Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Richard, um pai solteiro, conhece Christine, uma artista sem dinheiro que trabalha como taxista nas horas vagas. Eles tentam iniciar um romance, mas a experiência é estranha e desajeitada, já que Richard ainda está emocionalmente abalado com o divórcio. Enquanto isso, os seus filhos – um adolescente e o outro de seis anos – embarcam em suas próprias descobertas desastradas com o sexo oposto.
Miranda July e a estreia que ninguém sabia esperar
Miranda July chegou a Cannes em 2005 como artista multimídia praticamente desconhecida fora do circuito de arte contemporânea americana e saiu com a Câmera d'Or e o Prêmio da Crítica. Eu, Você e Todos Nós foi seu primeiro longa-metragem e é um dos debutantes mais singulares do cinema americano dos anos 2000: um filme sobre solidão e conexão que usa a estranheza como linguagem e a ternura como argumento. July não está interessada no realismo convencional nem no cinema de autor europeu que o circuito de festivais costumava premiar: está interessada em filmar o desejo humano de conexão na sua forma mais desajeitada, mais improvável e mais verdadeira.A estrutura coral e o que ela diz
O filme acompanha múltiplos personagens em Sacramento, Califórnia, cada um tentando à sua maneira fazer uma conexão que o mundo ao redor parece não facilitar. Richard, um vendedor de sapatos recém-separado que ateia fogo na própria mão para impressionar os filhos. Christine, uma artista de vídeo que se apaixona por Richard com uma intensidade desproporcional ao que conhece dele. Os dois filhos de Richard, um de seis e outro de quatorze anos, navegando suas próprias versões do desejo com uma franqueza que o filme trata com seriedade sem jamais sexualizar. Uma funcionária de museu que coleciona objetos para o enxoval de um casamento que ainda não aconteceu. July tece essas histórias com uma paciência que revela gradualmente que todos os personagens estão no mesmo estado: tentando chegar até alguém sem saber como.A estranheza como intimidade
July usa situações deliberadamente estranhas para criar uma intimidade que o realismo convencional raramente alcança. A cena em que Richard e Christine caminham lado a lado e imaginam juntos em voz alta o que seria uma vida compartilhada é simultaneamente absurda e devastadoramente real: é o que as pessoas fazem internamente quando se apaixonam, e July tem a coragem de filmá-lo externamente. Essa disposição de mostrar o que normalmente é guardado, o desejo não filtrado, a esperança não racionalizada, a solidão não performática, é o que torna o filme único no território que ocupa.
John Hawkes e a humanidade do desajeitado
John Hawkes interpreta Richard com uma qualidade de presença que transforma um personagem que poderia ser patético num personagem que o espectador acompanha com uma ternura genuína. Richard não tem as palavras certas, não tem os gestos certos, não sabe como ser pai divorciado ou como se aproximar de Christine. O que tem é uma disposição de tentar que o filme trata como a forma mais honesta de coragem disponível. Hawkes, que construiu uma carreira inteira em papéis de homens à margem, encontra em Richard o personagem que define o registro específico que só ele consegue habitar.
A internet como novo território do desejo
Eu, Você e Todos Nós foi lançado em 2005, quando a internet estava se tornando o espaço principal de conexão social e afetiva, e July usa esse contexto com uma precisão que o tempo só confirmou. O filho mais velho de Richard tem conversas de chat com uma mulher adulta que não sabe que está falando com um adolescente, e July filma esse equívoco não como perversão mas como mal-entendido genuíno sobre o que cada um está buscando. A internet como espaço onde a identidade é construída e onde o desejo encontra formas que o mundo físico não oferece é um dos temas centrais do filme, filmado com uma intuição sobre o futuro dos relacionamentos que em 2005 parecia peculiar e em 2025 parece profética.Onde assistir
Eu, Você e Todos Nós está disponível em plataformas especializadas em cinema de arte com disponibilidade variável e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem um ritmo que July usa para alternar entre leveza e peso com uma precisão que raramente vacila. É um filme que recompensa espectadores dispostos a habitar a estranheza sem exigir que ela se resolva em normalidade. A trilha de Michael Andrews tem uma qualidade de delicadeza que combina com o tom do filme e que permanece depois que as imagens passam.
A conexão como ato de coragem
Eu, Você e Todos Nós é o filme desta mostra que mapeia com mais precisão o território do desejo de conexão num mundo que não facilita a conexão. Todos os personagens de July estão tentando chegar até alguém, de formas que são às vezes erradas, às vezes inapropriadas, sempre humanas. O que o filme está dizendo, com toda a ternura de que é capaz, é que tentar chegar até alguém num mundo que se acelerou a ponto de tornar a proximidade difícil é um ato de coragem que merece ser filmado com seriedade. July filmou. E o resultado é um dos filmes mais gentis e mais precisos sobre solidão e desejo que o cinema americano produziu nos últimos vinte anos.