio mesmo nas cenas em que a relação parece funcionar.


Erzsébet e o custo do talento alheio

Felicity Jones interpreta Erzsébet, a esposa de László que chega à América depois de anos separada dele pela guerra e pela burocracia, com uma presença que o filme reserva estrategicamente. Erzsébet aparece tarde e sua chegada muda o equilíbrio de tudo que havia sido estabelecido, porque ela é lúcida de uma forma que László, dentro de seu trabalho e de seus vícios, não consegue mais ser.

Jones constrói Erzsébet como alguém que sobreviveu ao suficiente para não ter mais paciência com as ilusões que os homens ao redor precisam manter, e essa lucidez é usada pelo filme como instrumento de julgamento que é apenas honesto sobre o custo que o talento de um homem costuma cobrar das mulheres que vivem ao lado dele. A cena em que Erzsébet confronta Harrison é o momento em que The Brutalist mostra mais claramente o que estava construindo por horas: que a América que diz oferecer espaço para o talento cobra esse espaço de forma que os talentosos raramente contabilizam completamente.


A arquitetura como autobiografia

O Instituto que László projeta para Harrison, o monumento que é a encomenda central do filme, é o exterior de uma vida interior, a forma que László encontrou para transformar sobrevivência em sentido. Corbet usa a arquitetura brutalista, com sua massa de concreto, sua recusa de ornamento, sua insistência em mostrar a estrutura sem disfarce, como espelho da estética moral do personagem: László faz o que faz porque não sabe fazer de outro jeito, porque a beleza que ele persegue é a beleza da honestidade material, e essa honestidade em arte coexiste com uma capacidade de se iludir na vida que o filme examina sem absolver.

A sequência em que o Instituto começa a tomar forma é uma das mais belas do filme precisamente porque Corbet filma a arquitetura com a mesma atenção com que filmou os rostos: como superfície que revela o que está por baixo, como argumento sobre quem a fez e por quê e a que custo.


Onde assistir e o que esperar

The Brutalist está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme deve ser assistido na maior tela disponível: o VistaVision foi escolhido para produzir imagens com uma qualidade que telas pequenas não preservam completamente, e a escala visual é parte do argumento sobre monumentalidade e ambição que o filme está fazendo. O intervalo que divide as duas partes não é apenas logístico: é dramático, uma pausa entre dois momentos de uma vida que têm tonalidades diferentes, e respeitá-lo na versão doméstica, fazendo uma pausa real em vez de continuar imediatamente, muda a experiência da segunda parte. A trilha de Daniel Blumberg usa dissonância e silêncio com uma precisão que combina com a arquitetura brutalista que o filme está examinando. Luca Guadagnino estava em negociações para dirigir antes de Corbet assumir o projeto, e imaginar o que seria diferente é um exercício útil para entender o que Corbet escolheu ser.


A América que consome o que salva

The Brutalist é o filme mais importante do cinema americano de 2024 não porque é o maior ou o mais ambicioso, embora seja as duas coisas, mas porque faz uma pergunta que o cinema americano raramente tem coragem de fazer sobre si mesmo: o que a América faz com os talentos que importa, com as vidas que diz estar salvando, com os monumentos que encomenda de pessoas que não teriam chegado até ali sem a destruição que a América às vezes ajudou a produzir?

László Tóth é judeu húngaro sobrevivente do Holocausto que constrói um monumento para um homem rico americano que o trata com generosidade real e violência real ao mesmo tempo, e Corbet filma essa equação sem resolver, sem absolver, sem condenar de forma que libere o espectador do desconforto. The Brutalist termina num lugar que é ao mesmo tempo derrota e permanência: o Instituto existe, László existe de forma que o filme revelou terem custado mais do que qualquer encomenda poderia pagar, e a América segue igual, oferecendo espaço para o talento com uma mão e cobrando o preço com a outra, sem nunca anunciar a taxa de câmbio.